Do Tempo da Memória ao Esquecimento da História: um estudo psicanalítico das demências

DELIA CATULLO GOLDFARB 

 Do Tempo da Memória ao
Esquecimento da História:
um estudo psicanalítico das demências

 DOUTORADO EM PSICOLOGIA ESCOLAR E
DO DESENVOLVIMENTO HUMANO

JULHO DE 2004

IP-USP

Trabalho apresentado à comissão de Pós-graduação do Instituto de Psicologia como parte dos requisitos para a obtenção do título de Doutor.

Área de concentração: Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano.

 

Orientadora: Profa. Dra. Ana Maria Loffredo

JULHO DE 2004

IP-USP

 

Goldfarb, D. C.

Do tempo da memória ao esquecimento da história: um estudo psicanalítico das demências./ Delia Catullo Goldfarb. – São Paulo: s.n., 2004. – 224p.

 

Tese (doutorado) – Instituto de Psicologia da Universidade
de São Paulo. Departamento de Psicologia da Aprendizagem, do Desenvolvimento e da Personalidade.

 

Orientadora: Ana Maria Loffredo.

 

  1. Envelhecimento 2. Demência 3. Psicanálise 4. Desamparo
    I. Título.


 

 

 

Orientadora: Profa. Dra. Ana Maria Loffredo

BANCA EXAMINADORA

 Dr.Paulo Roberto Cecarelli (UFMG)

Dra. Ruth G da Costa Lopes (PUC-SP)

Dra. Maria Julia Kovacs (USP)

Dra. Miriam Debieux Rosa

 

A minha mãe


Agradecimentos

 

À minha orientadora, Profa Ana Maria Loffredo, pelo acolhimento e interesse demonstrado desde o começo desta pesquisa.

Aos professores da banca de qualificação: Miryam Debieux Rosa e Paulo Roberto Ceccarelli, pelas sábias observações que em muito ajudaram a dar prosseguimento a este trabalho.

Ao pessoal administrativo e técnico do Departamento de Pós-Graduação, do Programa de Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano e da Biblioteca do Instituto de Psicologia pela eficiência e disponibilidade.

A Eliana Borges P. Leite, pelo delicado trabalho de revisão.

Aos membros do Núcleo de Estudo e Pesquisa do Envelhecimento da PUC-SP, com quem continuo aprendendo as difíceis vicissitudes da interdisciplinaridade. Especialmente a sua coordenadora Profa Dra Suzana da Rocha Medeiros, pelo pioneirismo.

Aos meus alunos pelos instigantes questionamentos.

Ao pessoal da Sociedade Beneficente Alemã e do HSPM, especialmente ao Dr Sergio Paschoal pela inestimável colaboração.

Aos Colegas da Associação Nacional de Gerontologia, porque não se cansam de lutar.

A meus pacientes e seus familiares por me permitirem aprender com sua dor.

Especialmente… à Profa Dra Ruth G. da Costa Lopes pela permanente demonstração de confiança.

A minha família.

 

Resumo

O objetivo deste trabalho é abordar as demências do ponto de vista do referencial psicanalítico. A articulação dos conceitos de tempo, história, memória, projeto identificatório, desamparo e constituição histórica do eu fornece o suporte teórico necessário para fundamentar uma hipótese psicogênica para os estados demenciais, com a finalidade de ampliar a compreensão desta patologia, contribuindo para uma interlocução fundamental no campo da interdisciplinaridade.

Destaca-se que, com a proximidade da morte e o encurtamento do horizonte de futuro, aumenta para os idosos, a dificuldade de realizar o trabalho de luto, especialmente o luto pela própria vida que está findando e que deve ser feito por antecipação. Nesse contexto, a especificidade da demência, situação na qual o eu historicamente constituído se dissolve, não estaria dada unicamente por um déficit orgânico que afeta a memória como função neurológica, mas, também, por um transtorno de identidade que tem efeito sobre a memória como função historizadora. O fracasso no processo de elaboração da finitude, o desinvestimento dos vínculos e a fragilidade ante as vicissitudes do processo de envelhecimento podem provocar estados depressivos, dos quais é possível fugir por meio de um esquecimento radical e violento. Finalmente, são apresentadas diferentes experiências terapêuticas que contribuem para o debate sobre a questão da inclusão das demências no campo da psicopatologia psicanalítica.

 

PALAVRAS CHAVES: envelhecimento, demência, psicanálise, desamparo, desinvestimento, depressão.

 

Abstract

 

The objective of this paper is to approach dementia from the psychoanalytical point of view. Concepts articulation, such as time, history, memory, identificatory project, helplessness and the historical self constitution, supply the necessary theoretical and instrumental support to substantiate a psycogenic hypothesis for the demential states, thus amplifying the pathology comprehension and contributing for the fundamental interlocution in the interdisciplinarity field.

The difficulty of accomplishing the mourning work increases for the old before death nearness and the future horizon shortening: his or her own’s life mourning, a life that is almost finished (but not yet) – a work that must be done in advance. Dementia specificity, a situation in which the historically constituted self dissolves, would not only be given by an organic deficit that affects memory as a neurological function, but also by an identity disturbance that produces effects over the historical memory function. Failure in the process of “finishing” elaboration, the desinvestments, the helplessness and the emptiness, may cause depressive states from which it is possible to scape through a radical and violent forgetfulness. Finally, we shall make our way through the different therapeutic experiences that have contributed for the creation of the necessary conditions to include the question of dementia into the field of psycoanalytical psycopathology.

 

KEY WORDS: aging, dementia, psychoanalysis, helplessness, desinvestment, depression.

