TRABALHO VOLUNTÁRIO: UMA QUESTÃO CONTEMPORÂNEA E UM ESPAÇO PARA O APOSENTADO- Maria Cristina Dal Rio

 

 

 

TRABALHO VOLUNTÁRIO:

UMA QUESTÃO CONTEMPORÂNEA

E UM ESPAÇO PARA O APOSENTADO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PROGRAMA DE ESTUDOS PÓS-GRADUADOS EM GERONTOLOGIA

 

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO

 

SÃO PAULO/2001

 

 

 

 

 

 

MARIA CRISTINA DAL RIO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

BANCA EXAMINADORA

 

 

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AGRADECIMENTOS

 

 

 

A todos os professores, especialmente à Drª Suzana Aparecida da Rocha Medeiros, minha orientadora, que me ajudaram a desvelar novas perspectivas de viver e envelhecer e a desvendar os caminhos desta pesquisa.

 

A todos os parentes, amigos e colegas que me apoiaram, de cuja convivência eu muito aprendi e de cujo incentivo recebi força e energia.

 

A todos os envelhescentes e velhos com quem tenho partilhado amizade e trabalho e com os quais espero estar aprendendo a envelhecer. E, sobretudo, àquelas pessoas que me concederam seus depoimentos. Com elas eu divido este trabalho.

DEDICATÓRIA

 

 

Aos velhos da minha família, que amaram

e me ensinaram a amar a vida

e a quem tanto admirei.

 


RESUMO

 

Esta dissertação procura, dentre aposentados, conhecer aqueles que realizam trabalho voluntário como uma forma alternativa de inserção social. A pesquisa foi realizada com o objetivo precípuo de conhecer as razões centrais pelas quais eles se mantêm social e voluntariamente ativos, desenvolvendo um trabalho solidário e, em contrapartida, apreendendo o resultado dessa ação para o desenvolvimento pessoal e da cidadania. Os pesquisados freqüentam instituições com as quais a autora desenvolve atividade profissional ou voluntária na área de Gerontologia.

Os resultados mostram que o trabalho voluntário, já vivido pela maioria do grupo pesquisado, constitui-se em uma das fontes de reconhecimento e valorização que os depoentes erigiram para sustentar suas vidas, nas quais o trabalho remunerado teve papel fundamental e gratificante. O tempo do pós-trabalho apenas acentuou o altruísmo e a dimensão do trabalho para o outro, sedimentado em valores de solidariedade e religiosidade, traduzidos em uma atitude pró-ativa frente às questões sociais. Reciprocamente, não deixou de existir a dimensão do trabalho para si, pois o voluntariado colabora para dar sentido à existência.

Ser aposentado voluntariamente ativo não é um fato que emerge no momento da aposentadoria, mas está relacionado à construção de uma vida solidária, alicerçada em diferentes interesses, e não só no trabalho profissional como parece preconizar o mundo contemporâneo.

Pode-se considerar o trabalho voluntário realizado por aposentados como uma das maneiras saudáveis de viver o momento da aposentadoria, possibilitando o estar no mundo – espaços público e privado – e constituindo, pois, um espaço possível de atuação e significado que contribui para o reconhecimento de um lugar social e político para o segmento da população que envelhece.

 

ABSTRACT

 

Among the retired people, this piece of work intends to show those who work voluntarily as an alternative to social inclusion. The research goal was to find out the reasons why the volunteers remain socially active in this voluntary work while getting from this action a self-gratification. The interviewed people work in the same institutions where the researcher works in the Geriatrics area. Before the volunteers retired their jobs seemed to represent an important role in their lives.

The research results show that the volunteer work done by those people is a way of being socially recognized and respected. Before get involved in this work, they had already had the willing of helping others (based on their religious background and solidarity). Their current activities just emphasized this character of their personality. Even spending their times at this work, they also obtain a personal reward: as the voluntary work help giving meaning to life.

Becoming a volunteer was not a choice done after retiring. It was the result of an entire life devoted to solidarity, based on different interests, and not only on their jobs.

Our conclusion is that the voluntary work done by retired people is a healthy way to live the retirement life. This kind of work opens different options to be active and helpful, granting elderly people political and social recognition.

 

 

SUMÁRIO

 

INTRODUÇÃO ……………………………………………………………………………………….. 09

Capítulo 1

QUANDO A PRÁTICA CONDUZ A REFLEXÕES MAIS SIGNIFICATIVA 19

1.1 – As experiências profissionais do tempo do trabalho ……………………..        ………   21

1.2 – As experiências do tempo do pós-trabalho …………………………………………..          25

1.3 – A experiência como diretriz da reflexão e da pesquisa …………………………..           30

 

Capítulo 2

UM TRINÔMIO TEÓRICO: ENVELHECIMENTO, APOSENTADORIA

E TRABALHO VOLUNTÁRIO………………………………………………………………  32

2.1 – Considerações preliminares ……………………………………………………………….          33

2.2 – O envelhecimento …………………………………………………………………………….        34

2.3 – A aposentadoria ……………………………………………………………………………….         44

2.3.1 – A Previdência Social no Brasil ………………………………………………           59

2.4 – O trabalho voluntário ………………………………………………………………………..        69

2.4.1 – O Terceiro Setor …………………………………………………………………..          77

2.4.2 – Trabalho voluntário e aposentadoria ………………………………………          80

 

Capítulo 3

UMA CONCRETUDE DO TRABALHO VOLUNTÁRIO ………………………….    83

3.1 – Perfil do grupo …………………………………………………………………………………         84

3.2 – Ouvindo e entendendo “falas” ……………………………………………………………          87

3.2.1 – O trabalho …………………………………………………………………………..         87

3.2.2 – Aposentadoria ……………………………………………………………………..         89

3.2.3 – Trabalho voluntário ……………………………………………………………..          96

3.2.4 – O tempo presente e as perspectivas de futuro …………………………..           104

3.2.5 – O envelhecimento …………………………………………………………………         109

3.2.6 – A consciência sobre as políticas públicas ………………………………..           111

3.2.7 – A realização e a projeção dos “sonhos” …………………………………           114

3.3 – Extraindo e construindo idéias …………………………………………………………..          117

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS …………………………………………………………………      121

 

BIBLIOGRAFIA ……………………………………………………………………………………………          128

 

ANEXOS

 

 

 

INTRODUÇÃO

 

 

… Saíra na véspera o decreto da aposentadoria. Trinta e seis anos de Repartição. Interrompera da noite para o dia o hábito de esperar o bondinho, comprar o jornal da manhã, bebericar o café na Avenida e instalar-se à mesa do Ministério, sisudo e calado até às dezessete horas.(…) Que fazer agora? (…) Com os trinta e seis anos perdidos na Repartição, teria perdido também o dom de viver? (…) Estava encerrada a etapa maior e principal de sua vida. (…) Os decênios de trabalho monótono de “austeridade exemplar” (…) forjaram-lhe uma máscara fria. Atrás dela se escondeu e de si mesmo se perdera. Como fazer desaparecer-lhe os vestígios? Como se reencontrar? … (Machado, 1997: 35-37).

 

 

Meu interesse em trabalhar com aposentados foi despertado em meados da minha carreira profissional enquanto Assistente Social, quando fui colocada em contato com um segmento da população trabalhadora que estava em fase de pré-aposentadoria. Naquele momento, minha prática esteve voltada para o indivíduo frente à sua passagem para outra categoria social, ou seja, de trabalhador ativo para a condição de indivíduo desengajado do mercado de trabalho – aposentado -, mas, contraditoriamente, inserido em uma sociedade competitiva que valoriza a produção e o consumo.

Com o desenvolvimento do trabalho profissional, percebi que se aposentar, nessa sociedade, significa a perda de um importante e significativo papel, com a concomitante perda de um espaço social reconhecido e valorizado, o que pode levar a uma situação de desajustamento, isolamento e até mesmo de marginalização, prenunciando, ainda, a última etapa do curso da vida, aquela que vem sendo nomeada como velhice.

Além das limitações de caráter financeiro, a aposentadoria produz uma mudança, uma interrupção no modo de vida de quem a vive. Considerando a importância dada à produção, o valor e o reconhecimento do indivíduo podem ser medidos pelos papéis profissionais que ele representa e pela sua posição no sistema social. Vive-se uma cultura, segundo a qual, a identidade profissional é significativa e determina o lugar da pessoa na sociedade. Se a pessoa interioriza esta idéia dominante, o trabalho se torna um fim em si mesmo e a importância e o sentido de sua vida estarão diretamente ligados ao papel que representa enquanto trabalhador. Quando afastada de seu papel profissional pela aposentadoria, haverá uma mudança na relação que estabeleceu entre o trabalho e o tempo livre, que poderá ser usado como tempo de expansão individual ou de vazio (Santos, 1990).

Para quem centrou a vida no trabalho, a aposentadoria será sentida como uma morte social, sobretudo nesta sociedade que a concede, mas valoriza quem produz. Já aqueles que investiram em outros papéis, que entenderam o trabalho como uma das bases do sentido da vida e do engajamento social, terão outras fontes de investimento para apoiarem-se e manterem-se (Santos, 1994).

De maneira geral, nossa sociedade urbano-industrial impõe um isolamento social às pessoas que envelhecem e não participam diretamente do processo produtivo. As relações sociais que estas pessoas estabeleceram ao longo da vida se enfraquecem ou, então, se interrompem. O trabalhador aposentado perde o círculo de amizades feito a partir das relações do trabalho; as mulheres que se aposentam também vêem diminuídas suas obrigações domésticas e para com os filhos, à medida que estes conquistam sua independência.

No momento em que esses indivíduos poderiam dispor de suas vidas para usufruir os bens e serviços que a sociedade oferece, observa-se que, na maioria das vezes, tornam-se isolados, com redução do poder aquisitivo, baixa sociabilidade e com sentimento de desvalorização pessoal, além de serem vítimas de uma cultura que oferece poucas oportunidades aos mais velhos.

Decorre, pois, que a ruptura com o mundo produtivo, poderá trazer mudanças em outros domínios da vida. A forma de enfrentá-las, geralmente, está ligada à história de vida, às relações estabelecidas com a sociedade e a família, ao papel profissional, ao modo de enfrentar perdas e à capacidade de adaptação a novas situações. Alterado o ritmo habitual do cotidiano, a pessoa passa a viver para si e por si mesma, tendo que se enfrentar e reinventar novas formas de vida.

Algumas transformações, entretanto, têm ocorrido e muitos rompem com estereótipos que os relegam ao ostracismo ou lhes atribuem limitações que realmente não têm. Assim, tornam-se socialmente ativos. Lopes (1990) define-as como pessoas que, de alguma forma, estão envolvidas com atividades de enriquecimento pessoal, de convivência, de produtividade. Ainda segundo essa autora, aqueles que exercem atividades remuneradas, que participam de teatro amador, que realizam atividades de lazer, esportivas ou freqüentam grupos de convivência são pessoas socialmente ativas que encontram, com prazer, um sentido para a vida.

Dentre essas pessoas, os aposentados em geral e, mais especialmente, os aposentados que realizam atividades como voluntários, buscando, talvez, formas alternativas de inserção social, chamam a minha atenção, constituindo-se em sujeitos de meus estudos. Assim, as razões centrais que os levaram a se manterem voluntariamente ativos por intermédio do trabalho solidário se configura como objeto de minhas investigações.

Observo que muitos aposentados e pensionistas, participantes das atividades que venho coordenando, não sucumbem à imposição de afastamento que a sociedade, na maior parte das vezes, lhes impõe, talvez porque busquem formas alternativas de vivência, que lhes permitam manterem-se inseridos no mundo, retornando ao trabalho voluntário ou remunerado, participando de trabalhos sociais, educativos, de lazer, de atividades políticas, sindicais e em associações de classe, dentre outros. Estes pensam, provavelmente, como Beauvoir:

 

Para que a velhice não seja uma irrisória paródia de nossa existência anterior, só há uma solução – é continuar a perseguir fins que dêem um sentido à nossa vida: dedicação a indivíduos e coletividades, a causas, trabalho social ou político, intelectual, criador (1990:661).

 

Pessoas como essas me instigaram a conhecê-las mais profundamente, levando-me à indagação: Quem são elas?

Hipóteses

De imediato, algumas hipóteses foram sendo delineadas. Seriam aquelas pessoas que já eram socialmente ativas e participantes que só estão dando continuidade à sua forma solidária de ser e viver, à medida que envelhecem, prestando serviços à sua comunidade? Ou seriam pessoas introvertidas e menos participantes que estão com as relações familiares enfraquecidas pela viuvez, separação conjugal ou pela saída dos filhos de casa e estão procurando apoio na comunidade para sobreviver? Ou pessoas que perderam prestígio e poder pelo rompimento das relações de trabalho em função da aposentadoria e estão procurando um novo grupo para se inserirem e se sentirem valorizadas? O trabalho voluntário significaria uma atividade que dá sentido à existência do aposentado? Em que medida, o trabalho voluntário poderia significar, também, uma forma de reproduzir as relações de trabalho e de sociabilidade anteriormente vividas? Paralelamente, esta participação social estaria contribuindo para desenvolver a consciência crítica, a cidadania e a inserção delas na sociedade?

O volume de perguntas, a exigir uma resposta, talvez, tenha sido gestado a partir de minha própria subjetividade envolvida exatamente com as mesmas dúvidas pessoais. Mesmo que uma história pessoal e profissional me levassem a seguir os caminhos de um trabalho voluntário como aposentada, sempre me questiono até que ponto essas variáveis podem estar presentes nas raízes de meus comportamentos, de minhas aspirações, de meus sonhos e projetos.

O resultado é que esse leque de inquietações, por decorrência, demandou o reconhecimento de que a Gerontologia é uma ciência cujo olhar deve ser múltiplo e interdisciplinar, uma vez que envolve aspectos diversos e diferenciados em nível biológico, psicológico e social, sempre na perspectiva de que a qualidade de vida esteja presente no decorrer de toda uma existência, dure ela a quantidade de anos que durar. Paralelamente, a necessidade de avaliar os resultados empíricos direcionou-me na busca de autores que falam da complexidade do pensamento, como é o caso de Morin (1999:14):

… Um pensamento que capte as relações, inter-relações e implicações mútuas, os fenômenos multidimensionais, as realidades que são simultaneamente solidárias e conflitivas (…) que respeite a diversidade ao mesmo tempo que a unidade, um pensamento organizador que conceda a relação recíproca entre as partes.

 

A partir dessas indagações hipotéticas e embasada em autores cujas propostas me pareceram adequadas à pesquisa, um delineamento mais rigoroso orientou minhas inquietações para aqueles aposentados que, por meio da realização de trabalhos voluntários, reorganizaram suas vidas no pós-trabalho, utilizando suas experiências pessoais e profissionais, como um provável momento de continuidade, de crescimento, de recriação, canalizando suas potencialidades para uma ação concreta de solidariedade.

Novamente as questões que se tornam o eixo central desta dissertação: Quem são eles? Quais razões os levam a isto?

Caminhando na perspectiva dessas questões, pude ir definindo e construindo os objetivos deste trabalho.

 

Objetivos

  • Caracterizar, da melhor forma possível, os sujeitos da amostra, ou seja, pessoas que se aposentaram, que estão vivendo o processo de envelhecimento e, no entanto, se mantêm socialmente ativas, desenvolvendo trabalho voluntário.
  • Compreender o significado da aposentadoria e do trabalho voluntário para os pesquisados.
  • Analisar, a partir desses estudos, a importância do trabalho e do trabalho voluntário na vida de quem o exerce, da família e da sociedade.
  • Desvelar o que aposentados pensam sobre a velhice e sobre a política do governo para pessoas idosas.
  • Finalmente, contribuir, ainda que modestamente, para a elaboração de projetos e de programas junto às associações de aposentados.

 

Assim, nesta pesquisa, a velhice é abordada, com ênfase na questão da aposentadoria, temas que estão intimamente relacionados na sociedade ocidental, pois se associam ao conjunto de transformações do desenvolvimento capitalista e levaram à criação de uma diversidade de instituições que tenderam e tendem a substituir a família no cuidado às gerações mais velhas.

Com base no que foi exposto, este trabalho elege, pois, como universo de estudo, aqueles aposentados que, movidos por razões que procurei identificar, dedicam-se a trabalhos sociais de forma voluntária, isto é, sem nenhuma remuneração, mantendo-se ativos e participantes, expressando-se, em tese, como a negação do estereótipo que associa idades mais avançadas com incapacidades, marginalização e solidão.

Devo ressaltar, mais uma vez, que esse interesse adveio de expressiva e frutífera experiência profissional no desenvolvimento de programas sociais com pré-aposentados, aposentados e indivíduos de outras categorias que estão envelhecendo de forma participativa, remetendo-me, também, ao contato marcante e significativo que mantive com os velhos de minha família, sobretudo avós e tios-avós. Assim, é o passado que define minha abertura para o futuro: ele é o dado a partir do qual me projeto e que tenho que ultrapassar para existir (Beauvoir, 1990:459). Além do que, a esse trabalho, uniu-se o fato de ter-me tornado uma aposentada que optou por estudar mais profundamente a nova categoria à qual pertence – os aposentados – e que decidiu compreender o processo de envelhecimento. Estas opções, com certeza, são formas de continuar ativa e atuante.

 

Procedimentos metodológicos

Para atingir os objetivos propostos, elegi alguns procedimentos metodológicos. Assim, a pesquisa utilizou metodologia qualitativa como estratégia para caracterização e análise dos dados colhidos por meio dos depoimentos de aposentados voluntariamente ativos, ou seja, aqueles que prestam um serviço à comunidade, verificando as razões que os levam a tanto e o resultado desta ação para o desenvolvimento e o bem-estar pessoal e da realidade que os rodeia.

Os depoimentos são utilizados quando se busca o testemunho do entrevistado sobre sua vivência em determinadas situações – neste caso, mais especificamente, o trabalho voluntário e sua implicação na vida dos pesquisados -, ou sobre participação em instituições, além de se obter dados informativos e factuais (Lang, 1995).

De acordo com Queiroz (1998:275), em ciências sociais, depoimento significa o relato de algo que o informante efetivamente presenciou, experimentou ou de alguma forma conheceu, podendo assim, certificar. Ainda, segundo a autora, a coleta do depoimento é obtida pela entrevista dirigida pelo pesquisador, que a conduz de maneira flexível, abordando aspectos da vida do depoente que venham a se inserir no trabalho, ao mesmo tempo que:

 

… capta o que sucede na encruzilhada da vida individual com o social. O que existe de individual e único numa pessoa é excedido, em todos os aspectos, por uma infinidade de influências que nela se cruzam e às quais não se pode por nenhum meio escapar, de ações que sobre ela se exercem e que lhe são inteiramente exteriores. Tudo isso constitui o meio em que vive e pelo qual é moldada. O indivíduo cresce num meio sócio-cultural e está fundamentalmente marcado por ele. Na sua história da vida, vemos contidos de um lado o indivíduo, com sua herança biológica e de outro, a sociedade, com sua organização e seus valores específicos (Queiroz, 21998:21).

 

Por isso, depoimentos pessoais foram escolhidos como a técnica desta pesquisa. Foram gravados com o consentimento dos entrevistados e posteriormente transcritos. O diário de campo serviu para registrar as observações feitas durante a entrevista.

Para a coleta de dados, foi utilizado um formulário para identificação dos informantes e um roteiro (anexo), previamente testado para perceber as dificuldades e as necessidades de correção, que serviu de orientação para a pesquisadora. A entrevista abordou diferentes aspectos da vida dos aposentados, tais como: vida laboral, vivência do tempo da aposentadoria, realização de trabalho voluntário, vida atual, velhice e projetos de vida. Entretanto, os eixos centrais buscaram elementos para analisar as categorias norteadoras da pesquisa, já mencionadas: aposentadoria, trabalho voluntário e envelhecimento.

O grupo pesquisado foi composto por oito aposentados envolvidos com trabalho solidário que freqüentam instituições com as quais mantenho uma relação profissional remunerada ou voluntária no campo da Gerontologia, a saber:

 

  • aposentados (dois homens e uma mulher) filiados à Associação de Aposentados da Fundação CESP, que atenderam à carta convite (anexa) para participação na pesquisa, divulgada em jornal da entidade;
  • três (um homem e duas mulheres) membros de um grupo de reflexão sobre o envelhecimento que desenvolvi no SESC, Unidade Carmo, sendo os únicos, entre os participantes, que viviam este tipo de experiência;
  • duas, dentre doze alunas da Escola Aberta da Terceira Idade da Faculdade Campos Salles, que puderam ser localizadas no período de realização da pesquisa que coincidiu com o de férias escolares.

 

Todos os contatados aceitaram o convite para falar sobre suas experiências, fato que reforça o traço de solidariedade e cooperação que flui entre eles. Os encontros foram realizados de acordo com a conveniência e a escolha dos participantes. A metade optou por ser entrevistada em suas residências e o restante no local de trabalho profissional/voluntário ou de estudo. Os depoimentos foram feitos no período de janeiro e fevereiro de 2001 e duraram em média uma hora e dez minutos.

Os recursos metodológicos buscaram o que Gilbert Ryle (apud Geertz, 1978) chama de descrição densa, ou seja, um volume de dados que consiga captar as diferenças que tornam cada indivíduo um universo singular.

Os dados coletados foram analisados a partir do referencial teórico que conduziu esta dissertação, tendo utilizado vários autores para tentar, por meio da interdisciplinaridade e da diversidade de idéias, construir um novo pensamento sobre a temática. Levou-se em conta a importância de um movimento interpretativo na perspectiva que o coloca Geertz (1978), ou seja, na procura de compreender o significado que o trabalho voluntário tem para os sujeitos pesquisados, salientando-se que esta não pretende ser uma interpretação definitiva, mas apenas se coloca como uma possibilidade interpretativa, dentre as muitas que possam existir. Não se tratou, portanto, de estabelecer resultados quantitativos e/ou leis decorrentes, mas de verificar posturas individuais e suas respectivas relações dentro do contexto vivido e inserido em uma dada cultura.

 

Acreditando, como Max Weber, que o homem é um animal amarrado a teias de significados que ele mesmo teceu, assumo a cultura como sendo essas teias e sua análise; portanto, não como uma ciência experimental em busca de leis, mas como uma ciência interpretativa à procura do significado (Geertz, 1978:15).

 

Esse autor afirma, ainda, que o conceito de cultura parte do pressuposto que os homens são modificáveis pelos costumes de lugares particulares, denomina-os de artefatos culturais e, sob a perspectiva culturalista, acredita que devem ser definidos elos entre suas habilidades inatas e seu comportamento real, em constante mutação.

O processo de interpretação do material coletado e das experiências vivenciadas constituíram-se no corpo essencial deste estudo. Foram levantados dados que propiciaram conhecer os motivos que levaram as pessoas a se tornarem solidariamente ativas no período do pós-trabalho, bem como saber o que pensam a respeito da aposentadoria e do atual momento de vida, identificando, ainda, a forma como visualizam o futuro e a velhice. A partir daí, foram elaboradas algumas considerações, na certeza de que constituir-se-ão em enfoques centrais para novas pesquisas.

O primeiro capítulo apresenta a experiência profissional que pude desenvolver, significando um encontro da prática com as teorias vigentes, além de ter sido a mola propulsora desta dissertação.

O segundo capítulo aborda questões referentes ao envelhecimento, à aposentadoria e ao trabalho voluntário, procurando verificar as conexões – reais e ideológicas – que se estabelecem entre essas duas instâncias na vida das pessoas. Por outro lado, busca referir os conceitos mais recentes sobre o que significa viver este momento do curso da existência e como dar sentido ao tempo do pós-trabalho.

No terceiro capítulo, são relatados a pesquisa e seus resultados, ou seja, procura-se apresentar e analisar quem são esses aposentados social e voluntariamente ativos, além de perscrutar suas razões para tanto.

Finalmente, são colocadas as considerações finais que pude elaborar a partir de estudos teóricos, da prática profissional de longo tempo e, principalmente, da pesquisa que realizei junto a essa parcela de um dado segmento populacional – aposentados social e voluntariamente ativos -, cuja presença numérica talvez não seja tão expressiva, mas cuja importância, segundo minha ótica, é fundamental e emblemática para aqueles que desejam ter um outro olhar sobre o momento de viver o pós-trabalho e sobre o processo de envelhecimento pessoal.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CAPÍTULO 1

 

QUANDO A PRÁTICA CONDUZ A

REFLEXÕES MAIS SIGNIFICATIVAS

 


Em momento anterior desta dissertação, registrei que é meu passado que impulsiona meu futuro não só no tocante à vida em geral, como também em relação à vida profissional. Por isso, retomo experiências profissionais passadas que têm eco naquelas que realizo hoje e me motivam a buscar um contínuo aperfeiçoamento.

Esta postura decorre até mesmo do reconhecimento de que o Serviço Social tem uma importante contribuição a oferecer para que o período do pós-trabalho possa ser vivido de maneira consciente e construtiva, porque, segundo Castro (1985:10), se propõe:

 

… a uma relação de ajuda que visa tornar o sujeito construtor de sua própria transformação através da experiência compartilhada. Experiência que implica numa colaboração Assistente Social – cliente na busca da verdade, da passagem para a liberdade, para a mudança.

 

Esta relação, quando desenvolvida pelo Serviço Social por intermédio de uma abordagem grupal, favorece a socialização, oportuniza a participação social e a satisfação de necessidades sócio-comunitárias comuns à maioria das pessoas que interrompem uma relação de trabalho de longa duração e, muitas vezes, centralizadora da vida.

Neste processo de reflexão e ajuda, projetos e atividades grupais são propostos como centros de interesse em torno dos quais as pessoas se reúnem, criando uma base para o desenvolvimento de relações interpessoais, abrindo espaço para a comunicação, para a demonstração de sentimentos, desejos, queixas, opiniões, para o estabelecimento de vínculos de amizade e afeto essenciais para a vida e nem sempre possíveis de serem encontrados na família.

O Serviço Social, como facilitador desse processo, oportuniza espaço para a convergência e a troca de muitos saberes e experiências, como forma de conscientização de situações comuns, estimulando a mudança, o crescimento, a elaboração de um projeto que recrie a vida. Este projeto deverá levar em conta a individualidade, a colaboração com a coletividade, processo no qual se concretiza a cidadania.

 

 

1.1 – AS EXPERIÊNCIAS PROFISSIONAIS DO TEMPO DO TRABALHO

 

  • A Fundação CESP

 

Na minha vida de trabalho, a experiência que mais me aproximou da realidade do aposentado, tendo a atuação cotidiana me indicado a necessidade de um trabalho qualificado e específico, ocorreu na Fundação CESP, na década de 90.

Ela se define como uma entidade fechada de previdência privada[1], na época mantida pelas empresas do ramo energético do Estado de São Paulo: Centrais Elétricas do Estado de São Paulo – CESP -, Companhia Paulista de Luz e Força –CPFL -, Empresa de Eletricidade de São Paulo – ELETROPAULO. Desde o final dessa década, essas empresas entraram em processo de privatização, o que provocou uma profunda reestruturação na forma de geri-las, conseqüentemente, refletindo na Fundação.

Deter-me-ei, portanto, a traçar, em linhas gerais, alguns aspectos daquela realidade, no período em que lá trabalhei, que ajudem na compreensão deste trabalho. O enfoque será o Setor de Serviço Social, onde exercia minha função.

A Fundação CESP executava parte das políticas sociais e de recursos humanos das empresas mencionadas, pois tinha e ainda tem, embora com filosofia diversa, como fins precípuos:

 

  • Administrar planos privados de previdência privada que suplementassem a diferença entre o salário percebido pelos empregados na vida ativa e os benefícios que os mesmos e/ou seus dependentes auferissem da Previdência Social, em caso de afastamento do trabalho por doença, aposentadoria ou morte, evitando drástica redução em seu padrão de vida.
  • Gerenciar benefícios relativos às áreas de saúde, seguridade social e de lazer.

 

O atendimento aos empregados ativos constituía objetivo da política social tanto das respectivas Empresas quanto da Fundação CESP. As primeiras estendiam essa política até o período da pré-aposentadoria, desenvolvendo, inclusive, programas de preparação para a aposentadoria. A segunda adentrava o período do pós-trabalho, chegando a atingir os dependentes legais, após a morte do associado. A manutenção dos planos previdenciários e dos benefícios era feita pela contribuição majoritária das empresas e minoritária dos seus empregados

Os aposentados, portanto, continuavam mantendo vínculo com a Fundação CESP e com o Setor de Serviço Social, cuja preocupação era desenvolver programas que dessem suporte para que eles vivessem da melhor forma possível esta nova etapa da vida e exercessem seu papel na sociedade. Esta preocupação e o crescente aumento deles, devido aos programas de incentivo à aposentadoria, fizeram com que a entidade lhes desse uma atenção especial.

É importante registrar que, ainda na década de 1980, essa Instituição já desenvolvia programas de abordagem grupal, que incentivavam a participação social e a manutenção de uma vida ativa. Um dos frutos desses trabalhos foi a criação, em 1982, da Associação de Aposentados da Fundação CESP, entidade civil autônoma, sem fins lucrativos e representativa da categoria. Congregando aposentados e pensionistas das antigas e atuais Empresas mantenedoras da Fundação, instituiu-se para defender e ampliar direitos, planejar e executar, direta ou indiretamente, medidas que contribuíssem para o bem-estar dos associados e para lutar pelos seus interesses junto à própria Fundação, às Empresas de origem e aos Governos Estadual e Federal. A Associação tem contribuído para a manutenção e aperfeiçoamento dos direitos e benefícios já adquiridos. O número de sócios gira em torno de dezessete mil, sendo que oito mil estão na Capital.

Em 1990, a Fundação CESP realizou pesquisa junto a esse segmento de associados para conhecer seu perfil e obter subsídios para a elaboração de novas propostas de trabalho que levassem em conta suas necessidades, potencialidades e aspirações. O Setor de Serviço Social participou ativamente, por entender que qualquer atuação junto a este grupo deveria acontecer a partir do conhecimento das características das pessoas que o integravam, da compreensão do seu contexto e a partir da dinâmica de suas relações e interações sociais.

O levantamento cobriu todo o universo de aposentados e pensionistas, atingindo um retorno de 58% dos investigados. Foi uma proposta complexa e abrangente que esbarrou nas limitações institucionais para atendê-las; porém, constituiu-se em uma investigação que abriu caminhos para novas reflexões e estudos, os quais, por sua vez, subsidiaram novas ações.

