Identificação e envelhecimento: do espelho que não se quebra e outros espelhos. ANGELA MUCIDA

Identificação e envelhecimento: do espelho que não se quebra e outros espelhos.

Ângela Mucida[1]

Resumo: Este artigo aborda alguns efeitos do envelhecimento sobre as identificações sob a perspectiva da psicanálise tendo como proposição principal: há um sujeito que não envelhece malgrado a velhice. Há traços identificados precocemente do Outro que nos acompanham e alguns não se modificam com a passagem do tempo. Todavia, novas traduções ou versões podem surgir disto que não se apaga. Retomamos dois contos, ambos nomeados de “O espelho” e pequenos fragmentos clínicos como ferramentas privilegiadas para se pensar as relações entre identificação e espelho.

Palavras chaves: Identificação, ideal do eu, eu ideal, eu, narcisismo, imagem, espelho.

Introdução

            O conceito de “identidade” encontra-se largamente empregado na vida contemporânea em torno das relações sociais, culturas e individuais. Conceitos como identidade de classe, identidade ideológica, cultural, familiar, identidade de gênero dentre outros circulam facilmente entre nós como um saber já apreendido. Mas o que é a identidade?

No dicionário [2]encontramos alguns sentidos que se destacam: “estado do que não muda, do que fica sempre igual; consciência da persistência da própria personalidade; conjunto de características e circunstâncias que distinguem uma pessoa ou uma coisa e graças às quais é possível individualizá-la.” Etimologicamente, identidade do latim identitas, refere-se ao idêntico, ao mesmo. Tais significados estão longe de serem facilmente assimilados, pois não se alinham a concepções facilmente traduzíveis, como o de personalidade, consciência, permanecer idêntico. De toda forma, a identidade como um “conjunto de características e circunstâncias que distinguem uma pessoa de outra” nos oferece um ponto interessante de reflexão já que delimita uma relação estreita entre identidade e diferença. Nessa direção, lembramo-nos de início de Hegel ao associar a identidade à identidade, mas também à diferença. Quer dizer toda identidade tem a marca da diferença, do particular

A psicanálise atém-se pouco a esse conceito, privilegiando suas elaborações em torno das identificações; processos pelos quais cada um se constitui como sujeito. Interessa-nos analisar as indicações psicanalíticas em torno das identificações, sobretudo com Freud e Lacan, para então nos debruçarmos nas relações entre identificações e envelhecimento. Com esse intuito nos retomaremos nossa leitura[3] de dois contos, ambos nomeados de “O espelho”, um de Guimarães Rosa e o outro de Machado de Assis, bem como nos valeremos de fragmentos clínicos.

O eu e o outro

Freud delimitou desde o princípio de sua prática que o aparelho psíquico constitui-se de traços, marcas que se ligam à relação com o Outro. Desde as primeiras experiências o bebê depara-se com o encontro/desencontro com aquele que ocupa o lugar de cuidador. Isto implica que antes de falar, nomear algo do desejo e poder articular qualquer desconforto ou conforto em relação às intervenções do Outro, cada um é falado, nomeado, tocado, amado ou não, e só depois poderá articular algo sobre isto. Marcas arcaicas fazem parte do arcabouço de cada história traçando textos diversificados da vida que continua. Sinalizamos que esses traços constituem-se a nosso ver aquilo que jamais envelhece em cada sujeito [4], malgrado a existência do envelhecimento e da velhice.

