FRAGILIDADE, ENVELHECIMENTO E DESAMPARO – Delia Catullo Goldfarb

FRAGILIDADE, ENVELHECIMENTO E DESAMPARO (*)

 

Delia Catullo Goldfarb

 

Finalmente atingimos a tão sonhada longevidade, atualmente é possível chegar aos 90 anos e mais. Em pouco tempo, a esperança de vida ao nascer, aumentou quase 40 anos. As crianças que hoje nascem, deverão organizar suas vidas para superar os 100 anos. Mas a vida mais longa e saudável nem sempre garante qualidade e bem-estar. A pesar de muitos idosos viverem muito bem até idades muito avançadas, é cada vez mais freqüente o aparecimento de situações de fragilidade física e vulnerabilidade social.

A chamada “condição de fragilidade” se relaciona com um declínio natural de todo organismo vivo, com uma crescente falta de equilíbrio das funções, com uma falta de harmonia no funcionamento de nosso organismo. Quer dizer que, é possível sofrer certo grau de fragilidade sem estar doente. Porém, o enfraquecimento geral provocado pelos múltiplos fatores que provocam a fragilidade, acaba facilitando o aparecimento de doenças.

As mais recentes pesquisas associam a intensidade da condição de fragilidade á presença de estressores que aceleram o declínio e impedem a harmonização orgânica.

É importante destacar que estes estressores que afetam o organismo podem se originar em diversas situações como pobreza, tristeza, dificuldades no cotidiano, falta de apoio, conflitos familiares, dor crônica, situações de injustiça, angústia, ou seja, fatores que, por causarem um alto nível de sofrimento e falta de satisfação prolongada, representam um excesso ante o qual corpo e alma sofrem sem encontrar uma saída. Então, serão sobre esses fatores que deverão ser aplicados os labores preventivos.

O panorama será ainda pior se a pessoa se sente desamparada e não encontra ajuda, amparo, proteção, solidariedade. E a fragilidade se agravará se esta situação for de encontro com uma estrutura de personalidade especialmente sensível a esta problemática. Então, além do declínio biológico e da vulnerabilidade social, há fatores psíquicos, culturais e políticos que contribuem na montagem desta condição de fragilidade e é sobre isto que desejo chamar a atenção.

Embora seja normal sentir-se frágil e desamparado em diversas situações ao longo da vida; a fragilidade física é mais intensa e definitiva na velhice. Se a isto lhe agregamos o sofrimento pela discriminação e o preconceito derivados de uma imagem social negativa, o descaso das políticas de proteção social e as mudanças sociais estruturais das últimas décadas -especialmente as que se referem à estrutura familiar- nos encontraremos ante um quadro de difícil resolução. Perigos tão reais, como o aumento da violência urbana e a perda dos direitos previdenciários, trazem uma sensação de ameaça constante que, sem dúvida, provoca efeitos na saúde física e mental das pessoas.

Finalmente, quando se perde a esperança no futuro como o tempo onde ainda alguma satisfação é possível; quando se valoriza demais o presente em detrimento do passado, o sofrimento humano aumenta. Nos idosos, a falta de projeção em direção ao futuro pode levar até à extinção do desejo de lutar pelo próprio bem-estar, pode afetar profundamente a saúde e mobilizar um desejo de isolamento tão forte que provocará um encapsulamento, uma interrupção dos vínculos, um desejo de esquecimento do mundo, podendo derivar em depressão, processo demencial ou alguma outra patologia.

Se pensarmos na origem da vida psíquica, podemos observar que o bebê nasce em condição de grande fragilidade, necessitando de um outro que o cuide, é necessário que alguém o alimente, o proteja, senão ele morre e o bebê deverá poder confiar nessa proteção. Esta condição de recém nascido, de ser desamparado e de precisar dos cuidados de outro, deixará marcas e será revivida cada vez que se apresentem situações de sofrimento, necessidade, abandono. Com o desamparo originário inaugura-se então uma modalidade de confiança no vínculo, a confiança no fato de ser socorrido sempre que se precisar. Assim, a situação de desamparo originário atua como condição de estruturação psíquica que marca o modelo vincular e a forma dos laços sociais.