A análise dos dados coletados revelou um grupo vivendo entre a maturidade e o envelhecimento, cujo plano de previdência complementar tornava menor a perda econômica tão freqüente nesta circunstância, permitindo que o grupo continuasse inserido na dinâmica da estrutura sócio-econômica e familiar. Os participantes demonstraram, entretanto, estar com o ritmo de vida alterado pela perda do papel profissional e das relações de amizade e convivência construídas no trabalho. As dificuldades de engajamento em atividades de lazer, de educação e em novos grupos sociais eram visíveis. Precipuamente voltados para a família, estavam com as relações sociais empobrecidas, isolados, acomodados e restringindo o sentido de suas vidas, sobretudo, à manutenção da saúde e esperando que entidades externas (governo, sindicato, associações) se responsabilizassem pela condução e/ou melhora de suas vidas.

O movimento de análise também permitiu ao Setor de Serviço Social observar que muitos dados levantados apresentavam questões pertinentes à família, aos relacionamentos, à vivência e ao significado da aposentadoria, bem como à ocupação do tempo livre, as quais mereciam uma investigação mais acurada. Estas questões, em particular, e o resultado geral da pesquisa suscitaram uma reflexão mais profunda da parte do Setor de Serviço Social que, atuando nas relações sociais, tem importante papel no estímulo à abertura de perspectivas de vida pela descoberta de novas possibilidades, no caso, mobilizando pessoas para a elaboração de um projeto de vida na aposentadoria.

Dessas reflexões nasceram programas que tinham o intento de instigar a descoberta de novas possibilidades, de acrescentar aos papéis familiares outros ligados à produção cultural, ao trabalho voluntário, prevenindo, com isso, um processo de isolamento social que poderia se agravar na velhice. Os principais foram:

 

Integração do recém-aposentado

Palestra feita em seguida ao desligamento da empresa, que informava sobre os benefícios, serviços e programas administrados pela Fundação e visava, sobretudo, reforçar o vínculo dos aposentados e pensionistas com a mesma e, especialmente, com o Setor de Serviço Social.

 

Repensando a aposentadoria

De caráter informativo, este programa era composto por ciclos de palestras, debates e discussões sobre temas que abordavam questões como: a aposentadoria e a pensão; a necessidade de uma vida ativa e participativa, com a manutenção de uma estrutura de sociabilidade; as relações familiares; o processo de envelhecimento e as falsas imagens sobre a velhice; política social e cidadania.

Considerando uma condição diferenciada, o objetivo mais amplo desta proposta era sensibilizar as pessoas para a elaboração de um novo projeto de vida, estimulando a experimentação ou mesmo a retomada de antigas experiências significativas que possibilitassem a ampliação do sentido de suas vidas.

Grupos de convivência

Estes grupos mantinham interligação com a atividade anterior e possuíam um caráter mais reflexivo. Os grupos eram, em princípio, constituídos por participantes do programa Repensando a Aposentadoria. A proposta era aproximar os conhecimentos teóricos, abordados no módulo informativo, às singularidades pessoais e grupais, possibilitando a discussão de assuntos e inquietações trazidos pelos seus componentes e a elaboração de propostas que criassem bases para desenvolver relações interpessoais e ajudar em um processo de autoconhecimento.

Enquanto integrante da equipe de Serviço Social da Fundação CESP, participei desde o planejamento da pesquisa até a proposta e o desenvolvimento dos programas que se seguiram, colaborando, assim, na concretização de ações específicas para este segmento de associados, considerando os referenciais teóricos da minha profissão, que aliei aos adquiridos no estudo da Gerontologia Social, o que permite um melhor conhecimento da especificidade do processo de envelhecimento.

 

 

1.2 – AS EXPERIÊNCIAS DO TEMPO DO PÓS-TRABALHO

 

Na retomada das atividades profissionais, neste novo tempo como aposentada, prossegui as instigantes experiências passadas e relacionadas ao campo da Gerontologia Social, procurando aliar desempenho com satisfação e desenvolvimento pessoal.

 

  • Associação dos Aposentados da Fundação CESP

 

Já na condição de associada, minha participação foi gestada a partir dos trabalhos do Setor de Serviço Social da referida Fundação, incentivando grupos de aposentados a se integrarem e discutirem sua condição, inclusive, conscientizando-os da necessidade da existência de entidade que os representasse formalmente.

Percebendo que as atividades eram mais fortemente voltadas para a defesa dos direitos e acompanhamento de benefícios sociais, procurei sensibilizar a diretoria a voltar-se um pouco mais para a pessoa dos associados e, optando por uma participação mais atuante, a abrir espaço para atividades de caráter reflexivo. Dentro dos limites, inclusive de espaço físico, inseri-me em uma pequena equipe de voluntárias para desenvolver programas de caráter informativo, que buscassem levar subsídios para o aprimoramento pessoal, a ampliação das relações sociais e a integração associativa, por meio da discussão do processo de envelhecimento, de assuntos da atualidade e pertinentes à categoria.

Desta forma, continuei voluntariamente ativa e atuante, contribuindo para o desenvolvimento da função social da Associação.

 

  • Escola Aberta da Terceira Idade – Faculdades Integradas Campos Salles

 

Ao se falar em educação de idoso, não se pode marginalizar dessa análise a educação permanente, considerando-se esta como a que prossegue ao longo de toda a vida, seja ela escolarizada ou não. Nessa perspectiva, espera-se que essa educação engaje desde o analfabeto, considerado como um deserdado social, que vem comer as migalhas que caem da mesa dos privilegiados culturalmente, até aquele que cursou a universidade, enfim, todos os homens, indistintamente (Giubilei, 1993:8).

 

Para Giubilei, há uma conotação subjacente ao termo velho que ela rejeita e a faz optar pelo termo idoso. A autora vai mais longe, quando afirma que o homem idoso é aquele que não está à espera do descanso eterno, mas que vai à luta, que se vê como pessoa útil à sociedade e que busca sempre realizar.

No dizer de Berlinck (1996), o processo de envelhecimento é o encontro da alma sem idade com o corpo que envelhece (6) e, nessa perspectiva, ouso afirmar que há demandas por parte dos idosos que talvez a sociedade as ignore. Talvez, ainda, o processo de envelhecimento biológico possa ser mais acentuado do que o envelhecimento do “eu”. Trata-se quase de um mistério, recôndito de cada ser, aquele pelo qual o “eu” é a-temporal em sendo o “eu” (Felgar, 1999 – prefácio).

Assim como em todas as faixas etárias a educação se volta para determinadas demandas e interesses específicos, a educação voltada para o adulto mais velho deve levar em conta suas experiências e suas necessidades atuais, cujo teor irá nortear um processo continuado de aprendizagem que, a meu ver, constitui uma das condições fundamentais para que homens e mulheres, independente de sua idade cronológica, se insiram de forma cidadã no espaço público e no âmbito de sua intimidade.

No dizer de Lima (2000), a educação continuada deve estar voltada essencialmente para o desenvolvimento do ser humano, entendido como a capacidade de raciocinar e imaginar, capacidade de discernir, capacidade do senso de responsabilidades. É nesse sentido que a educação permanente deve ser pensada, em especial para o segmento idoso.

Em verdade, a educação ao longo da vida deveria ser um instrumento para que cada indivíduo soubesse como conduzir seu destino ou estivesse aparelhado garantir o exercício de sua cidadania. Não se pode pensar diferentemente em relação ao indivíduo idoso.

Assim, para Lima (2000:60):

 

Esta educação permanente não poderá basear-se em princípios conservadores, mas terá que ser uma educação transformadora, socializadora, capaz de conscientizar o idoso da complexidade do momento mundial atual e torná-lo capaz de construir o seu conhecimento, reelaborando os conhecimentos que recebe, posicionando-se como sujeito, capaz de provocar mudanças, compartilhando com o outro.

 

Com base nessas reflexões, o objetivo primordial deste curso, onde desenvolvo a disciplina de Gerontologia para os primeiros e segundos anos, de acordo também com as diretrizes institucionais, é:

Apresentar uma proposta de trabalho na preparação dos indivíduos da terceira idade, no limiar do terceiro milênio, promovendo, através de debates e discussões, um processo interdisciplinar integrante e contínuo, voltado para esta faixa etária, coerente com as transformações globais do mundo moderno, procurando tirar o idoso da marginalidade e estigmatização do envelhecimento (Malavazzi, 1999).

 

Compreendo este tipo de curso como parte de um processo de educação continuada e, partindo desta ótica, procuro desenvolver minha atividade docente não com um mero repassar de conhecimento, mas proporcionando estímulos para que os educandos desenvolvam seus potenciais infinitos, variáveis e singulares, orientando-os a colocar sua experiência passada e seu amadurecimento em função de uma melhora na vida presente e futura. A médio e longo prazo, é possível proporcionar-lhes uma inserção social mais consciente e melhor instrumentalizada para efetuar mudanças.

 

 

  • Serviço Social do Comércio –SESC

 

Dando continuidade à experiência pioneira do SESC,[2] à qual acrescentei minha experiência na Fundação CESP, desde 1999 tenho trabalhado, de maneira esporádica, na coordenação de grupos de convivência e reflexão sobre o envelhecimento, em algumas unidades da Capital.

Este tipo de grupos vem se multiplicando desde a sua criação, em 1963. De um primeiro, em uma das unidades do SESC, tem se tornado um dos importantes trabalhos sociais nas diferentes instituições que se voltam para o segmento da população que está envelhecendo. Segundo Ferrigno (1998), seus objetivos são socialização, muito freqüentemente, ressocialização, atualização de conhecimentos, desenvolvimento de novas e antigas habilidades. As atividades e a vivência em grupo colaboram para o desenvolvimento pessoal e oferecem informações sobre as características do processo de envelhecimento, facilitando, pois, a adaptação nesta fase da vida.

Os integrantes dos grupos que venho coordenando freqüentam o SESC há muito tempo e vários se dedicam a outras atividades para o aprimoramento pessoal ou de colaboração com a comunidade, tais como: cursos, trabalhos voluntários em obras sociais, em igrejas, em entidades de defesa dos direitos dos idosos, além da imprescindível colaboração à família. São, portanto, pessoas ativas que conseguem fazer uma leitura crítica da nossa sociedade e atuar pró-ativamente nela. Com certeza, o trabalho do SESC contribui para isso.

As discussões abordam assuntos da atualidade que envolvem a coletividade, mas existe espaço para as questões individuais. Em geral, dizem respeito ao relacionamento e às perdas na família, à diferença de valores entre as gerações e entre gerações da própria família, à solidão, às dificuldades decorrentes das perdas orgânicas e do vigor físico próprios da idade mais avançada, às doenças e aos temores de possíveis sofrimentos e dependência que elas possam causar.

Percebo que o processo de reflexão grupal colabora mais especificamente para o fortalecimento individual e a coesão grupal, retroalimentando os trabalhos voluntários realizados por alguns com outros idosos. Entre os integrantes, de ambos os sexos, com predominância feminina, perpassa um forte sentimento de solidariedade e de ajuda mútua.

A coordenação, reconhecendo serem inquietações próprias da essência do homem contemporâneo, acolhe-as e conduz o processo de reflexão, orientando que as possíveis respostas devem levar em conta a unicidade de cada um e as experiências, conhecimentos e sabedoria adquiridos no transcurso de vida.

 

 

 

 

1.3 – A EXPERIÊNCIA COMO DIRETRIZ DA REFLEXÃO E DA PESQUISA

 

Por conseguinte, a certeza de que a convivência grupal é um fator benéfico insofismável às pessoas e, em especial, às mais velhas, todo o trabalho, desenvolvido nas duas últimas décadas, se pauta por essa convicção. Segundo Ferrigno (1998:27):

 

O ser humano é um ser gregário por natureza e por condicionamento cultural. As ciências humanas, em geral, as psicológicas, em particular, têm exaustivamente argumentado acerca dos malefícios provocados pelo isolamento social. Contudo, a sociedade contemporânea não cria condições favoráveis para o convívio. O crescimento muito rápido e desordenado das grandes cidades é um dos vários fatores que dificultam as relações interpessoais. Se o isolamento e a solidão constituem-se em marcos da civilização atual, para os idosos o problema é acentuado por fenômenos como viuvez, aposentadoria, emancipação dos filhos, etc., em um contexto de forte desvalorização pessoal, para os mais velhos.

 

Para Felix Guattari (1981, apud Ferrigno, 1998: 32), filósofo e psicanalista que sempre lutou por uma psicanálise engajada nas lutas sociais:

 

Somos todos grupelhos, isto é, fazemos parte de pequenos grupos com fortes identificações recíprocas. Esses fenômenos tornam-se mais claro entre os jovens organizados em inúmeras “tribos”. Mas, mesmo que menos intensamente, também os velhos paulatinamente vêm se organizando em grupos de convivência, fator imprescindível para a efetiva conquista de seus direitos civis. (…) É no seio desses pequenos grupos que se processam as chamadas revoluções “moleculares” que aos poucos vão se tornando visíveis a ponto de alterar profundamente as relações sociais e econômicas de toda uma comunidade.

 

Como Ferrigno, já há algum tempo, tenho pensado nas possibilidades e nos potenciais da terceira idade, justamente pela multiplicação dos grupelhos de pessoas em processo de envelhecimento, neste caso os aposentados, que, se por um lado refletem mudanças sociais, por outro serão paulatinamente causadores de muitas outras transformações culturais (Ferrigno, 1998: 32).

Foi com base em toda essa retrospectiva de minha atividade profissional que me propus a reflexão e o desejo de conhecer as razões centrais que levaram os aposentados a se manterem voluntariamente ativos por intermédio do trabalho solidário.

Duas proposituras, por conseguinte, se impõem. A primeira diz respeito às questões teóricas que permeiam esta realidade humana – o envelhecimento, a aposentadoria e o trabalho voluntário – e será tratada a seguir. A segunda, por decorrência, conduz a uma indagação fundamental: quem são essas pessoas e que razões as levam à prática do trabalho voluntário. A resposta empírica virá, então, posteriormente.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CAPÍTULO 2

 

UM TRINÔMIO TEÓRICO

ENVELHECIMENTO, APOSENTADORIA, TRABALHO VOLUNTÁRIO

 

 

 

 

2.1 – CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES

 

 

Ao se pretender estudar o aposentado e seu tempo do pós-trabalho, algumas categorias precisam ser pensadas para que sua compreensão se dê de forma adequada às análises pretendidas. Assim, aposentar-se pressupõe um tempo vivido e trabalhado que atinge limites de idades mais avançadas, ou seja, o envelhecer. Mesmo que se considere o envelhecimento como um processo que ocorre a partir do nascimento, há consenso sobre determinadas faixas etárias que estão definidas como indicadoras de uma nova etapa que tem sido nomeada como terceira idade, formada por indivíduos cronologicamente mais velhos.

A diversidade de nomenclaturas atribuídas às faixas etárias maiores tem sido, até certo ponto, uma forma de discriminar e isolar os diferentes momentos da existência, como se cada um deles pudesse ter um desenrolar autônomo e definido no tempo, ou seja, com começo e fim. Ledo engano! O curso existencial se configura como um continuum, mesmo que ocorra com alterações de caráter biológico, psíquico e social. Apenas a compreensão desse continuum permitirá um conhecimento, a priori, sobre o homem e, nessa perspectiva, sobre o homem idoso.

Aposentar-se pressupõe, também, a categoria trabalho, como se coloca na sociedade moderna e contemporânea, ou seja, como trabalho remunerado, cujos proventos devem proporcionar a sobrevivência do trabalhador. Ao término dessas funções laborativas, aparece o período do pós-trabalho, a aposentadoria que, por sua vez e como já referido, é uma das categorias de análise deste estudo.

Finalmente, o recorte que está sendo proposto remete à compreensão do trabalho voluntário em sua relação com o tempo do pós-trabalho.

Por conseguinte, os conceitos de velhice, aposentadoria e de trabalho voluntário são eixos norteadores deste estudo, a partir dos quais se procura entender as razões que levam o aposentado a se dedicar ao trabalho voluntário.

 

2.2 – O ENVELHECIMENTO

 

Ao lado do envelhecimento, fato social que se caracteriza pelas mudanças na estrutura populacional de uma sociedade, existe o envelhecimento enquanto processo individual vivenciado de forma única e irreversível, segundo o contexto e a história de cada pessoa. Às diversas formas encontradas em diferentes culturas e diferentes épocas da história da civilização correspondem, também, diferentes imagens sociais da velhice.

Resgatando o pensamento de Lygia Py, pode-se constatar:

 

Aí estão os velhos. Muitos e mais, cada vez mais, ganhando visibilidade pela força da presença, aí estão, a exigir dessa sociedade que, lhes prolongando os dias, se ocupe, agora, de assegurar condições de dignidade para a velhice (Py, 1996:12)

 

Essa colocação remete à possibilidade de estudar aspectos demográficos e culturais sobre o envelhecimento populacional, quando os velhos podem ser quantificados e identificados simbolicamente no âmbito das relações sociais. O interesse por organizar e sistematizar estes estudos, no Brasil, pode ser registrado a partir de 1961, com a fundação da Sociedade Brasileira de Geriatria e, posteriormente, da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, pelo dr. Roberto Segadas, seu primeiro presidente (Felgar, 1999).

A frase “muitos e cada vez mais” chama a atenção para o aumento quantitativo desse segmento populacional, o que pode ser constatado pelos dados da OPS – Organização Panamericana da Saúde.

 

Quadro 1 – POPULAÇÃO MUNDIAL (POR MIL)

REGIÃO 1950 1995 2025
TOTAL MUNDIAL 2.516.190 5.759.276 8.472.446
EUROPA 398.140 516.043 541.784
AMÉRICA 331.227 774.220 1.061.999
BRASIL 53.444 161.382 219.673

Fonte: PÉREZ, E. A. (1996) Situação dos idosos na América Latina. Organização Panamerica da Saúde – OPS (apud Felgar, 1999:78).

 

 

Quadro 2 – COMPOSIÇÃO DA POPULAÇÃO DEPENDENTE COM 65 ANOS E MAIS (POR MIL) NAS AMÉRICAS

                                           1950                                         1995                                       2025
REGIÃO % % %
AMÉRICA 19.189 5,79 61.344 7,92 131.439 12,
A.LATINA 5.563 3,45 24.247 5,11 63.689 9,
BRASIL 1.310 2,45 8.346 5,17 22.844 10,
A. NORTE 13.450 8,10 36.620 12,55 66.694 18,
EUA 12.395 8,14 33.178 12,61 59.529 18,

Fonte: PÉREZ, E. A. (1996) Situação dos idosos na América Latina. Organização Panamerica da Saúde – OPS (apud Felgar, 1999:79).

 

O comportamento da população acima de 65 anos é diferenciado e significativo. Entre 1950 e 1995, houve um aumento triplicado dessa presença no continente americano e as projeções indicam que, a partir de 1995, esse aumento será duplicado. Há, paralelamente, uma diferenciação considerável na representatividade percentual desse segmento, pois que, de cerca de 5% no conjunto populacional, passará a representar 12%. Quanto ao Brasil, o envelhecimento populacional é mais emblemático ainda. Entre 1950 e 1995, o aumento de pessoas idosas foi mais do que sextuplicado, sendo que até 2025 as projeções indicam um crescimento quase triplicado. Tais números mostram uma representatividade no conjunto da população que, de cerca de 2%, chegará a 10% (Felgar, 1999).

 

Quadro 3 – ESTIMATIVA PERCENTUAL DA POPULAÇÃO MUNDIAL DE 60 ANOS E MAIS

ANOS 1990 2000 2025 2050
REGIÃO
POPULAÇÃO MUNDIAL 9,32 9,91 14,43 20,32
PAÍSES EM DESENVOLVIMENTO 6,98 7,58 11,97 18,76
PAÍSES DESENVOLVIDOS 17,11 18,73 26,58 29,60

Fonte: PÉREZ, E. A. (1996) Situação dos idosos na América Latina. Organização Panamerica da Saúde – OPS (apud Felgar, 1999:80).

 

Pode-se constatar que o crescimento percentual da população idosa no mundo, entre a década final deste século e a metade do próximo, terá mais do que duplicado. Os países mais desenvolvidos terão um crescimento menor (cerca de 12%). No entanto, a presença percentual de idosos nos países em desenvolvimento (os mais pobres) será praticamente triplicada. Este dado é extremamente significativo e preocupante (Felgar, 1999).

Quadro 4 – CLASSIFICAÇÃO DOS PAÍSES EM TERMOS DE SUA POPULAÇÃO DE 60 ANOS OU MAIS (milhões)

PAÍSES class./1950 1950 1975 2000 2020/25 class./2025
CHINA 42 73 134 284
ÍNDIA 32 29 65 146
ANTIGA URSS 16 34 54 71
EUA 18 31 40 67
JAPÃO 6 13 26 33
BRASIL 16º 2 6 14 32
INDONÉSIA 10º 4 7 15 31
PAQUISTÃO 11º 3 3 7 18
MÉXICO 25º 1 3 6 17
BANGLADESH 27º 1 2 6 16 10º
NIGÉRIA 14º 2 3 6 17 11º

Fonte: World Health Statistics Annuais – 1979/1982 (apud Felgar, 1999: 80).

 

O quadro demonstra que o crescimento da população idosa no Brasil, em menos de um século, subirá 10 posições no ranking.

Veras (1994) afirma que aos países desenvolvidos foi dada uma visibilidade maior aos problemas do envelhecimento populacional, uma vez que o “deslocamento demográfico” ocorreu gradativamente a partir do século passado. Contudo, nos países “em desenvolvimento”, esse deslocamento foi mais recente e mais rápido, significando a necessidade de estudos que definam políticas públicas para este segmento.

A literatura fala de transição demográfica, quando as taxas de fertilidade e de mortalidade sofrem uma interseção, alterando o perfil demográfico das nações. Quando a população apresenta alta taxa de fertilidade e alta taxa de mortalidade, a presença de pessoas jovens é predominante. Posteriormente, a taxa de fertilidade continua alta, mas a de mortalidade começa a decair e a presença de idosos, então, passa a ser mais significativa. Em seguida, a taxa de mortalidade continua a decrescer e a taxa de fertilidade também começa a sofrer um declínio, momento em que a presença de jovens decai e aumenta a presença de adultos jovens e idosos. Quando ambas declinam, o crescimento do número de idosos na composição demográfica é altamente significativo.

Considerada a presença marcante de um contingente populacional idoso, principalmente em países mais empobrecidos e entre eles o Brasil, é importante retomar a questão conceitual e procurar entender como tem sido definido o envelhecimento. Segundo Veras (1994:25), nada flutua mais do que os limites da velhice, em termos de complexidade fisiológica, psicológica e social. (…) Pode ser melhor visualizada dentro de sociedades específicas.

Para Haddad (1986), há uma ausência de unanimidade quanto à definição de velhice, pois que este momento da vida vem sendo definido como estado de ânimo; situação de vulnerabilidade; processo singular, único e individualizado; estado de regressão de uma terceira etapa da vida; questão cronológica; momento de perda dos ideais e de falta de sintonia com o seu tempo; além de outras variáveis.

A Declaração de Brasília sobre Envelhecimento (1996)[3] considerou que:

 

O envelhecimento é universal, afeta todo indivíduo, família, comunidade e sociedade. (…) O envelhecimento é um processo normal, dinâmico e não uma doença. Enquanto o envelhecimento é um processo inevitável e irreversível, as condições crônicas e incapacitantes, que freqüentemente acompanham o envelhecimento, podem ser prevenidas ou retardadas, não só por intervenções médicas, mas também por intervenções sociais, econômicas e ambientais. Existem importantes desigualdades no envelhecimento, que se refletem na expectativa de vida, na morbilidade, na mortalidade prematura, na incapacidade e na qualidade de vida. Os pré-requisitos básicos da qualidade de vida incluem: alimentação e água adequadas, moradia, segurança, seguridade econômica básica e acesso aos serviços de saúde. (…) Envelhecimento é uma questão de desenvolvimento. Idosos saudáveis são uma fonte de recursos para suas famílias, comunidades e para a economia. Suas contribuições, normalmente não pagas e não divulgadas, são indispensáveis para o desenvolvimento.

 

Parece, pois, que os estudos geriátricos e gerontológicos vêm procurando caracterizar e definir a velhice como um período existencial de perdas biológicas, mas não necessariamente acompanhadas de patologias. Segundo essa visão, definido e caracterizado o envelhecimento, em geral com um corte etário entre 60 e 65 anos, a geriatria invoca a necessidade de permitir, de criar condições para que o mesmo ocorra com saúde.

Veras (1994:13) considera que:

 

A saúde coletiva representa, na realidade, o fórum privilegiado para encontros e debates sobre a saúde do idoso (…). Os problemas de saúde ficam, em grande parte, encobertos ou não diagnosticados por uma série de circunstâncias (…). A assistência médica formal não consegue cobrir todas as necessidades do idoso (…). A organização de programas específicos de assistência à saúde do idoso, elegendo problemas maiores de saúde (entre outros a hipertensão arterial e a diabetes), para a condução do processo de assistência, permite estimular, além da assistência ao idoso em geral, o treinamento de pessoal.

 

Chaimowicz (1998:35) remete à sociedade a questão do envelhecimento com saúde e solicita propostas do poder público, afirmando:

 

Cabe à sociedade ampliar o debate sobre a transição demográfica e suas conseqüências para o sistema de saúde, avaliando alternativas que possibilitem minimizar seu impacto sobre a qualidade de vida da população, e cobrando do Estado o cumprimento de seu papel na implementação de políticas públicas direcionadas à manutenção da saúde da população idosa.

 

As propostas da geriatria e da gerontologia têm-se voltado para ações afirmativas de atenção ao idoso, salientando que não podem (e realmente não devem) limitar-se ao âmbito da saúde, apesar de considerá-lo um enfoque prioritário.

Essas propostas, no Brasil, ao enfocarem a saúde pública, tendo como sujeito a população envelhecida, o fazem, principalmente, a partir das necessidades decorrentes de uma velhice desamparada, pertencente às classes depauperadas ou menos privilegiadas.

 

A pobreza é uma outra caraterística amarga da velhice. Apesar da heterogeneidade dos idosos, uma característica recorrente da maioria das sociedades é que as pessoas idosas são em geral menos aquinhoadas economicamente do que os adultos mais jovens da população (Veras, 1994:45)

 

Entretanto, parte deste segmento populacional, que pertence a classes sociais mais favorecidas e conta com recursos materiais suficientes, encontra-se em situação de integrar um efetivo e eficaz mercado consumidor, fato que tem lhe dado visibilidade.

Na perspectiva desse mercado, o envelhecimento vem sendo tratado pela sua negação, ou seja, procura-se salientar que só é velho quem quer e que o processo de envelhecimento pode ser negado ou retardado.

A esse respeito, Incontri (1996:458) destaca títulos de matérias publicadas pela imprensa: Tudo é permitido a quem passou dos 60 – Velhinhas não fazem só tricô; gostam de namorar – Idade favorece realização sexual – Idosos enxutos também têm o seu point – Vovós não se trancam mais em casa etc.. Essas e outras matérias podem disseminar a idéia de que o desgaste corpóreo não se coaduna com felicidade e paz. Além disso, afirma:

 

Matérias que tratam do poder aquisitivo dos idosos, de seus hábitos e tendências, indicando o promissor mercado que esse segmento apresenta como público-alvo da publicidade, mostram igualmente o quanto valores comerciais ocupam predominantemente o mundo moderno… (1996:462)

 

Ainda a esse respeito, os estudos de Debert (1996) apresentam uma análise segundo a qual o idoso, inicialmente analisado pela gerontologia como vítima privilegiada da miséria, contraditoriamente, tem sido exposto pela mídia como um velho sadio, feliz que tem o “dever” de buscar a sua realização pessoal. Em especial a televisão, pelas técnicas de merchandising, procura dar visibilidade ao velho “consumidor”, subtraindo do olhar público o velho (des)inserido ou inserido perversamente no seio de um contexto político-econômico excludente e marginalizador.

A esse novo posicionamento, Debert se refere como outra forma de uma conspiração do silêncio, apontando que os enfoques, hoje, transferiram-se de uma visão sobre velhice como “fonte de miséria”, para uma visão de “fonte de recursos”. Nessa perspectiva, a busca do rejuvenescer é fundamental e fugir a este novo paradigma pode significar uma responsabilidade pessoal (culpabilização) pelas “misérias” decorrentes do envelhecimento.

Neri (1993) enfatiza que vive-se um momento em que é exaltado o “ser velho sem parecer”. O próprio léxico cria expressões que minimizam o efeito da palavra velho (maior idade, melhor idade, 3ª idade, 4ª idade, cronologicamente bem dotados etc.). Mediante alguns construtos (estereótipos) disseminados de forma genérica, produzem-se e reproduzem-se atitudes preconceituosas e práticas sociais discriminatórias contra o idoso, onde prevalece a ideologia da negação.

Esta pesquisa considera também, conforme Felgar (1999), que o envelhecimento, seja pessoal seja populacional, só pode ser compreendido a partir de suas múltiplas determinações/relações, definidas historicamente. O envelhecimento não se explica pelo envelhecimento. Há motivações ideológicas para que ele se desvele ao olhar da ciência tal qual ela o vê. Há motivações estruturais e conjunturais para que ele se dê da forma como está se dando.

O inegável é que o envelhecimento, como um fato natural, é um fenômeno biológico que ocorre a todos os seres humanos. O organismo do idoso entra em declínio quando se reduzem suas capacidades de subsistir. Citando Beauvoir (1990:32): O envelhecimento, e depois a morte, sobrevêm quando um determinado programa de crescimento e de maturação chegou ao seu termo.

Uma série de transformações ocorrem no corpo do indivíduo: os cabelos enfraquecem, a visão e a audição diminuem, a pele enruga, nariz e orelha se alongam, mesmo que se reconheçam os avanços da ciência para que a vida se prolongue e que essa vida seja mais saudável e feliz.

A morte, inseparável companheira da vida, ocorre em qualquer fase do curso da existência, mas mais freqüentemente ela sucede à velhice, ou seja, quando se ultrapassam as fases do crescimento, desenvolvimento, maturidade e, muito freqüentemente, ela vem associada a uma ou mais patologias, muitas vezes, sem comprometer as condições pretendidas pelo conceito de capacidade funcional[4].