Há identificações com traços do Outro que, muitas vezes,desconhecemos, negamos ou odiamos, mas que nos acompanham. Esses traços prematuramente identificados dos outros e que revestem o corpo, a psicanálise nomeia de narcisismo. É impossível viver sem uma cota de narcisismo, pois nos reconhecemos sob determinada imagem que representa nosso corpo, nos identificamos a um nome, uma inscrição social, um lugar de trabalho etc. Como se expressa um senhor que mora em um asilo: “Deixei minhas ferramentas para trás (ele era pedreiro), pás, enxada, peneira… Acordo e vejo que não posso trabalhar mais… (chora). Queria voltar ao tempo que azulejava banheiro; de um jeito só meu. Um assentamento que só eu podia fazer, com minha técnica.”( MUCIDA, 2006, p.88 )

“Ser nomeado por um nome, nascer com determinado sexo e outros atributos, ter uma imagem que permita certa coesão, instaura a primeira identificação, mas como se identificar não é tornar-se idêntico à imagem oferecida pelos espelhos, o sujeito guarda uma diferença entre o que foi recebido dos outros e ele próprio. “(MUCIDA, 2009, p.42). O narcisismo primário, relação do sujeito à sua imagem, constituem-se de traços primários de identificação e incidem sobre as escolhas objetais posteriores. Retornaremos a esse ponto.

Espelho e identificações.

Para demonstrar a constituição do eu, Lacan formalizou o conceito de Estádio do espelho. Quando vê sua imagem refletida no espelho, uma criança entre seis e dezoito meses tenta apreendê-la acreditando-a real. Só depois perceberá que a imagem, mesmo presente, não se pega como outro objeto qualquer. Depois a criança percebe que se trata de uma imagem, mas não a reconhece como sua. Só em outro momento perceberá a imagem como própria. O estádio do espelho não se refere, todavia, ao encontro com o espelho real, mas à relação da criança com o outro, como duplo e homólogo de si mesmo. Essa falta de distinção entre eu e outro gera, conforme Lacan, efeitos de agressividade, narcisismo e transitivismo, fato observado em crianças pequenas diante de outras da mesma idade, a que bate se sente também batida e chora com a outra. Isto se apresenta também depois em muitas formas de relações afetivas, amorosas e até sociais O reconhecimento da imagem, esse eu ideal, antecipa, conforme Lacan, uma imagem integrada da criança, mesmo que esta só possa ver nesse momento partes de seu corpo.

Michel Schneider (1990, p.15) ao perguntar-se de que é feito uma pessoa responde que é de “Migalhas de identificação, imagens incorporadas, traços de caráter assimilados, tudo (se é que se pode dizer assim) formando uma ficção que se chama eu. “ Ficção porque na realidade não somos exatamente essa imagem, não somos exatamente nosso corpo. Temos uma imagem que nos representa, temos um corpo, mas algo de nós mesmos fica fora dessas representações. Nosso eu, sendo corporal, guarda também uma distância em relação ao que somos e temos em relação ao corpo muitas vivências de estranheza. Podemos dizer com Lacan que temos um corpo, mas não somos exatamente esse corpo. Tudo isto nos leva a pensar a complexidade da relação entre o sujeito, sua imagem e seu corpo. Identificamo-nos a um corpo, nos reconhecemos a uma imagem e outros atributos, e mesmo que não existamos sem eles, essas “migalhas” identificatórias fundamentais não formam um todo coeso.

Assinalamos de imediato dois pontos concernentes às identificações. Primeiro não existe um eu sem as marcas identificatórias e estas passam pelo Outro. Segundo, essas identificações sofrem ao longo do tempo novas versões, mesmo que alguns desses traços não se apaguem jamais e constituem-se o sujeito em sua singularidade. Tudo isto toca diretamente o envelhecimento e a velhice.

Do estranho ao familiar dos espelhos

Porque sendo tão familiar estranhamos tantas vezes nossa imagem no espelho? Porque o familiar se torna estranho? Para pensarmos tais questões retomamos o belíssimo conto, O espelho de Guimarães Rosa. Ali encontramos um sujeito às voltas com os traços advindos do Outro e que quer deles se livrar. Nomeamos essa experiência relatada por Rosa como desmontagem dos espelhos, montagem surrealista à qual cada um se identifica e sem a qual não teríamos um “eu”. (Mucida, 2009, p.45). A experiência de estranheza com os espelhos começa para o protagonista em questão com aquilo que Freud nomeia de “estranho familiar”.

