CORPO E TEMPORALIDADE: CONTRIBUIÇÕES PARA UMA CLÍNICA DO ENVELHECIMENTO Delia Catullo Goldfarb

Dados para citação:

Revista Kairós – Gerontologia , Ano 1 n. 1. Educ, SP, 1998-

 

CORPO E TEMPORALIDADE:

CONTRIBUIÇÕES PARA UMA CLÍNICA DO ENVELHECIMENTO

 

Delia Catullo Goldfarb

 

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RESUMO: As limitações corporais e a consciência de finitude são problemáticas fundamentais no processo de envelhecimento e aparecem de forma reiterada no discurso dos idosos, embora possam adquirir diferentes nuanças e intensidades dependendo do meio cultural, da realidade social e da estrutura psíquica de cada sujeito em particular. Corpo e tempo se entrecruzam no devir do envelhecimento, e destas formas de entrecruzamento nascerão as múltiplas velhices.

PALAVRAS CHAVES: imagem corporal, memória, história, reminiscência.

 

SUMMARY: Body limitations and the consciousness of the limits of one’s life span are some of the fundamental problems in the process of growing old. They are often part of old people’s discourse, regardless of the differences on particular intensity and perspective due to such factors as each one’s social reality or psychic structure. Time and body intercross each other in the process of growing old, and from these intercrossings different aging process will come up.

KEY WORDS: corporal image, memory, history, reminiscence.

 

 

 

 

 

 

 

Freqüentemente penso nessa imagem

que somente eu continuo a ver

e da que jamais fale com ninguém.

Sempre está aí, sempre em silêncio.

Deslumbrante.

É a que mais gosto de mim mesma,

aquela na que me reconheço

na que me fascino

.

                                                                                                Marguerite Durás

                                                                                                “O AMANTE”

 

Quando falamos de velhos, do que estamos falando? O que exatamente estamos nomeando quando dizemos “velhos” ? Falamos do velho carrancudo e birrento? Daquele outro engajado e sempre bem-humorado? Do que se mantêm ativo e com projetos? Do velho deprimido que não quer mais lutar? Da “bruxa”? do “sábio”? do doente? do poderoso? do marginalizado?

Quando dizemos “velho” ou “velhice” estamos falando de todos eles porque todos eles são figuras conhecidas na nossa cultura, mas falamos fundamentalmente através de uma imagem interna, pessoal, forjada desde muito cedo dentro de cada um de nós no contato com ”nossos” velhos e essa imagem não só determinará nosso olhar sobre os outros velhos como   dirá também sobre a nossa velhice, a desejada e a temida. Vemos então que se produz um entrecruzamento entre a velhice como categoria que pretende ser mais ou menos universal para uma cultura e o velho singular com seu modo peculiar de viver sua velhice.

A maior dificuldade para se categorizar a velhice consiste em ela não ser unicamente um estado , mas um constante e sempre inacabado processo de subjetivação onde a maior parte do tempo não existe um “ser velho” e sim, um

“ser envelhecendo”. Da velhice como categoria podemos falar nos utilizando dos

conceitos que diversas áreas do conhecimento nos oferecem, mas para falar de um velho em particular, de como é seu singular processo de envelhecimento, devemos ouvi-lo. Ouvir o velho no nosso cotidiano profissional, na nossa vida familiar, no cinema, na rua, na literatura.

Ao longo da literatura universal em magníficas obras como o “Édipo em Colono” de Sófocles, o “Fausto” de Goethe, o inigualável ensaio “A Velhice” de Simone de Beauvoir   e o mais recente “O tempo da memória” de N. Bobbio ( resenhado nesta revista) ou até nos maravilhosos poemas de Cecília Meirelles ou Drummond, podemos observar como a questão do corpo e da finitude são temas centrais entre as preocupações dos velhos

Quando ouvimos frases como: “eu quero fazer tantas coisas mas meu corpo já não me deixa” ou “ainda há tanto para ser feito mas acho que meu tempo já está acabando” nos encontramos ante um discurso altamente significativo de alguém que fala de limites e limitações muito frequentemente irreversíveis.

Esclareçamos primeiramente a questão do corpo. Perguntemo-nos de que nos fala um idoso quando   se refere a seu corpo com estas palavras. O que esta nos dizendo quando se refere a seu corpo como um estranho, um outro, algo que o prejudica.

Quando sentimos prazer e estamos bem com “nosso” corpo o sentimos como próprio, é algo que nos pertence; mas quando o sofrimento se faz presente, sentimos que alguma coisa que nos ataca de fora, esse nosso corpo se revela incontrolável desconhecido e estranho. Rugas, cabelos brancos, doenças degenerativas, presbitia, etc, são sentidos como esses agressores externos que vêm questionar nossa imagem narcísica de potência, saúde e beleza. Então quando um velho fala de seu corpo com estas palavras, está falando de um corpo de sofrimento, está falando de uma dicotomia, de um psiquismo desejante, vivo, com vontade de fazer muitas coisas, e de um corpo que já não serve como instrumento . O que jamais poderemos esquecer e que este corpo sofredor ou decadente pôde continuar sendo objeto de investimentos amorosos suficientemente significativos que façam uma ponte com o prazer. Mas conceitualmente este corpo é diferente do abordado por outras áreas do conhecimento. Vejamos.