Sabe-se, hoje, que hábitos saudáveis associam-se à longevidade. O peso proporcional dos fatores, que fazem uma pessoa viver além dos 65 anos, são: genéticos (17%), ambientais (20%), estilos de vida (53%), assistência médica (10%) (Universidade de Stanford/USA, apud VEJA – Sua Saúde, ano 34, nº 12, 2001:13).

O envelhecimento biológico faz parte do mundo animado. O envelhecimento é parte onipresente de nosso mundo material e vivo e acabamos percebendo que o fenômeno está ocorrendo também conosco (Hayflick, 1996:4). No entanto, o processo de envelhecimento se desloca para muito além ou aquém das barreiras de um envelhecer biológico.

 

A idade cronológica não está diretamente correlacionada à idade biológica. (…) A idade cronológica mede quanto tempo, quantos anos se passaram (…) Os eventos biológicos que se seguem ao nascimento acontecem em momentos diferentes e em ritmos diferentes em cada um de nós. (…) A contrário da passagem do tempo, o envelhecimento biológico, às vezes chamado de envelhecimento funcional, desafia medições fáceis. (…) há um excesso de variabilidade individual nos possíveis marcadores do envelhecimento (Hayflick, 1996:4,5).

 

Contudo, como refere Debert (1994), ao pensarmos na velhice, não podemos considerá-la apenas como fenômeno biológico natural e universal, mas também como fato social e histórico, que corresponde à variabilidade de formas em que é concebida e vivida em diferentes realidades. A identidade do velho define-se em parte como fenômeno biológico, mas não é suficiente para explicar uma totalidade: comportamentos, pensamentos e atitudes da pessoa idosa.

 

A velhice, como todas as situações humanas, tem uma dimensão existencial: modifica a relação do indivíduo com o tempo e, portanto, sua relação com o mundo e com sua própria história. Por outro lado, o homem nunca vive em estado natural: na sua velhice, como em qualquer idade, um estatuto lhe é imposto pela sociedade a qual pertence. (…) Ela lhe destina lugar e papel, levando em conta sua idiossincrasia individual: sua impotência, sua experiência; reciprocamente, o indivíduo é condicionado pela atitude prática e ideológica da sociedade em relação a ele. Não basta, portanto, descrever de maneira analítica os diversos aspectos da velhice: cada um deles reage sobre todos os outros e é afetado por eles: é no movimento indefinido desta circulariedade que é preciso aprendê-la (Beauvoir, 1990:15, 16).

 

A velhice, então, tem que ser compreendida em sua totalidade, tanto como fato biológico como cultural; é preciso também reconhecer que na dimensão cultural está implícita a idéia de que os fatos se modificam e têm que ser apreendidos em sua constante dinâmica. Ser velho, portanto, é um fenômeno que se altera no tempo e no espaço[5].

A pesquisa histórica e a antropologia têm estudado a velhice e seu significado em todas as épocas e culturas. Os resultados têm demonstrado que tanto ela como as demais fases da vida não são conseqüências de uma evolução científica marcada por formas cada vez mais precisas no desenvolvimento biológico e, sim, categorias socialmente produzidas, que envolvem luta política, na qual está em jogo a definição de poderes ligados a grupos sociais distintos. Entretanto, afirmar

 

… que as categorias de idade são construções culturais e que mudam historicamente não significa dizer que elas não tenham efetividade. Essas categorias são constitutivas de realidades sociais específicas, uma vez que operam recortes no todo social, estabelecendo direitos de uma população, definindo relações entre gerações e distribuindo poder e privilégios (Debert, 1994:12).

 

Assim, ao longo da história da humanidade, a velhice tem sido conceituada e caracterizada de diferentes maneiras. Nas sociedades tradicionais, segundo Magalhães (1987), quer sejam tribais, feudais, patrimonialistas, agrícolas, pastoris caçadoras ou comerciais, a velhice era um fenômeno pouco observado, já que um número reduzido de pessoas chegava a uma idade avançada.

Nessas culturas, onde o papel da memória é valorizado, as lembranças e as recordações dos velhos constituem um patrimônio coletivo, revivido e repassado pelo contato entre idosos e as gerações mais novas. São prescrições que, pelo seu valor imemorial, têm o valor de preservar, mesmo que uma nova realidade exija mudanças. Visam dar segurança e manter a hierarquia e o poder.

Dizer que nessas sociedades o idoso era tratado com veneração e respeito é mais um mito do que uma realidade. Nelas, as pessoas idosas tinham um espaço definido e valorizado, enquanto conseguiam manter sua autonomia e capacidade de sobrevivência. Quando isso não mais ocorria, os idosos eram afastados do seu grupo social, ainda que por meio de ritos, conforme menciona Beauvoir (1990) em seu estudo sobre a velhice.

Na sociedade contemporânea, a velhice é numerosa e a experiência dos mais velhos não tem significado expressivo para a organização social e não existe mais a preocupação com a preservação da memória, já que a inovação e o conhecimento do novo os colocam em um segundo plano. Como ainda observa Magalhães (1987), tanto o patrimônio familiar como a experiência acumulada não constituem mais valor significativo; os novos valores preconizam uma inovação contínua e um projeto de vida em nível individual, na busca da realização profissional, econômica e social.

Esta sociedade pode manter ritos, mitos e lendas, desde que os mesmos garantam sua expansão e progresso. É importante destacar o mito gerado em torno da aposentadoria como um período em que os indivíduos poderão dispor de sua vida para usufruir os bens e serviços que esta sociedade lhes oferece. Sabe-se, entretanto, que a maioria dos aposentados tem baixa sociabilidade e baixo poder de consumo. Os reduzidos proventos recebidos mal garantem sua sobrevivência e a estrutura de sociabilidade, baseada no grupo familiar e de trabalho, torna-se enfraquecida ou inexistente nesse período. O lazer-consumo de massa também não lhe é assegurado. Para uma maioria, a aposentadoria passa a ser, então, um período de dificuldades e isolamento, vivido na mesma sociedade que ajudou a construir.

Outro mito é a atribuição à família da obrigação de cuidar dos seus idosos. Esta tarefa, que tradicionalmente recai sobre a mulher, está sendo revista, porque há um acúmulo de papéis – doméstico, profissional e a educação dos filhos -, gerando situações de estresse, comprometendo os cuidados e, conseqüentemente, a saúde tanto do idoso como da própria cuidadora. Assim, cada vez mais a família precisa contar com a ação pública institucional para cuidar dos seus idosos[6].

Como se pode perceber, ao longo da história das sociedades, é o estatuto vigente numa dada cultura que determina a posição a ser ocupada pelas pessoas que envelhecem, tornando o fato biológico natural muito mais complexo e abrangente. Assim, à medida que as sociedades e os homens estão envelhecendo, é imperativo rever o estatuto que é imposto aos velhos, uma vez que, como vimos, estão constituindo um segmento bastante significativo dessas mesmas sociedades (Beauvoir, 1990).

 

 

2.3 – A APOSENTADORIA

 

Resenha bibliográfica de Debert e Simões (1994) sobre terceira idade e aposentadoria aponta que esta passou a fazer parte da preocupação das sociedades americanas e francesas, quando a primeira geração de trabalhadores envelheceu. A velhice passou a ser associada à invalidez e à incapacidade de produzir e o problema era quem deveria arcar com o velho, se a empresa ou a família, que até então cuidava dele. Questionava-se o que fazer com os operários que não poderiam mais garantir a sobrevivência pelo trabalho.

De acordo com esses autores, as aposentadorias, nos contextos europeu e norte-americano,

 

surgiram como meios de substituir as intervenções pontuais de cunho filantrópico dirigidas às populações carentes. Configurando-se como sistema de proteção aos trabalhadores idosos, a aposentadoria deu uma identificação específica aos velhos pobres, distinguindo-se de outros setores de assistência social (1994:33).

 

Foi somente no final do século XIX que a questão da aposentadoria entrou, efetivamente, na pauta das reivindicações operárias. Até então, as reivindicações dos trabalhadores franceses giravam em torno de salário, garantia e regularidade de emprego e duração da jornada de trabalho. Os debates no parlamento sobre sistema de aposentadoria não encontravam ressonância na classe operária, apesar dos velhos estarem vivendo em condições miseráveis, a cargo da família ou de instituições assistenciais.

Morrisson (apud Debert & Simões, 1994) descreve que muitos estereótipos negativos acerca da capacidade dos trabalhadores mais velhos desenvolveram-se no rápido processo de industrialização e absorção de mão-de-obra que ocorreu nos Estados Unidos entre 1920-40, antes da aposentadoria se converter em instituição legítima. Esses estereótipos estavam associados à complexificação dos organismos industriais, à adoção de técnicas científicas de administração, que enfatizam a velocidade, e na concepção de que a capacidade do trabalhador declinava com o tempo até se esvair. Acreditava-se, assim, que a velocidade exigida pelo trabalho submeteria os indivíduos a um esforço que provocaria a decadência de sua capacidade produtiva, à medida que envelhecessem.

Desde o século XIX, a moral do trabalho passou a valorizar aqueles que se encontravam no auge de sua força física, excluindo, portanto, crianças e idosos. Romanticamente, aos velhos destinava-se o ócio, como recompensa. Revestia-se o mais velho de uma falsa nobreza, tirando-lhe, porém, função social e colocando-o não só à margem do universo do trabalho, como também à margem da sociedade. Os avanços da sociedade urbana e industrial, embasados em teorias naturalistas que apregoavam a decadência vital dos idosos, passou a mostrar uma imagem ridicularizada dessas pessoas. As atitudes discriminatórias em relação aos trabalhadores mais velhos desempenharam papel importante no desenvolvimento posterior de políticas de aposentadorias, conforme Secco (1994).

Assim, em partes do chamado primeiro mundo, nas décadas de 1920 a 1940, houve a generalização dos sistemas de aposentadoria, cujas causas, ainda segundo Morrisson, foram:

 

  • diminuição das explorações agrícolas e pequenas empresas, cujo capital garantia meios para a família cuidar de seus velhos;

 

  • transformação na estrutura familiar operária, onde não havia enfraquecimento dos laços familiares, mas a aposentadoria era um meio de contribuir para a subsistência coletiva do grupo familiar e não para reivindicar independência financeira dos velhos em relação aos filhos.

 

Para Guillemard (apud Debert & Simões, 1994), a sensibilização em relação ao idoso passa por três conjuntos de transformações que vão desde 1945 até os dias atuais.

 

  1. De 1945 até 1960, a questão debatida é a dos meios de subsistência dos trabalhadores velhos. A generalização dos sistemas de aposentadoria dá uma identidade de condições aos idosos, diferenciando-os de outras populações carentes.

 

  1. De 1959 até 1967, a característica está na ênfase dada às condições de vida do idoso e em várias práticas como lazer, férias e serviços especiais de saúde. O modo de vida, não o nível de vida, é o campo de intervenção das políticas sociais. Passa a existir uma nova sensibilidade, em termos morais, na tentativa de reverter a condição de solidão e marginalidade, que passam a ser definidas como características marcantes dos idosos. Esse período corresponde a mudanças no sistema produtivo que provocaram a ampliação das classes médias assalariadas: trata-se de pensar a aposentadoria para um setor com níveis mais altos de aptidões, aspirações e consumo. Esta nova sensibilidade é representada pela ideia da Terceira Idade.

 

  1. O período de 1967 em diante é caracterizado pela idéia da pré-aposentadoria, que implica a revisão de idade cronológica própria à retirada do trabalho. A velhice passa a ser definida como um momento em que o trabalho é ilegítimo. A aposentadoria precária ou desemprego estão cada vez mais presentes para os indivíduos com faixa etária que antecede a aposentadoria, nas empresas privadas.

 

Neste último período, na França, aumentam os fundos manipulados pelos especialistas em velhice, o número de aposentados e a ajuda social à velhice. Nos EUA, ocorrem fatos semelhantes, sendo que a aposentadoria se acentua na população entre 55 e 64 anos, acelerando-se quando ocorrem aumentos nos benefícios da seguridade social e a economia entra em estado recessivo.

Assim, a ampliação do trabalho assalariado para as classes médias estende a aposentadoria para outros setores sociais e profissionais, não se tratando mais de assegurar a velhice dos pobres. Sindicatos e associações assumem papel ativo na luta por melhores condições de aposentadoria.

Passa a existir a formação de instituições e agentes com a função específica de tratar a velhice e que se interpuseram entre as gerações da família. Surgiram especialistas em geriatria e gerontologia e foram definidos campos de atuação que requeriam saber especializado.

Na França, o Relatório Laroque (1962) reformula a visão do problema ao voltar-se para o conjunto da população idosa. Propôs a adaptação dos equipamentos sem promover a segregação e a generalização de situações pontuais. Passou-se de medidas singulares ou particulares, para uma ideologia pública, dotada de força oficial e recursos financeiros. Paralelamente, implementaram-se tratamentos de geriatria e criaram-se serviços específicos para idosos – centros e restaurantes, cuidados em domicílio etc..

Aliás, a Terceira Idade é inventada nesse contexto, significando, mais a negação do envelhecimento do que uma etapa entre a idade madura e a velhice propriamente dita, segundo Lenoir (apud Debert & Simões, 1994:35).

Por conseguinte, a aposentadoria é uma conquista que data do início do século XX, quando a maioria dos trabalhadores teve assegurado o direito de se retirar da atividade profissional, na ocorrência de certos riscos ou preenchido determinado tempo de serviço, após ter contribuído com parte do seu salário durante a sua vida de trabalhador, passando a receber um pagamento mensal proveniente de instituição previdenciária.

Desta perspectiva, os benefícios previdenciários constituem os substitutivos do salário pago para o trabalho humano, quando este não puder ser mais exercido, face ao surgimento de um risco profissional ou social.

Esse direito conquistado, que hoje atinge a quase totalidade da população trabalhadora mundial, trouxe mudanças significativas. Em nível político, constitui-se em presença obrigatória na Constituição dos diferentes países, configurando-se como uma obrigação do Estado e direito do homem. Do ponto de vista social, criou uma nova classe com capacidades, necessidades e aspirações próprias a serem levadas em conta na formulação de políticas sociais, com reflexo no plano econômico.

Segundo Queiroz (1988:3), em nível individual:

 

A forma pela qual a aposentadoria vai ser sentida depende de um conjunto de fatores: a maneira mais ou menos brusca pela qual ocorre, os sucessos ou insucessos profissionais, a estrutura familiar, o relacionamento social, as condições de saúde, a história de vida de cada pessoa.

 

Continuando o pensamento dessa autora, a aposentadoria provoca para a grande maioria das pessoas, mudanças no ritmo de vida, tais como: a ruptura com a maioria das relações de amizade e convivência constituídas a partir do trabalho; perda de status e prestígio social em decorrência do afastamento do sistema produtivo; redução da renda; dependência em relação ao sistema previdenciário; dificuldade de acesso a crédito, lazer e educação; dificuldades também de relacionamento com novos grupos sociais, bem como ausência de papéis a serem desempenhados e socialmente significativos; possível desajustamento familiar; possíveis problemas de saúde.

Em função dessas mudanças, a passagem da vida produtiva para uma situação de inatividade pode ser vivenciada de uma forma traumática, exigindo um difícil ajustamento, sobretudo para aquelas pessoas que não reservaram nada de objetivo para realizar, no momento em que se desvincularam das obrigações formais de suas vidas. Sem nenhum planejamento para continuar a ser úteis e manter elevada a autoestima, tenderão a ocupar o tempo com atividades pouco significativas e até a limitar seu espaço físico e social à esfera doméstico-familiar.

Esse comportamento pode ser explicado, porque em qualquer fase do desenvolvimento humano, o reconhecimento social e a influência dos grupos de participação são de primordial importância para a manutenção do sentimento de pertinência e valorização pessoal. A vida grupal provê aos seus membros oportunidades de dar e receber; além do que, mantém em equilíbrio a auto-estima.

Assim, embora considerada pelo senso comum como uma libertação das formais obrigações laborativas, a aposentadoria quase nunca é bem recebida. Em geral, é sentida como algo ameaçador que deixa o indivíduo exposto a um novo tipo de realidade, a qual lhe pode reavivar antigos sentimentos de isolamento ou predispô-lo a uma ansiedade antecipatória à ultima e definitiva separação que é a morte (D’Andrea, 1987).

Poucos se preparam para gozar do descompromisso do trabalho oficial e dirigir-se, na idade avançada, na direção de novos interesses, divertir-se, cultivar amizades, viver mais intensamente o relacionamento familiar ou mesmo desenvolver potencialidades adormecidas durante longos anos.

Nessa perspectiva, a aposentadoria, seja com suas vantagens seja com suas desvantagens, sempre sugere um reajustamento, por prenunciar o envelhecimento que traz consigo uma alteração do contato da pessoa com o mundo, o que requer, portanto, um processo de adaptação.

De acordo com Wagner (1989:4), a pessoa que envelhece precisa adaptar-se, porque estas alterações mexem intimamente com a possibilidade dela contatar com as demais, com os objetos e consigo própria, e ela deve reformular para si uma imagem que foi construída anteriormente. Ainda acompanhando pensamento da autora, a adaptação pode ser:

  • adequada, para aqueles cuja vida foi um processo de mudanças contínuas, de percepção de si e de seu ambiente, fatos que possibilitam a reformulação de valores para novas propostas de ambiente físico, social ou psicológico que vão existir na terceira idade;
  • relativa ou neurótica, quando as pessoas que envelhecem têm relativa consciência de que esta passagem está provocando rupturas em suas condições de vida e em suas relações internas e externas e desenvolvem mecanismos de defesa temporários para se reequilibrarem ou pedem ajuda para reorganizar e elaborar uma nova postura frente à sua realidade na velhice;
  • ou uma desadaptação, quando um indivíduo vivencia intensamente as alterações de suas condições orgânicas, podendo atemorizar-se frente à necessidade de fazer novas adaptações, sentindo-as como ameaçadoras à sua pessoa e, desta forma, deixando de mobilizar seus recursos de vida, sucumbindo ante o temor do futuro e do desconhecido, entregando-se precocemente ao fim. A forma mais radical de desadaptação é o suicídio, sendo comuns, também, somatizações e hipocondrias.

 

Entretanto, mudanças e adaptações são necessárias em todas as fases do curso da vida e não só na velhice. As formas de encará-las variam de acordo com os indivíduos – seres únicos e singulares – e decorrem da história pessoal, do estilo de vida e da prioridade de valores estabelecida ao longo da existência.

Levando em consideração todas as dificuldades que esta passagem acarreta, exigindo mudança e adaptação a uma nova realidade, quase sempre feitas sem ajuda externa, tem sido levantada pelos especialistas em gerontologia a necessidade da implantação, pelas instituições públicas e privadas, de programas de preparação para aposentadoria.

Muitos afastam a consciência do seu próprio envelhecimento, da finitude do curso de vida, pois os modelos de socialização na meia-idade e na velhice que eles presenciam são na maioria negativos. Enfrentar e tomar consciência é doloroso, mas poderia levá-los a modificar situações futuras, de modo a tornar seu porvir mais positivo e recompensador. A negação e o afastamento podem apenas adiar a conscientização e transformar em crise, o que poderia ter sido uma transição paulatina, bem trabalhada e aceita de novas fases do curso da vida (Wagner, 1989).

Por conseguinte, a proposta de programas para o tempo do pós-trabalho constitui-se em uma ação educativa que tem como objetivo ajudar os indivíduos a se prepararem melhor para usufruir o tempo livre da aposentadoria e redefinirem seu projeto de vida para a fase do envelhecimento.

A partir desse posicionamento, criaram-se novas categorias em oposição às antigas: terceira idade x velhice, aposentadoria passiva x aposentadoria inativa, gerontologia x ajuda social, animador x assistente social e os signos do envelhecimento e aposentadoria foram alterados: nova juventude, terceira idade, idade do lazer e outros.

Foram criadas, inclusive, subdivisões em faixas etárias para melhor definir e estudar os mais velhos: jovens idosos (60 a 69 anos), meio idosos (70 a 79 anos) e idosos velhos (acima de 80 anos), segundo Veras (1994). No Brasil, apenas os dois primeiros grupos são numericamente relevantes.

Mudaram, também, as concepções sobre o envelhecimento e as políticas específicas voltadas para aposentadoria, ou seja, não só a preocupação de resolver problemas econômicos, mas também proporcionar cuidados culturais e psicológicos para integrar socialmente uma população tida como marginalizada.

Essas novas categorias e esse movimento na direção de novas preocupações não são apenas obra de especialistas em velhice, uma vez que correspondem à demanda por novas formas de gestão da velhice, que resultaram de transformações nas relações entre gerações. Estão ligadas às mudanças no modo de produção social e na posição do grupo doméstico no interior dos mecanismos de reprodução. A inversão nas relações entre gerações no interior da família afetou de maneira distinta os idosos, em geral, e os aposentados, em particular, independente da classe social (Debert & Simões, 1994).

Assim, ao se relacionar envelhecimento e aposentadoria, é preciso não deixar de considerar processos reais como transformações ocorridas acerca do envelhecimento e nas relações entre gerações, principalmente com o aumento da expectativa de vida para os indivíduos e o conseqüente aumento do segmento idoso no conjunto da população, alterando o perfil demográfico das nações, entre elas o Brasil.

Ariès (apud Debert & Simões, 1994) mostra estas mudanças nos setores médios e burgueses da sociedade francesa, do final do século XIX até os dias atuais. Mudanças semelhantes ocorreram no Brasil, mesmo que mais tardiamente. A saber:

 

  • A geração nascida em meados do século XIX vivia a velhice como etapa de mudanças radicais. Era uma interrupção nas atividades e transformação no estilo de vida e de costumes, que seria mantida até a morte. Comportamento, maneira de vestir uniformizam as pessoas, o que tornava difícil precisar a idade delas. Começava aos 40/50 anos para as mulheres e aos 50/60 para os homens.

 

  • Os filhos dessa geração, nascidos nas duas últimas décadas do século XIX, formavam a geração progresso. Não negavam a morte, mas a velhice. Pensavam morreremos, mas jamais envelheceremos e que viver a velhice sem incômodos era apenas um ato de vontade. As benesses da vida moderna permitiam a continuidade de muitas atividades, por isso não viam razão para se aposentar, para abandonar posições de prestígio e poder.

 

  • A terceira geração, dos nascidos entre 1910 e 1920, passou a ver a aposentadoria como satisfação, mesmo que nessa situação sofresse inquietação. É a geração que aproveita a terceira idade. Desenvolveu-se um mercado voltado para ela e incrementou-se a formação de especialistas em velhice. Surgiram atividades que iam do lazer às Universidades Abertas. Colocou-se em circulação o dinheiro dos velhos e constituiram guetos, intensificando sua segregação. Esta, segundo Ariès, mais do que a pauperização, é a principal problemática do idoso hoje.

 

É preciso, portanto, perceber que processos mais gerais, num primeiro momento, fizeram da aposentadoria, por meio de sua associação com a velhice, um dos sinais mais visíveis da entrada na última etapa da vida e, num segundo momento, desvincularam-na do fim da vida, identificando-a como terceira idade, período privilegiado de lazer e novos aprendizados. Trata-se, pois, de diferentes formas de atribuir significado ao envelhecimento e à retirada da vida ativa e têm relação com a forma de gerir a relação entre velhice e sociedade.

Há de se perceber que esse movimento da sociedade em sua relação com as pessoas mais velhas tem um ou vários significados. De imediato, o que se pode pontuar é que a aposentadoria como “última etapa da vida” deixou de ter vínculos com a realidade concretamente posta. Os aposentados, em um movimento de negação, não estão mais morrendo rapidamente. Ao contrário, estão vivendo mais e mais, colocando necessidades que lhes são próprias à sociedade, demandando serviços, enfim, exigindo, conscientemente ou apenas pela força de sua presença, um espaço social, ou seja, um lugar na sociedade que, até então, não estava “preparada” para essa nova demanda.

Lygia Py (1996), mostra que aí estão os velhos. Mais e mais, cada vez mais exigindo com a força de sua presença

Nessa perspectiva, a própria Gerontologia necessitou rever seus postulados e acabou por voltar-se para uma nova linguagem e para novas propostas, buscando a inserção social dos aposentados e dos idosos. Propõe-se, hoje, que as pessoas mais velhas tenham vida ativa, em primeiro lugar, considerando-se que a atividade física e mental são condições de maior número de anos a serem vividos e de melhor qualidade de vida.

Transmutam-se, pois, as relações entre o público e o privado, entre as subjetividades concretas que necessitam de uma visibilidade pública, a partir da privacidade duradoura de suas existências.

Assim como a ciência, partindo de constatações empíricas, revê seus postulados e pensando-se que a relação é bidirecional – idoso X sociedade –, o que se pode constatar é que os aposentados, anteriormente relegados ao ostracismo, conformados com a ideologia de que após a aposentadoria (o tempo do pós-trabalho) a vida estaria chegando ao fim e seu lugar seria sempre marginal (saída do espaço público), vêm encontrando mecanismos de (re)inserção social. Uma dessas formas – e esta foi a hipótese desta dissertação – seria o trabalho voluntário. Com certeza, estes movimentos pessoais e sociais são transformações que retratam e poderiam tecer um novo cenário às relações entre idosos e sociedade.

Essas transformações podem estar contidas no quadro teórico elaborado por Habermas (apud Debert & Simões, 1994) para explicar as mudanças estruturais nas esferas pública e privada, a partir das ações comunicativas. É preciso entender que para Habermas, a ação comunicativa se desenvolve dentro do mundo da vida que constitui o saber pré-reflexivo dos participantes da comunicação. É no âmbito desse mundo da vida que se forma e se reproduz a cultura, a sociedade e as estruturas da personalidade. Assim, para Habermas (apud Silva, 1996:29):

 

O mundo da vida constitui uma totalidade que está presente na comunicação de modo pré-reflexivo de tal forma que é vivenciado aproblematicamente como uma certeza imediata que nos é tão familiar que nunca nos questionamos sobre ele. Esta totalidade é inabarcável e jamais pode ser transcendida pelos sujeitos. Daí porque o mundo da vida não pode ser problematizado em sua totalidade (…)

 

A reprodução do mundo da vida ocorre pela ação dos atores (cultura, sociedade e personalidade) por meio de um saber considerado válido e pela solidariedade entre os membros dos grupos. Isto se dá pela prática comunicativa cotidiana.

Diferente da reprodução simbólica que também reproduz as identidades e os sentimentos de pertencer dos sujeitos, a reprodução material da vida se dá pela ação teleológica dos indivíduos para realizar seus fins. Eis o nó górdio da questão: as ações comunicativas podem ser patológicas, quando movidas pela complexidade do mundo e do sistema social que acabam por colonizar o mundo da vida, substituindo os processos de entendimento pelo valor do dinheiro e do poder. Para Habermas, este processo se dá desde as sociedades primitivas e chega até nossos dias, na chamada sociedade da modernidade.

Ao substituir os espaços do mundo da vida, espaços de comunicação e entendimento, pelos espaços cedidos ao dinheiro e ao poder, as sociedades vão, gradativamente, criando subsistemas e permitindo que o mundo da vida esteja colonizado, ou seja, subjugado. No entanto, este movimento não é brusco ou impostitivo. Ele decorre de procedimentos consensuais alcançados discursiva e racionalmente, diríamos, ideologicamente.

 

Na medida em que o trabalhador assalariado começa a depender em toda sua existência do mercado, os processos anônimos de realização do capital penetram em seu mundo da vida e, ao transformar as relações sociais em puramente instrumentais, destroem a eticidade de uma intersubjetividade estabelecida comunicativamente (Habermas, 1988:456, vol. I).

 

Para tanto, desenvolvem-se poderosos meios de comunicação de massa capazes de dar uma nova codificação ao entendimento, estabelecer uma credibilidade acrítica e pela publicidade e todas as modernas técnicas de marketing, nos submeter a todos e, portanto, ideologicamente, colonizar o mundo da vida.

Desde as primeiras décadas do século passado, o Estado de Bem-Estar passou a gerenciar as crises cíclicas do capitalismo clássico, utilizando um aparelho estatal expandido para promover a universalização dos direitos sociais, com base em um crescimento capitalista regulado e introduzindo uma racionalização societal. Habermas o denomina, como vimos, de mundo da vida e o caracteriza por um contexto de ação socialmente reintegrado, onde os indivíduos atuam, manipulados pela ideologia e pelos meios de comunicação de massa, com base em um consenso intersubjetivo sobre normas, valores e fins. Estes contextos de ação são tanto relações familiares, de amigos e vizinhos, quanto debate livre e participação democrática na vida pública.

Segundo o autor, nesse contexto, a colonização do mundo da vida se dá quando os contextos de ação passam a ser sistêmicos, isto é, governados por lógica e métodos próprios, que resultam de ações cumulativas não-intencionais de muitos indivíduos e não dos propósitos e dos desejos de alguém em particular. Esta característica do capitalismo do bem-estar, segundo o autor, produziu efeitos ambivalentes. De um lado, trouxe ganhos de liberdade, com a instituição dos direitos sociais que limitaram o poder irrestrito do capital no mercado, pois os programas de previdência constituem avanço em relação ao paternalismo assistencialista pontual. Por outro lado, levantaram sérias ameaças quando:

 

  • o papel de consumidor passou a preponderar sobre o de trabalhador, na medida em que formas estatais de compensação da desigualdade caracterizam-se, sobretudo, por incentivos ao consumo (o papel de cidadão foi sendo substituído pelo de cliente da seguridade e/ou de comprador de serviços);

 

  • a institucionalização dos direitos sociais foi feita por meio de procedimentos burocráticos, da incorporação de especialistas e de auxílio em dinheiro (programas de assistência à saúde e à velhice, de educação etc.) que desqualificaram as necessidades e interesses das pessoas em favor dos imperativos da economia oficial, exigências da administração racional e ingerência dos saberes institucionalizados. Deixa de considerar que muitas formas de opressão e discriminação (por exemplo, gênero, preferência sexual, idade) têm suas raízes no mundo da vida.

 

Esta segunda crítica remete a Foucault (apud Debert & Simões, 1994) que, em sua teoria do micro-poder, considera as políticas sociais, inclusive os programas de cuidado à velhice, como veículos de vigilância e controle social, disciplinadores das populações, mais do que meios de promover melhoria nas condições de vida.