Desde o início da vida ensaiam-se formas de relação com os outros dos quais se vai depender em diferentes situações ao longo da existência. Serão experiências de medo, confiança, prazer, agressividade ou amor, dependendo da qualidade dos cuidados que foram oferecidos ao bebê nessa primeira fase de sua vida. Isto trará como reação, a necessidade e produção de vínculos solidários que ofereçam apoio e cuidados fundamentais sempre que a vida se apresente ameaçadora, cada vez que ela nos confronta com aquilo que sentimos que não podemos enfrentar em solidão. A partir desta experiência, uma das maiores ameaças vitais será a fragilidade dos vínculos e o medo de perder o amor do outro, o que deixa o ser humano no maior desamparo, fragilizado, sem proteção ante uma série de perigos e sofrimentos.

Analisando alguns aspetos culturais, vemos que na contemporaneidade não há mais lugar para o velho exercer sue papel de transmissor da tradição e dos valores ancestrais e tampouco há muitos lugares para aqueles que querem permanecer verdadeiramente ativos e socialmente atuantes. Produções como as culturais, artísticas, intelectuais, de lazer ou de cuidados, não são investidas e nem valorizadas quando realizadas por um idoso. Ainda não se reconhecem lugares sociais onde exista uma real necessidade para essa atividade. Assim, o velho deixou de ser um patrimônio, transformando-se em um encargo social. Os velhos são empurrados para as bordas da estrutura social, á perda de todo poder, até sobre si mesmos.

A cultura cria definições e promove uma linguagem que categoriza os cidadãos segundo gênero ou faixas etárias, determinando desse modo as relações sociais, tanto as de aliança, quanto as de conflito, de solidariedade ou dominação. Só para citar um exemplo de discurso social de exclusão, pensemos no preconceito embutido no uso da palavra “benefícios” quando realmente se trata de “direitos”. Vemos que segundo estas categorias, o velho é um problema -ou um favorecido- goza de favorecimento e não de direitos.

Quando um velho diz “no meu tempo”, está dizendo que não tem presente, que só pode existir em relação ao passado, que o tempo atual não lhe pertence, e menos ainda o futuro e aqui já entramos em uma consideração filosófico-existencial com grande poder de determinação na forma em que o ser humano pensa a vida (e a morte). Refiro-me à consciência de finitude, a esse sentimento de saber-se mortal. Tal consciência, em idades muito avançadas encolhe o futuro, encurta as esperanças e não deixa tempo para projetos. O sentimento de finitude é elaborado ao longo da vida nos diversos contatos com a morte, podendo, em situações favoráveis, gerar um sentimento sublime de serenidade e sabedoria. Em situações adversas, quando o sofrimento é excessivo, a finitude não pode ser elaborada e será sentida como um limite intransponível, como o destino iniludível que se apresenta ao término de um caminho de declínio marcado por perdas intermináveis.

Para minimizar a condição de fragilidade inevitável quando a vida avança no tempo, aumentar o bem-estar é fundamental. Isto inclui a possibilidade real de realizar investimentos afetivos; contar com redes de apoio e laços permanentes, além de ter a oportunidade de criar vínculos renováveis e significativos.

Vincularidade enfim, que restaure a auto-estima perdida junto com a perda dos papéis sociais; que contemple um projeto de felicidade possível; que re-construa a capacidade de desejar; que legitime a palavra; que exija o cumprimento dos deveres tanto quanto o exercício dos direitos.Que faça, enfim, de um cidadão idoso desabilitado e marginalizado, um cidadão pleno….. a pesar da fragilidade.

Delia Catullo Goldfarb.

Psicanalista com especialização em Gerontologia (SBGG e FLACSO)

Doutora em Psicologia pelo IP-USP. Coordenadora e Professora do curso: “Psicogerontologia: fundamentos e perspectivas”, e professora do curso de “Especialização em Gerontologia” no COGEAE-PUC-SP. Autora de Corpo, tempo e envelhecimento e Demências, ambos pela Editora Casa do Psicólogo, São Paulo e diversos artigos em publicações científicas no Brasil e no exterior.

Diretora fundadora d GER-AÇÕES- PESQUISAS E AÇÕES EM GERNTOLOGIA

(*) Este artigo foi publicado originalmente na Revista É publicação mensal do SESC-SP

 

 

 

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