Foi num lavatório de edifício público, por acaso. Eu era moço, comigo contente, vaidoso. Descuidado, avistei… Explico-lhe: dois espelhos – um de parede, o outro de porta lateral, aberta em ângulo propício – faziam jogo. E o que enxerguei, por instante, foi uma figura, perfil humano, desagradável ao derradeiro grau, repulsivo senão hediondo. Deu-me náusea, aquele homem, causava-me ódio e susto, eriçamento, espavor. E era – logo descobri-, era eu, mesmo! O senhor acha que eu algum dia ia esquecer essa revelação?( ROSA, 1972, p. 64).

Diante desse encontro tão real e inquietante com sua imagem, a primeira reação foi de preparar todo encontro com o espelho, tentando controlar o inesperado de forma a manter intacta a imagem a ser encontrada. Olhava-se com expressões de raiva, ódio, júbilo dentre outros sentimentos, verificando que, assim o fazendo, suas expressões de afeto se transformavam.

Em um segundo momento, o protagonista tenta extrair da imagem no espelho todos os traços herdados do Outro, inclusive aqueles advindos da escala animal. Em seu caso seu “sósia” da escala animal era a onça; olhava-se no tentando abstrair da imagem todos os traços herdados do felino. E assim prosseguindo na tentativa de encontrar o mais genuinamente seu, inicia o processo de extração de outras marcas e afetos “as paixões, pressões psicológicas e os interesses transitórios”. Quer retirar de si até mesmo os traços herdados dos avôs e pais.

A intensidade da experiência provoca-lhe dores de cabeça e ele se afasta por um período do contato com os espelhos. Volta a se olhar meses depois e o que vê?

Simplesmente lhe digo que me olhei num espelho e não me vi. Não vi nada. Só o campo, liso, às vácuas, aberto como o sol (…). Eu não tinha formas, rosto? Apalpei-me, em muito. Mas, o invisto. O ficto. O sem evidência física. (…) Tirei-me. Aturdi-me, a ponto de me deixar cair numa poltrona (…) partindo para uma figura gradualmente simplificada, despojara-me, ao termo, até a total desfiguração (….). Então, o que se me fingia de um suposto eu, não era mais que, sobre a persistência do animal, um pouco de herança, de soltos instintos, energia passional estranha, um entrecruzar-se de influências, e tudo o mais que na impermanência se indefine? ( ROSA, 1972, p.67)

No final do conto temos a questão: “Você chegou a existir?” (ROSA, 1972, p. 69). Rosa escancara de maneira genial o que a psicanálise se esforça por formalizar: não existimos sem nossas identificações e nossos espelhos, não somos sem o Outro e mesmo que os espelhos se constituam também por enganos e ficções, não somos sem esse campo de ficções. Há sempre uma miopia no olhar que acompanha cada sujeito. “Os espelhos enganam, mentem, mas não somos sem essa cota de mentira e engodo, mesmo que isto cause horror, enfastio e estranheza.” (MUCIDA, 2009, p.48). Não há como extrair os traços que nos constituem, amando-os ou não, mas, com certeza, eles podem tomar destinos diferentes no curso da vida, podem se inscrever de maneiras por vezes inéditas.

Nomeação e identificação

Retomamos Rapidamente outra análise que fizemos[5], “O espelho” de Machado de Assis, a título de reflexão da relação entre identificação e nomeações advindas do Outro. O conto inicia-se por uma conversa entre quatro homens de meia idade e a entrada de um quinto coloca em cena a questão do espelho. A princípio os espelhos são aí representados sob as formas de alma interior e exterior.