As hipóteses da colonização do mundo (Habermas) e da tecnologia do poder (Foucault) dão importância à emergência de conhecimentos especializados na formulação e implementação dos mecanismos de gestão e regulação dos problemas sociais. Todavia, como ressalta Giddens (apud Debert & Simões, 1994:47), deixam de considerar que o conhecimento técnico que orienta as instituições contemporâneas não segue por uma via de mão única, mas é continuamente reapropriado por pessoas leigas e aplicado rotineiramente no curso de suas atividade cotidianas. Existe, portanto, influência recíproca e multidirecional que não impede a reconstituição de discursos e de projetos individuais e coletivos que desafiam os consensos produzidos pelos agentes da gestão dos problemas sociais, incluindo-se neste enfoque a velhice e a aposentadoria.

Nessa perspectiva, as relações do idoso e do aposentado com a sociedade em que se inserem tanto podem estar contidas na colonização do mundo da vida como podem ser reapropriadas e, assim, reestruturadas. E que organização social é essa que fixa as relações cumulativas entre velhice e sociedade?

O Brasil, país capitalista em fase de desenvolvimento, apresenta sérios desequilíbrios sociais, pois nele coexistem regiões com características semelhantes às dos países desenvolvidos, e outras, cujas características são próprias dos países subdesenvolvidos[7].

A sociedade, em geral, inclusive o segmento idoso sofre as conseqüências dessa desordenada estrutura sócio-econômica, seja no meio urbano seja no rural.

Baseados em ensaio de Magalhães (1987), pode-se tecer algumas considerações sobre estas duas realidades na tentativa de situar o envelhecimento na realidade brasileira.

Os trabalhadores do meio rural são assalariados que se ocupam da lavoura, nos períodos de plantio e de colheita, da coleta e da agromineração, extração e cultivo vegetal e atividade agropastoril. Não se conhecem as dimensões deste contingente que abriga uma velhice excluída do desenvolvimento, hipodotada e biologicamente acelerada pelas características adversas da vida rural e pelos baixos salários. Vivem em locais onde predomina a economia de subsistência, alguns recebendo a pequena aposentadoria concedida pela previdência, grande parte vivendo da mendicância e da assistência religiosa e familiar e freqüentemente sob a proteção dos mais humildes asilos a que conseguem chegar (Magalhães, 1987:17).

No meio urbano, encontramos uma população marginal produzida por um modelo econômico que absorve mão-de-obra qualificada, pois, incorpora cada vez mais tecnologia avançada, ignorando contingentes migratórios formados por populações desqualificadas e migrantes, que buscam sua absorção nos grandes centros urbanos metropolitanos, na indústria, no comércio e na área de prestação de serviços. Nessa população existe uma velhice urbana, em aguda carência material, o que favorece o abandono, a delinqüência e a demência senis.

Quando as condições sócio-econômicas das populações de baixa renda e renda eventual possibilitam mínimos de regularidade e continuidade de vida social, formam-se agrupamentos sociais com grupos de trabalho, vida religiosa, familiar, grupos de vizinhança e lazer, relativamente estáveis.

Neste contexto, encontramos uma classe operária brasileira que, ao envelhecer, deparou-se com a perda da capacidade laborativa e com a impossibilidade de aumentar sua renda e seu patrimônio, dando início às lutas pela aposentadoria e por outros benefícios sociais à velhice, o que poderia ser uma forma de expressão identificada com o contraponto referido por Giddens.

Essas lutas identificaram o idoso com o velho trabalhador sem condições laborativas, carente, portanto, da proteção do Estado. Quando este trabalhador ou esta classe transforma a questão privada da velhice em questão pública, sob a responsabilidade de suas instituições oficiais, nada mais faz do que balizar o surgimento da questão social do idoso, redundando no advento do sistema previdenciário brasileiro e do benefício da aposentadoria, extensivo à grande maioria dos trabalhadores.

 

2.3.1 – A Previdência Social no Brasil

 

Acompanhando levantamento histórico sobre a Previdência Social no Brasil elaborado por Simões (1999), constata-se que o sistema previdenciário, fomentado na década de 20 e instituído na de 30, era voltado, sobretudo, para as classes assalariadas urbanas do setor privado. O sistema foi concebido como um seguro social, alicerçado em um vínculo contributivo firmado entre empregador, trabalhador e o Estado. Foi instituído em regime de capitalização, com investimento em empreendimentos rentáveis e garantidos pelo Estado, para constituir receita que assegurasse o crescimento dos benefícios e serviços. A previdência era, assim, um meio de captar a poupança dos assalariados urbanos e dirigi-la a investimentos em atividades fundamentais para o desenvolvimento da industrialização. O conjunto de leis estabelecidas define, então, uma forma de regular as relações entre capital e trabalho atrelada às necessidades da acumulação em bases industriais.

O marco inicial da previdência no país foi instituído pela promulgação da lei Elói Chaves[8], que criou a Caixa de Aposentadoria e Pensões (CAP) para os ferroviários, que constituíam uma categoria profissional do setor privado.

Atribui-se importância a essa lei por marcar uma guinada na postura liberal do Estado brasileiro diante dos problemas trabalhistas e sociais e porque seus princípios inspiraram grande parte do conjunto de normas previdenciárias criadas depois.

A visão predominante entre os pesquisadores do sistema de previdência assinala que desde o Brasil Colônia existiram tentativas de constituição de instituições de caráter previdenciário que foram, entretanto, inexpressivas, por terem sido ocasionais, isoladas, de âmbito limitado e de implementação discutível. E que em contraste, nas duas primeiras décadas do século XX, existiu um contexto político e social de mudanças que se tornaram claras a partir dos anos 30 e se caracterizaram por um padrão de interferência do Estado na regulação social, por meio de um conjunto de leis que se complementaram: trabalhistas, previdenciárias e sindicais. Este enfoque de intervenção do Estado no país foi acompanhado de uma tendência macro, existente em outros países, no que se refere ao desenvolvimento de políticas de bem-estar social.

Esta perspectiva dominante no estudo da previdência do país, que centraliza a intervenção governamental e concentra o olhar do Estado como o grande agente transformador da sociedade, que aparece como passiva em todo processo, altera-se quando são examinados as associações e os movimentos existentes no interior dela.

No período de 1870 a 1930, proliferou o número de trabalhadores envolvidos em associações mutuárias que ofereciam cobertura para os riscos de saúde, morte, invalidez, desemprego. Eram compostas pelas associações voluntárias de ajuda mútua, organizadas segundo origem étnica, profissão, local de trabalho e tinham caráter contributivo. Outra forma de associação mutuária eram as caixas beneficentes por empresa, de caráter compulsório, instituídas pelos empregadores e mantidas por descontos nos salários e multas por infração a regulamentos do trabalho. O declínio das sociedades de socorro mútuo, especialmente as mutuais por empresa, aconteceram depois da promulgação da lei Elói Chaves, o que, em princípio, parece justificar a desconsideração da importância do mutualismo, pelo ângulo da perspectiva dominante no estudo da previdência no Brasil. Segundo a ótica do autor, é mais sugestivo considerar que houve disputa pelo espaço ocupado pelas mutuais que, por sua natureza e objetivos, cumpriam, com maior ou menor eficácia, o papel previdenciário das CAPs.

Semelhanças significativas podem ser observadas entre a legislação das CAPs e as normas de organização das sociedades de socorro mútuo entre empresas. O sistema organizacional, a compulsoriedade, o objetivo da CAP dos ferroviários, modelo das demais, já existiam em boa parte, nas mutuais das ferrovias e como ocorria nelas, o controle permanecia nas mãos dos representantes dos empregadores que eram em maior número do que o de empregados. Entretanto, o pagamento de seguros por velhice, invalidez e doença sugere ter se tornado um encargo pesado para as mutuais que eram repassados para os recursos das empresas. Desta forma, aposentadorias e pensões ocorriam por conta das empresas e as mutuais se responsabilizavam pelos serviços médicos e farmacêuticos, auxílio a doenças e aos funerais. Essa nova legislação beneficiou empresários por ter fixado o valor de 1% sobre a renda bruta anual da ferrovia para o gasto com as despesas de previdência e assistência, pois, antes disso, eles despendiam somas cada vez maiores com os inativos.

Vários aspectos fazem com que as CAPs se tornem um modelo para as instituições de previdência futuras: o esquema de financiamento passa a ser tripartite (empregado, empregador e Estado); a administração é feita por colegiado composto por representantes dos empregados, empregadores sem ingerência do Estado; e a finalidade principal é oferecer benefícios, notadamente, aposentadoria e pensões. As CAPs eram regulamentadas por contrato privado entre empresa e seus empregados, que teriam seu sustento, quando inativos, em troca de parte de sua renda no presente. Os contratos representavam empregados de uma empresa, não se fundando numa concepção de cidadania possível de ser estendida a todos os membros da comunidade nacional participante do processo produtivo. Elas eram sociedades civis que representavam uma modalidade privada de organização previdenciária.

A partir da década de 30, dispositivos legais vão paulatinamente substituindo o contrato de seguro das CAPs, passando a previdência para a égide do Estado, com a criação dos Institutos de Aposentadorias e Pensões – IAPs – que instauraram o vínculo por categoria profissional urbana de abrangência nacional independentes das empresas. As categorias abarcadas pelos IAPs também eram as de maior poder aquisitivo. Sua criação configurou-se como o resultado de conflitos e negociações entre as categorias profissionais e o Estado. A administração era feita por um conselho de representantes de empresas e empregadores passando a existir a figura do presidente, nomeado pelo Presidente da República. Estavam, assim, submetidos ao poder e à influência da burocracia do Estado, representando uma modalidade estatal de organização da previdência.

O financiamento dos IAPs continuou sendo tripartite, destinando-se principalmente ao fornecimento de benefícios e, secundariamente, de assistência médica. Ampliaram a cobertura previdenciária às classes assalariadas urbanas, segmentadas por categorias profissionais.

Simões (1999) ressalta que o modelo IAP foi fomentado no mesmo período em que o ministério do Trabalho, Indústria e Comércio iniciava o controle estatal sobre a organização dos sindicatos operários, estabelecendo a obrigatoriedade do reconhecimento oficial e legal dos sindicatos e a unicidade sindical. A legislação previdenciária e sindical são frutos de um mesmo projeto. Entretanto, os Institutos foram organizados como entidades centralizadas nacionalmente e os sindicatos, enquanto entidades municipais. Assim, a ação estatal buscou na previdência uma unificação horizontal e nacional, em contraste com a organização vertical e local dos sindicatos.

No período de 1930 a 1964, a questão previdenciária adquire importância para os sindicatos por estar imbricada com as relações do sistema de política social e a premente necessidade de regulação estatal dos conflitos gestados na produção e na acumulação capitalista no país, com base no conceito de cidadania regulada.

Segundo Santos (1987:68, 69, apud Simões, 1999), a cidadania regulada é uma concepção de cidadania embutida no sistema de estratificação ocupacional, que classifica e limita os direitos da cidadania aos direitos da ocupação, definidos por lei. O sindicato público, a exigência da carteira profissional e a regulação das profissões fornecem o molde, pelo qual o Estado reestruturou a esfera da produção, sancionou as desigualdades decorrentes da política previdenciária estatal e condicionou o desenvolvimento de conflito político e intraburocrático. Estes conflitos criavam as condições objetivas para que diversos setores sociais buscassem seu reconhecimento legal na condição de categorias ocupacionais e profissionais, para entrar na arena da cidadania, por um lado. Por outro, os setores que já estavam incorporados buscavam melhorar sua posição na escala da distribuição dos recursos disponíveis. Isto se fazia na luta pela gestão tripartite dos órgãos previdenciários e as burocracias sindicais estabelecidas lutavam para manter as condições de controle dos IAPs mais poderosos para garantir mais e melhores benefícios e serviços previdenciários para as categorias ocupacionais que representavam. Assim, as lideranças mantinham-se como clientelas específicas das direções do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio e comprometiam-se com o sistema estratificado de cidadania.

Em 1966, houve um movimento de homogeneização de benefícios e de universalização de direitos com a unificação sob um único Instituto Nacional de Previdência Social – INPS (hoje INSS). Esta unificação, que não envolveu os servidores públicos, rompeu com a organização de molde corporativista, que dividia trabalhadores da ativa e aposentados nas diferentes categorias profissionais e concedia benefícios a uns segmentos em detrimentos de outros, conforme os mecanismos da cidadania regulada.

Esta unificação abalou a capacidade de ingerência dos sindicatos na gestão dos recursos financeiros e nos empregos concentrados na Previdência. Perderam, assim, uma fonte de poder e tiveram enfraquecido o poder de pressão política em favor da manutenção e ampliação de benefícios e serviços previdenciários, que passaram a ter lugar secundário na luta sindical. Os sindicatos concentraram sua atuação nos interesses dos ativos, deixando aposentados e pensionistas em posição secundária, sem sustentação política, sendo obrigados a encontrar outras formas de atuação.

O regime previdenciário pós-unificação passou a ser de capitalização simples, transferindo a renda dos ativos para os inativos, homogeneizou benefícios, universalizou direitos aos segurados assalariados urbanos, formalmente inseridos no mercado de trabalho. Expandiu-se nos anos 70, incorporando outras categorias (autônomos, empregados domésticos e parte dos trabalhadores rurais). As contribuições previdenciárias passaram a bancar o atendimento de urgência a toda a população. Estas iniciativas de caráter universalizante não impediam traços de discriminação no sistema, pois os cálculos de aposentadorias favoreciam aquelas por tempo de serviço e as especiais. Os trabalhadores rurais não tinham acesso ao abono permanência em serviço e à aposentadoria por tempo de serviço.

A Previdência Social não conseguiu assegurar a proteção dos direitos aos segurados diante dos riscos de declínio, um de seus objetivos básicos enquanto seguro social assentado em bases contratuais individuais, mesmo quando organizada coletivamente, por várias razões:

 

  • o financiamento do sistema depende da contribuição sobre a folha de salário, tornando-o vulnerável às crises econômicas, ao desemprego, à informalização da economia, aos baixos salários e à concentração de renda;
  • as tentativas do Governo de redefinir a alíquota esbarram na base limitada da economia formal, na excessiva concentração das contribuições nos níveis inferiores da escala salarial, na tributação insuficiente de segmentos de maior potencial contributivo e na sonegação;
  • a incorporação à cobertura previdenciária de grandes massas não contribuintes;
  • a longevidade alcançada pelos segurados nas últimas décadas, que possibilita que vivam mais e recebam os proventos da aposentadoria por um tempo igual ou superior ao que contribuíram, sem que isso pudesse ter sido previsto nos planos atuariais iniciais.

 

Essa base contributiva estreita da Previdência Social achata o valor dos benefícios, deteriora a qualidade dos serviços e reforça a tendência assistencializante da política social.

A centralização política e financeira das ações governamentais no campo da Previdência Social, em nível federal, não assegurou eficácia administrativa, não preveniu sonegações, não instituiu mecanismos fiscalizadores eficientes para fraudes e débitos, não evitou a penetração de interesses privados, nem a prática clientelista e extinguiu a co-participação das empresas e trabalhadores na sua gestão.

Em 1988, a nova Constituição introduziu o conceito de seguridade social como um conjunto de iniciativas públicas e privadas destinado a assegurar direitos de saúde, previdência e assistência social. Esta concepção abriu a possibilidade de universalizar o acesso para cidadãos não contribuintes. Além disso, implicou nos seguintes avanços:

 

Irredutibilidade do valor dos benefícios; seletividade e distributividade na prestação de benefícios e serviços; eqüidade na forma de participação do custeio; diversidade da base de financiamento; participação da comunidade, em especial trabalhadores, empresários e aposentados; e caráter democrático e descentralizado da gestão administrativa (Simões, 1999:106).

 

A seguridade instaurada na década de 80, ao menos na letra, coincidiu com o fim da época áurea dos Estados de Bem-Estar das democracias avançadas e projetou uma crise de legitimidade em relação à proteção social. Este representou para a América Latina e o Brasil um período de crises e modificações contextualizadas em processo de democratização e de injunções de ajuste econômico. Os gastos sociais subordinaram-se à gestão econômica, tendo sido as reformas dos sistemas de aposentadoria colocadas como uma das condições importantes para o ajuste do setor público, acompanhada de nova gestão de programas sociais, como a privatização, a descentralização e o reforço de programas focalizados e dirigidos aos mais pobres (Simões, 1999:108).

O histórico apresentado por Simões (1999), no entanto, remete à reprodução recorrente de um sistema dual, conforme apontado por Cohn (1995, apud Simões): de um lado a cidadania social se dá pelo vínculo empregatício e pela capacidade contributiva dos trabalhadores; por outro, os demais ficam excluídos e relegados às possibilidades intermitentes da filantropia e do assistencialismo, espaços esses nem sempre comprometidos com os direitos sociais legais.

As propostas de reforma da Previdência Social do atual governo de tendência neoliberal deram mais ênfase ao tempo de contribuição e à elevação da idade mínima do trabalhador para aposentadoria. Além disso, permitiram uma sobreposição de programas tipo Comunidade Solidária com a implementação da LOAS – Lei Orgânica da Assistência Social, o que, sem nenhuma dúvida, reforça o sistema dual a que nos referimos.

A manutenção dos direitos previdenciários, entretanto, está em questão não só no Brasil, mas no mundo todo, porque o crescimento da população de velhos, acrescido da população de crianças e inválidos que compõem a população dependente, é proporcionalmente maior que a população produtiva. Isto ocasiona defasagem entre recursos e necessidades, tornando excessivos os encargos para a população produtiva, apontando a necessidade de estudos que indiquem novas fontes de sustentação ou uma reestrutura do sistema previdenciário.

No Brasil, os benefícios pagos pela Previdência aos aposentados e pensionistas mostram-se insuficientes, na maioria das vezes, para assegurar o atendimento às necessidades humanas essenciais, tendo se transformado em uma proteção básica, compulsória e limitada.

Não se pode esquecer que este país tem uma das piores distribuição de renda do mundo e que, com certeza, a maioria dos trabalhadores aposentados se encontra em sérias dificuldades financeiras, acarretando outras dificuldades físicas, sociais e emocionais.

Assim, o homem e a mulher, sobretudo a que trabalha fora, quando se desligam do mercado de trabalho e da função protetora familiar, são atingidos por um processo que estimula o isolamento, porque a estrutura de sociabilidade está centrada no trabalho e na família e secundariamente nas relações de vizinhança e de lazer. Alguns poucos indivíduos conseguem institucionalizar os papéis exercidos espontaneamente em grupos secundários para compensar estas perdas. Ainda de acordo com Magalhães (1987: 20):

 

As elites proprietárias de prestígio, riqueza e poder, podem instrumentalizar o valor da herança e da sucessão como valores preservadores da autoridade e do respeito. As condições objetivas de vida favorecem, sem dúvida, a preservação das estruturas de sociabilidade e a defesa de autonomia vital, assim como a obter as condições de apoio para a realização de tarefas essenciais ou suplementares para a sobrevivência, quando progride a perda da autonomia biológica.

 

Uma reflexão sobre as considerações expostas acima permite afirmar que coexistem, na sociedade brasileira, uma velhice hipodotada, subdesenvolvida, precocemente envelhecida, oriunda das camadas populares marginais do campo e da cidade, que equivale à dos países subdesenvolvidos, com uma velhice bem dotada, localizada no âmbito das elites e que tem condições equivalentes à dos países desenvolvidos.

Na busca de ampliar os limites impostos aos segurados, quando do usufruto dos benefícios previdenciários, algumas empresas públicas e privadas tomaram a iniciativa de instituir a Previdência Complementar, administrada por instituições privadas e mantida pela contribuição do empregador e do empregado, regulada e fiscalizada pelo Governo Federal, por meio do Ministério da Previdência Social e pelo Conselho de Curadores, com representantes dos patrões e empregados.

Tendo como principais finalidades: a) suplementar o valor dos benefícios concedidos pela Previdência Governamental, evitando uma queda drástica no padrão de vida dos seus associados, quando da ocorrência dos riscos previstos e b) promover a renovação do quadro de pessoal, também este sistema tem passado por reestruturação para adequar o custeio dos planos ao novo perfil etário dos segurados, cuja expectativa de vida é maior do que aquela existente no momento em que ingressaram nessa modalidade previdenciária, gerando despesas superiores às previstas.

Apesar das condições objetivas que determinam formas diferenciadas de envelhecimento segundo a classe social, é lícito afirmar que, de um modo geral e mais amplo, a sociedade contemporânea tem produzido a questão social da velhice e de sua exclusão do processo produtivo, pela drástica redução de participação social de pessoas mais velhas, bem como pelo pequeno significado atribuído aos papéis que ainda lhe são destinados.

Atingido de forma contundente pela intensidade das mudanças decorrentes do rito de passagem de trabalhador para aposentado, o idoso se afasta cada vez mais do contexto social, assumindo o isolamento que lhe é imposto pela sociedade. Configura-se, assim, uma questão subjacente à aposentadoria no sistema capitalista, constituindo-se em veio aberto para o debate, para os estudiosos e para a produção de conhecimentos.

Birman (1995), entretanto, acredita que há poucos anos o Brasil começou um processo de reviravolta importante na cultura sobre a velhice, que adquire, com isso, maior visibilidade, recebendo, então, um olhar de reconhecimento social. Segundo ele, esta mudança de valores se deve não só à culpabilidade por séculos de descaso e desprezo, mas também ao processo de transição demográfica, no qual existe um aumento progressivo da população mais velha e uma diminuição relativa da mais jovem, como já referido por outros autores. O segmento idoso passa a exigir novas e inusitadas modalidades de preocupações e de interesses até então inexistentes, aumentando a responsabilidade social sobre essa população. É possível que a velhice acabe por receber um ‘reconhecimento simbólico’, referente ao seu lugar social que não lhe foi atribuído nos últimos 2000 anos (Birman, 1995:38).

Caminhando nessa perspectiva de transformação, muitos velhos e aposentados têm rompido com estereótipos impostos pela sociedade competitiva, que os relega ao ostracismo ou lhes atribui limitações que realmente não têm, e tornam-se socialmente ativos, segundo aponta Lopes (1990).

Eis a razão deste trabalho eleger, como universo de pesquisa, aqueles aposentados que, movidos por razões que se pretende identificar, dedicam-se a trabalhos sociais de forma voluntária, isto é, sem nenhuma remuneração, mantendo-se ativos e participantes, provavelmente na tentativa de transformar preconceitos que associam idades mais avançadas com incapacidades, marginalização e solidão. São homens e mulheres que colocam seu tempo, seu trabalho e seus talentos a serviço do próximo e da comunidade.

 

 

2.4 – O TRABALHO VOLUNTÁRIO

 

Na sociedade brasileira, o trabalho voluntário, as ações voluntárias e a concepção de voluntariado não têm sido temas relevantes de estudos ou debates. Identificados, historicamente, com manifestações de origem religiosa e com a atuação de mulheres abastadas e benemerentes, só ganharam visibilidade nas últimas décadas, em razão das lutas pelos direitos humanos, civis e sociais e começaram a ser vistos por alguns setores da sociedade como possibilidade de ação cívica e de ação voltada para o bem público[9].

O voluntariado, entretanto, é um produto histórico que vem se desenvolvendo ao longo do tempo e está em permanente evolução. De acordo com Blasco e Parrella (1993:1), ele tem sido permeado pela generosidade e a vontade de justiça, unidas a um sentimento de responsabilidade pessoal pelo seu esforço ideológico e comunitário.

Estudo dessas autoras sobre a evolução do pensamento e ação voluntários em seu sentido moderno, deixando à parte as manifestações de fundo religioso que sempre existiram, aponta quatro momentos.

O primeiro teve sua origem na idéia de benemerência existente no século XIX, formalizando seu nascimento no século XX. Naquela época, os problemas sociais eram considerados desvios da ordem dominante e atribuídos a indivíduos em desgraça. Entendia-se que os destituídos não haviam tido a oportunidade de integrar-se à sociedade e necessitavam da caridade organizada para alterar sua situação. Assim, as famílias abastadas concretizavam suas boas intenções, distribuindo seus excedentes aos necessitados, fazendo isso conforme suas convicções e ações, salientando as vantagens da integração plena dentro de um modelo de vida considerado normal.

Nesse contexto social paternalista, rigoroso, excludente, o voluntariado da benemerência, era incipiente, moralizador, feminino e baseado em sólidos, rigorosos e imutáveis princípios.

O Estado de Bem-Estar do pós-guerra propugnou pela solução das questões sociais pelo Estado, por meio de políticas de assistência pública completa, financiadas pela contribuição dos setores produtivos. Esses recursos eram distribuídos entre os necessitados. Era uma resposta previdenciária à insegurança dos trabalhadores e uma opção de controle social, uma vez que se esperava impedir ou esvaziar protestos de dimensões incontroláveis numa sociedade recém-saída de um período de guerras.

Nesse momento, foram desenvolvidas políticas interessantes, entretanto, elas favoreceram o individualismo em detrimento de iniciativas voluntárias e associativas.

A queda do Estado de Bem-Estar, no início da década de 70, trouxe de volta a insegurança. A vulnerabilidade social dos setores excluídos aumentou. O voluntariado teve que se esforçar para vencer a inércia que se espalhara e reagir ao novo cenário.

A década de 60 foi marcada por irreversíveis transformações de comportamento, politizando e polemizando as relações, inclusive as pessoais. Com a queda do Estado de Bem-Estar, o movimento voluntário viu-se questionado politicamente e sem direção clara.

As parcelas mais ativas do movimento se identificaram com a atividade político-partidária de debate ideológico entre modelos de pensamento socialista e capitalista. Foi um modo de abrir espaço para canalizar suas potencialidades. Nesse contexto, o voluntariado foi influenciado por uma corrente contestatória e libertária, presente em quase todos os movimentos sociais de origem popular na época.

Surgiu, então, um voluntariado combativo e comprometido com a transformação radical da sociedade, o que fez com que, muitas vezes, se distanciasse de seus ideais mais básicos. O movimento espontâneo parecia desorientado; era preferencialmente jovem e sem perspectiva de consolidação institucional que lhe devolvesse a identidade perdida. Era um movimento autogestionário que não concordava em aliar-se nem ao poder público nem ao privado. Sua ação preconizava uma mudança da ordem social e situava-se, muitas vezes, apenas no âmbito do protesto.

Em meados dos anos 80, ocorre a democratização da América Latina e dos países do Terceiro Mundo, embasada no neoliberalismo como uma concepção política, econômica e cultural no Ocidente. Os Estados enxugaram suas políticas, ajustaram seus orçamentos e diminuíram aos poucos os financiamentos de assistência social (Estado mínimo). Houve uma descentralização, derivando-se para instâncias de menor jurisdição política as obrigações e nem sempre os recursos.

Em consequência, inúmeras Organizações Não-Governamentais – ONGs – apareceram ao longo dessa década, como resultado da participação ativa da sociedade nas questões sociais, caracterizando uma atuação voluntária de ação social (Corrullón, s/d).

Floresceu, então, um voluntariado que preencheu as lacunas deixadas pelo Estado e que se esforçou por diminuir as necessidades daqueles que ficaram à margem do sistema ou perversamente inseridos, mas sem questionar essa conseqüência da economia de mercado, foco norteador das posturas neoliberais.

Esse voluntariado obteve muitas conquistas, empreendeu ações assistenciais de atenção primária, agiu para diminuir efeitos emergenciais; entretanto, mais uma vez, não atuou sobre as causas.

A década de 90 abriu a possibilidade de pensar uma nova forma de ação voluntária com um modelo de voluntariado que superasse o anterior e considerasse o voluntário como um cidadão, que motivado por valores de participação e solidariedade, doa tempo, trabalho e talento de maneira espontânea e não remunerada em causas de interesse social e comunitário (Blasco e Parrella, 1993: 3)[10].

Esse modelo assenta-se no princípio da aproximação vital, ou seja: a aproximação entre a instituição, os recursos humanos e os serviços é que propiciará a solução e a maior participação das pessoas na busca de soluções.

De acordo com Landim e Scalon (2000), no Brasil, no final da década de 90 começa a surgir uma discussão sobre trabalho voluntário e doação individual. Um debate quase nada acadêmico, desenvolvido em campo fronteiriço ao das instituições privadas de ação social, de algumas agências governamentais e de grupos do setor privado, vem criando o novo campo do investimento social empresarial. As práticas reconhecidas como voluntariado e doações sempre existiram na sociedade brasileira, como foi referido, mas raramente colocaram como questão, da maneira como está sendo construída agora e levada a público, como comprovam matérias na mídia, campanha de doações, programas de capacitação de voluntários, promoção de voluntariado empresarial entre funcionários.

O trabalho voluntário tem sido reconhecido por instâncias oficiais que, além de colocá-lo no espaço público como questão, legitimaram-no por meio da sansão da lei do voluntariado que o define como:

 

… a atividade não remunerada, prestada por pessoa física à entidade pública de qualquer natureza ou instituição privada sem fins lucrativos, que tenha objetivos cívicos, culturais, educacionais, científicos, recreativos ou de assistência social, inclusive, mutualidade.(Lei nº 9.608, Diário Oficial da União, 18/02/98).

 

Paralelamente o Programa Comunidade Solidária, presidido pela esposa do Presidente da República, lança o Programa Voluntários (nov/97), acompanhado de Seminários Regionais de Promoção do Voluntariado e da criação de Centros de Referência do Voluntariado em diversas regiões do país, com os objetivos de capacitação, construção da base de dados, mediação entre instituições e candidatos ao voluntariado.

Deve ser lembrado que a atuação de órgãos governamentais e de primeiras-damas na promoção do voluntariado não é nova, embora seja pouco ou nada estudada e relembrada nos tempos atuais.

O Programa Voluntários visa à implantação de uma cultura moderna do voluntariado, preocupada principalmente com a eficiência dos serviços e a qualificação dos voluntários e instituições, embora não exclua práticas e disposições pré-existentes, o programa tem como missão contribuir para a promoção, valorização e qualificação do trabalho voluntário no Brasil, sendo que a nova visão do trabalho voluntário não tem nada a ver com esmola nem ocupação com quem sofre de tédio. Preocupa-se com cidadania participativa, eficiência e resultados. (Documento do Comunidade Solidária, s/d, apud Landim e Scalon, 2000).

Estas concepções têm sido produzidas e disseminadas por canais internacionais, compostos por fundações, sobretudo norte-americanas, ONGs e organismos das Nações Unidas.

