O TRAUMÁTICO NA ENTRADA NA VELHICE- Maíra Humberto Peixeiro

Este trabalho foi apresentado no

VI CONGRESO IBEROAMERICANO DE PSICOGERONTOLOGIA

LA PAZ – BOLÍVIA- 2015

O TRAUMÁTICO NA ENTRADA NA VELHICE-

Maíra Humberto Peixeiro

 

GER-AÇÕES  – São Paulo – Brasil

Na clínica do envelhecimento nos deparamos cotidianamente com o impacto da constatação da entrada na velhice. Inaugura-se um momento de crise psíquica que pode levar a diversos desfechos, desde a travessia deste momento e a continuidade partir de um redimensionamento da vida, até quadros psicopatológicos severos como as demências. Neste trabalho toma-se o conceito de trauma, forjado no campo da psicanálise, para definir o impacto que sofre o sujeito neste momento. Situa-se a construção do conceito e as possíveis abordagens em meio à teoria psicanalítica para fundamentar a articulação da clínica com a teoria, abrindo campo para uma reflexão sobre o manejo do terapeuta frente à este quadro. Os efeitos desencadeados pelo evento traumático podem colocar o sujeito em um estado de suspensão, apagamento, alheamento, desorganização, barreiras protetoras diante do excesso de angústia surgido. Tal intensidade não é só efeito da entrada na velhice – e todas as percepções subsequentes – mas remete a eventos traumáticos do decorrer da vida daquele sujeito que se reapresentam diante desta reedição. Constata-se que a articulação trauma/entrada na velhice pode ser um importante instrumental para a intervenção clínica neste momento de crise, favorecendo desfechos elaborativos e evitando –quando possível – destinos psicopatológicos.

PALAVRAS-CHAVE: trauma; velhice; crise; psicopatologia

 

EL TRAUMATICO EN LA ENTRADA EN LA VEJEZ

En la clínica del envejecimiento nos enfrentamos diariamente con el impacto que resulta  la constatación de la entrada a la vejez. Se inaugura un momento de crisis psíquica que puede derivar a diversos destinos, que van desde la travesía de dicho momento y su continuidad a partir de un redimensionamiento de la vida, hasta cuadros psicopatológicos severos como las demencias. Este trabajo define el impacto que sufre el sujeto en dicho momento, en el marco del concepto de trauma según la teoría psicoanalítica. Se busca ubicar la construcción del concepto y sus posibles aproximaciones en el psicoanálisis para fundamentar una articulación entre clínica y teoría, abriendo paso para una reflexión sobre la conducción del psicoterapeuta ante este cuadro. Los efectos generados por el evento traumático pueden poner el sujeto en un estado de suspensión, apatía, enajenación, desorganización, barreras defensivas frente al exceso de angustia. Tal intensidad no solamente es resultante de la entrada en la vejez – y todas las percepciones subsiguientes – pero remite a eventos traumáticos fundados en el transcurrir de la vida de aquel individuo y que vuelven a brotar ante esta nueva reedición. Se constata que la articulación trauma/entrada en la vejez puede ser un importante instrumento para la intervención clínica en este momento de crisis, favoreciendo destinos de procesos elaborativos y evitando – siempre que posible – destinos psicopatológicos.

PALABRAS-CLAVE: trauma; vejez; crisis; psicopatologia.

O TRAUMÁTICO NA ENTRADA NA VELHICE

O mote para a escrita deste texto foi o entrecruzamento de observações clínicas como analista, acompanhante terapêutica de idosos e de suas famílias, assim como de observações clínicas realizadas através da supervisão de casos. Casos em que a demanda por atendimento se fazia em um momento de crise na vida do sujeito em questão. Esta crise se manifestava de diversas formas: através de um estado mais deprimido, um estado mais eufórico, dificuldades na relação com a família, dificuldades na relação com os cuidadores, entre outros.

Nas primeiras entrevistas com pacientes e familiares era possível identificar algum acontecimento que de alguma maneira poderia ter deflagrado este período de crise. Tratava-se frequentemente de alguma perda vivida.

Goldfarb (1998) formula a idéia de que a entrada na velhice é sempre anunciada por um acontecimento exterior ao sujeito. Pode se tratar de uma queda, de uma doença, a morte de alguém próximo, uma ruptura, a aposentadoria, entre outros. Tal acontecimento denuncia a velhice no sujeito e o relógio passa a correr imediatamente. Esta percepção produz um grande impacto e em um primeiro momento é como se o sujeito tivesse sido atacado por algo que o golpeia desde fora. É como se o sujeito se tornasse expectador de algo que lhe acomete, sem se dar conta de sua participação no acontecimento.