[…] uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro…[…] A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação. Há casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa; – e assim também a polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de botas, uma cavatina, um tambor, […]o ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que é, metafisicamente falando, uma laranja. . Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira.[6]

Vemos que dentro e fora, interno e externo enlaçam-se preparando uma concepção original de espelho. “O que é interior em um momento em outro pode ser concebido como vindo de fora e vice-versa. A alma externa, esse olhar do Outro, constitui-se de pequenos traços com os quais nos reconhecemos, identificamos e tomamos como nossos.” ( MUCIDA, 2009, p 51). Para demonstrar a agudeza de tais proposições, uma história é relatada e reconto-a resumidamente.

Trata-se de um jovem de vinte e cinco anos, pobre e que fora nomeado alferes da Guarda Nacional. A partir dessa nomeação, todos, inclusive a família, passam a chamá-lo de “senhor alferes” ao invés de Joãozinho. Apesar de sua insistência sobre o nome, que é sempre próprio, a designação “alferes”, alma externa, e sua farda tornam-se preponderante.

O alferes eliminou o homem. Durante alguns dias as duas naturezas equilibraram-se; mas não tardou que a primitiva cedesse à outra; ficou-me uma parte mínima de humanidade. Aconteceu então que a alma exterior, que era dantes o sol, o ar, o campo, os olhos das moças, mudou de natureza, e passou a ser a cortesia e os rapapés da casa, tudo o que me falava do posto, nada do que me falava do homem. A única parte do cidadão que ficou comigo foi aquela que entendia com o exercício da patente; a outra dispersou-se no ar e no passado.(MACHADO, op.,cit)

Sob a predominância da alma exterior ele é convidado a passar algum tempo na fazenda de uma tia, encontrando na casa o melhor lugar à mesa, um quarto ornamentado com um luxuoso espelho e toda sorte de regalias que conviria a um “alferes”. Mas, poucos dias depois a tia é obrigada a se ausentar-se da casa por motivos de doença na família e ele se vê só com os escravos. “Confesso-lhes que desde logo senti uma grande opressão, alguma coisa semelhante ao efeito de quatro paredes de um cárcere, subitamente levantadas em torno de mim. Era a alma exterior que se reduzia; estava agora limitada a alguns espíritos boçais.”

O pior estava ainda por vir: os escravos fogem e ele vê-se completamente só na fazenda. “Achei-me só, sem mais ninguém, entre quatro paredes, diante do terreiro deserto e da roça abandonada (…). Nenhum ente humano. Parece-lhes que isto era melhor do que ter morrido? era pior.” Pelos sonhos realiza os desejos; encontra-se em meio da família e amigos que continuavam a elogiá-lo, pessoas lhe prometiam cargos ainda maiores, mas ao acordar a angústia toma a cena. Após oito dias nesse estado adveio-lhe o horror ao espelho: “Olhei e recuei. O próprio vidro parecia conjurado com o resto do universo; não me estampou a figura nítida e inteira, mas vaga, esfumada, difusa, sombra de sombra.” Em total estado de desespero veste a farda e, olhando-se novamente no espelho, encontra a imagem fugidia, refazendo-se como “alferes”.

Vesti-a, aprontei-me de todo; e, como estava defronte do espelho, levantei os olhos, e… não lhes digo nada; o vidro reproduziu então a figura integral; nenhuma linha de menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava, enfim, a alma exterior. Essa alma ausente com a dona do sítio, dispersa e fugida com os escravos, ei-la recolhida no espelho. (…) Cada dia, a uma certa hora, vestia-me de alferes, e sentava-me diante do espelho, lendo olhando, meditando; no fim de duas, três horas, despia-me outra vez. Com este regime pude atravessar mais seis dias de solidão sem os sentir.”

Como esse personagem, nós também vestimos nossa farda. Ela pode ser um lugar social, familiar, amoroso, signos de beleza enfim, cada um carrega algumas nomeações com as quais se identifica. Não obstante, algumas delas se modificam durante a vida ou mesmo, como alguns reconhecimentos advindos pela beleza, poder, determinadas funções, etc. Algumas “fardas” permanecem, mas exigem pequenos remendos, novas cores sob as cores desbotadas e isto acompanha o envelhecimento.

