ENCONTRO DE CLINICA POLITICA- abril de 2018

 

PALAVRAS PRELIMINARES

Delia Catullo Goldfarb – Ger-Ações

 

Em nome da Equipe da Ger-Ações queremos agradecer a presença de todos vocês que responderam a nosso apelo para trabalhar juntos na manhã de hoje neste tema polêmico e instigante que envolve a todos nós: trabalhadores e cidadãos idosos.

A Ger-Ações é uma organização da sociedade civil de interesse público que visa especialmente à pesquisa e ações em Gerontologia. Na área clínico-política é pioneira no trabalho com Acompanhamento Terapêutico com Idosos, tema sobre o qual já tem lançado um livro e está preparando o segundo, e sobre este mesmo tema organiza encontros anuais.

Desde 2011 temos também um curso de Fundamentos de Psicogerontologia, e participamos da Rede de Proteção e Defesa da Pessoa Idosa- RPDI.; do Fórum Paulista de Defesa e Conscientização dos Direitos dos Idosos; e formamos parte da Rede Interdisciplinaria de Psicogerontologia, entidade latinoamericana que existe desde 2005 e realiza congressos bienais.

Com esta reunião damos continuidade a outra realizada no ano passado por ocasião de nosso 10º aniversário que também teve a participação de colegas do Uruguai e se chamou: As dimensões do cuidar em uma Clínica Política: psicogerontologia no Brasil e no Uruguai.

Esperamos então que esta reunião seja só a segunda de uma longa lista de encontros e debates porque pretendemos que seja uma construção coletiva, sempre com novos atores e sempre inacabada, sempre abrindo novas portas, sempre com o alicerce das experiências transformadoras. Desde já, estão todos convidados a compartilhar e sugerir novas formas de encontros.

Ultimamente tem acontecidos magníficos encontros e colóquios que debatem estes assuntos: se fala do migrante, do refugiado, do morador de rua, da criança, das vítimas de barragens, das vítimas da violência do Estado, mas não se fala ou pouco se fala do idoso- de certa maneira continuamos invisíveis. Mas essa é nossa responsabilidade e não dos organizadores dos colóquios, nós temos o dever de colocar esse tema na pauta.

Quando se pensa em Saúde Mental é inevitável pensar nas diversas tendências e abordagens específicas que foram se sucedendo e coexistindo nos últimos séculos. Só para mencionar os mais recentes, podemos falar do Higienismo, Preventismo, Saúde Coletiva e Saúde Comunitária. E vamos observar que sempre, estas Políticas de Saúde Mental são manifestações de articulações técnico-políticas muito complexas que acontecem entre o Estado e o social e respondem sempre a interesses político-econômicos determinados, frequentemente ignorados por quem as produz ou delas participa.

Partimos do pressuposto que é impossível separar o pensamento e as ideias hegemônicas de determinada época histórica, das condições sociais de sua produção e que nesta produção de conhecimentos e ideias, os grandes protagonistas são os sujeitos, os movimentos organizados e as forças sociais que se manifestam de maneiras diferentes.

São estas manifestações do sujeito ou das forças que integra que vão gerar conceitos que poderão ser organizadores de novas práticas cada vez mais (ou menos) adequadas a suas necessidades e demandas.

Teorias, discursos, enunciados, são resultados de práticas sociais históricas e os discursos sobre a Clínica e a Saúde Mental não fogem dessa premissa.

Nesta história sobre a questão da Saúde há momentos chaves como a Declaração de Alma Atta de 1978 que supera o velho conceito de saúde como ausência de doença ou perfeito estado de harmonia etc. e que a coloca como um Direito Humano Fundamental que necessita da participação de outras áreas do conhecimento e de atuação que contribuam para o entendimento de sua dinâmica em cada época história, em cada região geográfica, em cada crise econômica e social.

É nessa perspectiva dos Direitos Humanos que desejamos trabalhar.

Não vou me estender mais para que a palavra circule entre nós.

Temos um convidado especial:

O Professor Robert Perez, Psicólogo, Doutor em Saúde Comunitária, professor da UDELAR, Universidade da República do Uruguai, onde coordena uma equipe de pesquisas sobre envelhecimento e pensa estas questões do ponto de vista da Saúde Comunitária e desde a perspectiva dos Direitos Humanos.