 

Sumário

Introdução ……………………………………………………………………………………………………. 1

  1. Apresentação …………………………………………………………………………………………. 2

  2. O homem e o tempo ………………………………………………………………………………… 8

  3. Para pensar a demência ………………………………………………………………………….. 10

Capitulo I –

Mal-estar e envelhecimento ……………. 16

  1. Alteridade e subjetividade ………………………………………………………………………. 18

  2. Desamparo e angústia ……………………………………………………………………………. 22

  3. O não lugar do mal-estar ………………………………………………………………………… 32

Capítulo II –

De-Mentis …………………………………..38

  1. Antecedentes históricos …………………………………………………………………………. 39

  2. Demência: diagnóstico ou condenação? …………………………………………………….. 44

  3. Aspectos descritivos e diferencias …………………………………………………………… 48

  4. A demência na psicanálise ………………………………………………………………………. 52

Capítulo III –

Tempo, história e memória …………… 61

  1. O tempo e a memória em Freud ………………………………………………………………. 62

          1.1.   aparelho de linguagem, aparelho de memória:

                    a pré-história da psicanálise ……………………………………………………………. 62

          1.2.   O aparelho psíquico: nascem os conceitos ………………………………………… 77

          1.3.   O efeito de posterioridade ………………………………………………………………. 88

  1. História e repetição ……………………………………………………………………………….. 91

  2. A memória em Piera Aulagnier ………………………………………………………………… 98

Capítulo IV – História em construção ……… 102

  1. O eu e seus ideais ………………………………………………………………………………… 103

  2. Acompanhando o pensamento de Piera Aulagnier ……………………………………. 116

           2.1.   Antecipação ………………………………………………………………………………… 116

           2.2.   Investimento, futuro e temporalidade …………………………………………….. 121

           2.3.   Sujeito social e contrato narcísico …………………………………………………… 123

           2.4.   Identificação e projeto ………………………………………………………………….. 125

           2.5.   Construindo a história ………………………………………………………………….. 134

           2.6.   Atividade de pensar e realidade ……………………………………………………… 139

Capítulo V –

Introdução a uma psicopatologia das demências 142

  1. Desinvestimento, demência e pulsão de morte ………………………………………… 147

  2. Depressão e demência ………………………………………………………………………….. 155

  3. A angústia e a dissolução do eu ……………………………………………………………… 161

  4. Do eu-horror ao vazio do eu …………………………………………………………………. 165

  5. Tanatose, psicólise e ação modificadora …………………………………………………. 169

  6. As memórias e os esquecimentos……………………………………………………………. 177

Capítulo VI – Perspectivas terapêuticas …………………………………………………… 181

  1. Apostas e desafios ………………………………………………………………………………. 182

  2. Ensaios e erros ……………………………………………………………………………………. 189

  3. Vinhetas clínicas ………………………………………………………………………………….. 195

  4. Com a inocência dos iniciantes e a ignorância dos exploradores …………………. 202

Palavras finais ………………………………………………………………………………………….. 207

Referências ……………………………………………………………………………………………….. 216

 

 

Introdução

“Um dia, há bastantes anos, lembrou-me reproduzir no Engenho Novo a casa em que me criei na antiga Rua de Matacavalos, dando-lhe o mesmo aspecto e economia daquela outra, que desapareceu (…). O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência. Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui. Em tudo, se o rosto é igual, a fisionomia é diferente. Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo e esta lacuna é tudo”.

 

Machado de Assis, “Dom Casmurro”

 

 

  1. Apresentação

 

Este trabalho surgiu como resultado de mais de dez anos de experiência. Da experiência clínica às diversas atividades em instituições, entidades e associações, foi-se gestando o aprofundamento de um corpo teórico-prático e de uma formulação teórica que, de diversas formas, envolvia pessoas em processo de envelhecimento.

Quando esse processo começou, a bibliografia específica era pouca e não respondia questões fundamentais referentes à subjetividade do idoso; a poesia e o romance, porém, ofereciam subsídios que estimulavam minha reflexão. Assim, Drummond, Machado de Assis, João Guimarães Rosa, Cecília Meirelles, Vargas Llosa, Borges e tantos outros constituíram instigantes motivos de reflexão e a eles volto mais uma vez para ilustrar a genialidade da criação literária pois, como bem diz Freud: “nem o poeta pode evitar ao psiquiatra, nem o psiquiatra ao poeta” (Freud, 1906, p. 37) mas, o poeta:

 

Dirige sua atenção para o inconsciente de sua própria mente, auscultando suas possíveis manifestações, e expressando-as através da arte, em vez de suprimi-las por uma crítica consciente. Desse modo, experimenta a partir de si mesmo o que aprendemos de outros: as leis a que as atividades do inconsciente devem obedecer. Mas ele não precisa expor essas leis, nem se dar claramente conta delas; como resultado da tolerância de sua inteligência, elas se incorporam à sua criação.(idem, p 76)

 

Então, ajudada pelos poetas e pela teoria psicanalítica, fui em busca do chão necessário para dar encaminhamento ao percurso que se iniciava.

No que se refere especificamente à literatura psicanalítica, cabe assinalar que Sigmund Freud fez poucas referências ao trabalho psicanalítico com pessoas idosas. Mas, pelo menos em três ocasiões, mostrou-se contrário à sua aplicabilidade em pessoas de idade avançada. Em “A Sexualidade na Origem das Neuroses”, de 1898, ele diz:

 

Quando se trata de pessoas de muita idade, a duração do tratamento, correlativa à quantidade de material acumulado, resultará excessiva, e talvez seu fim seja coincidente com o começo de um período de vida em que já não se atribui grande importância à saúde nervosa (Freud, 1898, T. I, p. 155).

 

Mais tarde, em “O Método Psicanalítico”, de 1904, escreve:

 

Em uma idade próxima aos 50 anos, criam-se condições desfavoráveis à psicanálise. A acumulação de material psíquico dificulta o trabalho, o tempo necessário para a recuperação torna-se longo demais e as possibilidades dos processos psíquicos acharem novos caminhos começam a se paralisar (Freud, 1904, p. 396).

 

Ainda no mesmo ano, em conferência proferida no Colégio de Médicos de Viena, intitulada “Sobre Psicoterapia”, acrescenta:

 

…as pessoas próximas aos 50 anos freqüentemente carecem da plasticidade dos processos anímicos necessária para se empreender uma psicoterapia. Os velhos não são educáveis (Freud, 1904, p. 400).

 

Para compreendermos melhor essas afirmações de Freud, devemos levar em consideração que, no começo do século XX, antes da Primeira Grande Guerra, uma pessoa com mais de 50 anos era considerada velha, mais por fatores culturais do que por uma realidade biológica.

Já em 1919, Karl Abraham, um dos mais fieis discípulos de Freud, permitia-se discordar do mestre. Em artigo intitulado “A aplicabilidade do tratamento psicanalítico em pacientes de idade avançada”, afirma:

Durante minha prática psicanalítica tratei de pessoas de quarenta e até de cinqüenta anos de idade… Para minha surpresa, um número considerável deles reagiu favoravelmente ao tratamento… O prognóstico é mais favorável se a neurose apareceu com toda sua gravidade bem após a puberdade e se o paciente conseguiu desfrutar de alguns anos de atividade sexual próxima à normal e de um período de atividade social útil. Os casos desfavoráveis são aqueles em que ocorreu na infância uma neurose obsessiva. São, da mesma forma, estes os casos em que a psicanálise fracassa também com pacientes mais jovens (Abraham, 1919, p. 19).