Quando falamos de corpo desde o ponto de vista da psicanálise não nos referimos ao organismo natural objeto de estudo das ciências biológicas; falamos de um corpo investido libidinalmente, um corpo sobre o qual os afetos, os prazeres e sofrimentos e as emoções vão deixando marcas, construindo história, criando uma imagem corporal que quer ser permanente, imagem que nos permitirá nos reconhecermos sempre os mesmos, apesar das mudanças que o tempo ou as circunstâncias de vida venham nos impor.

Quando uma criança entre os 12 e 18 meses de vida se olha no espelho e, finalmente se reconhece, é invadida por uma sensação de júbilo e pensa: “Esse sou eu”. Mas há uma discordância causada pela sua imaturidade neurológica, entre essa imagem virtual, total do seu corpo, que o espelho lhe oferece e seu organismo natural, ainda descoordenado, impotente; a criança se reconhece em uma espécie de invólucro, uma superficie, que lhe traz a ilusão de totalidade e onipotência. Essa imagem de totalidade no espelho a fascina, mas também a aliena, a engana, já que não se corresponde ao seu corpo sentido como fragmentado. É justamente a essa imagem idealizada de si mesma a esse “eu ideal”, que a criança ficará presa, e embora nunca se una a ela, estará sempre a persegui-la.

Esta imagem não se constrói com sensações que vem do biológico como seria o caso do esquema corporal e sim a partir de uma identificação com o desejo de um outro que está fora. Podemos então dizer que esse espelho em que a criança se reconhece não é mais que o olhar desejante da mãe que lhe outorga determinados atributos com os quais ele se identifica, desejo de um bebê maravilhoso que estava presente nessa mãe ainda antes da criança nascer; imagem de bebê maravilhoso à que jamais poderemos renunciar totalmente.

Este corpo investido libidinalmente passará por significativas transformações ao longo da vida. Na adolescência esse corpo que cresce desordenadamente a mercê das vissicitudes hormonais, fará o sujeito se sentir estranho. Mas o jovem sabe que essas mudanças não são outra coisa que o prelúdio de um futuro de pleno uso de sua capacidade corporal.

Mas quando o velho se olha no espelho, (ou no olhar dos outros) este lhe devolve uma imagem ligada a uma deterioração das capacidades corpóreas e de perda de beleza, imagem na qual o idoso não se reconhece e diz: “esse não sou eu”. Nos encontramos novamente ante uma discrepância entre a imagem inconsciente do corpo e a imagem que o espelho lhe devolve. A imagem do espelho representa o outro em que o idoso não se reconhece. A imagem da velhice parece estar sempre “fora” do outro lado. Embora saiba que aquela imagem lhe pertence, ela produz uma impressão de inquietante estranheza, frequentemente apavorante \porque não se liga a um futuro pleno de realizações mas antecipa ou confirma a velhice, enquanto que a imagem da memória é uma imagem idealizada que remete a completude e onipotência.

Quando o sujeito que envelhece diz : “esse não sou eu” , diz que o rosto em que poderia se reconhecer tranquilamente não é aquele. Quero novamente esclarecer que a falta de reconhecimento de que falo não se refere ao sujeito como tal, pois tanto o adolescente quanto o idoso sabem que aquela imagem lhes pertence, mas experimentam ante ela uma estranheza, um susto, como se a imagem fosse de outro.

Chamo este momento singular de estranheza ante a própria imagem de “espelho negativo”. É um fenômeno que anuncia a proximidade da velhice em termos de estética e que se acompanha de outros que dizem sobre a funcionalidade do corpo e sobre o valor social que cada cultura outorga a esta fase da vida.

Ele acontece antes da velhice se instalar como vivência existencial do sujeito e geralmente relacionado a um acontecimento na vida do sujeito que aparece sempre como externo a ele, uma perda, uma doença, ou um dado que vêm do social. É sempre algo que vem “de fora” e localiza o sujeito em um novo tempo. É sempre o “outro” o que está fora de nós que repentinamente nos nomeia “velhos”.

Este é justamente o sentimento predominante. Alguma coisa que nos acontece subitamente, como se um relógio que marcava sempre a mesma hora começasse a funcionar   bruscamente marcando um tempo que passa aceleradamente.