Assim, contemporaneamente, poder-se-ia afirmar que a questão social não passa pela responsabilidade exclusiva do Estado, mas é uma co-responsabilidade dele e da sociedade civil, incluindo ONGs, instituições, fundações, empresas, o que tem sido referido como Terceiro Setor[11].

Segundo Corrullón (s/d), vive-se um momento em que o trabalho social passa a ser debatido como peça chave nesta abordagem de intervenção nos problemas sociais, tanto como possibilidade individual de ação participativa nos problemas da sociedade, quanto ação privada para o bem público. Nessa realidade, o voluntariado assume papel decisivo porque participar significa ter a capacidade de assumir responsabilidades e investir tempo, trabalho e dedicação na solução de problemas e nas exigências comunitárias e solidárias (Blasco & Parrella, 1993:3).

As razões que levam as pessoas a serem voluntárias, ainda conforme Corrullón (s/d), podem ser sistematizadas em duas grandes vertentes. A primeira é uma motivação pessoal, que atende a uma inquietação interior, que leva a uma ação diante de alguma situação de dificuldade, de sofrimento. Esse impulso solidário está alicerçado em valores espirituais e culturais, manifestando-se principalmente nos religiosos praticantes. A história das religiões mostra que todas têm em seus fundamentos a caridade, a responsabilidade e a ajuda ao próximo. O espiritismo, o judaísmo, o islamismo, o cristianismo, as religiões africanas valorizam o espírito de comunidade e a ajuda ao próximo.

A segunda vertente é de natureza social. É o olhar crítico de um voluntário em relação à realidade que, ao se deparar com algo que o incomoda, com uma injustiça, engaja-se e decide atuar no enfrentamento dos problemas.

Essa reflexão levou a autora a pensar num possível paralelo ou convergência entre militância e voluntariado, percebendo algo em comum: ambos partem do emocional. O voluntário é movido pela compaixão e o militante pela indignação. Neste agir a partir da emoção, o militante tem uma visão crítica da sociedade, tenta atacar as causas estruturais no sentido de transformá-las. O voluntário realiza uma atividade que pode parecer menos relevante para a mudança da sociedade, mas ele crê poder alterar alguma coisa e fazer, assim, a diferença, funcionando isto como fonte de realimentação da motivação.

No entanto, Landim e Scalon (2000) consideram que no Brasil, as idéias de trabalho voluntário e doações podem remeter ao campo das práticas abaixo da linha d’água, das formas de sociabilidade marcadas pela pessoalização, dos laços de solidariedade e variadas redes comunicativas e de reciprocidade, às quais correspondem obrigações diversas – como se sabe terrenos, por aqui significativos na composição do tecido social e particularmente frágeis quanto a componentes cívicos.

As propostas modernizadoras de doação e voluntariado remetem ao universo das organizações privadas voltadas para a ação social, parte dele recente e permeado pelos valores e práticas relacionados a igualdade e cidadania, que vem representando papéis significativos no cenário político do país. É quando, no jogo de enquadramento, se aproxima das práticas socialmente definidas como militância, que comumente evoca ação politizada e contestatória no espaço público. Busca-se pontos comuns entre voluntariado e militância, referindo-se à participação nos movimentos dos anos 70 e 80 como trabalho voluntário ou trabalho alternativo, tentando dar à palavra um sentido menos asséptico, bem como contrapor-se às suas conotações de substituto da ação estatal, que não questiona as estruturas sociais (cf. Thompson e Toro, 2000, apud Landim e Scalon, 2000:14).

Retomando Corrullón, a motivação emocional inicial, se não for sustentada pela conscientização dos problemas e de suas causas, tende ao enfraquecimento, ao cansaço e leva o voluntário à desistência.

As pessoas que agem voluntariamente, em função de uma causa ou de um ser humano, passam elas próprias por uma transformação e, ao se transformarem, provocam uma mudança no entorno, na instituição, na comunidade. A ação voluntária requer reciprocidade: não é orientada simplesmente para assistência do outro, mas para o crescimento de ambos, embora suas contribuições sejam diferentes (Roca, apud Blasco e Parrella, 1993:3). No desenvolvimento desse trabalho, estabelece-se, com freqüência, um ambiente de confiança que favorece o espírito de companheirismo muito positivo numa época de mudanças rápidas e profundas que dissipam toda certeza, não criam oportunidade de vida em conjunto, não propiciam espaço para debate de assuntos de interesses comuns nem para o exercício da deliberação. Pode, o voluntariado, ajudar a romper o encapsulamento e a crise de sociabilidade características da sociedade moderna.

A ONU – Organização das Nações Unidas – decretou que 2001 é o Ano Internacional dos Voluntários. Em todo o mundo estão sendo realizadas mobilizações para que as pessoas e a sociedade em geral despertem para o trabalho voluntário. No Brasil, as instituições ligadas à promoção do voluntariado formaram um Comitê Nacional para elaborar um calendário de eventos e ações junto ao governo.

O trabalho voluntário tem atraído todas as gerações, mas é cada vez maior o envolvimento de pessoas que estão na terceira fase da vida, geralmente já aposentadas. Como já referido, o afastamento do trabalho e a diminuição das obrigações familiares fazem com que possam dispor de mais tempo livre, o que, em contrapartida, deixá-las-ia mais sujeitas aos sentimentos de solidão e inutilidade e ao isolamento.

À guisa de complementação, porém, é importante referir também que, hoje, no cenário geral das políticas e das práticas referentes ao voluntariado, emerge um novo ator, cuja forte presença e cujo polêmico desempenho merecem uma referência especial. Trata-se do já apontado Terceiro Setor.

 

2 4.1 – O Terceiro Setor

 

Em estudo sobre o Terceiro Setor, Fernandes (1997) assinala que no Brasil e na América Latina é mais abrangente falar em sociedade civil e suas organizações, cujo conceito vem evoluindo a partir do século XVIII. Assim, Wolfe (1992, apud Fernandes, 1997:27) define o Terceiro Setor.

 

Fala-se hoje das organizações da sociedade civil (OSCs) como um conjunto que, por suas características, distingue-se não apenas do Estado mas também do mercado. Recuperada do contexto das lutas pela democratização, a idéia de sociedade civil serviu para destacar um espaço próprio, não governamental, de participação nas causas coletivas. Nela e por ela, indivíduos e instituições exerciam sua cidadania, de forma direta e autônoma. Estar na sociedade civil implicaria um sentido de pertença cidadã, com seus direitos e deveres, num plano simbólico que é logicamente anterior ao obtido pelo pertencimento político, dado pela mediação dos órgãos do governo. Marcando um espaço de integração cidadã, a sociedade civil distingue-se, pois, do Estado; mas, caracterizando-se pela promoção de interesses coletivos, diferencia-se também da lógica do mercado. Forma, por assim dizer, um “Terceiro Setor”.

 

Por conseguinte, o Terceiro Setor é composto de organizações sem fins lucrativos, criadas e mantidas em grande parte pelos esforços do voluntariado, num âmbito privado, continuando as práticas tradicionais da caridade, da filantropia e do mecenato, expandindo seu sentido, graças à incorporação do conceito de cidadania e suas múltiplas manifestações na sociedade civil.

Segundo esse autor, esta definição combina palavras e contextos simbólicos diversos, contendo uma história de divergências mútuas. Filantropia contrapunha-se à caridade, assim como cidadania a mecenato. As diferenças ainda existem, mas estão em processo de mutação: a contradição radical cede lugar ao jogo instável de oposições e complementaridades. Não se confundem, mas também não se separam totalmente. Alternam situações de conflito, cooperação e indiferença. Entre aparentes jogos de acordos, definem-se e redefinem-se os parâmetros para o êxito das práticas neoliberais.

Apesar do Terceiro Setor abarcar, de maneira um tanto superficial e imprecisa, fenômenos mais ou menos relacionados, como filantropia e caridade, organizações não-governamentais, organizações sem fins lucrativos, entidades beneficentes, fundações sociais, organizações da sociedade civil, organizações sociais de interesse público, Fernandes (1997) indica quatro razões para agrupá-las no mesmo setor, considerando seus programas e plataformas de natureza prática. A saber:

 

  • Faz contraponto às ações de governo – evidencia a idéia de que bens e serviços públicos não resultam apenas de ações do Estado, mas de múltiplas ações da iniciativa privada. Não há serviço público que não possa nem esteja sendo notoriamente trabalhado pelas iniciativas particulares e pelas organizações sem fins lucrativos. Identificando-as pela mesma nomenclatura, pode-se avaliar sua grandeza e constatar-se que são co-extensivas ao Estado. Pela Constituição de 1998, a manutenção da ordem é direito e responsabilidade de todos. A internalização e a prática desta idéia têm implicações profundas para a cultura cívica do país, podendo se desdobrar em novas formas de conduzir as políticas públicas.

 

  • Faz contraponto às ações do mercado – amplia, dá nova forma e visibilidade ao campo dos interesses coletivos para a iniciativa individual. Tradicionalmente, os indivíduos eram mobilizados para contribuir para o bem comum pelas instituições religiosas e pela política nas disputas eleitorais (pela militância individual ou pela doação de recursos). Nestes casos, a participação individual era sempre mediada pelas megainstituições (Igreja e Estado), que instituíam os sentidos e os instrumentos dos interesses coletivos. Este princípio, quando associado à noção de cidadania, expande-se e rompe os limites entre o sagrado e o profano, entre consciência pessoal e mandato das instituições, entre público e privado. Questiona indivíduos e empresas sobre a sua participação direta e indireta na produção ou destruição de bens e serviços de interesse comum. Neste aspecto, o trabalho voluntário passa a ser uma extensão do mercado, pois não há interesse coletivo que não possa ser tomado como uma demanda do mercado e que, em princípio, não possa se tornar em investimento lucrativo. Educação, saúde, geração de renda, tecnologia, meio ambiente etc. constituem-se em fontes de negócios.

 

  • Empresta um sentido maior aos elementos que o compõem – rompe com a dicotomia e a oposição Estado X mercado, existente anteriormente, realçando o valor político e econômico das ações voluntárias sem fins lucrativos. Dignifica, nesse sentido, os valores relativos às ações de caridade, as expressões de solidariedade social, menosprezadas e em desuso no mundo competitivo; legitima ações de grupos de interesses particulares, antes considerados subversivos. Estimula a participação cidadã como meio de consolidar as instituições e o desenvolvimento da filantropia empresarial, considerada como investimento de longo prazo e indicadora de qualidade empresarial. Propaga a idéia do voluntariado como expressão da existência cidadã, acessível a todos e a cada um, indispensável à resolução dos problemas de interesse comum (Fernandes, 1997:31). Atribui, com isso, um sentido fundamental ao conjunto de iniciativas do Terceiro Setor, semelhante ao que se atribui ao mercado e ao Estado.

 

  • Projeta uma visão integrada da vida pública – a existência do Terceiro Setor enfatiza a complementaridade que existe entre as ações públicas e privadas. É composto por uma multiplicidade de indivíduos, grupos e instituições com intenções e valores próprios e diferenciados entre si, não sendo capaz, por isso, de regulamentar-se segundo normas de aceitação universal. Precisa do sistema legal, instituído e mantido pelo Estado, para delimitar as ações voluntárias consideradas legítimas. Direcionado para objetivo coletivo, tem interesse que o Estado seja o mais eficaz possível na execução dos serviços públicos. A cobrança de ações do governo é um trabalho típico das ONGs.

 

Independente de todos esses movimentos societais, cuja ação coletiva e integrada está em pleno debate, esta pesquisa enfoca em especial a ação voluntária individualizada. Assim, pode-se afirmar, hipoteticamente, que o trabalho voluntário surge como uma das possibilidades, dentre muitas, para as pessoas aposentadas manterem-se ativas, física e intelectualmente, motivadas, participantes e para transmitirem as experiências e habilidades acumuladas à comunidade. Como resultado, além de poder melhorar a autoestima, esse trabalho espontâneo ajudaria a qualificar o tempo da velhice, para que ele não seja encarado como um pesado encargo e, sim, como uma possibilidade de transformação que represente uma forma de reinserção do aposentado no espaço público.

 

 

2.4.2 – Trabalho voluntário e aposentadoria

 

A concepção do trabalho enquanto princípio ordenador da vida social é produto do mundo moderno. Assim, o aposentado, quando se afasta do mundo produtivo, afasta-se também do espaço público, ficando com a sociabilidade enfraquecida, pois, frequentemente, ela foi construída, sobretudo, a partir das relações de trabalho. Este corte, feito, geralmente, de forma abrupta, sem nenhuma preparação prévia, faz com que a pessoa se volte para o espaço privado, reproduzindo as condições de isolamento, de invisibilidade e de alienação (Arendt, 1989).

A aposentadoria, ao privatizar as relações sociais e dificultar a inserção no espaço público, faz com que a pessoa que a vive deixe de aparecer “no mundo” e fique esquecida das mediações das políticas públicas. Entretanto, como já visto, o número de aposentados se torna cada vez maior, até mesmo pelas transformações demográficas que apontam um grande aumento do segmento idoso no conjunto da população, o que lhe dá visibilidade. Contudo, é preciso referir que essa visibilidade não se dá, ainda, pela ação e pelo discurso desse segmento – cujos movimentos começam a despontar no espaço público -, mas pelas conseqüências sociais advindas da fragilização em saúde física e financeira dessas pessoas.

Se é no espaço público – o espaço de pensar conjuntamente – que se forma opinião, se o aposentado não aparece no espaço público ou se é referido com imagem distorcida (praga da previdência social, peso social e econômico, dependência dos ativos), não se elabora um pensamento correto sobre ele. Esquece-se o que ele construiu e que a sociedade vive sobre bases que ele alicerçou. O próprio aposentado fica privado de construir e visualizar a sua identidade.

Assim, o aposentado passa a viver por si e mais voltado para a esfera privada, isolando-se da sociedade, onde já não tem importância e nem é valorizado, pois não integra mais o mundo produtivo, permitindo que as raízes de seus problemas e de suas necessidades sejam afastadas da esfera pública. Em decorrência, passam a não ter visibilidade, ou seja, ficando distantes uns dos outros e com a sociabilidade restrita, nunca serão vistos e pensados como seres e categoria singulares, parte integrante da sociedade. Nesse sentido, as ações e os pensamentos públicos dificilmente irão reconhecer seus direitos (Arendt, 1989).

Quando o aposentado passa a buscar uma (re)integração, uma forma de (re)inserir-se na sociedade, por meio da participação em movimentos, desenvolvendo qualquer tipo de atividade, provavelmente estará negando o isolamento que lhe é imposto e recolocando-se no espaço público para manter-se socialmente ativo, para buscar a companhia dos iguais na tentativa de viver junto, de revelar quem é.

O trabalho voluntário, que está sendo exercido de forma cada vez mais expressiva em nosso meio, apresenta-se como uma das possibilidades de inclusão pelo, cada vez mais numeroso, segmento da população que envelhece e onde se incluem os aposentados (Arruda, 2000). Este tipo de trabalho, numa perspectiva individual, possibilita aos aposentados recriar o presente, efetivando um projeto de vida no pós-trabalho, que introduz variações no cotidiano que oportunizam transformações. Por outro lado, numa perspectiva mais abrangente, isto é, enquanto movimento social, estabelece uma nova relação de força na sociedade, estimulando a cidadania e a reinserção deste grupo no espaço público, criando até mesmo condições para que o envelhecimento não seja negado, mas seja, simplesmente, um dos inúmeros momentos do curso da existência, quando convivem, “humanisticamente”, força e fragilidade.

O movimento dos aposentados para uma reinserção no espaço público, mantendo-se voluntariamente ativos por meio de uma ação solidária, talvez, possa ser entendido como um esforço, em nível individual, para a transformação e como uma das formas de rompimento com o que Habermas denomina de colonização do mundo da vida.


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CAPÍTULO 3

 

UMA CONCRETUDE DO TRABALHO VOLUNTÁRIO

 

 

 

3.1 – PERFIL DO GRUPO

 

Este capítulo aborda o tema central desta dissertação, apresentando o estudo de oito casos escolhidos aleatoriamente, dentre os aposentados com os quais desenvolvi algum tipo de trabalho no campo da Gerontologia, com a finalidade precípua de levantar as razões centrais pelas quais eles se mantêm social e voluntariamente ativos, desenvolvendo um trabalho solidário e, em contrapartida, apreendendo o resultado dessa ação para o desenvolvimento pessoal e da cidadania para os pesquisados. Deve ser salientado que houve total abertura para a participação, não tendo existido nenhuma recusa dos convidados que estão representados por pseudônimos. Reforça-se, aqui, a constatação de que foram estimulados pelo espírito de colaboração, característica que parece fluir naturalmente entre eles. Além disso, demonstraram se sentir gratificados por lhes serem dadas condições de transmitir suas experiências.

A coleta de dados, feita por meio de depoimentos, como já referido, incluiu o preenchimento de um formulário com dados de identificação, cujos resultados permitem construir um pequeno perfil do grupo.

Dentre os pesquisados, 5 são do sexo feminino e 3 são do sexo masculino. A expressiva presença masculina mostra a transformação que vem ocorrendo no voluntariado que, em suas origens no Brasil, era uma atividade eminentemente feminina.

 

 

Quadro 1 – DISTRIBUIÇÃO POR GÊNERO

GÊNERO INCIDÊNCIA
Masculino 03 37%
Feminino 05 63%
TOTAL 08 100%

 

São pessoas naturais do Estado de São Paulo que, em sua grande maioria (7), residem na Capital. Apenas um dos voluntários reside na Grande São Paulo (Mogi das Cruzes). Existe uma predominância da ascendência européia (6), o que poderia justificar, segundo Corrullón (1999), um desenvolvido espírito comunitário, traço já arraigado na cultura daquele continente.

No que se refere à idade, pudemos observar que, neste grupo pesquisado, existe representatividade equilibrada entre as faixas-etárias, entretanto, observa-se uma concentração na de 71-75 anos (3).

 

Quadro 2 – DISTRIBUIÇÃO POR FAIXAS ETÁRIAS

FAIXAS ETÁRIAS
INCIDÊNCIA
45 a 49 anos 01 12,5%
50 a 54 anos 01 12,5%
55 a 60 anos 02 25%
61 a 65 anos
66 a 70 anos 01 12,5%
71 a 75 anos 03 35,5%
TOTAL
08 100%

 

Quanto ao estado civil, os casados (pela primeira ou segunda vez) e os separados apresentam idêntica representatividade e esta situação parece denotar estabilidade, uma vez que perduram por dez anos e mais. Nenhum dos pesquisados declarou ter mais de dois filhos.

 

Quadro 3 – DISTRIBUIÇÃO SEGUNDO O ESTADO CIVIL
ESTADO CIVIL INCIDÊNCIA
Solteiros 01 12,5%
Casados 02 25%
Casados pela 2ª vez 01 12,5%
Desquitados 01 12,5%
Separados judicialmente 02 25%
Viúvos 01 12,5%
TOTAL
08 100%

 

No que tange à religião, a maioria (6) é católica e aqueles engajados em alguma atividade religiosa também se sobressaem (5). Dois dos entrevistados estão ligados a pastorais de saúde e de movimentos populares.

A maior parte tem curso superior completo (4) ou incompleto (1), sendo que os demais apresentam escolaridade de 2º grau completo. Este nível de escolaridade, a nosso ver, já se predispõe como um fator que, a priori, poderia contemplar as razões que motivam pessoas aposentadas a se dedicarem ao trabalho voluntário.

A renda, tanto pessoal como familiar, apresentou uma variação entre CR$ 450,00 (quatrocentos e cinquenta reais) e CR$ 10.000,00 (dez mil reais). São pessoas que, em sua maioria (5), mantêm independência financeira, além do que, grande parte dos filhos (5) não necessita ajuda dos pais para sua manutenção. A minoria dos depoentes (mulheres) que não tem independência financeira (3) conta com a ajuda dos filhos para sua manutenção. Trata-se de famílias que puderam, ao longo da vida e, talvez, em outro quadro conjuntural, adquirir residência própria (7).

Neste aspecto, um elemento que fica para a reflexão é aquele que permitiria afirmar que o trabalho voluntário não está condicionado pela melhor ou pior situação econômico-financeira da pessoa e/ou da família. É facilmente perceptível que há uma grande diferença entre a maior e a menor renda familiar declaradas pelos entrevistados. Retomamos, então, o vetor da escolaridade como subjacente à predisposição de empregar tempo e trabalho para auxiliar os semelhantes.

 

Quadro 4 – DISTRIBUIÇÃO POR RENDA FAMILIAR
RENDA FAMILIAR
INCIDÊNCIA
Entre R$ 450,00 e R$ 800,00 02 25%
Entre R$ 1.700,00 e R$ 2.500,00 02 25%
Entre R$ 4.000,00 e R$ 10.000,00 03 37,5%
Não respondeu 01 12,5%
TOTAL
08 100%

 

Para o grupo pesquisado, a ocupação durante a vida de trabalho manteve uma relação direta com a formação profissional, que foi peculiar para cada um: administração de empresa, advocacia, engenharia, pedagogia e serviço social, magistério, secretariado, tendo grande parte deles trabalhado na condição de empregado. Apenas uma das entrevistadas empreendia seu próprio negócio, como micro-empresária.

Por conseguinte, este perfil dos entrevistados permite analisar que estamos diante de pessoas com um bom grau de informação/formação, constituindo famílias estáveis, vivendo (a maioria) com uma renda mensal que lhes permite estabilidade material, enfronhadas em convívio público que extrapola o mero âmbito do trabalho formal, até mesmo pelo voluntariado a que se dedicam, e cuja longevidade não tem sido sinal daquele envelhecimento estereotipado que estamos acostumados a verificar em certas ideologias, inclusive, na mídia.

 

 

3.2 – Ouvindo e entendendo “falas”

 

Neste momento de nossos estudos, procuramos evidenciar os aspectos pontuais dos depoimentos que pudemos colher, a partir das próprias questões do roteiro de apoio que elaboramos. Conscientes dos enfoques centrais desta dissertação – aposentadoria, envelhecimento e trabalho voluntário – ainda assim, achamos por bem resgatar o conjunto das falas para avaliar o seu conteúdo, até mesmo, pela riqueza das informações que nos foram ofertadas.

 

3.2.1 – O trabalho

O trabalho teve um papel importante na vida dos pesquisados que, no entanto, o representam de forma peculiar, de acordo com o significado que teve para a vida de cada um. A maioria demonstrou uma relação de prazer e satisfação, relação essa que, a nosso ver, tem um cunho cultural e ideológico, uma vez que se vive a sociedade do trabalho assalariado como forma de sobrevivência e de significado de vida. Os depoimentos usam expressões significativas, como é o caso de: Deus me ajudou muito … Uma luz me ilumina… Amor… Doação… etc..

 

Olha, foi de extrema realização pessoal, financeiramente, não, porque acho que dificilmente alguém se realiza como assistente social ou como professor, não é? Mas, pessoalmente sim, porque veio de encontro [com] aquilo que eu sempre quis. (Eloísa, 25 anos de trabalho)[12]

[O trabalho] sempre representou aquela necessidade de orçamento, de recursos para o orçamento. E, além disso, também a satisfação e a realização pessoal. (Jonas, 37 anos de trabalho)

 

Olha, o papel do trabalho foi muito bom para mim, porque eu gosto muito de criança e no meu tempo, mulher geralmente era professora, não é? (…) Então, eu escolhi ser professora; mas eu acho que foi a melhor profissão que poderia ter escolhido, porque o que eu gosto muito é trabalhar com criança, pra mim era uma coisa deliciosa dar aula. (Emiliana, 26 anos de trabalho)

 

Alguns apresentaram uma relação forte e positiva com a vida laborativa, quando esta trouxe possibilidade de ascensão profissional, social e financeira, significando lugar de contato e prestígio, traduzindo-se em uma melhor qualidade de vida e contribuindo para a consolidação da auto-estima.

 

Olha, o trabalho para mim foi uma fonte tão dignificante. O trabalho para mim é, além de possibilitar, dar minha realização [e ascensão] profissional. Eu passei a ser a principal fonte de renda da minha casa (…) Daí o padrão da minha família subiu muito. Com esse trabalho eu consegui, também, manter meus estudos pessoais e entrei na faculdade. (Fagundes, 34 anos de trabalho)

 

Olha, eu digo com muita certeza, com muita saudade, muita satisfação, essa vida, esses meus 36 anos de trabalho realmente só me trouxeram alegrias, porque eu senti, que (…) só estava conseguindo galgar degraus e conquistas, certo?(…) Então, foi uma época que me realizei, tanto como pessoa como profissional, deixei muitos e muitos amigos. (Roberto, 36 anos de trabalho)

 

A organização do tempo e do espaço está presente nos relatos, parecendo-nos indicar a capacidade de conciliação de atividades e de criação de condições para que os objetivos estabelecidos fossem alcançados e as necessidades atendidas. As mulheres relataram a necessidade de conciliar a sobreposição dos papéis profissionais e domésticos, estes, quase nunca valorizados e não considerados na jornada diária, o que, muitas vezes acarretou uma sobrecarga e reduziu os espaços para a atividade cotidiana. Nem por isso, entretanto, se pode perceber que a relação delas com o trabalho foi aflitiva ou angustiada.

 

Bom, eu trabalhava fora e trabalhava em casa, né? Cuidava de duas crianças; mas foi tudo tranqüilo. Eu, graças a Deus, dei bem conta. Então, sempre gostei muito do que eu fazia. (Zaira, 25 anos de trabalho)

 

Olha, era bom porque eram quatro horas diárias, né?, e também favorecia o cuidado da casa. (Emiliana, 26 anos de trabalho)

 

Trabalho fora, né? Em casa, esse aí, ninguém computa. (Helena, 25 anos de trabalho)

 

Eu acho que eu sempre trabalhei, mesmo (ri) tanto como dona de casa, como [fora] (…) eu trabalhei e trabalhei duro. Uma coisa que a gente tinha que fazer mesmo [ri]Tinha que fazer se queria prosperar, se queria educar os filhos, se queria (…) nós tínhamos que trabalhar. Nós não tínhamos nenhum parente aqui. (Dolores, 28 anos de trabalho)

 

 

3.2.2 – Aposentadoria

Após muitos anos de trabalho, que o grupo, em sua maioria, mencionou ter sido vivido de forma positiva e satisfatória, chegou o momento da aposentadoria. Ela foi obtida quando todos haviam cumprido o tempo de serviço, integral ou parcialmente, exigido pelos respectivos sistemas previdenciários. Decidir pelo requerimento à aposentadoria, entretanto, para parte do grupo entrevistado, não foi um ato de vontade, mas uma imposição das empresas ou de circunstâncias daquele momento de vida.

 

A empresa está passando por um processo de privatização; os primeiros a ser mandados embora são os que estão já na fila da aposentadoria. Então, isso foi me preocupando, né? Ainda mais com filho. (…) Aí eu fiz o levantamento, se eu já poderia realmente me aposentar, porque eu tinha tudo como comprovar era sempre registrada e eu sai. (Helena, 25 anos de trabalho)

 

Eu vou ser sincero, eu sai simplesmente para não perder o prêmio de aposentadoria, porque foi a pressão branca que me fizeram, me deram um certo número de salário à vista, se eu saísse até 30 de maio, antes do acordo coletivo. (Fagundes, 34 anos de trabalho)

 

Olha, quando me separei, quando me separei me faltavam, acho que um, dois anos; para ter 30 anos de INSS, me faltava dois anos.Eu tive que deixar a minha butique, porque era ao lado da fábrica e ele [marido] tinha amante (…) Então, eu fechei a loja, e, então, depois pedi a aposentadoria. (Dolores, 28 anos de trabalho).

 

Dentre aqueles que puderam tomar a decisão, alguns o fizeram de maneira consciente, assumindo continuar ou deixar o trabalho. Um dos depoentes relatou que agiu pensando na liberação do cansaço e da rotina do trabalho, esquecendo-se, porém, que é preciso aprender a viver esse novo tempo.

 

Primeiro eu aposentei para uso de um direito normal de trabalho de tantos anos; em seguida, não trouxe nenhuma alteração, pelo seguinte, porque todo o trabalho que eu vinha exercendo, eu continuei exercendo. (Jonas 37 anos de trabalho)

 

Então, na minha época foi assim: eu fiz o que eu tinha que fazer, agora eu tenho que dar oportunidade prá outras pessoas. (Roberto, 36 anos de trabalho)

 

Você completou 25 anos, você pode solicitar a sua aposentadoria, você já tem direito a se aposentar, né? E quando você está naquela ativa, você não vê a hora de aposentar, né? Só que depois a gente se arrepende. [ri] Porque, poxa, podia estar trabalhando e né? (Eloísa, 25 anos de trabalho)

 

Afastar-se do mundo produtivo e ter que se deparar com o do pós-trabalho, configura-se como uma passagem, uma mudança e uma nova organização de vida. Sem dúvida, o momento de aposentar-se é de transição, de mudança e mobiliza apreensão, dúvidas inevitáveis diante do desconhecido, do que está por vir (Adler, apud Veras, 1999:143).

Assim, esta transição não ocorreu facilmente para a maioria das mulheres pesquisadas. Elas, apesar de apontarem a sobrecarga pela dupla jornada, verbalizaram sentimentos de perdas, de vazio, dificuldade de utilizar o tempo, por longos anos preenchido pelo trabalho.

Por um lado, talvez, isto tenha ocorrido porque, de acordo com França (apud Veras, 1999:15), normalmente, a mulher se comunica mais, é mais sociável e externa com maior facilidade suas emoções, o que acontece mais dificilmente entre os homens. No entanto, por outro lado, a vida profissional da mulher é uma conquista recente. De forma mais ou menos consciente, todas temos presente os ganhos que a vida laborativa – extrapolando o âmbito privado/doméstico – significa um leque muito maior de convívio, de aprendizado, de luta e de inserção social até recentemente negada ao sexo feminino. Essa conquista tem um forte significado para as mulheres e o retorno apenas às tarefas do lar, com certeza, deve significar uma perda com fortes repercussões emocionais, conforme foi declarado pelas entrevistadas.