Trata-se de situação muito comum na clínica. Recentemente recebi uma filha que tinha perdido a mãe há alguns meses e estava preocupada com seu pai. Ele com pouco mais de 80 anos, nos últimos anos tinha cuidado da esposa que apresentava um quadro de doença crônica por toda a vida que vinha se agravando. Sua vida estava organizada em torno desta esposa e diante de sua morte um estado de muita angústia de instalou. A angústia era relativa a questões da perda em si, mas sobretudo relativas a perda de um lugar pra si. Queria vender sua casa, estava morando com os filhos, mas não se sentia bem lá. Passaram a aparecer situações de crises de angústia com sintomas físicos preocupantes que o levavam ao hospital. Eram encenações de uma possível cena de morte. Pra além da morte da esposa era a sua própria morte que de fato o angustiava. Era isto que a morte da esposa anunciou: sua finitude, a proximidade da morte.

Estamos no campo da entrada na velhice com sua percepção mais perturbadora. O que se coloca em cheque nestas situações? Coloca-se em cheque a ilusão de onipotência que nós, em maior ou menor grau, cultuamos em segredo. Onipotência que se confunde com a imortalidade e que torna suportável o alto grau de desamparo a que estamos submetidos. Freud (1929), em “Mal Estar na Civilização” fala dos perigos a que estamos submetidos: as forças da natureza, a fragilidade do corpo e a insuficiência de reguladores para as relações humanas. Perigos que nos fazem buscar garantias, por exemplo através das religiões. Estas garantias são imaginárias e acabam caindo por terra diante de situações como a que descrevi, por exemplo, a morte de um ente muito querido. A fragilidade do corpo se faz ver, sem nenhum véu e a idéia de que tudo podemos se desconstrói.

Na clínica podemos reconhecer este momento como sinalizador da entrada na velhice. O horizonte de futuro se estreita, talvez não haja mais tempo para se realizar o que se deseja, o corpo dá sinais de desgaste, apontando uma série de limitações. Concomitamente uma série de perdas estão em curso: a perda de um lugar social, por exemplo, de trabalhador, a perda de atributos estéticos, favorecendo a perda do lugar de objeto do desejo, entre outras.

Neste trabalho pretendo pensar o impacto causado pela constatação destas perdas, sinalizando a entrada na velhice, como um impacto da ordem do traumático.

Na obra freudiana o conceito de trauma aparece em seus primórdios. Em seus primeiros textos, Freud formula sua teoria da sedução. Uma sedução teria acontecido por parte de um adulto e a criança, sem ter como atribuir a esta um caráter sexual, em razão de sua imaturidade, a teria se mantido em suspensão. Tal acontecimento só se tornaria traumático em um momento posterior, quando, passando à puberdade, poderia ser significado como acontecimento sexual. Somente aí é que desencadearia um processo defensivo, como o recalque, tendo em vista o excesso pulsional sem condições de metabolização pelo psiquismo.

Em um segundo momento da teoria, na famosa carta 69 que envia a Fliess, Freud desconstrói a idéia de que uma situação de sedução teria acontecido na realidade e passa a postular a realidade psíquica. Percebe na clínica que muitas vezes estas situações eram da ordem da fantasia e que mesmo assim, sem terem se concretizado, teriam força traumática. Faz uma outra reformulação ainda quando conceitualiza a sexualidade infantil, abrindo para pensar que a criança não teria somente uma posição passiva diante do adulto, mas também ativa, insuportável percepção que revela o desejo incestuoso fazendo operar o recalque.

A ideia de que são necessários dois momentos para a deflagração do trauma , ou seja, que algo só se torna traumático a posteriori, parece bastante interessante para pensar a entrada na velhice. Também aí existem dois momentos, pois muitas vezes é como se a percepção da passagem do tempo e da fragilização do corpo estivessem em curso, mas em uma certa suspensão, sem entrar na rede associativa, rede de representações do paciente. São como percepções que não levam a uma conclusão, a conclusão de que se envelheceu. É só quando chega um acontecimento que, por algum motivo, tem a força de significar algo que já estava em curso, é que a conclusão tem lugar.