 

O próprio Freud, que, ao longo de toda sua obra, não cansa de nos chamar a atenção para a evolução de suas idéias, em 1937 menciona que muitos dos fatores que poderiam impossibilitar uma análise, como resistência à mudança, rigidez psíquica ou esgotamento da flexibilidade, encontram-se também em jovens. Ele escreve:

 

Mas nos pacientes aos quais agora me refiro, todos os processos mentais, as relações e distribuições de forças, são imodificáveis, fixas e rígidas. Encontramos as mesmas características em pessoas muito idosas; nestes casos, explicamos aqueles estados como provocados pela força do hábito ou esgotamento da receptividade, uma espécie de entropia psíquica. Mas aqui tratamos de pessoas que ainda são jovens (Freud, 1937, p. 563).

 

Assim ia avançando a pesquisa bibliográfica e o trabalho clínico. Nesse momento, tornava-se cada vez mais claro que o envelhecimento populacional criava uma demanda para as mais diversas áreas do conhecimento e que a psicanálise podia, e devia, dar uma resposta.

Em 1991, começa meu trabalho na recém-formada Associação Brasileira de Alzheimer e Demências Semelhantes, com a coordenação de grupos de apoio a familiares de portadores de demência. Paralelamente, as visitas domiciliares a pacientes afetados pela doença, a prática na clínica particular e o trabalho com familiares de portadores, de forma individual ou em grupos familiares, ampliavam consideravelmente a experiência e também as dúvidas.

Cabe destacar que, neste trabalho com familiares de portadores de demência, a maioria das pessoas está na faixa dos 50 aos 80 anos (cônjuges e filhos do portador); trata-se, portanto, de pessoas já idosas ou em processo de envelhecimento, para as quais as vicissitudes de serem cuidadores de um doente com alto grau de dependência constituem mais um fator de perda e preocupação pelo seu próprio envelhecer.

No desenvolver desta atividade, um dado chama insistentemente minha atenção: freqüentemente (em aproximadamente 50% do total dos casos), o processo demencial se iniciava logo após um fato extremamente doloroso. Acontecimentos como a morte de um ente querido, a perda de uma fortuna ou até de um objeto sem muito valor real, porém altamente significativo para a pessoa, pareciam não ter sido elaborados; não tinham submergido o sujeito na esperada depressão elaborativa que lhe permitisse o trabalho de luto.

Paralelamente, continuava com o trabalho na clínica particular, onde os pacientes não cessavam de mencionar preocupações referentes ao corpo e à temporalidade.

Na procura de interlocução para estas e outras questões, formou-se um grupo de estudos integrado por psicanalistas interessados na discussão destes temas e teve início, no Instituto Sedes Sapientiae, um curso sobre o tema da velhice, que se desenvolveu durante sete anos. E, como sabemos, nada melhor que o ensino para organizar, articular e robustecer qualquer organização teórica incipiente. Faltavam, entretanto, a legitimação da pesquisa e a escrita. Assim começou meu Mestrado na PUC-SP, sob orientação do Prof. Dr Renato Mezan, e a participação no Núcleo de Estudo e Pesquisa do Envelhecimento, na mesma universidade, núcleo multidisciplinar que, mais tarde, deu origem ao Programa de Estudos Pós-Graduados em Gerontologia.

Em 1997, a defesa da dissertação “Corpo, tempo e envelhecimento” deixou claro meu desejo de continuar a pesquisa, aprofundando o estudo da questão do tempo e da memória em sua articulação com a historicidade do sujeito psíquico e a demência.

O ponto de partida para o Mestrado foi, então, a escuta do discurso dos idosos em diferentes situações (clínica, institucional, social), escuta do que insiste, daquilo que se repete: “Quando me olho no espelho, digo: essa não sou eu, não me reconheço”, “preciso me apressar, me resta pouco tempo para fazer tudo o que desejo”. Essas falas insistentes marcaram os dois eixos fundamentais da pesquisa: as limitações corporais e a consciência de finitude.

Em relação às questões do corpo, parto de uma referência do trabalho de Freud intitulado “O eu e o isso”, em que reafirma a dimensão corpórea do Eu quando diz:

Na gênese do Ego e em sua diferenciação do Id, parece ter atuado ainda outro fator diferente da influência do sistema P (perceptivo). O próprio corpo, e especialmente a superfície do mesmo, é um lugar de onde podem partir simultaneamente percepções externas e internas”.

 

Ao que acrescenta: “O eu é um ser corpóreo, e não só um ser superficial; ele é também a projeção de uma superfície (Freud, 1923, p. 15).

Não se trata de um corpo-organismo, objeto das ciências biológicas, e sim de um corpo representado, corpo simbólico, fonte de prazer e objeto de investimentos. Corpo instrumento de relação com o outro, como o descreve Françoise Dolto: “É graças à nossa imagem do corpo, portada por – e entrecruzada com – nosso esquema corporal, que podemos entrar em comunicação com o outro” (Dolto, 1986, p. 21).

Corpo que muda tão radicalmente ao longo dos anos que não reconhecemos na foto de um bebê o velho de hoje, mas que deve sustentar uma identidade que se constrói nesse tempo que passa. Quando uma pessoa em processo de envelhecimento se olha no espelho e diz: “esse não sou eu”, o que diz é que essa imagem não corresponde a um ideal – e não se trata aqui de um ideal estético, embora freqüentemente se confunda com ele; trata-se de um ideal narcísico, sendo a imagem procurada no espelho a correspondente a uma representação idealizada de si mesmo, ligada a uma fase da vida em que a onipotência ainda era possível.

A essa representação soma-se a realidade do declínio físico: órgãos que não funcionam como antes, forças que minguam, funcionalidade afetada. Assim, o corpo, instrumento do prazer e sustento da autonomia, passa a ser objeto de preocupação e investimentos geradores de dependência.

O processo de envelhecimento é, freqüentemente, um árduo trabalho de reencontro com uma imagem passível de reconhecimento e investimento libidinal. É claro que as razões da cultura não são alheias a essa dinâmica; mídia e mercado têm efeito estruturante na construção das representações sociais nas quais esse processo se engaja.

O sentimento de finitude foi analisado à luz da representação psicológica do tempo e da questão temporal em relação às diferentes instâncias do aparelho psíquico, ou seja, investigou-se a relação da temporalidade com a estruturação do sujeito psíquico. Tempo psicológico que nada ou pouco tem a ver com o tempo cronológico. Tempo de construção de uma “história vivencial” que não corresponde à história biográfica, que nega a realidade objetiva; história retroativa, que tem influência sobre o passado, modificando-o nas lembranças.