Na primeira experiência do espelho positivo temos o ponto culminante de constituição do Eu, de confirmação de uma identidade. No espelho negativo, confirman-se as perdas do declínio físico, antecipa-se a velhice e a finitude. Então, bem antes da velhice chegar assiste-se mais o menos de forma impotente ao declínio corporal. O psiquismo então deverá pôr em marcha uma série de mecanismos elaborativos com o objetivo de incluir novamente na instância egóica este corpo estranho, que agride os ideais narcísicos, uma verdadeira retomada do próprio corpo na velhice mais avançada.

Dizemos que o tempo da vida se desenvolve entre o nascimento e a morte. Mas este tempo vivido é diferente do tempo medido. O tempo medido, o da idade cronológica pouco têm a ver com o tempo vivido ou subjetivo no qual o sujeito se constitui como tal. No entrecruzamento destes dois tempos se encontra o sujeito que envelhece, aquele que além de medir o tempo vivido, começa a contar o que lhe resta para viver e, no melhor dos casos, faz planos para esse tempo que ainda está por vir. Assim , o tempo psicológico é a percepção da passagem de nossa vida, e todo o que é vivo é perecedouro e está sujeito a mudanças.

O tempo do envelhecimento está ligado à consciência da finitude, que se instaura a partir de diferentes experiências de proximidade com a morte durante a vida toda, mas que na velhice adquire a dimensão do iniludível. Em uma pessoa jovem este tipo de experiências provocam mudanças consideráveis, mas ele sabe que têm a vida toda pela frente para reparar, modificar, construir . Na pessoa mais idosa o elemento mais angustiante é o estreitamento do horizonte de futuro, já não tem mais todo o tempo pela frente, só resta mais um pouco e pode não ser suficiente para abrigar tanto desejo.

Este tempo subjetivo é o tempo que interessa à psicanálise. Um tempo de constante construção da subjetividade e da história vivêncial desse sujeito. História esta que resiste a toda linearidade cronológica, a toda realidade objetiva e que questiona o conceito de verdade. Trata-se aqui de uma história “retroativa” onde o presente têm influência sobre o passado e este se atualiza no presente sob a forma da “repetição”. Assim a história que nos interessa deixa de ser entendida como todo o passado e a compreendemos como o passado historizado no presente, o passado presentificado, produzindo efeitos. Eis a verdadeira história do sujeito.

Neste sentido vale a pena repensar a questão da reminiscência, esta forma especial de fantasia que se desenvolve especialmente na velhice mais avançada. Contrariamente ao que se acredita, a reminiscência não representa um sinal de decrepitude ou depressão. Ela realiza uma articulação entre as três dimensões temporais outorgando ao ser um sentido de comando da realidade e continuidade do ser.

A perda de objetos significativos de difícil substituição, somadas às dificuldades provocadas pelas limitações físicas funcionais e a consciência de finitude incrementam no idoso a necessidade de bem estar. O montante de energia livre que não encontra objetos substitutivos será reinvestido em uma imagem ideal do próprio Eu que estará sempre no passado. Assim, a reminiscência pode ser entendida como uma forma de exercício da memória histórica que será elaborativa se achar um eco, uma escuta apropriada e um aproveitamento social, impedindo a depressão do vazio de objetos.

O Eu só se preserva na medida que se reconheça a si mesmo em uma continuidade temporal, como um existente sustentado por uma história permanente. A reminiscência é a insistência de essa história. História que insiste em dizer que os fatos vividos foram constitutivos de uma identidade, de um ser que insiste em permanecer. É como se o velho reminiscente dissesse: “O tempo passou, mais eu continuo aqui. Sou velho, mas em algum ponto sou sempre o mesmo” .

Quando não é possível investir no porvir, o Eu se defende da destruição investindo no passado idealizado. Assim, além de se manter vínculos no presente, se evita que as lembranças se evaporem e a história subjetiva se perca sob os efeitos da demência.

Não devemos confundir a reminiscência com a nostalgia onde a lembrança se refere sempre a um objeto perdido, irrecuperável e em poder dos outros, como por exemplo, a juventude. A nostalgia é uma experiência sempre dolorosa, que não consegue recriar o prazer no ato de contar porque não pode recriar o objeto. O velho nostálgico e deprimido fala de suas lembranças com tristeza e raiva enquanto o velho reminiscente o faz sempre com um certo orgulho e satisfação.

Agora para concluir voltarei à pergunta inicial, de que falamos quando falamos de velhos?

Falamos de um sujeito psíquico em constante crescimento e evolução, altamente afetado pela representação de um corpo que se deteriora e pala consciência da finitude. Mas, estamos falando de um limite e não de uma limitação. Limite que será o do corpo biológico que sofre uma involução, mas não daquele outro que sabemos capaz de prazer, instrumento de amor e que deverá ser incentivado a sentir e se sensibilizar com a proximidade dos outros e a força dos vínculos.

Limite que será o da finitude elaborativa orientando investimentos adequados, promovendo reflexão e não desespero, solidariedade e não solidão.

Limite enfim que não feche a porta à paixão sempre possível.

 

 

 

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