Terrível, ainda está sendo, ainda está sendo, porque eu me senti como se tivesse perdido a minha base, sabe? Em tudo, assim, eu me senti perdida, porque eu tinha uma rotina diária né? Eu lembro que durante uns três ou quatro meses, eu senti um vazio muito grande, eu estava caminhando para um estado de depressão muito grande, sabe? (Eloísa)

 

É, o 1º mês [da aposentadoria], por exemplo, foi difícil, porque eu entrava às 8 horas da manhã no trabalho. Eu levantava muito cedo para poder deixar tudo em casa. (…). Então, era uma corrida(…). Aí, quando eu saí, eu senti falta. (Zaira)

 

É, o primeiro mês de aposentadoria foi terrível, porque eu fiquei perdida, quando eu acordava até dar aquele horário biológico das 18, 19 horas, eu ficava em casa, assim, perdida. O que é que eu faço? Então, quando dava 18, 19 horas eu entrava no meu ritmo, como eu estava acostumada. (Helena)

 

Olha, eu não sei, quando eu me separei, [concomitante ao pedido de aposentadoria] eu fiquei, assim, como se não tivesse chão, fiquei no ar, não sabia o que fazer, sabe? (Dolores)

 

Por outro lado, o relato de alguns depoentes demonstra que esta passagem foi feita de maneira tranqüila, sem sobressaltos e a ruptura com o mundo do trabalho possibilitou experimentar atividades prazerosas ou, até mesmo, maior envolvimento com outras ocupações com as quais já estavam envolvidos. Pode-se compreender isso melhor, quando nos reportamos a França (apud Veras, 1999) que aponta a necessidade de planejamento no decorrer da existência, seja em termos de distribuição do tempo seja em termos de afetividade, de relações sociais e, especialmente, de relações com o tempo do trabalho e do pós-trabalho.

 

Eu aceitei como muito gostoso, eu fiz coisas que eu gostava, passei, me diverti, fiz tudo que eu gostava de fazer, nunca me preocupei, não tive ‘ócio’ emocional, não tive não. (Fagundes)

 

Eu sempre trabalhei muito, fazendo todo serviço de casa e mais alguma coisa, né? Daí, me dediquei mais à Igreja. (Emiliana)

 

Então, para mim, eu não tive muito sentimento, não, eu senti justamente o fato de deixar um colegiado de amigos e pessoas, né, que as pessoas que eu trabalhava, só né? Mas não tive, assim, muita dificuldade. Eu encarei naturalmente; eu não parei ainda, porque essa atividade [voluntária] que eu tenho, ela me absorve muito, né? (Roberto)

 

Com outro viés, alguns demonstraram, além do sentimento de perda psicológica, o de perda financeira, subjacente à condição de aposentado em nossa realidade.

Houve a parte financeira, também, que me assustou, porque o primeiro mês foi tranqüilo, mas depois já houve (…) eu comecei fazer cálculo (…) agora eu perdi porque eu não tive aposentadoria integral, foi proporcional. (Helena)

 

A aposentadoria nunca foi um bom salário mesmo, né? Mas dá pra gente viver. (Zaira)

 

Porque eu acho que a aposentadoria aqui é uma miséria. [ri] É uma miséria. (Dolores)

 

O quadro descrito, segundo o qual a passagem para a aposentadoria foi mais ou menos tranqüila para cada um dos depoentes, pode estar relacionada ao que França apontou: planejamento de vida. Nesta perspectiva, a preparação para essa nova e inevitável forma de conduzir a existência – como aposentado em um tempo de pós-trabalho – demandaria que houvesse um espaço e um tempo para essa preparação. Dois entrevistados, apenas, participaram de programas com essa finalidade, que oportunizaram uma reflexão sobre o desligamento do trabalho e suas conseqüências e sobre a necessidade de elaboração ou redefinição de projetos para a desconhecida fase da aposentadoria. Circunstâncias pessoais ou das empresas, entretanto, nem sempre permitiram que as decisões tomadas, a partir desses programas, pudessem ser mantidas.

 

A empresa me proporcionou uma preparação pra aposentadoria. Então, nessa preparação eu tive contato com uma infinidade de profissionais (…) justamente tocando nesse assunto, se você tiver que parar, para [ser] de uma forma sadia, você tem que ter consciência que você já fez isso tudo, você vai ter que se readaptar a essa parada, você é um reloginho que vem fazendo isso durante um determinado tempo e depois você, não repentinamente, porque nós estamos te preparando, mas você vai ter que se preparar pra isso tudo. (Roberto)

 

Foi muito boa e a minha idéia, dentro do que foi exposto, era de não me aposentar. Porque houve várias partes, a parte médica, a parte jurídica, a parte de lazer, depois houve, também, a explicação da parte financeira. Quando chegou a parte financeira, que eles começaram a calcular, que eu fui mentalmente calculando meu salário, eu não queria me aposentar. Isso na teoria, né? Na prática, eu acabei saindo. (Helena)

 

Enquanto se faz parte da vida ativa, a aposentadoria é sonhada como um tempo desejado. Representa liberdade para fazer o que, como e quando se quer – ser dono de decisões e do próprio tempo. A maioria dos depoentes, entretanto, aposentou-se e retornou ao trabalho. Isto ocorreu, provavelmente, porque alguns não optaram por ela espontaneamente, não estando preparados, então, para desfrutar o direito de viver seu tempo livre. Outros se sentiam dispostos física e mentalmente, estranhando, então, a ausência de um ritmo de vida mais acelerado. Buscaram, assim, um retorno ao mundo produtivo. É preciso apontar mais uma vez que há uma lógica subjetiva e objetiva nesse retorno ao trabalho formal, uma vez que em nossa sociedade, o mesmo tem acentuada importância e faz com que quem esteja fora dele se sinta isolado e desvalorizado.

 

Porque eu já era aposentada mesmo, né? E eu voltei a trabalhar por causa da minha cabeça. A firma me chamou, eu fui, gostei até de trabalhar. (Zaira).

 

Acontece que como eu e a minha irmã tínhamos uma escola de educação infantil, então, deu para conciliar as coisas; não senti tanto, porque ainda continuava trabalhando com crianças, só que de uma outra forma, dirigindo uma escola. (Eloísa)

 

Então, eu fiquei perdida, nem pra sair pra lazer eu não conseguia. Eu estava esperando o horário biológico que de muitos anos já estava marcado. E eu comecei aqui [consultório médico], meio período, só à tarde. (Helena)

 

E depois que aposentei em condições normais, ainda fiquei trabalhando 2 anos dentro da empresa, certo? (Roberto)

 

Para alguns, este retorno ao trabalho, aparentemente, se deu para ajudar os filhos a definirem o futuro. O que pudemos depreender dos depoimentos, no entanto, é que esse retomar de vida laborativa acabou sendo uma experiência boa, sendo recorrente o reforço à estrutura de sociabilidade.

 

Meus filhos não conseguiam emprego, não conseguiam nada, né? Daí, eles vieram falar comigo, se eu queria ajudá-los na empresa que eles estavam idealizando. Daí, eu comecei a me envolver com eles realmente, daí, eu comecei a trabalhar, um ano, mais ou menos e meio. (Fagundes)

 

Primeiro foi a necessidade, né? Eu tinha os dois filhos ainda estudando. Meu filho trabalhava, mas, né? criança ainda, 16 anos ganhava pouco. A minha filha fazendo faculdade, mas pagava, pagava pensão, a faculdade, então, o receio de precisar e não ter, né? E meus sócios[13] eram muito amigos, que nem sempre são, né?, que é um serviço mais humilde, né? Eu sei que eu fiz boas amizades. (Emiliana)

 

Paralelamente, para alguns, esta retomada do trabalho é vivida de uma forma mais livre e pode ser interrompida quando deixa de ser uma relação de prazer ou quando um projeto assumido chega ao término. Esta postura, provavelmente, ocorre pela tranqüilidade advinda do benefício pago, cujo montante, para muitos deles, permite uma independência financeira razoável.

Eis um aspecto que também merece atenção especial e deixa uma série de inevitáveis perguntas: se os benefícios pagos fossem proporcionais às necessidades de uma vida materialmente tranqüila e emocionalmente prazerosa, seria outra a forma de vivê-la? Seriam outros os estereótipos dedicados aos aposentados? Seriam outros os parâmetros dos programas que preparam as pessoas para viver o tempo do pós-trabalho? É de se pensar que a saída do mercado formal de trabalho, como aposentados, seria sentida como um ganho inestimável e, jamais, como perda ou isolamento.

 

Ué, sei lá! Eu achei que tinha disposição. Uma firma me chamou, eu fui, sabe? Aí, eu trabalhei até 93. Em 93, teve um dia lá que ele estava enchendo muito a minha paciência, eu dei até logo para ele. Eu não era registrada, não era nada. Aí peguei a chave, falei: aqui, tá aqui sua chave, até logo e fui embora. Não voltei mais. (Zaira)

 

Então, quando acabou essa fase [planejamento da firma dos filhos], eu vim numa reunião [da associação de aposentados], eu estava folgado e o Olavo [presidente] me chamou para fazer um trabalho para ele [refere-se a um trabalho para a Associação]. (Fagundes)

 

Passado um período de transição, os entrevistados demonstraram ter entrado em um momento de reorganização frente à nova situação. Parte significativa do grupo de depoentes passou a sentir a aposentadoria não como um fim, uma morte social. Pelo contrário, entendeu-a como um momento onde existe uma outra forma de ser produtivo, onde está presente a possibilidade de continuidade, tanto:

  • no mundo do trabalho,

 

Então, eu me encontro numa fase de 45 anos e estou empregada, que eu acho que eu só estou na metade do caminho, ainda tem muita coisa pra fazer e a palavra aposentado dá a sensação de inutilidade, velhice, doença e não é isso. Você está numa outra fase da sua vida, amadurecida, tem condições de produzir mais. (Helena, aposentada há 5 anos)[14]

 

Primeiro eu aposentei para uso de um direito normal de trabalho de tantos anos; em seguida, não trouxe nenhuma alteração, pelo seguinte, porque todo o trabalho que eu vinha exercendo, eu continuei exercendo. (Jonas, aposentado há 18 anos)

 

  • quanto, por meio de atividades já desenvolvidas anteriormente em outros domínios da vida e pela realização de antigos desejos,

 

Eu não senti muita falta da escola, porque eu estava muito ocupada com as coisas da Igreja, né? Eu trabalhava com catequese, quer dizer que era uma continuação. E já eu vim (…) mudar pra São Paulo [realização de antigo desejo]. Então, eu fiquei, assim, muito ocupada mesmo, preocupada, ocupada. (Emiliana, aposentada há 18 anos)

 

[A pessoa aposentou] porque fez o que tinha que fazer e tem uma nova etapa, como essa [trabalho voluntário] que eu estou fazendo há seis anos já. Então, eu não aposentei, eu continuo ativo, só que de uma outra forma. (Roberto, aposentado há 6 anos)

 

Não, eu acho que não fez muita diferença porque nesse momento eu estava ocupada demais, eu não sou uma pessoa que fica em casa, sabe? Então, estava fazendo curso no SESC, estava fazendo ginástica, estava fazendo hidroginástica, sempre estou fazendo alguma coisa. Fiz curso na FAAP, também, porque estava querendo montar uma pequena confecção, mas não deu, porque no final fiquei sem dinheiro. (Dolores, aposentada há 10 anos)

 

  • como pela elaboração de projetos que utilizassem a experiência acumulada em função de uma ação comunitária e cuidados com a qualidade da própria vida,

 

Só que assim, ainda estava em mim, muito forte, aquele desejo da continuidade a uma coisa que eu sempre fiz, que foi trabalhar na linha do social, né?Então, eu falei: bom, eu vou procurar entidades onde eu possa me oferecer como voluntária para fazer um trabalho tanto social, como na linha da educação. [Além disso] comecei a fazer atividade física, caminhada. Daí, entrei para a faculdade [Escola Aberta para a Terceira Idade]. Para mim era, então, importante voltar, reencontrar as pessoas, reaprender, porque eu fiquei muitos anos trabalhando, né? (Eloísa, aposentada há 5 anos)

 

 

3.2.3 – Trabalho voluntário

O tempo do pós-trabalho, caracterizado pelos depoentes como uma nova etapa, uma continuação, outra fase da vida amadurecida, passou a ser dedicado, em parte, ao trabalho voluntário, às atividades comunitárias, voltadas para ajudar o próximo. Por outro lado, parece-nos que essa decisão é tomada para atender a valores religiosos, a necessidades pessoais de crescimento e, também, para dar continuidade ao trabalho interrompido, às vezes cronologicamente precoce, com a aposentadoria. Há aqueles que denotam uma forma de retribuir o que receberam, passarem adiante o seu legado profissional ou mesmo exercerem a cidadania.

A escolha por um determinado tipo de trabalho solidário, por eles, consistiu em um ato espontâneo relacionado a convicções, características pessoais, preferências, facilidades, formação profissional e pela vontade de contribuir para um mundo melhor.

 

Comecei a fazer o trabalho lá [creche] como coordenadora pedagógica.E eu tive oportunidade de fazer [como assistente social] um treinamento para trabalhar na Santa Casa, como voluntária, na área da saúde (…) com criança, que minha identificação com criança é muito grande. (Eloísa, 51 anos)

 

O trabalho voluntário é a aplicação de todas as novidades que eu tenho encontrado no exercício da profissão de advogado e toda consciência da conveniência de levar a quem precisa, que me procura. (Jonas, 74 anos)

 

É o Amor Exigente, sim. Olha, eu comecei como ouvinte, agora eu sou coordenadora. (Dolores, 66 anos)

 

Então foi me proposto ser uma das pessoas fundadoras do Banco de Olhos de Mogi das Cruzes. (Roberto, 55anos)

 

Aí eu entrei no Grande Conselho [Conselho Municipal de Idosos].(Zaira, 75 anos)

 

Nós fazemos sopa para gestantes [no centro espírita]. (Helena, 45 anos)

 

E sempre tive um serviço [voluntário] na igreja [católica], sempre mais religião, né? (Emiliana,75 anos)

O primeiro contato que eu tive com a associação [de aposentados] foi um trabalho específico sobre planos de suplementação de aposentadoria. (Fagundes, 57 anos)

 

É preciso referir que para parte significativa dos entrevistados, o trabalho voluntário nem sempre foi uma atividade nova em suas vidas, pois que o exerceram em momentos anteriores, como uma relação de ajuda ao próximo e de algo positivo para si. Trata-se, para estes últimos, de um trabalho inerente à sua forma de compreender a existência.

 

Há uns tempos atrás [antes da aposentadoria], eu fui ser voluntária no Livro do Cego. (Zaira)

 

Tinha um trabalho remunerado e ao mesmo tempo fazia um trabalho como voluntária, neste Centro Dom Oscar Romeiro, né? Que é centro de defesa dos direitos humanos. (Eloisa)

 

Olha, o período que eu dava aula e quando a gente começa no interior, escola isolada, ocupa muito, né? o dia. Mas eu tocava órgão na Igreja, tinha um coro, dava aula de música, viu? Sempre eu tive uma atividade [voluntária]. (Emiliana)

 

Então, eu fazia parte de algumas campanhas da Fraternidade, do Agasalho, do Bom Samaritano, eu participava da CIPA, CIPATI, então, sempre prevendo alguma coisa contra as pessoas, um acidente. Sempre fui uma pessoa ligada a isso tudo. Não fazia a coisa com grande destaque, mas pertencia sempre a um grupo, colegiado, onde fazia parte desse grupo, desse métier. Aí, hoje faço parte de uma entidade filantrópica, eu participei do Rotary Clube, do Lions Clube. (Roberto)

 

Esse trabalho voluntário desse estilo são 30 anos, há trinta anos, porque foi quando eu mudei para essa região lá de Itaquera e nessa região de Itaquera, então, que começou aquela consulta [jurídica], começaram aqueles plantões, começou aquela (…) aumento da consciência do benefício que isso trazia. (Jonas)

 

Quando foi solicitado aos elementos do grupo pesquisado que tentassem definir o trabalho voluntário, percebeu-se que as definições elaboradas pela maioria foram coincidentes com a de Corrullón (1999:3), isto é, um agir que parte de um impulso emocional e que os entrevistados traduziram por: doação, ajuda, aprendizado, partilha, identificação.

Embutida no pensamento de vários pesquisados encontra-se a idéia de doação, nunca de coisas materiais, mas de tempo, trabalho, talento e de experiência, algumas vezes mesclada com sentimentos de prazer, atitudes de tolerância, de retribuição, de participação e, outras, envolvendo solução de dificuldades que, ao serem vencidas, levam à troca, ao aprendizado e, conseqüentemente, ao crescimento.

 

Olha, é doação, se doar ao máximo, fazer alguma coisa que sirva para os outros. (Emiliana)

 

Eu chamaria assim, trabalho voluntário é paciência, tolerância, aprendizado, doação, falaria assim. E para mim em particular prazeroso. Não é fácil, mas é prazeroso, tá, porque surge muitas dificuldades (…) Cada um tem a sua idéia, o seu costume e o próprio material, às vezes, que é escasso e você tem que produzir, né? Mas é prazeroso. (Helena)

 

Para mim é tão prazeroso o que eu estou fazendo aqui, que eu não considero um trabalho. Eu considero uma participação, eu considero estar doando alguma coisa. Eu recebi tanto de Deus, da vida, eu tenho uma família tão bonita (…) Eu acho que tinha que dar alguma coisa em troco. (Fagundes)

 

Para mim pessoalmente, é isto: a possibilidade de passar para diante e sem dificuldade da vida normal, alguma coisa que você sabe, aquilo que você tem, imagina que seja correto, dando oportunidade a outros aproveitarem isto desta maneira. (Jonas)

 

Olha, é como eles falam lá no Amor Exigente – tem que estar disposto a ajudar, sem saber, a qualquer hora do dia. (Dolores)

 

Outros o entendem como Arns (apud Corrullón, 1999:3): a doação não é apenas dar, mas partilhar o que se é, a experiência acumulada, a capacidade de luta em função de outro ser ou de uma causa.

 

Eu acho que o trabalho voluntário já deve partir de dentro da pessoa, já deve ter na índole dela, na formação, ela deve ter dentro do peito esse trabalho voluntário. (Roberto)

 

E você vai determinar aquilo que você tem mais afinidade, para que você realmente assuma um trabalho e que dê continuidade. Então, o trabalho voluntário para mim é isso. É aquele que você percebe uma identificação e você vai procurar e oferecer parte do seu dia das horas que você tem, né? (Eloísa)

 

E a gente está lutando, lutei muito pelo passe para senhoras de 60 anos, né?. E depois nós lutamos muito pela vacina, que a vacina também ele [prefeito] vetou o projeto. (…) Agora, a gente está lutando, temos esse Fóruns, tem o Fórum do Centro, tem os Fóruns das periferias, prá medicamentos pros idosos, moradia, né? Enfim, o que a gente puder fazer pelos idosos a gente tem ajudado prá ver se consegue. (Zaira).

 

A disposição de doar tempo e conhecimento em benefício de uma comunidade, projeto ou entidade corresponde a uma inquietação interior, a uma vontade de construir, a um impulso para realizações, referido como intrínseco à natureza humana. Alguns pesquisados aliaram esta disposição à necessidade de substituir antigas obrigações decorrentes das relações de trabalho.

Assim, as principais razões que mobilizaram o grupo estudado ao voluntariado foram descritas como retribuição pelo que se recebeu, partilha da experiência acumulada durante a vida, retribuição pelo apoio recebido de entidade de ajuda mútua, sendo essas razões frequentemente ancoradas em valores religiosos que incentivam o trabalho e o amor ao próximo.

 

Acho que foi consciência cristã, de fazer aquilo que sabe, aquilo que gosta e lembrar que isto deve ser distribuído para aquelas pessoas que precisam. (…) É uma espécie assim de semear (…) aquilo que eu sei, aquilo que eu descubro, que verifico que é vantagem etc., se eu não passar para ninguém, se um dia eu morrer, vai ser enterrado. (Jonas)

 

Olha, isso me dá muito prazer, né? [pequena pausa] Eu, agora, ultimamente, ainda ando cansada, meio dolorida, mas eu continuo fazendo mais por motivo de fé agora. Eu acho que eu tinha que me doar, vale a pena, que Deus me abençoou muito, que ele me deu muito na vida e eu posso dar. (Emiliana)

 

Porque eu acho que eu recebi uma ajuda muito grande de lá [Amor Exigente]. Eu consegui, porque eu não, não entendia que meu marido era alcoólatra (…) Então, eu acho que como eles me ajudaram, eu tenho a obrigação de ajudar, também, os pais[15] que estão tão desesperados como eu estava naquele momento tempo. (Dolores)

 

Outra razão identificada nos depoimentos diz respeito a alguma forma de “obrigação”, “compromisso” que pudesse preencher o vazio trazido pela aposentadoria, ou seja, pelo tempo do pós-trabalho, o que, para alguns ocorreu prematuramente.

 

A razão principal para ser sincero, a razão principal foi achar algo que tivesse alguma, alguma obrigação, não tão grande. [ri] Eu achava que ia ser uma coisa muito mais simples, né? (Fagundes)

 

Você se aposenta, você olha, estou totalmente realizada e satisfeita com tudo aquilo que eu fiz e eu não me senti assim, foi interrompido, né? E pedi, [a aposentadoria] [ri], porém, não me satisfiz, não era bem aquilo. Então, somente agora, voltando a fazer esse trabalho é que estou conseguindo preencher realmente aquilo que eu realmente interrompi, numa determinada etapa da minha vida. (Eloísa)

 

Há, também, a expressão de sentimentos e atitudes de altruísmo em relação aos mais carentes como razão apontada para a prática do voluntariado que, muitas vezes, é vista como uma forma de reversão em benefício próprio.

 

Então, o meu principal objetivo é quando a gente vê que está fazendo um trabalho em prol dos nossos irmãos, em prol das outras pessoas mais necessitadas. (Roberto)

 

Eu sempre tive vontade de fazer alguma coisa em doação pra alguém, né? Eu não sei se foi o modo de criação ou mesmo do meu interior e eu sonhava que um dia aposentada, eu iria fazer alguma coisa pra alguém. Que eu acho que todo mundo deveria fazer, porque no final não é o outro que está ganhando, é você mesmo, né? (Helena)

 

Uma ação voluntária está ligada à solidariedade, que na natureza humana é a capacidade de agir em benefício do outro. A disponibilidade para o trabalho voluntário decorre de um sentimento altruísta, mas, mesmo sem se dar conta, o voluntário espera usufruir algo em troca. Ser solidariamente ativo abre a possibilidade de continuar o processo de realização e aperfeiçoamento enquanto ser humano, preocupado consigo e com o próximo. Propicia, ao mesmo tempo, uma abertura para a comunidade e para o mundo, vencendo o individualismo e o isolamento, fatores muito presentes no pós-trabalho. Evitá-los, também, deve ter sido uma das causas da busca de outra atividade, que compensasse, inclusive, a perda de prestígio decorrente da saída do mundo produtivo.

Como se pode depreender, para a maioria dos depoentes, o voluntariado proporciona prazer, gratificação, realização, troca, reconhecimento social, que alimenta a autoestima e redunda em crescimento e projeção pessoais, sentimentos semelhantes aos que o grupo mencionou, anteriormente, em relação à vida profissional.

 

 

Eu acho assim, eu acho, muito bom pra mim e pras pessoas, não é? Eu estou fazendo alguma coisa prá ajudá-los, apesar que, muita gente acha que não é nada. (Zaira)

 

Aquela vaidade que cada um tem de imaginar que está se auto-realizando. Quantas e quantas vezes, com esse trabalho a gente descobre coisas que nunca tinha percebido na vida profissional? (Jonas)

 

Porque ele me satisfaz plenamente, sabe? Saber que eu posso contribuir, que eu posso (…) Eu cresço, também, muito, espiritualmente, emocionalmente, em todos os sentidos, porque, por exemplo, convivendo com pessoas doentes, você passa a dar valor na vida, coisa que antes, você não dava, não é? (Eloisa)

 

Isso eu faço com prazer, já tem praticamente de dois a três anos que eu estou nessa atividade. Então, há um crescimento, muita gente acha que fazer, dar alguma coisa pra alguém, você realmente só está dando. Não, você ganha muito mais. Seu pensamento não fica preso em coisas pequenas, quando você está ocupada trabalhando, sabe, é diferente de uma coisinha quadradinha. Fica tudo mais amplo, você fica aberta. (Helena)

 

Olha, significa um prazer muito grande e mais do que isso não posso te dizer. É um prazer, mais do que uma viagem, mais do que qualquer outra coisa. (Emiliana)

 

Eu me realizo bastante, porque não só em função disso que eu estou fazendo, a realização não só pessoal que eu faço não só de coração, como também, percebo que não só aquelas pessoas que eu sirvo, que são aquelas pessoas deficientes, como também toda uma comunidade reconhece o trabalho que é feito. (Roberto)

 

Significa, também, uma obrigação que gratifica, desde que seja um ato espontâneo e não traga prejuízo.

 

Gratifica porque eu acho que eu sou útil. Eu acho que é minha obrigação, embora seja voluntário, eu poderia não estar aqui, eu não sou obrigado a estar aqui, eu não sou obrigado, se eu achar que eu estou sendo prejudicado, não fico aqui. (Fagundes)

 

A aposentadoria pressupõe, em tese, um retorno ao espaço privado, a uma maior aproximação com a vida em família. Aqueles que não cultivaram outros interesses, frequentemente, passam a viver exclusivamente para a família, ficando com as demais relações enfraquecidas, o que contribui para a invisibilidade e o isolamento sociais. O grupo estudado, ao se engajar no voluntariado, se recusou a viver apenas em função das relações familiares, inserindo-se no espaço mais amplo, no espaço público.

Pelo que se pode depreender da fala dos entrevistados, a reação mais comum dos familiares a esta opção foi de compreensão e apoio, provavelmente, porque estes já estivessem com as vidas organizadas em torno de interesses próprios, não podendo voltar a atenção para aqueles que estavam se aposentando. Além de terem demonstrado reconhecer que pessoas tão dinâmicas pudessem se desadaptar com a inatividade e que a realização de projetos é muito importante para a manutenção da qualidade de vida pessoal e familiar.

 

Olha, eles já têm uma vida, agora que eu parei de vender os livros tudo, que a minha filha se formou, logo começou a trabalhar. Não tive mais preocupação, né? O meu filho também já estava trabalhando. (Emiliana)

 

Ah, eles gostam, né? Porque assim eu não fico só em casa. Eu saio, faço as coisas, caminho. Tenho que caminhar, ainda por causa do problema do joelho. Eles gostam. (Zaira)

 

Olha, eu ainda gostaria de realizar, isso já faz parte, até a Nilda [esposa], ela me fala [apoiando] às vezes, o meu sonho, e eu tenho isso em pauta, eu posso até mostrar pra você, um dos projetos que eu tenho em mente é fazer um Centro Oftalmológico aqui na cidade. (Roberto)

 

Uma coisa boa que me acontece [no trabalho voluntário], que eu achei que foi uma coisa boa para mim, eu quero repartir com meus (…) com as pessoas que eu gosto. Então, para minha esposa, para o meu filho, eu conto e conto com orgulho, conto com orgulho mesmo. (Fagundes)

 

Eu acho ótimo, porque nós fizemos um grupo muito bom. A gente tem uma amizade grande, é como uma família, os coordenadores é como uma família. Sabe é muito bom. (Dolores)

 

Por outro lado, também houve um contraponto, quando surgiram reações de desestímulo, por meio de atitude protetora, que pode estar dissimulando uma necessidade convivência dos próprios familiares. Neste caso, são pais idosos, sendo a entrevistada a única filha que mora com eles.

 

Este ano e o ano passado, que eu comecei a fazer trabalho voluntário, eles já começaram: ‘Ah! Vai voltar para a igreja, estou vendo que aí tem coisa, né? Você não vai mais ter dia para passear, para sair, porque não sai da creche’. Eles falam assim: ‘Você não sai da creche, qualquer coisinha você está na creche; ou, então: ‘Você vai ter que ir para a Santa Casa. Quando é que você que você vai ficar em casa?’ (Eloísa)

Ao serem questionados sobre a relação entre trabalho voluntário e sociedade em geral, o grupo conseguiu contextualizar, socialmente, o trabalho voluntário. Reconhece que sempre existiu, mas que, ultimamente, vem recebendo uma atenção diferenciada tanto da parte do Governo quanto da sociedade civil, o que tem ampliado a cultura da solidariedade entre nós. Antes, a questão da voluntariedade era vinculada às ações assistencialistas, o que agora se busca evitar, enfatizando-se uma ação mais vinculada à solidariedade, procurando estabelecer uma relação baseada em direitos.

Dentre os pesquisados, alguns atribuem ao trabalho voluntário um papel complementar às políticas sociais do Governo, julgando este incapaz de cobrir as necessidades básicas da população e transferindo aos cidadãos e às entidades sociais o dever de colaborar.

 

Olha, eu acho que a sociedade já está se conscientizando que o trabalho voluntário, ele traz duas coisas. Primeiro lugar, o beneficio da pessoa que recebe o resultado do trabalho voluntário e, também, a necessidade de que esse trabalho venha complementar aquilo que no passado o mundo esperava do poder público. (Jonas)

 

Porque se tem pessoas com dificuldade ou doentes, o governo não tem tanto dinheiro para ajudar todo mundo; então, a gente tem que estar disposto a fazer alguma coisa, não? (Dolores)

 

Sobre o voluntariado e essas entidades que existe hoje prestadora de serviço filantrópico, se hoje acabar aqui em Mogi essas entidades, Mogi das Cruzes vai ao caos. Não tem estrutura pra manter pra manter isso tudo que é feito através de pessoas, de um serviço voluntário. (Roberto)

 

De forma geral, a valorização da ação voluntária e solidária foi identificada por alguns entrevistados como positiva. Um deles ressaltou, entretanto, esta valorização como um possível modismo, que impele as pessoas a praticá-la simplesmente em função de apelo do momento, sem que haja uma opção consciente. E outro, apontou a necessidade da compreensão do propósito deste tipo da ação, tanto por quem a pratica, quanto por quem a recebe, para que possa ser eficaz, evidenciando, inclusive, uma consciência social.