Como ponto crucial para a compreensão das questões relativas ao envelhecimento, propus uma mudança no entendimento do fenômeno da reminiscência, entendido popularmente como uma manifestação de deterioração senil. A hipótese então apresentada foi que, contrariando esse critério, a reminiscência seja tomada como uma possibilidade elaborativa e uma afirmação identitária. Lembrando, falando e insistindo, o sujeito vai construindo uma narrativa que será o sentido de sua existência e a afirmação de sua presença, que lhe permitirá não cair no “sem sentido” da depressão ou no “vazio” da demência.

A partir destas questões, referentes ao corpo e à temporalidade como fatores constitutivos da subjetividade do idoso e sua articulação com a constituição do sujeito psíquico, foram analisadas as diversas formas possíveis do envelhecimento, o que me levou a uma diferenciação entre vias regressivas e elaborativas.

Denominei vias elaborativas as que permitem a instauração de uma nova posição subjetiva, pela reordenação das instâncias psíquicas modificadas no processo do envelhecimento e que dependem da possibilidade de sublimação (arte, religião, projetos possíveis, serenidade); e regressivas as que levam a um enfraquecimento ou aniquilamento do Eu sob diversas formas, algumas delas patológicas (isolamento, irritabilidade, infantilização, depressão, demência).

Entre outros aspectos, a elaboração da pesquisa permitiu concluir que, embora consideremos um certo desapego das coisas do mundo como necessário para a elaboração da perda do objeto-vida (obviamente, elaboração por antecipação), esta pode ser uma posição perigosa do ponto de vista ético, já que poderemos estar implementando uma série de ações que considerem o velho como um sujeito sem futuro, sem lugar, quase fora do mundo pela sua proximidade com a morte. Situação que o coloca na categoria de objeto descartável, objeto desinvestido.

Pensar assim significaria considerar a libido um quantum de energia que se esgotaria no tempo. Mas, se pensarmos que a libido é uma energia sempre renovável, com possibilidades de continuar circulando, desde que o sujeito encontre objetivos adequados para o investimento (isto é, que ofereçam um baixo grau de frustração), entenderemos que qualquer ser humano, independentemente de sua idade, poderá fazer novos vínculos e investimentos. Considerei essa diferença fundamental.

Tratou-se, enfim, de analisar os destinos da identidade confrontada com as mudanças corporais, os limites temporais e as exigências do meio.

 

 

  1. O homem e o tempo

 

O homem e a idéia de tempo se influenciam mutuamente e, sem dúvida, esse movimento provoca efeitos na subjetividade. A experiência do tempo não é exterior à subjetividade; a representação do tempo é gerada e compartilhada culturalmente.Cada crise da humanidade, cada mudança do tempo histórico provoca e é provocada por uma reordenação da relação do homem com o tempo. Os grandes descobrimentos, os avanços tecnológicos, a navegação de além-mar ou a virtual da Internet mudaram a medida do tempo subjetivo e todo o posicionamento humano ante os outros, o espaço e a própria vida. Não só o tempo, mas também o espaço, não são os mesmos dos nossos antepassados.

Há uma concepção clássica – aristotélica – do tempo, um tempo universal que privilegia a idéia de movimento, do “antes” e do “depois”. Um tempo exterior ao qual estaríamos submetidos e que pode ser medido. Nesta concepção, a experiência do tempo está representada por figuras como a linha, o caminho, o rio que flui. (Galende, 1992)

 

Vivemos o tempo como sucessão, como movimento; apesar da ‘relatividade’ demonstrada neste século, na nossa vivência habita um tempo absoluto, medida de todas as coisas, que nos numera as durações (Galende, 1992, p. 31).

 

O modo mais primitivo de pensar essa relação homem-tempo é por meio dos ciclos da natureza: dia/noite, inverno/verão, chuva/estiagem, tempo de reprodução/tempo de colheita; tempos marcados por rituais que preservam a repetição, idéia circular do tempo, em que tudo se repete sempre da mesma forma; tempo mítico de repetição, tempo de eterno retorno.

Mas, a essa idéia do tempo circular, opõe-se a concepção de tempo sucessivo em que passado, presente e futuro encadeiam-se numa seqüência que se pretende lógica, histórica e que culmina com a morte, fim do tempo da vida. O pensamento religioso, na crença de uma vida após a morte, restitui uma certa circularidade, uma possibilidade de repetição na eternidade, marcada pela idéia de passagem de uma vida carnal e de sofrimento a outra de espírito puro, eterna em sua imutabilidade.

A partir destas duas idéias de tempo, a de tempo circular baseado na repetição, e a de tempo sucessivo, produtor de história, deduziremos que o homem só poderia progredir transformando a natureza e a si próprio. O homem escreveria sua história, enquanto a natureza estaria marcada por ciclos vitais repetitivos. Para sustentar essa posição seria necessário dividir o próprio homem em natureza (repetição) e espírito (história), instinto e alma. Porém, veremos ao longo deste trabalho como essa “natureza humana” é constituída por pulsões, por exigências de trabalho psíquico, em que história e repetição se opõem e se encontram.

Para a psicanálise, o presente não é conseqüência direta do passado; o presente é construção. O passado não contém em si mesmo o sentido do presente, pois é a partir do presente que se constrói um sentido para o passado. A psicanálise vem quebrar a idéia do tempo linear ou circular. Subverte a trama do tempo, provoca outros tempos, tempo de repetição, tempo de transferência, de posterioridade, de elaboração, enfim, tempos de transformação e construção de subjetividade.

Embora Freud não tenha postulado um trabalho do tempo, como postulou um trabalho do luto ou do sonho, por exemplo, não deixou de se referir repetidas vezes à importância desse fator para a psicanálise. Desde os primórdios de sua teoria, considerou o tratamento psicanalítico como algo que leva um certo tempo para se realizar, como um processo que se realiza no tempo.

Em “Corpo, Tempo e Envelhecimento”, e seguindo uma idéia de Henri Bianchi (1991), já me refiro a esse tema dizendo:

 

A experiência psicológica do tempo não é exterioridade, mas o produto de um labor psíquico estruturante de identidade. Envelhecer, então, não será seguir um caminho já traçado, mas construí-lo. Eis o trabalho do tempo: a construção de subjetividade (Goldfarb, 1998, p. 73).