E também convidados locais que representam diferentes instâncias de participação e trabalho na cidade de São Paulo:

Defensoria Pública do Estado,

Rosana Oliveira, coordenadora do Programa de Acompanhantes de Idoso- PAI- da Prefeitura de São Mateus,

Luciana Rebello, do Programa de Acompanhantes de Idosos (PAI),

Olga Quiroga do Garmic,

Sandra Gomes, Coordenadora do setor do idoso na Secretaria de Direitos Humanos da Prefeitura de São Paulo,

Bruno Ramos Gomes, do Centro de Convivência É de lei, que trabalha com redução de danos no centro de São Paulo,

Ruth Gelerther da Costa Lopes, professora do programa de Gerontologia da PUC-SP,

Beltrina Corte, também do Programa de Gerontologia da PUC-SP,

Hermínia Brandão do Jornal da 3a Idade,

Isabel Alonso do Centro de Referência do Idoso da Zona Norte -CRI-Norte,

Isabel Machado, da Defensoria Pública da União,

Alice Toda Lucas Vidal da Rede de Proteção e Defesa da Pessoa Idosa- RPDI.

Os trabalhos serão coordenados pela colega Maíra Peixeiro, Psicanalista com ampla experiência no campo da Saúde Mental e no Acompanhamento Terapêutico com idosos que fará uma pequena introdução ao tema e explicará a dinâmica do encontro para que nosso pouco tempo seja produtivo.

 

Antes de passar a palavra a Maíra queremos lembrar que hoje se completa 1 mês do assassinato de Marielle Franco que nos deixou estarrecidos, mas não paralisados. Uma espécie de luto coletivo aconteceu espontaneamente nesta cidade com milhares de pessoas na rua, muitas delas que nem tinham ouvido falar de Marielle antes de sua execução, mas coletivamente sentimos que essa morte representava muitas outras que acontecem há muito tempo.

E nem tínhamos conseguimos completar nosso processo de luto, ainda chorávamos Marielle, quando aconteceu a chacina de Maricá e tantas e tantas outras, especialmente de jovens e negros, de líderes rurais, que continuam caindo todos os dias.

Estamos ante um processo de extermínio, um verdadeiro genocídio, e, pessoalmente acho que devemos resistir ao retrocesso e talvez, uma maneira de resistir seja pensar o sofrimento humano a partir de novas realidades e novos territórios e com novas técnicas de abordagem.

Então, vamos trabalhar.

Obrigada

 

 

Introdução a ideia de uma clínica-política no campo do envelhecimento

Maíra Peixeiro

 

 

Na Ger-acões temos sido desde sempre convocados a pensar e agir no campo das políticas públicas, na perspectiva de participar na construção de novas possibilidades sociais que venham na esteira das mudanças que ocorreram a partir de importantes movimentos sociais protagonizados por idosos desde meados dos anos 70 e 80 no Brasil. Articulada a este movimento, no campo da clínica, temos nos debruçado sobre a ideia de uma clínica implicada, posicionada, que não vê os consultórios como único campo de atuação e que pensa o acompanhamento terapêutico no envelhecimento – clínica do território, das formações de rede, das articulações com a comunidade – como prática produtora de aberturas no área do envelhecimento.

 

A ideia da clínica-política veio por um lado, dar nome ao percurso que temos traçado e por outro lado, intensificar estas convocatórias. Para tanto, sentimos necessidade de atribuir uma consistência maior ao conceito, o que temos feito através de leituras, estudos e reflexões conjuntas.

 

Em nosso grupo temos como princípio sustentar a diversidade de perspectivas na construção do campo psicogerontológico. O tema da clínica–política trouxe à tona diferentes visões, que nos fizeram trabalhar no sentido de situar a origem do conceito visando repensá-lo à luz das áreas da psicologia, da psicanálise, da sociologia e da antropologia, e assim ampliar sua abrangência para não engessar sua utilizacão, fazendo jus às nossas diferenças e às nossas aspirações.

 

Neste percurso tropeçamos na indagação: mas toda a clínica não é política? Sim, já que toda clínica pressupõe uma certa concepção de saúde, e mais além, uma certa concepção de saúde mental. Temos é que nos debruçar sobre o politico na clínica, na tentativa de esclarecer esta concepção forjada a partir de determinada proposta de enlaçamento social presente a esta cultura. Cultura, por sua vez, produzida e produtora de um determinado campo ético, estético e de valores e a partir de onde podemos pensar a intenção de nossos atos, ou a que objetivos visamos ao clinicar.

 

Para nós, a ideia de uma clínica-política surgiu primeiramente a partir da leitura de autores psicanalistas que vêm pensando este tipo de atuação como uma escolha ética frente aos tempos sombrios que estamos vivendo. Tempos de intolerância às diferenças, de ódio e de violência.