 

Está tendo uma campanha pro trabalho voluntário. Eu acho isso maravilhoso, se todo mundo fizesse alguma coisa o mundo seria muito melhor. O que existe de egoísmo, um egoísmo muito grande das pessoas. (Emiliana)

 

Eu acho que é uma coisa que todo mundo acha, hoje, que vale a pena fazer, que está se divulgando muito, mas está me parecendo mais um modismo do que outra coisa qualquer. Um modismo bom, um modismo bom (…) está parecendo que é quase obrigação das pessoas fazer algo por alguém, sabe. (Fagundes)

 

É uma coisa, assim difícil, porque a gente tem que analisar daquele que recebe o voluntário e daquele que se oferece para trabalhar, né? Aquele que se oferece para trabalhar como voluntário tem uma disponibilidade e ele, às vezes, abraça uma causa, muitas vezes, sem saber o que ele está abraçando. (Eloisa)

 

Existe um lado forte na nossa cidade da violência, mas está existindo um outro lado, as pessoas estão se colocando mais, né? E no meu conceito [se] cada um não der um pouquinho não vai ter como melhorar não. (Helena)

 

 

3.2.4 – O tempo presente e as perspectivas de futuro

 

O tempo presente foi caracterizado como um tempo bom, melhor, às vezes, do que o anterior. Terem assegurado uma vida ativa – permanecerem inseridos no espaço público – por intermédio de atividades que proporcionam satisfação, muitas vezes iniciada antes da aposentadoria, sentirem-se realizados, prevendo boas perspectivas para o futuro dos filhos, apoiando-se na religiosidade ou na experiência passada para viverem o presente, foram os principais fatores mencionados para explicar o estado de bem-estar atual. Embora não tenha sido mencionada por eles, poder-se-ia inferir que a situação socioeconômica do grupo, relativamente privilegiada em relação a uma grande massa de aposentados deste país, também se constitui em fator relevante que contribuiu para a sua forma singular de ser e estar no mundo.

 

Eu acho que agora eu tenho uma vida mais tranquila, né? Depois que eu fiz esta cirurgia [no joelho], eu fiquei um pouco mais quieta em casa, porque é muito difícil estar saindo, tomar ônibus. Mas levo uma vida sadia, boa, sabe? Chegar até a idade que eu estou, graças a Deus com saúde e podendo fazer tudo isso ainda, desenvolvendo tudo isso que eu faço, né? Essas coisas eu acho muito bom. (Zaira)

 

Ah, eu estou numa fase tão boa, tão boa comigo mesmo. É sim, estou realizado, como falei, agradeço a Deus pelos meus filhos, que eles estão só caminhando para frente, eu antevejo para eles um futuro muito bonito para eles. (…). Materialmente, então, eu estou realizado. (…) Nós estamos numa vida, não de luxo, mas uma vida que poucos têm, poucos têm, não tenho dívidas, graças a Deus, tudo faço planejadamente, não almejo nada que eu não possa ter, não tenho inveja. (Fagundes)

 

Olha, hoje é uma vida tranquila, feliz. Estou muito satisfeita com tudo que eu tenho. Eu estou sempre pronta pra o que der e vier, estou me dedicando à espiritualidade, estou fazendo curso de meditação, então, eu não estou parada. (Emiliana)

 

Realmente, quando a gente está nos 74 anos e a gente vê tantas coisas acontecer, de pessoas aparecerem, outras desaparecerem e etc., a gente fica pensando a cada dia, verdadeiramente, sem falar pra ninguém, é lógico, só numa entrevista dessa, mas que a gente fica pensando a cada dia isso, o que será o dia de amanhã? Então, vamos fazer o que tiver que fazer hoje. Hoje, por exemplo, estou fazendo essa entrevista. Continuar vivendo, continuar fazendo aquilo que eu deva fazer, cada dia, cada instante, também. Eu acho muito importante. (Jonas)

 

Então, a minha satisfação é isso: estar bem com a minha família, bem com Deus, bem com o meu povo e poder de vez em quando desfrutar de algum momento de lazer e de bem-estar. (Roberto)

 

Em particular, algumas mulheres mencionaram estar vivendo um momento agitado, provavelmente, por continuarem com ritmo acelerado de vida, com atividades semelhantes às que tinham no tempo do trabalho e pela interferência de problemas familiares em suas vidas.

 

Então, fica assim meio complicado, porque durante a semana, eu tenho esses meus trabalhos como voluntária, depois tem o meu convívio com a minha família, com os meus amigos, que eu tenho de conciliar, né? (Eloisa)

 

Bom, eu ando passando, assim, um pouquinho de um processo, assim, um pouco de cansada, porque eu gostaria de ter tido um período de ter curtido realmente a aposentadoria, né? Mas hoje, no sentido geral, está bem melhor do que quando eu trabalhava integralmente. Esse momento com ela [filha adolescente], mais esses horários que eu estou fazendo como voluntário, que pra mim é prazerosa. (Helena)

 

Que que a gente faz com uma senhora [a mãe] que está com começo de Mal de Alzheimer? Então, o que que faz com ela? E depois, mais ou menos em novembro, meu ex-marido estava perdendo processos [partilha de bens], me ameaçou de morte, a meu genro, a minha filha, fez um escândalo. Depois tive que mandar o meu filho fora de casa. [ri] Então, um ano muito ruim. Mas estou querendo terminar a Campos Salles [Escola Aberta para a Terceira Idade], querendo fazer algum curso de arte, mas eu não vou ficar dentro de casa, eu vou fazer alguma coisa. (Dolores)

 

Incompreensão da família pela opção de vida, da comunidade pela falta de consciência e colaboração em relação ao trabalho voluntário prestado, do ex-marido com relação à separação e até falta de um período de descanso, são fontes de preocupação para alguns elementos deste grupo.

 

Uma coisa que me incomoda, que eles não entendem a minha maneira de levar a minha vida, sabe? Eles acham que, porque eu tenho uma preocupação muito grande com o social, negócio de injustiça, política, essas coisas. E meus pais não aceitam isso. (Eloísa)

 

Agora o que está me incomodando é que eu estou com uma necessidade muito grande de tirar umas férias. (Helena)

 

E o que me incomoda mais é meu ex-marido [risos]. Incomoda mesmo, porque todos os meses inventa uma coisa para me chatear, todos os meses, ele, todos os meses.(Dolores)

 

Bom, dentro do eu estou fazendo agora, eu gostaria de ter uma condição mais favorável e uma consciência mais plena, vamos dizer, da comunidade. Então, eu gostaria de não encontrar tanta dificuldade em fazer aquilo que eu estou fazendo. Dificuldade como, por exemplo? Em conquistar, por exemplo, o órgão [a córnea] pra poder fazer o transplante. (Roberto)

 

O tempo presente é vivido de forma intensa por essas pessoas, enfrentando desafios, mas realizando suas opções e, o que se considera importante, evidenciando cuidados com a saúde, mesmo pelos homens que, em geral, são mais resistentes a este tipo de preocupação para alguns elementos deste grupo.

 

Graças a Deus minha saúde é boa, eu vou aos médicos, faço exames de rotina, graças a Deus, estão todos bons. (Zaira)

 

Hoje, eu estou um pouquinho embaralhada, porque eu estou fazendo um tratamento pro físico que eu tenho um problema de mioma, o emocional que está pegando nesse descanso, que eu estou querendo, entendeu? Então, ela está um pouquinho truncada aí. (Helena)

 

Estou bem de saúde, até onde eu sei, né? Às vezes, tem coisas que a gente não sabe, todos os meus exames que eu fiz não tenho nenhuma anomalia.(Fagundes)

 

Muito boa, muito boa. Eu tenho feito check up uma vez por ano e tudo isso tem resistido, assim, favorável, positivo, a pressão normal. (Jonas)

 

Qualidade de vida, então, é ter, assim agora, como aposentada, eu tive oportunidade de me preocupar com a minha saúde, porque enquanto eu trabalhava eu não tinha. (Eloísa)

 

A aposentadoria significa, em tese, a reapropriação do tempo. Há um imaginário que supõe ser este o momento de dedicar-se à liberdade da ação, em contraponto ao tempo fragmentado do trabalho, quando, em primeiro lugar, há a dedicação às imposições das responsabilidades. O tempo socialmente vivido sofre mudanças significativas quando o aposentado passa a ter, assim, a possibilidade de organizar a totalidade do seu tempo. Pode redimensioná-lo entre o cumprimento das obrigações familiares e sociais e o desenvolvimento de atividades de lazer, de realização pessoal, de investimento em si próprio e de participação consciente e voluntária na vida social.

O grupo estudado, como vem demonstrando esta pesquisa, escolheu destinar todo ou parte do tempo liberado pelo trabalho profissional, à prática de ações solidárias. Esta é uma forma de se voltar para o outro e para si mesmo, pois, como já foi visto, esta prática proporciona realização e crescimento pessoais, projeção social e prestígio, o que, provavelmente, antes provinha, em grande parte, das relações de trabalho. Além disso, há um novo tempo para dedicar-se à família e a outras atividades de desenvolvimento pessoal, a afazeres particulares e a cuidados com a saúde. Interessante observar, porém, que, tal qual no mundo do trabalho, alguns reservam para si o final de semana.

 

Tenho, lógico que tenho, porque o trabalho não pode absorver todo o tempo que eu tenho. Tenho a vida familiar, eu tenho a vida social, eu tenho a vida de lazer. Lazer, normalmente, fim de semana, lazer, também, de vez em quando, durante a semana quando não tem compromisso profissional e esse lazer, essa vida familiar, as duas coisas se completam, né? Seria cinema, teatro, televisão, encontro com amigos, encontro sempre com amigos assim de tipo familiar, não é? E é dessa maneira que eu ocupo o tempo livre, mas que tem tempo livre, precisa ter. (Jonas)

 

Cinema, parques, ar livre, não academias. Eu gosto de correr e andar, de olhar árvores. (…) e me dedico à família, e sou um escravo da minha família no fim de semana, o que eles pedem para mim, eu faço. Sábado e domingo, a minha prioridade é a minha família e como eles não exigem muito de mim, sobra muito mais tempo para mim. (Fagundes)

 

Eu tenho uma propriedade rural aí, eu também faço alguma coisinha dentro dessa propriedade. Então, conclusão, meu tempo tá totalmente preenchido. Então, eu divido tempo pra minha família, eu divido meu tempo pros meus afazeres particulares e também pra entidade da qual eu tenho muita responsabilidade. (Roberto)

 

Então, [na Escola Aberta para a Terceira Idade] eu comecei perceber e procurar mais isto em termos de saúde de física, a saúde mental, que seria assim ler, fazer trabalho de meditação, coisas assim que me ajudava a encontrar mais serenidade, mais tranquilidade. Então, comecei a trabalhar mais nessa linha e aí completar com esse meu trabalho que eu faço. O trabalho voluntário ele não é tudo para mim, é importante, mas não é tudo mais. (Eloísa)

 

Algumas mulheres pesquisadas destinam seu tempo, em primeiro lugar, para a família e a casa, e aquele que sobra para a realização de algo que traga satisfação ou mesmo ajude na reorganização da vida. Uma delas, entretanto, ainda não conseguiu separar um tempo para si.

 

E faço todo o serviço da minha casa sozinha; não, ninguém que me ajuda, não tenho faxineira, eu faço tudo. Eu limpo janela, eu arrumo casa, eu lavo, passo, gosto muito de ir para cozinha, não compro pão, eu que faço pão; eu faço pão, eu faço queijo. Então, eu gosto muito dessa vida, sabe? Quando dá tempo eu faço uma visita às pessoas que eu sei que estão doentes, que precisa levar uma palavra de amiga, né? Freqüento aí a Achiropita [Centro Social da Igreja], as reuniões lá [SESC], freqüento muito aí a APM[16]. Então, minha vida, graças a Deus, é uma vida normal. (Zaira)

 

Como eu viajei os últimos três anos, eu fui visitar minha família em Chile, eu tinha deixado muitas coisas no ar, sabe? Então, esse, olha, eu trabalhei, mas trabalhei aqui em casa. Arrumei tudo, limpei tudo, joguei fora um montão de coisa, tinha monte de coisa acumulada. Trabalhando, praticamente, nem saí quase, nem saí. Tanto que a Neide[17] falou para mim [que] isso faz parte da terapia, fazer uma limpeza em tudo. É, então, agora estou para começar a faculdade [Escola Aberta para a Terceira Idade], vou começar ir na faculdade, quero, também, fazer um pouco de terapia, terminar com a Neide, não até o fim de ano, senão um pouco mais, porque me ajudou bastante a terapia. (Dolores)

 

Como eu tenho o período da manhã pra fazer as minhas coisas, o sábado e o domingo já dão mais pra ficar com ela [a filha], sair, entendeu? Então, houve esse ganho, né? Olha, ainda não tanto, porque eu sou muito detalhista, muito exigente, né? Então, mesmo eu estando em casa, que eu poderia em algumas horas que há me dedicar a um filme, um bordado, essas coisas, eu fico presa em detalhes de arrumação, essas coisas, isso é um fator que também me incomoda.(Helena)

 

 

3.2.5 – O envelhecimento

 

O envelhecimento[18], para os entrevistados que já estão o vivendo, pode não ser algo sentido ou desejado, porém, existe a consciência de que é real, que acarreta limites, mas também cria possibilidades, razão pela qual mantêm uma atitude pró-ativa, compreendendo a necessidade do autocuidado na tentativa de evitar a dependência. Recriaram uma maneira peculiar e própria de viver a velhice, afastando-se dos estereótipos e preconceitos sociais que a definem, no mínimo, como um período desprezível.

 

Eu, pra te falar bem, eu nem me acho velha [risos]. Eu faço tudo que eu posso fazer, né? Eu não me sinto velha, mesmo. Eu sei que eu tenho as minhas limitações, né? Que eu tenho desgaste, é claro, né? com a idade que eu estou. (…) Mas, eu ficar aí sentada, vendo televisão o tempo todo, não, de jeito nenhum! (Zaira, 75 anos)

 

Eu não me sinto tão fora assim, porque vejo que minhas idéias batem, né? Mas, encontro muita gente muito apegada ao passado. Eu acho que o passado passou, eu não tenho apego nenhum ao passado, não tenho saudade de nada. Pra mim existe o presente e o futuro [ri] e preferia não viver muito. (Emiliana, 75 anos)

 

O envelhecimento é uma coisa que a gente não gosta, mas tem que aceitar. Não pode deixar, ficar sentado esperando que venha a idade. Eu acho que tem que fazer exercício, tem que comer decente, tem que fazer uma dieta para manter-se saudável, porque senão vamos ser um peso para a família e eu não quero ser um peso para a familia, de jeito nenhum. (Dolores, 66 anos)

 

E eu só trato desse assunto, quando eu estou em grupos parecidos como aquele que nós tivemos no SESC. Fora disso, muito raramente a gente discute isso em família, muito raramente e não é um pensamento, assim, constante de dizer mais isso é muito ruim, velhice e tal. (Jonas, 74 anos)

 

Quanto à ideia que fazem do tempo que virá, os depoentes que estão vivendo a envelhescência (45 a 57 anos), isto é, a transição da vida adulta para a velhice, para um futuro desconhecido, duas mulheres manifestam temor face à contingência de recriar sua rotina e repensar suas atividades, adaptando-as às novas exigências da idade avançada. Referem dúvidas em relação à postura que assumirão frente a ela: enclausuramento no espaço privado ou luta para a permanência na arena do espaço público?

 

É um assunto que me incomoda muito. É meio complicado para mim, porque não sei se chega uma hora eu vou ter que parar de fazer tudo o que eu faço, né? (Eloísa, 51 anos)

 

Será que eu, também, vou me fechar, né? ou vou me colocar, me dar a oportunidade de lutar pelo meu espaço. (…) E é o momento da tua vida que você realmente vai fazer agora, por prazer, despreocupadamente, livre daqueles horários rígidos, né? Teve um período que você era obrigada. (Helena, 45 anos)

 

Dois homens demonstraram mais tranqüilidade em relação ao tempo futuro, pois apreenderam a vida como um continuum, com a interligação entre todas as etapas, o que lhes deu a possibilidade de não vislumbrar radicais mudanças no modo de ser na velhice, apesar de admitirem os limites advindos de um corpo que envelhece.

 

Não me preocupo; eu acho que, se a velhice chegar para mim, ela vai chegar e eu acho que não vou mudar muito mentalmente. Talvez, fisicamente (…) .Mas, a minha mente, como eu penso, a minha dinâmica, a maneira de pensar, de tentar ajudar, de fazer, isso eu não creio que vá mudar. (Fagundes, 57 anos)

 

O envelhecimento, eu hoje estou com 55 anos de idade, não estou velho, mas eu não senti a idade. Eu faço essas coisas, não sou uma pessoa jovem, tá? Tem coisas que é lógico, eu já não faço aquilo tudo, inclusive, eu tive um problema de uma cirurgia no joelho, então, eu já não corro mais, como eu corria antigamente. Em primeiro lugar por causa da cirurgia, depois o cansaço, ele vem quase que automaticamente, mas, tudo aquilo que me vem dentro dos meus limites e dentro da minha idade, eu procuro fazer e quando eu encontro alguma dificuldade, eu ainda digo, eu faço desafiando aquela idade que não está me deixando fazer aquilo. (Roberto, 55 anos)

 

Em relação à velhice do outro, foram levantadas as diferentes facetas que a compõem em nossa realidade, como já foi relatado neste trabalho. Eles tanto percebem que o prolongamento da vida, para parte significativa deste segmento, não foi acompanhado do mínimo de condições para suprir necessidades básicas – o que lhes provoca sentimento de preocupação e tristeza – quanto sinalizam o movimento de transformação já existente para a reinsersão na esfera pública, ainda que não da totalidade.

Porque quem tem assim dinheiro, um meio de sobreviver, tudo bem, mas e estes que não têm? Ficam no asilo, aquele sofrimento tremendo, não é uma coisa absurda? Eu acho assim, a medicina prorrogou bastante a vida das pessoas, mas por um lado tem muito sofrimento, eu acho. Muito sofrimento. (Zaira)

 

É mais aceita, né? Antigamente, não sei, hoje eu acho que os idosos estão se colocando mais, né? Antes ficava dentro de casa ou em frente de um crochê ou ali sentado naquela cadeira de balanço, que eu vejo pelos meus tios mais velhos. E hoje eu acho que o idoso está mais aberto, existe grupos que dão oportunidade para ele fazer uma ginástica, um curso, então, está mais aberto, mas ainda há muito pra fazer pelo pessoal maduro, pra velhice. (Helena)

 

Olha, a não ser essa reunião lá no SESC, né? Que nós participamos e eu me preocupo muito com a velhice, eu fico preocupada quando vejo uma pessoa, que ainda não é tão idosa e toda cheia de problemas, né? (Emiliana)

 

Eu participei de um evento aqui num clube próximo, do lado de onde eu resido, e eu tive a oportunidade de sentir esse pessoal da Terceira Idade, aquela sensação que foi uma primeira vez para mim. Então, aquela empolgação deles, aquela coisa, a integração, quando eu me refiro é a integração das idades, então, fala-se a mesma língua, o comportamento o mesmo, o respeito entre eles é o mesmo. (Roberto)

 

 

3.2.6 – A consciência sobre as políticas públicas

 

Se nos ativermos ao fato de que as políticas sociais brasileiras de proteção à pessoa idosa ainda são insuficientes para combater as vulnerabilidades decorrentes do envelhecimento da população, mesmo que em alguns casos não se trate de falta de política apropriada, mas de recursos necessários para a implementação de ações ou serviços, recursos estes, que muitas vezes são desviados para outros setores do orçamento público (Teixeira, 1999), veremos que os depoentes demonstraram ter consciência desta situação. Assinalaram descrédito, às vezes, total, no Governo e nos representantes políticos do país, pela falta de sensibilidade demonstrada em relação à questão do idoso, devida, principalmente, às aposentadorias rebaixadas e que não cobrem as despesas com moradia, alimentação, medicamento. A falta de recursos para a saúde, preocupação constante na velhice, que é fase suscetível a algumas doenças, e de assistência social, também, foram levantadas por vários pesquisados.

 

Eu acho que, ao contrário, eles não têm política para (…) tem política para acabar, para não ter política para eles [os velhos].Deixa ao Deus dará mesmo. Acham que a sociedade vai tomar conta disso, eu acho que é o pensamento deles, alguém vai ficar com dó e tomar conta deles. (…) Então, isso eu gostaria de mudar, mas eu não tenho esperança de ver. (Fagundes)

 

Bom, isso aí eu sei que, também, é uma luta muito grande. A gente recebe essa aposentadoria miserável aí, ele acha que está muito bom, né? Sei lá, faz pouco mesmo, não faz tanto, mas também, é coisa demais prá ser feita no país, né? É muita coisa, tem gente, também, demais, sei lá. Tudo isso ajuda, coopera, né? que é gente demais, não sei o que que é. (Zaira)

 

Se você for pensar, assim, em termos de governo, eles oferecem muito pouco ou quase nada. Quando você pensa que aposentado ainda sai nas ruas, lutando reivindicando direitos de aposentado, isso dói muito, né? Então, se você for procurar em termos de assistência médica, assistência social um trabalho que possa com o idoso, não existe, praticamente, muito pouco. Acho que o Governo não tem muito essa preocupação. (Eloísa)

 

Eu não sou muito de acompanhar política, eu sou mais apolítica, né? Mas, assim, de um modo geral, eu acho que a aposentadoria é muito desproporcional, tá? Numa fase em que o pessoal precisa, o dinheiro é escasso, tem problema de saúde principalmente, [não tem] hospital descente, remédio. (Helena)

 

Olha, o governo com a velhice, eu [acho] que nunca se preocupou, não é? A não ser o Mario Covas, a gente não paga condução. Isso é uma grande coisa, porque a gente tem dificuldade pra andar, né? Agora o ordenado é pouco. Eu até não queixo do meu, viu? Mas, esse salário mínimo é um absurdo, né? Não tem como sobreviver com o salário mínimo, não paga um prato feito por dia e aluguel, roupa, remédio, coisas assim? (Emiliana)

 

Tenho observado o seguinte: que existe muita demagogia, existe muito desperdício de dinheiro público que podia ser aplicado nisso [na questão genérica de quem precisa]. (Jonas)

 

Realmente, eu acho que a nossa política eles vêm, os nossos políticos, eles vêm só a si próprios, se tiver que fazer alguma coisa pelo nosso semelhante, pelo velho, o velho, que seria uma força de expressão, pela pessoa com um pouco mais de idade, pelo aposentado, que, às vezes dá a impressão, que aposentou, a palavra aposentadoria é uma derrota, está morto e não é nada disso não. (Roberto)

 

Olha, eu acho que faz muita falta aqui um governo que governe, viu? Eu acho que tem muita demagogia. Falta responsabilidade em tudo, em tudo, desde a criança na escola, em casa, acho que uma das coisas que mais faz falta responsabilidade, cidadania. Pensar numa sociedade em geral. (Dolores)

 

A Política Nacional do Idoso coloca entre suas diretrizes a criação de Conselhos nos âmbitos nacional, estadual e municipal, considerandos-os como órgãos permanentes de representação. Zaira, uma das pesquisadas, que é integrante do Grande Conselho Municipal do Idoso da cidade de São Paulo, demonstrou, durante o seu depoimento, sua contribuição nas lutas pelo segmento idoso, tanto na tentativa de inseri-lo como cidadão, como merecedor dos direitos já adquiridos, quanto na reivindicação de novos que contribuíssem para uma melhoria na qualidade de vida. Ela assinalou, por outro lado, ter consciência crítica em relação ao alcance da ação voluntária, da passividade dos próprios idosos em relação à reivindicação dos seus direitos ou o desrespeito a eles e criticou-os pela acomodação em momentos anteriores da vida pela obtenção de melhores condições de vida que assegurassem uma velhice com mais tranquilidade.

 

É com muita luta que a gente consegue muito pouco. A gente luta muito para conseguir muito pouco. (…) E eu acho, sei lá, esse negócio, por exemplo, da moradia, dos idosos que não têm moradia, que eles deveriam, que os idosos também deveriam ter lutado antes, né? Como dizem, a gente tem que trabalhar com os dentes prá comer com a gengiva; então, tinha que ter lutado um pouco pra pelo menos ter moradia. Sabe, é um sofrimento, é muita reclamação de saúde, né? Falam demais dos governadores, né? Tem coisa que, sei lá, depende muito da pessoa, não só dos governadores; qualquer coisa joga nos governos, né? É porque o governo não dá condição, porque isso, porque aquilo. Eu acho que nós temos que fazer nossas partes. (…) Eles acham, assim, os idosos, que eles já trabalharam e agora eles querem tudo aqui [na mão]; não querem mais trabalhar, não precisam trabalhar, que o que eles tinham que fazer, que ajudar, eles ajudaram. Agora eles não querem mais nada, só querem tranquilidade, como diz, querem só bailinho.

 

Observamos, entretanto, que ela (75 anos) não se inclui na condição de idosa, nem se inclui dentre o segmento da população pelo qual é militante, possivelmente, porque se considere – e realmente é – uma pessoa ativa e não se encontre entre aquelas que são economicamente carentes, o que faz supor que, apesar de tudo, preserva uma ideia preconceituosa em relação à velhice, associando-a a estereótipos de alienação, carência, passividade, não tendo ainda renovado seu pensamento em relação a ela. Talvez, por isso, reluta em sentir-se integrante daqueles que envelhecem, fato que corrobora a afirmação de Beauvoir (1990: 348): a velhice aparece mais claramente para os outros do que para o próprio sujeito; ele é um novo estado de equilíbrio biológico: se a adaptação se opera sem choques, o indivíduo que envelhece não a percebe.

Aí nós fizemos abaixo assinado, que tinha que ter a vacina pros idosos. (…) Eu estou fazendo alguma coisa pra ajudá-los, apesar que muita gente acha que não é nada; tem uma lá na Achiropita que fala prá mim: ‘Ah, você não faz nada’; mas a gente taí na luta, tentando fazer.( ..). Não é assim que é a vida, só depender de bailinho, não. Eu acho que uma idosa, por exemplo, pode ser voluntária aí, numa creche, num hospital. Não todo mundo (…) velhinha caindo aos pedaços (…) é claro! Mas ainda tendo uma boa saúde, pode fazer isso, né? Ir numa creche, contar história pras crianças, fazer alguma coisa de útil mesmo, não ficar só em casa ou vendo televisão ou reclamando. Porque a maior parte só fica sentada vendo televisão. Aposentou, ah!, agora eu não quero mais nada, eu agora fico em casa vendo televisão. Meu Deus, o que que leva a televisão? Nada! Então, eu acho que as pessoas precisam de saírem, de movimentarem, de fazer alguma coisa, entende? Eles são muito acomodados. Aqui, então, que eu mais freqüento, que é na Achiropita, chegou a 5ª feira, por exemplo, a semana toda tem atividade, mas não são todas que vão. Tem biodança, tem artesanato, tem ginástica, mas tem coral. E na 5ª feira, toda 5ª feira, é a reunião do bolo; aí, então, é dia que elas vão mesmo, né? Mas ali para jogar um bingo, sabe? E é isso, sabe? Se vai uma pessoa fazer uma palestra, elas não gostam; palestra pra que? Elas não gostam, entende? Elas gostam mesmo é: bingo e dança [risos]. Então, acomodou. Eu, pra te falar bem, eu nem me acho velha [risos]. Eu faço tudo que eu posso fazer, né? Eu não me sinto velha, mesmo.

 

 

3.2.7 – A realização e a projeção dos “sonhos”

 

Os sonhos[19], quando fazem parte de um projeto de vida, ajudam a indicar os caminhos, os rumos que se pretende imprimir à própria existência, que ao longo do caminho podem ir sendo alterados, ampliados ou recortados, amoldando-se às circunstâncias e aos novos desejos que vão surgindo.

Os sonhos e projetos já realizados, pela maioria do grupo, foram idealizados na juventude e parte significativa obteve sucesso, reconhecendo seu empenho para que isto ocorresse. Desejo de constituir família, educar os filhos, ter uma carreira profissional, ascender socialmente foram metas propostas e alcançadas.

O meu projeto maior era mesmo os meus filhos, né? Formar, dar um diploma para cada um, né? O que eu consegui, graças a Deus, né? (Zaira)

 

Consegui, eu tive três. O primeiro sonho que eu tive foi de ter uma possibilidade de ter uma família, possibilidade que eu digo, é meio financeiro primeiro, depois a moral e ter a sorte de ter encontrado alguém que me entendesse e que eu entendesse. (Fagundes)

Eu tive muitos sonhos, consegui realizar, eu queria ter uma família, queria ter filhos, queria (…) isso consegui. (Dolores)

 

O que eu tive não foram sonhos, foram metas que eu consegui realizar. Os que eu não consegui realizar, nem imaginei que fossem sonhos etc.. (Jonas)

 

Mas, tudo aquilo que eu desejei, você sabe a minha origem, eu sou uma pessoa humilde, então, se eu fiz uma formação universitária, se eu vim de uma família humilde, então, praticamente foram conquistas que eu fiz. (…). Então, eu não posso me queixar, eu sou uma pessoa que tudo aquilo que eu quis, graças a Deus e a mim, também, [eu consegui] porque a minha persistência é fundamental, certo? (Roberto)

 

Sonhei um dia [constituir família], mas não realizei, tenho consciência que tive oportunidade, mas não quis, em função daquilo que eu estabeleci como prioridade minha. Agora, por outro lado, profissionalmente me realizei muito. Não completamente, porque estou voltando a fazer coisas que eu parei, né? Tanto foi importante que estou voltando a fazer este trabalho na linha do social, na linha da educação. (Eloísa)

 

O fato é que, nem todos conseguiram realizar as suas aspirações, aos menos da forma idealizada, tendo que recortá-las para uma adaptação à realidade vivida.

 

Consegui nesses anos todos adquirir minha casa, que não é a casa que realmente eu queria, num bairro que eu gostaria. Foi o que deu pra comprar e agora não há condições de fazer a troca. (Helena)

 

Sim, eu tinha vontade de viajar (…), eu gostaria muito de ter viajado e ter estudado mais. (Emiliana)

 

No que tange aos projetos, aos “sonhos” para a vida futura, a maioria dos integrantes do grupo mencionou ter uma meta, um desejo. Uma das entrevistadas, apenas, se considerou realizada. Fica implícito, entretanto, que mesmo ela continuará como sempre e como os outros, ativos e atuantes e dando continuidade à construção da história de suas vidas, enquanto cidadãos que estão mudando o paradigma de velhice, período identificado com o passado, com inatividade e com dependência, para uma época de participações, de possibilidades e de realizações partilhadas com a família e com o outro, para os quais têm-se dedicado.