 

 

  1. Para pensar a demência

 

A vida é o tempo que acontece entre nascimento e morte. Nesse prazo, o sujeito encontrará os limites para o seu desejo e realizará o encontro com seus objetos possíveis.

A velhice é a fase vital final do desenvolvimento humano, fato existencial que ultrapassa o biológico; apesar dos estigmas negativos que a caracterizam, a maioria das pessoas quer chegar lá, pois o contrário significaria morrer jovem. Deparamo-nos, assim, com um campo de contradições e paradoxos de difícil resolução.

O fato de ser a velhice o momento da existência humana mais próximo à morte, ligado ao declínio físico e a questões culturais, cria campo fértil para uma representação social negativa e propicia atitudes de marginalização e auto-exclusão.

Como todas as fases do desenvolvimento humano, a velhice também não tem fronteiras rígidas, nem cronológicas, nem conceituais. Norberto Bobbio fala-nos destes aspectos:

 

Nestes últimos anos, o limiar da velhice deslocou-se cerca de duas décadas. Aqueles que escreveram obras sobre a velhice, a começar por Cícero, tinham por volta de sessenta anos. Hoje um sexagenário está velho apenas no sentido burocrático, porque chegou à idade em que geralmente tem direito a uma pensão. O octogenário, salvo exceções, era considerado um velho decrépito, de quem não valia a pena se ocupar. Hoje, ao contrário, a velhice, não burocrática, mas fisiológica, começa quando nos aproximamos dos oitenta… (Bobbio, 1997, p. 17).

 

Quanto mais nos aprofundamos no tema, mais difícil se torna definir quando começa a velhice e o que é “ser velho”. Neste sentido, devemos diferenciar os termos velhice e envelhecimento. O termo envelhecimento alude a processo, a movimento contínuo, a um constante e sempre inacabado processo de subjetivação; velhice, por sua vez, refere-se a um estado, a uma certa permanência, a um tempo que não passa. Jack Messy escreve: “Se o envelhecimento é o tempo da idade que avança, a velhice é o da idade avançada, entenda-se, em direção à morte” (Messy, 1993, p. 33).

O tempo é aquilo que transcorre, permitindo a construção de conceitos, construindo memória, criando histórias, produzindo subjetividades. O curso da vida, no entanto, não é um curso de tempo regular perante o qual o sujeito é um mero espectador. A experiência psicológica do tempo não é mera exterioridade, mas produto de um trabalho psíquico estruturante da identidade. Nesse sentido, envelhecer não será seguir um caminho já traçado, e sim construir uma identidade, e esta idéia fundamental será retomada, de diversas maneiras, ao longo deste trabalho.

Tempo, temporalidade, consciência de finitude, tempo subjetivo são conceitos que marcam um caminho a ser trilhado para melhor compreendermos os fenômenos que caracterizam o envelhecimento humano. Se temos uma história, é porque conseguimos registrar na memória os acontecimentos significativos de nosso passado, descobrir aquilo que permanece e o que muda, e, assim, confirmar nossa identidade. Para elucidar melhor esta questão apelaremos a Piera Aulagnier, psicanalista que muito se dedicou a esse tema em sua relação com a constituição do eu,.

A reflexão sobre as questões do tempo é freqüente nos grandes pensadores da humanidade e Freud não escapou da preocupação com as vicissitudes da temporalidade humana. Em carta a Marie Bonaparte, datada de 12/11/1938, escreve:

 

Seus comentários em relação ao tempo e ao espaço me pareceram melhores do que poderiam ter sido os meus, embora, no que diz respeito ao tempo, ainda não lhe tenha informado de todas as minhas idéias. Na verdade, nem a você nem a ninguém. Uma certa repugnância por uma tendência subjetiva de deixar voar a imaginação, levaram-me sempre a me conter (Freud, 1976, p. 198).

 

Ainda que não tenhamos encontrado, em toda a obra freudiana, um só artigo dedicado exclusivamente a essa questão, o tema do tempo transita por ela, como observamos, por exemplo, no conceito de repetição. Será especialmente por meio do conceito de posterioridade, que liga a temporalidade à causalidade psíquica, que Freud nos oferecerá os elementos necessários para pensar a questão da historicidade do sujeito.

Na consciência, o sentimento de finitude é exclusivo do ser humano. Ele é o único ser vivo que sabe que vai morrer e, como tal, organiza-se para isso. Acreditamos que a temporalidade humana se constrói sobre uma linha temporal que, a partir do presente, permite-nos avaliar o passado, retificá-lo e projetarmo-nos no futuro. Esse é o movimento da historicidade humana, que cria subjetividade e preserva a identidade, dando um sentido de permanência.

Proponho-me a analisar o tempo de vida como um tempo cronológico que podemos medir de acordo com as diferentes convenções, mas que vivenciamos fora de qualquer acordo; tempo subjetivo, de construção do sujeito psíquico, que não podemos medir, a não ser na sua mais pura intensidade. Tempo de construção da história vivencial que resiste à medida do registro biográfico.

O tempo do envelhecimento caracteriza-se pela presença do sentimento de finitude, que é vivenciado com diferentes qualidades e intensidades emocionais, dependendo das características de cada sujeito e das diferentes experiências de proximidade com a morte vivenciadas ao longo de seu desenvolvimento. Essa proximidade com a morte marca uma experiência de luto, ou seja, de elaboração de perdas, processo sempre necessário para que se instaurem outros objetos no lugar do perdido, para que outros investimentos sejam possíveis e a libido continue a produzir vínculos… e vida.

Entretanto, existem casos em que essa elaboração parece não ser possível. E aqui nos defrontamos com aquilo que, pela sua intensidade e modalidade de inscrição, não pode ser retomado na posterioridade; aquilo que constitui um resto de impossível elaboração, marcando limites e sendo o grande desafio de qualquer psicoterapia. O inominável, que não se representa simbolicamente e só pode ser atuado no corpo.

Essa falta de elaboração pode ser então razão suficiente para levar um sujeito pelo caminho sem retorno do esquecimento mais radical e violento? Quais seriam os impedimentos para o sucesso de um processo elaborativo da perda? Em que consiste essa perda que, por meio da interrupção da comunicação com os outros, afasta o eu e o isola no esquecimento mais mortífero, pois constitui a morte da própria identidade? Seria, talvez, campo de domínio da pulsão de morte? Estas são algumas das perguntas que pretendo responder ao longo deste trabalho

Ao nos defrontarmos com a questão demencial, pensamos primeiramente numa deterioração neuronal. Sem querer negar essa constatação do ponto de vista biológico, não podemos deixar de nos questionar sobre alguns outros enfoques.