Algumas teorias concorrem em meio a produção psicanalítica, marcando principalmente duas posições que falam de diferenças entre a teoria de Freud e de Sandor Ferenczi, contemporâneos, este último seguidor de Freud cuja obra tem ganhado mais repercussão na última década. Ferenczi (apud Knobloch, 1998) de alguma forma retoma a primeira formulação freudiana, voltando a dar importância para a realidade da cena de sedução. Isto pois sua experiência clínica foi marcado por pacientes advindos da realidade da guerra, pessoas em crise. Para estas pessoas o acontecimento, ou a fantasia do acontecimento não estavam no passado, mas sim no presente. Diante de situações limite, onde a violência vivida era tamanha e atual, apontou para uma saída defensiva para além do recalque, forjando a idéia do irrepresentável.

O irrepresentável seria aquilo que não encontra ancoragem na linguagem e por isto não pode ser representado. Fica fora do circuito simbólico, em suspensão e sem perspectiva de ligação. Está do lado do que que Freud pensou como compulsão a repetição, ação da pulsão de morte em que algo se apresenta como ato, como manifestação somática, não constituindo um sintoma que carrega uma significação.

Não se trataria aí de uma significação que só pode ser dada a posteriori, depois de um acontecimento que atribua sentido ao que já estava lá, mas não podia ser concluído. Trata-se de uma impossibilidade de unir um ao outro, de algo que ficou apartado e não pode ganhar lugar no psiquismo.

Quando pensamos que a entrada na velhice aponta para o horizonte da morte, falamos de uma passagem que engendraria o sujeito em um trabalho subjetivo de confronto com os limites, de constatação das perdas. Abre-se um momento de crise psíquica, de desorganização que traz um perigo e também uma oportunidade.

Na etmologia da palavra crise, encontra-se no latim “crisis” o que define um momento de decisão, de mudança súbita, no grego “krisis”, hora de separar, decidir, julgar e na história da medicina um momento que define a evolução de uma doença para a cura ou para a morte. Trata-se de um momento de desorganização que impõe necessariamente uma nova situação para o sujeito, tornando impossível o retorno ao que se era antes.

A crise pode abrir para a estagnação ou para o redimensionamento da vida. A estagnação ocorre quando o impacto gera perturbação, desequilíbrio de tamanha intensidade que impossibilita reorganização. Podemos observar em alguns pacientes certa paralisia, desânimo, desinvestimento de projetos que estavam em andamento, configurando um quadro comumente avaliado como depressivo. Muitas vezes também se deflagra um quadro maníaco ou paranóico, ambos remetidos a mesma desorganização. Quando o redimensionamento da vida é possível, então abre-se a possilidade de rever e readaptar projetos diante da nova condição, uma condição que inclui a fragilização, os limites.

Podemos pensar que esta passagem se dará conforme aspectos intrasubjetivos e plurisubjetivos. Os plurisubjetivos dizem respeito a rede social de que o sujeito dispõe, os valores da cultura onde está inserido e as perspectivas possíveis, ou seja se existe ou não a possibilidade de construir projetos que o articulem ao futuro, mesmo que a curto prazo.

Os aspectos intrasubjetivos remetem a constituição psíquica daquele sujeito, sobretudo como aquele sujeito lida com separações, perdas, o que aponta para maior ou menor rigidez/flexibilidade e também para as condições de simbolização de que dispõe. A rigidez psíquica seria justamente a dificuldade de retirar o investimento de determinados objetos para poder investir em outros, além da restrição de objetos investidos. Quando observamos que todo o sentido da vida de um sujeito estava depositado, por exemplo, em sua relação matrimonial, ou em seu emprego, a perda destes objetos quase que se sobrepõe, sob o ponto de vista psíquico, a perda da própria vida. Além disto o recurso a simbolização, ou seja, a condição de encontrar representantes na linguagem para suas perdas, mesmo que nunca sejam absolutamente suficientes, é fundamental para que se realize alguma elaboração da situação atravessada.

Desta forma, afirma-se aqui que a entrada na velhice faz um apelo ao arcabouço de recursos psíquicos de toda uma vida, recursos que são constituídos sobretudo em nossa primeira infância, remetendo a maneira como forjamos nossa maneira de se relacionar com os objetos. Segundo Jack Messy (1999), envelhecemos como vivemos, e podemos acrescentar, envelhecemos como perdemos.

A vivência da crise, segundo Knobloch (1998) introduz o sujeito na dimensão própria da tragédia humana:

“é obrigado a dar-se conta de uma forma aguda, de sua finitude e instabilidade, do efêmero da vida, da fugacidade do tempo e da mutabilidade das coisas. “

A desorganização imposta pela crise, efeito do impacto traumático, nos tira do tempo, tal como ele nos é dado. Não existe passado e futuro, mas somente presente. Freud diz que nestes momentos o ego está tomado pela realidade penosa e como no trabalho de luto, retira o investimento de tudo o mais que não se remeta a perda, revivendo-a.