 

Pensam-na como uma clínica de resistência aos discursos hegemônicos que produzem a marginalização dos sujeitos que se situam fora das condições normatizadoras do laço social e cujo sofrimento é silenciado, desconsiderado, apagado.

 

Que lugar teriam estas dores neste mundo?

Não podemos ficar incólumes aos acontecimentos sociais que superam o âmbito individual, que têm caráter coletivo, mas podem produzir verdadeiras catástrofes subjetivas. Esta postura transcende a posição do psicanalista, do psicólogo, do assistente social, do médico, do enfermeiro – entre outras – e marca uma postura ética. Escutar os que estão a margem da escuta social é marcar uma posição política.

 

O método clínico-político, tal como vem sendo pensado por alguns autores, se realiza no território e pressupõe uma intervenção que não prevê necessariamente uma continuidade. Oferece-se uma escuta, alguma interlocução que permite que a pessoa se localize, que a angústia seja atenuada, que suas experiências de dor sejam testemunhadas, que seu sofrimento passe a existir a partir do olhar de um outro que se importa. Podemos acompanhar estas experiências tais como a com ribeirinhos desalojados para a construção da barragem de Belo Monte; experiências com migração forçada, com refugiados; vivências em situações extremas em movimentos sociais como o MST, entre outras sem que necessariamente aconteça a identificação de uma situação traumática pontual, como a dos consultórios de rua da prefeitura de SP ou a clínica aberta de psicanálise na Casa do Povo também em SP.

 

No campo da saúde pública, campo privilegiado para a clínica-política, por um lado vimos reveladas parcelas da população que não acessam ou não são atendidas pelos serviços e cujas dores mantêm-se inexistentes e por outro lado assistimos a profissionais que fazem uma resistência quase heróica ao movimento de desmonte do SUS, às desestatizações, ao sucateamento dos serviços.

 

O que fazer diante desta realidade? E os velhos neste cenário?

 

Podemos observar que grande parte dos idosos permanece sem voz. Não correspondem aos ideais sociais hegemônicos de velhice ativa, de velho jovem, do envelhecer bem sucedido; apontam justamente para o inverso deste ideal, velho doente, deprimido, com demência, entre outros.. No campo instituído pelos discursos ideológicos, apoiados sobretudo em um paradigma biomédico – que reduz as pessoas a sua modalidade orgânica e biológica – e no paradigma na produtividade, o velho ideal é o velho ativo ou o velho mudo – que não se queixa.

É o velho que não deve perturbar, não deve incomodar, que deve ficar no seu canto para não atrapalhar os jovens que estão produzindo.

 

Silenciam; sofrem as dores da solidão, do isolamento, da desarticulação comunitária, do desamparo do Estado, da falta lugar e se mantêm invisíveis.

 

Quem escuta o velho no território? Quem faz algum tipo de mediação que atribua valor ao dito? Quem favorece que a fala chegue a algum lugar em que possa ser considerada fazendo com que algo se transforme? Escutar devolve a condição de cidadão, um lugar simbólico perdido no curso das histórias singulares, mas também no curso de uma história coletiva.

 

Perguntamo-nos sobre como colocar no campo das ações uma clínica-politica, uma clínica comunitária onde a escuta restitua a importância da palavra e reatribua existência social e subjetiva a quem fala. Sair do silenciamento mortífero e seguir rumo a uma palavra encadeada em uma narrativa que recupere uma história pessoal e coletiva.

 

Como devolver para a comunidade a condição de se articular como participante social? Como fazer dos grupos de idosos já instituídos espaços de articulação comunitária, de criação de novas possibilidades? Como passar da culpa por ser velho à responsabilização pela vida?

 

Quais são as clínicas-políticas psicogerontológicas existentes? Como elas trabalham?

 

Muitas perguntas, que deixamos aqui como parte das muitas indagações, que nós, trabalhadores e pensadores do campo do envelhecimento, temos e que esperamos ver reverberando hoje aqui.

 

Nossa ideia para este evento é favorecer a circulação da palavra, distribuindo o foco em todos os que estão presentes, tendo em vista a certeza que todos podem contribuir para este debate. A fala do Robert Pérez, companheiro da REDIP, será um disparador para nossa conversa e será seguida pela fala dos convidados e dos participantes deste evento.

 

Seguiremos até às 13:30 hrs sem intervalo. O café estará disponível para quem quiser se servir durante todo o evento.

 

Vamos lá!

 

 

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