No meio médico, atribui-se apenas 15% das demências a causas psicológicas; mas, uma vez que a etiologia dessas doenças ainda não foi totalmente esclarecida, podemos pensar que essa porcentagem pode ser muito maior. Devemos considerar também que os exames necroscópicos freqüentemente contrariam os diagnósticos clínicos e não apresentam a deterioração neuronal esperada para a gravidade da sintomatologia apresentada, ou seja, nem sempre existe correspondência entre as lesões orgânicas e as perturbações psíquicas. Nesse caso, como já mencionei, é legítimo pensar que a especificidade da demência – em que o Eu se dissolve – não estaria dada unicamente por um déficit orgânico que afeta a memória como função neurológica, e sim por um conjunto de fatores no qual dever ser incluída a possibilidade de existência de um transtorno de identidade que tenha efeito sobre a memória como função historizadora.

Neste sentido, fica claro que nos encontramos ante dois campos epistemológicos diferentes, com objetos diferenciados. As neurociências pretenderiam, a rigor, construir uma leitura do psiquismo de base biológica. Assim, o funcionamento psíquico seria redutível ao funcionamento cerebral, e sua linguagem seria a bioquímica. A química dos neurotransmissores explicaria as particularidades do psiquismo e da subjetividade, transformando a psicofarmacologia no referencial fundamental da terapêutica psiquiátrica. Com isso a medicação psicofarmacológica seria a modalidade essencial de intervenção psiquiátrica. (Birman, 2000)

Mas Jurandir Freire Costa (2000), sempre atento ao aspecto ético de suas formulações, chama a atenção para o fato de a mudança do perfil clínico[1] dos analisandos e o estágio atual das teorias sobre a subjetividade terem criado a necessidade de certas inflexões teóricas na psicanálise, de modo a incorporar os avanços de outros campos do saber pois, por exemplo:

 

No campo da neurologia, desempenhos biológicos inusitados estão sendo estudados, e tudo isso revela facetas da organização subjetiva, modos de satisfação pessoal com a vida, idéias sobre o valor da vida e da morte impensáveis no tempo de Freud. Espero que esta diversificação da vida nos estimule a entender melhor a infinidade e diversidade de formas de vida subjetivas, e nos ajude a criar uma psicanálise cada dia mais aberta à riqueza dos experimentos psíquicos, compatíveis com a reprodução da vida cultural e biológica (Freire Costa, 2000, p. 105)

 

E, como bem diz Renato Mezan (1998), a questão entre psicanálise e neurociências está “mal colocada” já que, a começar pelo sintoma: “para a psicanálise e para a medicina, não significam a mesma coisa; e por este óbvio e poderoso motivo, a ‘competição’ entre psicanálise e neurociências simplesmente não existe” (Mezan, 1998, p. 302). O sintoma não pode ser confundido com a queixa, esta é uma percepção, tem relação com o que a pessoa sabe de si mesma, é uma percepção a seu respeito, enquanto o sintoma se apresenta como absurdo e surpreendente porque suas conexões com o restante da vida psíquica foram cortadas pelos mecanismos de defesa. Por outro lado, os objetos de estudos são diferentes.

Como psicanalistas interessados no fenômeno demencial, não estudaremos a memória como função neurológica porém, não deixaremos de ficar atentos a tudo aquilo que a pesquisa científica descobrir em relação a esta função tão essencial. Como psicanalistas estudaremos a memória como produção histórica do sujeito psíquico, resultante de seu funcionamento inconsciente, com o qual pretendo contribuir a um aprofundamento dos estudos a este respeito.

Além da necessidade de responder às hipóteses aqui apresentadas, esta pesquisa se justifica pelo fato de que, segundo as mais recentes estatísticas, no ano de 2015, 1 bilhão de pessoas terá mais de 60 anos, o que representa mais de 15% da população total; 50% das pessoas com mais de 90 anos (mais de 150 milhões) sofrerão algum tipo de doença demencial com diferentes graus de dependência.

Considerando o envelhecimento populacional e a constituição e dinâmica da família moderna, numericamente reduzida em relação à do começo do século XX, comprovamos que esta não terá mais condições de abrigar e cuidar de seus idosos dependentes, constituindo este fato um problema de difícil solução para a Saúde Pública e a Previdência Social. As doenças demenciais, tanto pelo grau de dependência que provocam quanto pela sua prolongada evolução, são das mais dispendiosas de que se tem conhecimento, exigindo, freqüentemente, longos anos de institucionalização. Faz-se premente articular pesquisas e ações que visem a uma compreensão teórica e técnica de suas vicissitudes, com o objetivo de divulgação, prevenção, cura e assistência. Nesse sentido, esta pesquisa pretende abordar a possibilidade formular uma hipótese psicogênica para as demências.

Com esse objetivo, no primeiro capítulo analisarei as vicissitudes do envelhecimento na atualidade através da ótica de “O mal-estar na cultura” (Freud, 1929), dando especial ênfase ao conceito de desamparo que o autor trabalha ao longo de toda sua obra. Isso implicará uma reflexão sobre a representação social negativa do idoso como outro fator desencadeante do desinvestimento libidinal que a provoca, analisado no marco das novas formas de subjetivação e das patologias engendradas na contemporaneidade. Logo depois, já no capítulo II, abordarei as demências sob vários pontos de vista, especialmente aqueles que se referem aos aspetos descritivos e históricos.

No capítulo III, articularei os conceitos de tempo, história e memória procurando um entendimento da função da memória como construtora de história. Para isso, além de um longo percurso pelos textos freudianos, revisitaremos diversos pensadores da psicanálise, especialmente Piera Aulagnier. Já no quarto capítulo entraremos na questão fundamental da constituição historizada do eu. Com esse motivo, nos adentraremos no conceito de eu, tal como foi tratado por Freud, e mais especialmente, pela já mencionada Piera Aulagnier.

Buscando uma melhor compreensão do fenômeno demencial que penso como forma regressiva de defesa contra a depressão de final de vida, voltaremos a este tema no capítulo V , que será dedicado a refletir sobre as possibilidades de criar as bases necessárias para um entendimento deste fenômeno a partir do ponto de vista da psicopatologia psicanalítica.

Para finalizar, no último capítulo trabalharei sobre as perspectivas terapêuticas que até o momento se visualizam no – por enquanto – empobrecido campo metodológico para o tratamento das demências. Este capítulo contém também três vinhetas clínicas de pacientes atendidos em consultório particular e comentários sobre os tratados em outras situações, como visitas informais a instituições asilares ou em tratamento domiciliar.