Um espelho que não se quebra

As almas internas e externas podem ser pensadas com a psicanálise em torno do eu ideal e ideal do eu. Para Freud o eu ideal representa um ponto de identificação primordial quando a criança tom a si mesmo como ideal, trata-se do narcisismo primário. O ideal do eu constitui-se do enlaçamento da criança com o Outro: “O que ele projeta diante de si como sendo seu ideal é o substituto do narcisismo perdido de sua infância na qual ele era o seu próprio ideal.” (FREUD, 1975, p. 93) .

Lacan, por sua vez, localiza o eu ideal no reconhecimento pela criança de sua imagem no espelho, reconhecimento que promove certo ordenamento de sua dispersão corporal. O ideal do eu, falando de forma bem simplificada, advém de identificações com os pais e seus representantes e se cumpre posteriormente pelos laços sociais.

Podemos deduzir a importância dessas duas instâncias: todas às vezes que o sujeito se vê na vida de adulto em situações nas quais o narcisismo é muito ferido, ele busca recuperá-lo sob a forma do eu ideal, podendo ocorrer uma regressão. Isto pode se apresentar de forma incisiva no envelhecimento, a partir de determinada idade, pelos efeitos de diferentes e importantes mudanças no corpo, na imagem e nas relações com o Outro. Na velhice o encontro com uma imagem que anuncia o irreparável de algumas modificações corporais e na imagem- que não tangem simplesmente as rugas, cabelos brancos, elasticidade da pele, mas, sobretudo, o lugar social-, pode provocar o surgimento de alguns sintomas.

Na carência de laços sociais, familiares e afetivos, pelos quais o sujeito se vê susceptível de ser amado, sem um ideal a ser cumprido e aberturas de novas maneiras de enlaçar o desejo, oferecendo certa consistência à imagem de si, alguns idosos fazem um retorno ao eu ideal representado pela identificação aos objetos. Por isto se torna comum o apego aos objetos em alguns idosos. Agarrando-se aos objetos que trazem algo do espelho de si ou representem parte de sua história alguns idosos tentam manter certa consistência de si mesmos. Uma senhora de um asilo, anuncia dessa forma seu primeiro encontro com a estagiária: “Sou exclusivista e observadora, agora mais ainda. Tenho um prato e um copo só meus; não bebo água em copo misturado, sempre fiz isso. Ganhei também um colchão novo, diferente de todos os outros (…) uso o melhor perfume do mundo (alfazema), tenho creme Nívea, mas é muito bom.”( MUCIDA, 2006, p.87). Visivelmente ela expõe um discurso que tenta recuperar traços de sua diferença, mesmo que sejam por objetos.

Discutimos uma indicação de Messy ( 2001) sobre a idéia do “espelho quebrado” em alguns idosos( MUCIDA, 2006). Se o encontro inicial da criança com sua imagem provocam júbilo e alguns gritos de alegria, no curso da vida, e não apenas na velhice, o encontro do sujeito com sua imagem pode ser foco de estranheza e inquietação. Na velhice o ódio à imagem tem efeitos diretos sobre o narcisismo, pois ninguém vive sem certa cobertura narcísica, roupagem que acompanha o sujeito, revestindo seu corpo. Odiar a própria imagem tem efeitos nefastos sobre o eu e todos os traços de identificação. Na falta de um ideal que possa servir de mediador entre o eu e narcisismo, poderá imperar um eu que se odeia, com efeitos nefastos sobre o sujeito. Depreende-se disto a importância dos laços sociais, culturais e afetivos para “vestir” o desejo com ações e laços, inscrevendo os ideais do eu.