Neste momento de passagem a questão da perda ocorrida e as que a partir dela se supõe, tal como a perspectiva da perda da própria vida e de todas as que estão em jogo no processo de envelhecimento ficam superinvestidas. Em um movimento no sentido inverso, é também neste momento de entrada na velhice que as perdas ocorridas em outros momentos da vida podem ser retomadas. É como se o sujeito não pudesse desviar o olhar disto, ficando inteiramente tomado. Siderado por esta visão não há possibilidade de subjetivar o acontecimento, é como se algo lhe acometesse sem que pudesse representar, colocar em palavras.

É muitas vezes nesta situação que os pacientes chegam a nós. Como atende-los? Parece-me importante ter em perspectiva que são pacientes em crise e que seu acompanhamento deve supor uma sustentação desta crise através de uma presença com continuidade, suportando o mal estar a angústia até que o irrepresentável ganhe algumas palavras. Um manejo que diz respeito a clínica no envelhecimento, mas também a clínica do traumático e a clínica da crise. As intervenções neste momento são fundamentais para produzir uma abertura para a passagem, evitando a estagnação.

Relatarei a seguir uma experiência clínica, experiência difícil e também muito gratificante com a qual fecharei esta apresentação.

Depois de dois anos do suicídio da esposa comecei a atender este senhor com quem trabalho há cerca de 3 anos. Atendo-o como acompanhante terapêutica. Tinha sofrido uma cirurgia em razão de uma artrose para colocação de prótese do fêmur e estava em recuperação. Após a cirurgia entrou em estado confusional e passou a frequentar uma neurologista. Tinha uma artrose atípica, sem dor e teria se mantido assim se não fosse pela cirurgia. O terror vivido depois da morte da esposa tinha ficado em suspensão. Na cirurgia, o medo da própria morte, de ficar sem andar, de seu estado de dependência vindouro abriram campo para o início de uma crise que durou dois anos. Podemos pensar em dois momentos, a morte da esposa, cujo impacto não se deu no memento do acontecimento, apareceu quando o paciente viveu em seu corpo uma situação muita vulnerabilidade. Cirurgia que sinalizou a entrada na velhice, ou, a quebra de certa ilusão de onipotência.

Este paciente passou a ter falhas de memória, não se localizar mais no tempo e no espaço, ter dificuldades para dirigir e para realizar outras atividades. O trabalho de luto não estava em curso, o que havia era uma tentativa de evitar a todo custo estar presente diante de realidade tão penosa. Primeiro um diagnóstico de depressão e mais adiante a hipótese do início de uma demência. O trabalho com este paciente se deu na crise, um trabalho de presença constante que produziu aos poucos uma confiança que se traduz em uma frase que ele lembra até hoje: você pode me dizer tudo que precisar dizer, eu posso aguentar. Pouco se falava sobre a perda da esposa, mas muito se falava de seu estado físico, das decepções na sua evolução pós-cirurgica e ele expressava, através das brincadeiras seu temor em ficar longe dos filhos, sem cuidado, seu receio de ficar sem suas terapeutas.

Depois de dois anos ele me disse que tinha acordado, de um sono profundo e confuso, e que queria retomar a sua vida. Empreitada que realizamos atualmente, claro que ainda com muitas dificuldades. Hoje ele fala da falta que sua esposa faz e da tristeza que sente. Fala também que está velho, constata os anos que passaram e conta quantos os que faleceram em sua turma da faculdade. É um sobrevivente. Diz que quer sair, se divertir e encontrar uma namorada. Diz que quer viver!!!

BIBLIOGRAFIA

FREUD, S. (1929) O mal-estar na civilização. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol. 21. Rio de Janeiro: Imago, 1966.

 

FREUD, S. (1897) Carta 69. In A correspondência completa de Sigmund Freud para Wilhelm Fliess 1887-1904. Jeffrey Moussaief Masson; tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Imago, 1986

 

GOLDFARB, D.C. (1998) Corpo, tempo e envelhecimento. São Paulo: Casa do Psicólogo

 

KNOBLOCH, F. (1998) O tempo do traumático. São Paulo: Educ.

 

FERENCZI, S. (1991) Obras completas. Tradução de Alvaro Cabral. São Paulo: Martins Fontes

 

 

 

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