 

[1] O autor se refere especialmente a casos de distúrbios da imagem do corpo, drogadição e depressões distímicas onde encontramos “rebaixamento sistemático do valor afetivo de qualquer objeto do mundo, inclusive a própria vida” (Freire Costa, 2000, p. 104)

CAPÍTULO   I

Mal-Estar e Envelhecimento

 

Como saber? A princípio parece deserto,

como se nada ficasse, e um rio corresse

por tua casa, tudo absorvendo.

Lençóis amarelecem, gravatas puem,

a barba cresce, cai, os dentes caem,

os braços caem

caem partículas de comida de um garfo hesitante,

as coisas caem, caem, caem

e o chão está limpo e liso

Pessoas deitam-se e são transportadas, desaparecem,

e tudo é liso, salvo teu rosto

sobre a mesa curvado; e tudo imóvel.

 

Carlos Drummond de Andrade

“Indicações” (fragmento)

 

Em 1990, o presidente Collor assume o poder executivo da Nação e confisca os depósitos em poupança. Seis meses mais tarde, a procura dos grupos de apoio a familiares de portadores da Associação Brasileira de Alzheimer cresce de forma considerável. A cirurgia que não pode ser realizada, a viagem que não pode mais ser sonhada, a casa que não mais será comprada. Raiva, vazio, desesperança, depressão. Multiplicam-se os diagnósticos de demências.

Julho de 2002: sete meses depois de instaurado o “corralito” que confiscou os depósitos bancários, dos “panelazos”, e da entrada da Argentina em seus mais dramáticos níveis de miséria, recebo em São Paulo, dois telefonemas de pessoas preocupadas com o diagnóstico de demência dado a seus familiares em Buenos Aires.

As duas experiências têm em comum o fato de acontecerem em um período de recessão econômica e de eliminar drasticamente os projetos de curto prazo que dependiam das economias da população. Para os mais jovens, embora represente um grande sofrimento, pode ser um simples adiamento; enquanto que, para os mais velhos, é a constatação de que seu tempo já acabou. É o fim de toda esperança.

Devemos reconhecer que a situação dos idosos tem mudado muito nos últimos anos, mas ainda persiste uma imagem negativa, desinvestida e desvalorizada. Além do que, pelo fato de serem sujeitos próximos do fim da vida, encontram-se numa situação de fragilidade, tanto no que diz respeito à sua saúde, quanto no que se refere ao aspecto social. Podemos notar como são afetados por perigos reais que vão desde o aumento da violência urbana até a ameaça da perda dos direitos adquiridos pela aposentadoria. Ameaças que, sem dúvida, provocam efeitos na subjetividade.

Além de terem de abandonar compulsioriamente seus lugares de reconhecimento narcísico, os idosos, ainda que o queiram têm dificuldade de ocupar outros, pois o modelo social muda de forma radical e violenta, em um momento da existência em que não há mais tempo disponível para operar uma virada significativa no projeto de vida. Não há promessa de futuro, não há mais motivos para lutar.Não há como produzir a vida, só resta esperar a morte.

A subjetividade não é da ordem do originário – biológico, psíquico ou social, não importa – é, sim, da ordem da produção, sendo que cada cultura e cada época histórica oferece diferentes condições e padrões de produtividade subjetiva. E para que exista produtividade, investimentos são fundamentais.

Vejamos a seguir, alguns conceitos que nos ajudem a pensar estas questões.

 

 

  1. Alteridade e subjetividade

 

Pode-se dizer que toda a teoria freudiana está baseada na questão da alteridade, seu reconhecimento e suas conseqüências. Este tema está presente, com diversos destaques, desde o começo de suas elaborações. Basta lembrar que no estudo “Para uma concepção das afasias” (1891), Freud já afirmava que um aparelho de linguagem se constitui em relação a outro aparelho de linguagem; mais tarde, em textos como “Introdução ao narcisismo” (1914) e “O eu e o isso” (1923), por exemplo, dará ênfase especial a este aspecto. Porém, será nos textos chamados sociais ou antropológicos que ele irá adquirir uma relevante importância.

Em “Psicologia das massas e análise do eu”, de 1921, Freud nos ensina que a história individual é uma história social; assim sendo, é impensável a constituição do sujeito psíquico sem o outro, não podendo haver historização no isolamento. Freud escreve:

 

A oposição entre psicologia individual e psicologia social ou das massas, que a primeira vista nos pareceria muito substancial, perde grande parte de sua significação quando considerada mais profundamente. É verdade que a psicologia individual refere-se ao ser humano singular e estuda os caminhos pelos quais procura atingir a satisfação de suas moções pulsionais. Mas só raramente e sob o domínio de condições excepcionais lhe é dado prescindir das relações do indivíduo com sues semelhantes. Na vida anímica do humano, o outro aparece regularmente como modelo, como objeto, como auxiliar, como inimigo; deste modo, a psicologia individual é, desde sua origem e ao mesmo tempo psicologia social, num sentido amplo, porém plenamente justificado (Freud, 1921, p. 67).

 

A partir deste texto fica absolutamente claro que Freud coloca a questão da socialização do ser humano no cerne da problemática da intersecção entre psicanálise e cultura, formulando uma teoria psicanalítica da cultura. No núcleo de sua teoria, são destacadas as formulações que dão conta dos mecanismos pelos quais o sujeito realiza sua adaptação ao meio cultural, a maneira pela qual ganha um sentimento de pertença podendo, ao mesmo tempo, diferenciar-se dos outros membros da mesma cultura. O entendimento, enfim, sobre a função fundamental do “outro” para a satisfação das pulsões e a vida em sociedade.

Em “Mal-estar na cultura” de 1929, vemos como, em todas as épocas da história da humanidade, a cultura tem proposto estratégias para aliviar o sofrimento que, paradoxalmente, ela mesma provoca através do impedimento da plena satisfação. Assim, a felicidade seria inatingível como estado permanente. Em sua procura, diversas vias substitutivas podem ser colocadas em ação, mas o conflito será sempre insolúvel em si mesmo.

Por outro lado, as formas de sofrimento produzidas pela cultura mudam permanentemente. Sabemos que não se procuram as mesmas satisfações e não se sofre da mesma maneira, nem pelos mesmos motivos em todas as épocas históricas, nem em todas as classes sociais. Mas também não podemos esquecer que a procura por essa realização é o grande motor do desejo.