Alguns apresentaram planos mais voltados para si, ou seja, para seu crescimento, realização de antigos sonhos, para uma reorganização da própria vida, sentindo-se realizados e evidenciando um forte desejo de ser e estar ativo.

 

Agora eu não tenho mais meta, aí eu tenho meta viver o dia de hoje e o momento de agora. (Jonas)

 

Ah, eu acho que estou realizada mesmo, está tudo bom. (Zaira)

 

[pausa] Eu acho que nada. Meu sonho é crescer muito espiritualmente, ampliar meus conhecimentos. Não posso ficar parada, não é? (Emiliana)

 

Então, me propus esse ano, assim, me reorganizar [em] algumas coisas. Viagens estão na minha (ri), estão na minha etapa de prioridade. Tem que conciliar, não é? São coisas que eu quero fazer. Uma outra coisa que tem que fazer é poder morar sozinha, sabe? (Eloísa)

 

Viajar, viajar para a Europa, visitar museus, visitar, especialmente, Florença, Roma, Itália, em geral, isso eu gostaria. Teria já um roteiro a seguir. Não é para fazer compras, nada disso, é mais para um ’tour’ de arte. (Dolores)

 

Outros priorizam a família, o apoio aos filhos que iniciam a construção de suas vidas.

 

Então, há muita coisa que eu gostaria, mas eu não posso fazer não. Viagem seria o que eu mais gostaria. Agora tenho que pensar na minha filha que está no vestibular praticamente. Eu preciso, não sei como, me preparar para encaminhá-la para o vestibular. Então, as minhas vontades vão ficando. (Helena)

 

Olha, meu projeto hoje, não é um projeto grandioso não, meu projeto hoje é conseguir que meus filhos tenham, pelo menos perto do que eu tenho, que eles se sintam perto do que eu sinto, que eles tenham a mente que eu tenho. (Fagundes)

 

Finalmente, um deles projetou continuar e ampliar seu trabalho voluntário, ainda assim, não esquecendo de si mesmo.

 

O meu sonho é realmente conquistar esse Centro Oftalmológico e fazer isso tudo com muita saúde. (Roberto)

 

 

 

 

 

 

3.3 – Extraindo e construindo idéias

 

Há um traço indelével nos depoimentos colhidos e que vem comprovar a assertiva de Berlink: a alma não tem idade (1996, passim).

Condizentes com a realidade em que vivenciaram sua existência, o trabalho, para as pessoas pesquisadas, teve papel fundamental, centralizador e gratificante em suas vidas. Para a maioria, ele comportou duas dimensões, duas finalidades: o trabalho para si e para o outro. A primeira, provavelmente, imposição ideológica do mundo capitalista, possibilitou a sobrevivência, a realização pessoal e a ascensão social; a segunda expressou uma atitude de vida traduzida pela prestação de um serviço ao próximo, baseado na solidariedade. Juntas, essas dimensões nortearam o sentido de uma vida ativa e atuante, uma forma de exercer a cidadania, de manter-se inserido no espaço público.

O papel profissional foi tão importante para os depoentes que, num primeiro momento, não puderam aceitar sua interrupção, quando da aposentadoria. Todo o grupo, após se aposentar, retomou imediatamente – ou nem sequer interrompeu – o trabalho, muitas vezes, não por necessidade financeira, mas para continuar a se sentir útil, dar continuidade àquele ritmo que vinha dando cadência ao cotidiano.

Assim, a transição para o mundo do pós-trabalho foi feita com dificuldade e sofrimento por aqueles entrevistados que, possivelmente, tenham construído a identidade muito vinculada ao trabalho; porém, de forma mais tranquila e equilibrada por aqueles que demonstraram ter investido em outros papéis além do profissional e em outras formas de engajamento social, tendo, portanto, diversos pilares para se apoiarem; ou, ainda, com facilidade por quem soube usar o tempo liberado com atividades prazerosas para as quais não tinha tempo antes.

Por isso, só em um segundo momento, a maioria deles conseguiu aposentar-se efetivamente, e ao fazê-lo deu um significado a este tempo de continuidade, de possibilidade de encontrar novas formas de ser produtivo, respondendo à hipótese de estarem entre aqueles que são ativos e permanecem nesta condição, mesmo quando o entorno insinua o contrário. Colaboram, assim, para forjar uma nova imagem a respeito da aposentadoria desvinculada de inutilidade, velhice e doença, libertando-a do ostracismo, de estereótipos e preconceitos subjacentes, como anteriormente visto nesta pesquisa. Contestam com esta atitude a idéia que liga aposentadoria à morte social, buscando transformações para permanecerem socialmente inseridos no espaço público.

Uma das formas encontradas para tanto foi uma dedicação maior às ações comunitárias que já faziam ou tinham feito parte das atividades da maioria do grupo estudado. Este revelou ser composto por pessoas que têm valores sedimentados na solidariedade, muito frequentemente, na religiosidade e os traduzem em uma atitude pró-ativa frente às questões sociais, apenas acentuadas com o tempo liberado do pós-trabalho. Esta postura, com certeza, sustenta as razões para o envolvimento com o trabalho solidário, objeto desta pesquisa: retribuição pelo que se lutou e recebeu, partilha da experiência acumulada de vida, retribuição pela ajuda e apoio para a compreensão de dificuldades pessoais e familiares. Outras se relacionam ao preenchimento do vazio trazido pela aposentadoria e ao empreendimento de ações altruístas que revertem em benefício próprio. Em contrapartida, depreende-se que, o exercício da voluntariedade, tal como o do trabalho remunerado, significa fonte de prazer, realização e projeção pessoais.

As relações e obrigações familiares não deixam de ter importância e primazia para os entrevistados; entretanto, são as mulheres que têm a vida mais afetada por essas questões, na medida em que, no geral, são elas que vivenciam mais intensamente dificuldades e preocupações do âmbito familiar. É com a família, no entanto, que geralmente compreende e incentiva as ações solidárias, que todos dividem as satisfações delas advindas.

Assim, no meu entender, se revela a dimensão do trabalho realizado para o outro, que está intrinsecamente relacionada à do trabalho realizado para si mesmo, pois ele não mais é exercido para manter a sobrevivência e, sim, para dar sentido à própria existência. É preservando-se entre os espaços privado e público que continuam seu processo de desenvolvimento e aperfeiçoamento enquanto seres humanos.

A própria velhice é identificada de forma positiva, não só pelos entrevistados que já a estão vivendo, como também por aqueles que a entendem como parte integrante de uma existência permeada por valores, atitudes e ações que lhe dão sentido e independência. Para algumas mulheres, que estão na “ante-sala” da velhice propriamente dita (na envelhescêscencia), adaptar-se às necessidades deste tempo desconhecido causa dúvidas e temor.

A última etapa do curso da vida foi identificada de maneira positiva pelos depoentes já velhos, talvez porque tenham preservado bem sua auto-imagem. Mantendo-se envolvidos em diversas atividades, é possível que tenham conservado o controle sobre suas decisões e, assim, encontrado sentido para suas existências, o que os coloca em sintonia com o mundo: sentem-se e estão presentes no espaço público. Estes fatores confirmam que é a existência mantida, inclusive, no espaço público, aquele do pensar conjuntamente, que permite visibilidade, reelaboração da imagem do aposentado como pessoa que, apoiado em uma estrutura de sociabilidade, pode e deve preservar-se inserido no mundo que ajudou e permanece ajudando a construir.

Os entrevistados não estão alheios, entretanto, em relação à velhice do outro. Têm consciência da grande parcela excluída, ao mesmo tempo em que, percebem a inserção social de uma minoria.

O atual incentivo e valorização, pela sociedade e Governo, à ação voluntária em que estão engajados, foi apreendida de forma positiva pelos pesquisados, que percebem uma consciência social que mobiliza as pessoas a uma participação mais ativa nos problemas da sociedade. Atribuem-lhe, entretanto, papel suplementar às políticas sociais do governo, que não fica desobrigado de envolvimento direto com a solução dos problemas sociais. Idêntica atitude crítica foi demonstrada em relação ao descaso do governo e dos políticos no que se refere à questão do idoso, pela falta de implementação ou mesmo inexistência de políticas de proteção que garantam o mínimo necessário para a sobrevivência.

O grupo, de maneira geral, declarou estar vivendo bem o presente, assentado em valores religiosos, de solidariedade e num passado de realizações, tempo este que está sendo dedicado à família, à prática de ações solidárias e atividades de auto-cuidado ou lazer. Trata-se de um grupo com características bem definidas em termos de uma escolaridade diferenciada e de um poder aquisitivo que oferece tranqüilidade à sobrevivência em todos os níveis.

Projetos idealizados no passado, grande parte deles concretizados, permitem sentimentos de realização no presente e inspiram novos desejos a serem alcançados no futuro. Este moto continuo parece ser uma das fontes de alimentação deste grupo, o que, provavelmente, introduz variações no cotidiano e contribui para que a aposentadoria não seja vista nem vivida como o encerramento de um ciclo, mas como um momento de continuidade, fecundo de possibilidades e transformações.

Finalmente, os depoimentos coletados podem mostrar que há formas muito diferenciadas de viver o tempo do pós-trabalho e o processo de envelhecimento. Mesmo quando todos os padrões ainda vigentes colocam esse tempo e esse momento da existência de forma estereotipada – tempo do não-ser ou do ser-sobrante – há um movimento individual e coletivo que se contrapõe ao status quo. O grupo pesquisado, a nosso ver, insere-se nesse contraponto.

 

 


CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

 

Esta dissertação significa mais um passo no estudo da vivência da aposentadoria, fato que vem me instigando há um longo tempo. À medida que alguns aspectos deste tema foram se tornando um pouco mais claros, novas indagações surgiram e me levam a perscrutar novas respostas. E é este, a meu ver, o real caminho para a produção de conhecimento.

Todo o esforço de uma aproximação às questões que envolvem o envelhecimento, a aposentadoria e o trabalho voluntário representa, sem dúvida, um ganho pessoal, pois me encontro, também, em processo de envelhecimento, aposentada e envolvida com a prática da voluntariedade, procurando delinear caminhos para o presente e o futuro.

O tempo, preenchido no dia a dia, é um fluxo constante, que nasce no passado, passa pelo presente, é empurrado rumo ao futuro e, ao passar, leva consigo a medida do seu transcurso. Este fato me leva a pensar quanto a sociedade, que prioriza o mundo da produção, faz com que quem esteja fora dele se sinta estranhamente deslocado e busque realocar-se, o mais rápido possível, e quanto as pessoas podem interiorizar esse ideário, planejando uma vida sem prever a distribuição de tempo entre diferentes atividades e mudanças relativas à afetividade, à vida familiar, ao lazer, à participação sociocomunitária.

O trabalho voluntário, sem dúvida, contribui para que se desqualifiquem quaisquer estereótipos e preconceitos subjacentes à condição de aposentados e ajuda a desenhar uma das possíveis formas de viver o pós-trabalho e a velhice, dando-lhes significado. O voluntariado, por sua vez, é uma fonte de realimentação do desenvolvimento e realização pessoais, além de propiciar a continuidade da inserção nos espaços públicos e privados.

Nessa perspectiva, o resultado da análise da pesquisa de campo trouxe respostas afirmativas às principais hipóteses, anteriormente levantadas neste trabalho. Confirmou-se que muitos aposentados, cuja vocação já era voltada para um trabalho social, no tempo do pós-trabalho dão continuidade à sua história, tornando-se voluntariamente ativos. Como já apontado, mesmo que tenham centrado sua vida no trabalho formal ou assalariado, não o fizeram exclusivamente. Portanto, reinventar novas formas de vida, após a ruptura com o mundo produtivo, tem um peso relativo para aqueles que anteriormente já se dedicavam ao trabalho social e voluntário.

Também é possível confirmar a hipótese de que há, entre os aposentados, pessoas que estão procurando manter fontes de prestígio e de poder, antes advindas, principalmente do mundo produtivo, para as quais o voluntariado representa uma forma de dar continuidade às antigas relações de trabalho e à sociabilidade lá existentes.

A ação comunitária ou trabalho voluntário pode ocorrer, conforme foi suposto, pelo enfraquecimento das relações familiares, pela independência dos filhos, pela viuvez ou pela separação conjugal, fatos que motivam uma abertura para a comunidade, onde há o encontro e o convívio com pessoas que se tornam próximas e com as quais é possível manter uma relação de afeição, em um mecanismo de ampliação dos laços familiares. Por conseguinte, este estudo confirmou a hipótese de que o trabalho voluntário, ainda que praticado anteriormente, é uma forma de ampliar as relações sociais, sejam elas de trabalho, familiares ou afetivas. Como referido, há uma reciprocidade nessa ação, pois os ganhos e satisfação pessoal decorrentes da atitude em relação ao outro se fazem presentes.

Sem dúvida, este modo de ser e preencher o tempo pode contribuir para que aposentados, junto com as relações familiares, possam estabelecer uma outra estrutura de sociabilidade, antes vinculada mais estreitamente às relações de trabalho. De qualquer forma, um dado merece ser referido: os aposentados voluntariamente ativos parecem ser dotados de uma “predisposição” às relações sociais em vários níveis, movidos, muitas vezes, por sentimentos de altruísmo e de religiosidade. No dizer de Blasco e Parrella (1993) há nesta forma de se conduzir socialmente, um traço de generosidade, unido a um sentimento de responsabilidade ideológica e comunitária

O que devo argumentar, então, é que essa predisposição independe da faixa etária, das relações com o mercado de trabalho, das relações familiares e de alguns outros fatores. Estaria afirmando que há pessoas – indiscriminadamente – que se predispõem à ação social e à voluntariedade.

Parece-me, como conclusão principal, que as pessoas que puderam construir durante a vida outras fontes de reconhecimento e de valorização, além do papel profissional, quando da aposentadoria, podem encontrar mais facilidade para se reestruturar, pois têm a possibilidade de se apoiar em outros interesses que lhe façam sentido. Assim, o aposentado voluntariamente ativo não emerge no momento da aposentadoria. Este indivíduo vem sendo construído ao longo de toda sua história, em contraposição a José Maria, personagem de Machado citado na epígrafe da introdução. José Maria viveu para o trabalho e para o estrito âmbito privado e domiciliar. O aposentado voluntariamente ativo, ousaria dizer, já tem um passado de ser e estar no mundo que se confirma no presente, até mesmo pela maior disponibilidade de tempo ao término das atividades laborativas. No dizer de Queiroz (1988) a forma como a aposentadoria será vivida/sentida depende de uma série de fatores, entre eles, a história de vida.

Assim, a razão maior (objeto desta dissertação) que induz à prática do trabalho voluntário no tempo do pós-trabalho, configura-se como um traço pré-existente no pensamento e na ação de certos indivíduos.

Independente de qualquer questão polêmica, a conclusão é que o trabalho voluntário realizado por aposentados é, sem dúvida, uma forma saudável de viver o momento da aposentadoria. É uma forma de estar no mundo – espaços público e privado -, é uma forma de dar sentido à existência.

O aposentado voluntariamente ativo demonstra ter consciência crítica, conforme foi suposto, no que tange ao papel do trabalho voluntário, ou seja, consegue vê-lo como um coadjuvante das políticas sociais, mas não exime o Estado de, por meio delas, propiciar condições para os velhos se sustentarem, manterem a autonomia e, consequentemente, a condição de cidadãos.

Quanto aos objetivos propostos, penso que os mesmos foram alcançados, uma vez que houve uma caracterização sustentada dos sujeitos da pesquisa, mediante o recurso de usar de suas falas com recorrência intermitente, para compreendê-los naquilo que são, fazem e pensam. Evidenciou-se que o trabalho voluntário tem importância significativa para os sujeitos, para suas famílias e para a sociedade em geral. Foi possível compreender o sentido que esses aposentados dão ao trabalho voluntário, como analisam seu próprio processo de envelhecimento e como abordam as questões referentes às políticas públicas e sociais.

Finalmente e por decorrência, um estudo que consiga colocar estas questões deverá servir de parâmetro a projetos e programas junto a associações de aposentados que se disponham a sugerir formas de vivenciar o tempo do pós-trabalho, conforme um dos objetivos propostos.

No entanto, das leituras e dos debates em aberto, de todas as questões estudadas, resta uma sensação de ambivalência: como realmente encarar essa forma de expressão e de participação individual e coletiva que é denominada trabalho voluntário – rejeitá-la ou abraçá-la?

Com certeza, a resposta a esse sentimento ambíguo virá no decorrer de um tempo maior, pela mediação de outros conhecimentos e de outras vivências, o que não significa uma percepção mais imediata de, pelo menos, duas situações fundamentais.

 

Ao se considerar que o homem é um ser naturalmente gregário, a solidariedade deve ser fator incondicional de sua existência. Clamar por solidariedade é uma forma de dizer ao homem que ele é um ser de relação, seja ela com outros homens ou com a natureza (Felgar, 1999:147).

 

Ver no outro o semelhante, mesmo nas diferenças, é um caminho de humanização do humano. Voluntariamente dispor-se a trabalhar pelo outro é uma forma de expressão dessa solidariedade. Nessa perspectiva, é possível entender e valorizar aquelas pessoas que se dispõem a dedicar parte de seu tempo, de seus talentos e de seu trabalho a seus semelhantes, realizando um processo de troca e de ganhos recíprocos.

No entanto, uma segunda percepção é inquietante, uma vez que, hoje, a solidariedade individual e coletiva proposta pelos discursos de autoridade poderia estar sendo uma forma de amenizar os descaminhos de uma perversidade social cada vez mais intensa.

 

Contudo, [a solidariedade] como imposição para normatizar o Estado mínimo, parece-nos uma forma cínica de procurar “equacionar” aspectos concretos de uma realidade produzida por determinadas condições e sob forma hegemônica, induzindo à produção e à reprodução dessas mesmas condições e colocando, como retaguarda defensiva, mais uma vez, a transferência de responsabilidades sociais. O capital aufere os lucros; a sociedade assume as despesas (Felgar, 1999:147).

 

Esta segunda percepção, por consequência, induz a pensar que o trabalho voluntário sistematizado e socialmente organizado deve agir de acordo com parâmetros críticos, sob pena de se colocar como mero mantenedor de um satus quo.

Nessa mesma perspectiva, Landim e Scalon (2000) apontam que o interesse recente e generalizado por essas práticas antigas, remete aos seus possíveis e efetivos usos estratégicos e políticos, particularmente onde se instalou o modelo do Bem-Estar Social, inclusive no Brasil, pela funcionalidade que essas práticas podem adquirir diante dos projetos neoliberais de desmonte das políticas sociais. Segundo as autoras,

 

O pano de fundo desses ressurgimentos ou redescoberta é global e bem conhecido. É contraditório, heterogêneo e ambíguo como os sentidos sociais e políticos que as ‘doações’ e o ‘trabalho voluntário’ podem assumir. Compreende fenômenos também diversificados tais como a redefinição do papel do Estado e a predominância da lógica de mercado com suas consequências sociais desastrosas para a maioria das populações; o fim do socialismo real e a reorganização das sociedades do Leste Europeu; a crise das ideologias dos anos 60-80; a diminuição de prestígio e a desconfiança com relação às instituições político-representativas tradicionais, como partidos e sindicatos; a intensificação de afirmações – e discriminações e conflitos – étnicas e religiosas; as transformações no mundo do trabalho e a crise da solidariedade; o recrudescimento da chamada exclusão social, configurando-se o que, para alguns, é uma nova questão social; etc. (2000:19).

 

Nesse contexto, ainda segundo as autoras, retomam-se velhos conceitos ou categorias – solidariedade, assistência, caridade, reciprocidade, dádiva, filantropia -, discutindo-se práticas e valores a eles associados, na cena contemporânea, na perspectiva de valorizar e incorporar o voluntariado e as doações.

Não é possível esquecer que a questão da doação de tempo e dinheiro, proposta à sociedade civil, foi usada aqui em movimentos políticos autoritários da segunda metade do século XX. Agora, seu sentido vem carregado de ambigüidades e provoca desconfianças por sua possível funcionalidade em projetos de retração do Estado e de legitimação de políticas compensatórias.

A discussão sobre o encolhimento das políticas sociais e as concomitantes concepções e medidas, no sentido de fazer do setor voluntário um espaço de sua substituição, é generalizada. Em uma sociedade como a nossa, de desigualdade, de pobreza e de um mínimo sistema de proteção social, é de se prever que essa polissemia da expressão da sociedade civil – com potenciais de efetividade concreta – provoque polarizações, abrindo um franco debate ideológico.

Contudo, este estudo não se propõe entrar nessa polêmica, embora a considere extremamente necessária e pertinente, razão pela qual está sendo apontada. De todo, um fato parece inconteste, como já mencionado, a intensidade de mudanças decorrentes da passagem da condição de trabalhador para a condição de aposentado provoca um afastamento do mundo social, o que leva, muitas vezes, a uma velhice isolada e sem significado. O trabalho voluntário, pelo que posso inferir, pode ser uma das atividades que propicie ao velho um lugar possível de atuação e significado, que traga, conforme referencia Birman (1995), um reconhecimento do lugar social e espaço político para este segmento da população.

Ainda assim, é possível afirmar com Corrullón que a compaixão deva ser um dos mecanismos da solidariedade na relação entre o eu e o outro, entre o nós e os outros. O trabalho voluntário, que se coloca como uma expressão emocional de caráter individual ou coletivo, pode ser tanto de compaixão (voluntário) como de indignação (militante). No entanto, é preciso pontuar, também, que o trabalho voluntário, especialmente aquele que se organiza coletivamente, deve se colocar, indignadamente, como uma estratégia de transformação social. Para que assim ocorra, deve estar atento às causas estruturais e conjunturais dos problemas, ou seja, estar atento à realidade concreta e à história, sem o que poderá tender à falência e deixar de ser, como tem sido apregoado, um vetor transformador no âmbito das relações sociais, políticas e econômicas.

É possível, talvez ousadamente, afirmar que o trabalho voluntário, objeto desta dissertação, se constitui em uma forma de expressão emocional que pode estar impregnada de compaixão, de indignação ou de ambas, configurando ou um movimento de consciência crítica em direção ao fortalecimento da cidadania ou de mera alienação e pragmatismo, expressando-se como resultado do que Habermas chama de colonização do mundo da vida.

Finalmente, o título desta dissertação me leva à conclusão de que aposentados voluntariamente ativos são sujeitos efetivamente envolvidos com a grande questão da contemporaneidade: as práticas voluntárias, encontrando nelas uma forma de inserção no espaço público, para além dos estreitos limites da privacidade.

Só resta uma reflexão: que toda essa energia, despendida já em momentos de envelhescência, na consolidação de um ato humano extremamente generoso, não sirva a interesses outros que busquem novas formas de colonização do mundo da vida e de exploração do trabalho vivo. Que a prática do trabalho voluntário seja sempre uma expressão da solidariedade maior entre os seres, independente de suas faixas etárias, e que os aposentados encontrem nela sua melhor forma de vivenciar o tempo do pós-trabalho.

 

 

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ANEXOS

 

ROTEIRO PARA AS ENTREVISTAS

 

1 – Identificação

 

Nome……………………………………………………………………………………………………………..

Endereço………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………tel.:……………………

Idade…………… Sexo…………… Naturalidade…………… Ascendência………………………..

Estado civil…………………………………………..há quanto tempo?………………….

Religião…………………………………………………………………………………………….

Atividades religiosas…………………………………………………………………………..

………………………………………………………………………………………………………..

Nº de filhos…………… dependem financeiramente?…………………………………

 

O entrevistado se mantém financeiramente? Se não, de quem depende?…………………………………………………………………………………………………………

………………………………………………………………………………………………………………………

Renda pessoal…………………………………………………………………………………….

Renda familiar……………………………………………………………………………………

Escolaridade………………………………………………………………………………………

Ocupação…………………………………………………………………………………………..

Profissão……………………………………………………………………………………………

Casa própria ou alugada………………………………………………………………………

 

2 – Trabalho

  • O que representou o trabalho, qual o papel do trabalho na vida.

 

3 – Aposentadoria

  • Porque e quando se aposentou.
  • Como sentiu a passagem da vida de trabalho para a aposentadoria.
  • Principais mudanças ocorridas na vida em função da aposentadoria.

 

4- Trabalho voluntário

  • Razões/motivos que levaram ao trabalho voluntário.
  • Significado do trabalho voluntário.
  • Há quanto tempo desenvolve o trabalho voluntário.
  • Realização de trabalho voluntário antes de se aposentar.
  • Como define o trabalho voluntário.
  • O que acha que a sociedade pensa a respeito do trabalho voluntário.

 

5 – Vida atual

  • Vida cotidiana.
  • O que considera importante na vida hoje. O que mais gosta e o que mais incomoda neste momento.
  • Considerações sobre a saúde do entrevistado (a partir do conteúdo, perguntar sobre a saúde, se for o caso).

 

6 – Velhice

  • Se reflete ou discute sobre a velhice com os outros.
  • O que pensa das políticas do governo para os aposentados e idosos.

 

7 – Projetos

  • Se teve e realizou sonhos e desejos.
  • O que ainda gostaria de realizar.

 

Ilmo. Senhor

Dr. WALTER MERLO

Presidente da Associação dos Aposentados da Fundação Cesp

Av. Paulista, 2073, conj. 1701, Horsa II

São Paulo – SP, CEP: 01311-300

 

 

Prezado Senhor

 

 

Durante minha vida profissional, dentre as várias atividades que desenvolvi, a que mais despertou e desperta meu interesse é aquela que diz respeito a programas sociais voltados para aposentados e pensionistas.

Agora, também uma aposentada, continuo envolvida com a questão. Participo de uma das equipes de colaboradores desta Associação, cujo trabalho procura incentivar atividades de vida participativa, promovendo informações e debates não só de assuntos da atualidade, mas também daqueles temas próprios ao processo de envelhecimento. Além disso, estou fazendo um curso de pós-graduação para o qual preciso fazer uma pesquisa com aposentados e aposentadas que estejam desenvolvendo qualquer tipo de trabalho voluntário na cidade de São Paulo. Gostaria de incluir, nesse estudo, integrantes desta Associação.

Solicito, para tanto, a sua valiosa colaboração, mediante a gentileza de divulgar este meu pedido.

Aos que puderem colaborar e participar, garantindo-lhes o anonimato, peço para me contatarem pelo telefone 283-44-73, quando poderei prestar todas as informações necessárias.

A Vª Sª e às pessoas que estiverem interessadas, deixo meus protestos de estima e meus agradecimentos.

 

 

___________________

Maria Cristina Dal Rio

 

São Paulo, 26 de novembro de 2000

 

[1]   Entidade fechada de previdência fechada é aquela que administra fundos de pensão para uma empresa ou várias empresas pertencentes a um mesmo conglomerado. A respectiva fiscalização é feita pelo Ministério da Previdência Social.

[2] O SESC desenvolve, desde 1963, trabalho social com idosos que tem como objetivo a reflexão sobre o envelhecimento e o contexto social em que o idoso está inserido, visando sempre a promoção da saúde e da melhoria da qualidade de vida. Vem contribuindo, ao longo dos anos, para colocar e discutir a velhice como questão social.

[3] I Seminário Internacional sobre Envelhecimento Populacional– uma agenda para o final do século. Brasília, jun./1996.

[4]   O conceito de capacidade funcional pretende que pessoas com idades cronologicamente avançadas possam, mesmo que detentoras que alguma patologia, manter-se ativas para suas atividades de vida diária – AVDs – e para suas atividades de vida prática – AVPs -, não sendo, portanto, dependentes de cuidadores. Ao mesmo tempo, essas pessoas detêm, também, sua autonomia, à medida que são capazes de deliberar sobre suas próprias vidas.

[5] A respeito, indica-se o texto de E. F. Mercadante (1996) Aspectos antropológicos do envelhecimento. In: Papaleo Neto, M. (org.) Gerontologia. São Paulo: Atheneu.

[6]   Consultar Karsch, U. M. S. (org – 1998) Envelhecimento com dependência: revelando cuidadores.

[7]   Síntese dos indicadores sociais 2000, feita pelo IBGE (período 1992/1999), revela que aumentou o número de crianças na escola, a taxa de mortalidade infantil caiu, há menos analfabetos e os idosos vivem mais. Entretanto, a maior marca da nossa sociedade é a desigualdade. Apesar da renda ter crescido 30%, a má distribuição do dinheiro agravou-se: cresce mais para os 10% mais ricos (de 13,3 para 18,4 salários mínimos) e menos para os 40% mais pobres (de 0,7 para 0,98 salário mínimo) (O Estado de São Paulo. 05/04/01, p. A 15).

[8]   Decreto-lei nº 4.628, de 24 de janeiro de 1923, de autoria do deputado Elói Chaves.

[9] Por isso, as experiências ainda não estão sistematizadas, registradas e analisadas, fazendo com que a literatura a respeito seja escassa. O Programa Voluntariado do Conselho da Comunidade Solidária, que tem o objetivo geral de promover a cultura do voluntariado, deparou-se com esse problema quando da implantação dos Centros de Voluntariado. O Programa vem registrando sua experiência em relatórios, conferências, treinamentos, debates e, em parte, são esses documentos que apoiam este estudo.

[10]   Conceito utilizado pelo Programa Voluntários, do Conselho de Comunidade Solidária.

[11]   As entidades de caráter filantrópico, que se propagam em virtude de uma maior mobilização da sociedade frente aos problemas sociais e que, nestas últimas décadas, têm sido incentivadas de forma mais expressiva pelo Estado, agrupam-se em torno do Terceiro Setor. A característica deste é utilizar recursos privados para a solução de problemas públicos, como ainda será visto neste estudo.

 

[12] Tempo de trabalho na época do requerimento da aposentadoria pelos entrevistados.

[13]   Refere-se aos clientes, a quem vendia livros a domicílio.

[14]   Tempo decorrente da aposentadoria concedida pelo sistema de previdência.

[15] Refere-se à orientação para pais, cujos filhos são drogaditos ou apresentem problemas de comportamento.

[16] Refere-se ao trabalho socioeducativo na área da saúde feito para os idosos na Associação Paulista de Medicina.

 

[17]   Refere-se à sua terapeuta.

[18] Entendido tal como definido pela Organização Mundial de Saúde para países em desenvolvimento, ou seja, a partir de 60 anos.

[19] Aqui entendidos como desejos e aspirações.

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