Tudo isto exige saber conduzir as mudanças; se há efeitos do envelhecimento sobre nossas identificações cada um só pode conduzi-los de maneira singular. Não há uma regra de ouro que valha para todos para conduzir seu envelhecimento/ velhice que são sempre próprios. Cada um só pode fazê-lo com seus recursos e, nessa direção, há que saber utilizar-se dos recursos, saber reconhecê-los e investi-los em outros lugares. Isto tudo implica o trabalho de luto.

O luto é um trabalho que abre novamente as vias ao desejo, pois permite substituições. Se não é possível usar a mesma “farda” de antes, faz-se necessário costurar outras, inventar novos modelos para que a vida prossiga sua escrita, pois o sujeito jamais se aposenta.

Claro que, envelhecer em um mundo permeado pela exigência de rapidez, produtividade e sob o imperativo do novo traz conseqüências sobre as identificações e o envelhecimento. Abordei em outro momento os efeitos do discurso capitalista atual sobre o envelhecimento e a velhice[7] e não os retomarei, mas vale apenas à guisa de conclusão pensar que o novo advém de novas posições do sujeito diante de vida, de novas respostas diante do imponderável e não será uma mudança apenas na imagem estética, por exemplo, que abrirá novas vias para enlaçar o desejo. Do espelho que se trata nenhum espelho material, factual poderá nos guiar, pois “(…) nenhuma importância teriam as bolsas sob os olhos e as rugas da testa se não fosse a tristeza do coração. “(PROUST, 1994,p. 180).

Referências Bibliográficas

ASSIS, M. O espelho. In: Obra completa. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/machado/arquivos/pdf/contos/macn003.pdf>.

FREUD, Sigmund. Sobre o narcisismo: uma introdução [1914]. ESB, Rio de Janeiro: Imago, 1974. v. XIV.

LACAN, J. O estádio do espelho como formador da função do eu. In: Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1998. p. 96-103.

MESSY, Jack, La personne âgée n’existe pas. Paris: Payot & Rivages, 2002. 221 p.

MUCIDA, A. O sujeito não envelhece – Psicanálise e velhice. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2006.

————–. Escrita de uma memória que não se apaga- Envelhecimento e velhice.Belo Horizonte: Autêntica, 2009.

PROUST, M. Em busca do tempo perdido. Tradução de Lúcia M. Pereira. São Paulo: Globo, 1994.

ROSA, J. G. Primeiras histórias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1972.

SCHNEIDER, M. Ladrões de palavra. Campinas: Editora da Unicamp, 1990, 503pp.

 

 

 

 

 

 

 

[1] Psicóloga, Psicanalista Membro da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano, Mestre em Filosofia Contemporânea( UFMG), Doutoranda em Psicologia/Psicanálise (UFMG), Autora dos livros: O sujeito não envelhece- Psicanálise e velhice, 2004/2006- Autêntica e Escrita de uma memória que não se apaga- Envelhecimento e velhice-2009( Autêntica), Professora adjunta e Coordenadora da Especialização em Saúde Mental e Psicanálise do Centro Universitário Newton Paiva- BH.

[2] HOUAISS. Dicionário eletrônico da língua portuguesa, 2001.

[3] A propósito remetemos o leitor a MUCIDA, Ângela . Escrita de uma memória que não se apaga, 2009, capítulo II.

[4] MUCIDA, Ângela. O sujeito não envelhece- Psicanálise e velhice, 2ª edição, 2006, capítulo 1.

[5] A análise completa desses dois contos bem como a análise da função dos espelhos encontram-se em : MUCIDA, Ângela. Escrita de uma memória que não se apaga- Envelhecimento e velhice, 2009, capítulo II.

[6] Ver:MACHADO. Obra Completa, de Machado de Assis. In: Pdf- http://portal.mec.gov.br/arquivos/pdf/contos/mcn003..pdf.

 

[7] A propósito ver: Mucida, Ângela . O sujeito não envelhece – Psicanálise e velhice, 2006, capítulo II.

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