Nas últimas décadas, observamos uma crescente revalorização das elaborações freudianas desta época. Vemos que tanto no que se refere ao sujeito, quanto ao que se refere à cultura, tanto no âmbito das ciências sociais quanto no da psicanálise, há uma tentativa de compreender as mudanças das relações sociais da pós-modernidade.[1] A perda de valores como a solidariedade, a impossibilidade de se colocar no lugar do outro, a perda da esperança no tempo futuro ou a sobrevaloração do presente e o crescente desamparo, provocam efeitos na subjetividade.

Nesse caminho – e pensando no sofrimento dos anos recentes na América Latina – Mario Fuks fala de situações traumáticas coletivas provocadas pelo terror econômico, os surtos hiper-inflacionários, o terror de estado, o desemprego e a precarização do trabalho. Estes determinantes, entre tantos outros, irão configurar um quadro de penúria social de alto impacto subjetivo, no qual o eu, submetido a esta situação, ficaria num estado de desproteção, que o impossibilitaria de abrir uma dimensão temporal onde a satisfação fosse passível de ser pensada como ganho futuro.

Ante estas catástrofes, todo um sistema de valores baseado no esforço pessoal, no trabalho como forma de se chegar a um futuro melhor, os projetos individuais e as expectativas de transformações sociais baseadas no coletivo parecem desmoronar.

 

Assim, é freqüente que a limitação dessa rede simbólica intra e intersubjetiva requerida para a elaboração das vivências de desvalimento e desamparo culmine num desfecho medicalizante através de diagnósticos psicopatológicos de depressão, síndromes neuro-vegetativas, etc. sem que o trabalho de luto em curso ou bloqueado possa ser reconhecido (Fuks, 1994, p. 66).

 

Não haveria mais perdas reconhecíveis, pois tudo pode e deve ser substituído. Assim, nostalgia e reencontro não teriam mais sentido, o que traria como conseqüência a evaporação da memória. Afinal:

 

A ‘perda de um objeto inserido numa história’ (Lewcowikz), aqui entendido como uma trama, tem na psicanálise um papel fundamental na constituição do sujeito […]. A trama se produz através de perdas, deslocamentos, substituições, trocas. […] Perda e incompletude abrem, assim, o caminho para a subjetividade, a alteridade, a intersubjetividade e a temporalidade” (idem, p. 75).

 

O mesmo autor agrega que as assim chamadas patologias da contemporaneidade, como anorexia, bulimia e drogadição, por exemplo, integrariam e expressariam em sua sintomatologia os discursos sociais e as tramas de significações entrelaçadas ao redor dos ideais que configuram o espírito de sua época.

Entendemos estas patologias como verdadeiros “analisadores” do modo de produção da subjetividade, não por estes quadros serem novos ou desconhecidos em outras épocas históricas, mas por serem novas as condições sociais que os determinam e os recursos ideológicos que os organizam; de preferência, sempre entre os campos da psiquiatria e da farmacologia. Podemos pensar em acrescentar as demências a esta categoria, pois também ela forma parte dessa malha produtiva contemporânea. Mas continuemos agora nosso percurso através das idéias que justificam esta proposição.[2]

Na “cultura do narcisismo” tal como formulada por Lasch há mais de 20 anos), o eu ocupa uma posição privilegiada e, embora o autocentramento do sujeito não seja uma questão nova, nesta formulação adquire outra dimensão.

Estamos ante os resultados da passagem de um autocentramento baseado na interioridade e na reflexão a um outro que depende, todo ele, do olhar padronizador que apaga a valorização das diferenças subjetivas transformando o outro em apenas um objeto usurpável para uso pessoal. Elimina-se a alteridade, a intersubjetividade, e portanto, a solidariedade (Birman, 2002).

Neste novo narcisismo, o sujeito pode mostrar-se perfeitamente adaptado ao social em geral e, ao mesmo tempo, sofrer com as exigências dos vínculos mais íntimos, que exigem um certo grau de renúncia narcísica, enquanto grandiosas expectativas sobre si mesmo coincidem com sentimentos de inferioridade e desadaptação. O sujeito descentralizado de sua história e de seu destino perde o sentido histórico de sua existência, isto é, o sentido de pertença ao conjunto das relações humanas que cobram significação às singularidades da vida de cada indivíduo.

Vê-mo-nos na presença de um sujeito fora-de-si, não no modo da alienação psicótica, mas como modo de ser dedicado exclusivamente ao aperfeiçoamento do próprio eu em acordo com o padrão narcísico. Como se tudo acontecesse num cenário e fosse para ser visto de longe, haveria uma estetização da existência que viria cancelar a modalidade vincular dos contatos mais próximos (Debord, 1994). Birman propõe “fazer uma costura entre as interpretações de Debord e Lasch, já que a exigência de transformar os incertos percalços de uma vida em obra de arte evidencia o narcisismo que o indivíduo deve cultivar na sociedade do espetáculo (Birman, 2002, p. 188).

O sujeito, assim organizado, transforma-se em objeto descartável. Perdida a interioridade, ganha-se exterioridade, quer dizer, ganha-se uma máscara para o consumo externo, mercado onde algumas regras são sagradas. Nesta sociedade do espetáculo, não basta ser belo, deve-se ser também competitivo, autocentrado, agressivo, egoísta. Mas fundamentalmente não se pode nem deprimir, nem sofrer.

Entendemos que o fundamental desta exterioridade é uma falta de consistência interna, um continuado movimento de ter de ser para um mercado que parece não lidar muito bem com as diferenças. Um ter de ser padronizado – como no melhor estilo adolescente – para o consumo grupal, mas com normas e exigências que mudam constantemente. O conceito de sujeito da modernidade, que se pretende estável e invariável, está definitivamente questionado.

Nesta sociedade do espetáculo, onde tudo acontece como num cenário, prioriza-se a noção de espaço, a dimensão da história singular se perde e as noções de história e temporalidade são ocupadas pela idéia do lugar que se ocupa na cena. Espacializados os vínculos humanos, degradada-se a temporalidade, a historicidade do sujeito não é mais fundamento para sua existência e a memória em seus múltiplos aspetos se evapora, pois nada oferece de fundamental para a construção subjetiva

Perdida a significação histórica, especialmente ancorada na questão da filiação, perdem-se a vivência de si mesmo e o sentimento de continuidade temporal: instaura-se o vazio. Vivência de vazio e desamparo são características do homem atual. Solidão, isolamento, fastio e embotamento favorecem o desinvestimento do mundo e da realidade. Por causa deste isolamento, haverá um desligamento dos vínculos intersubjetivos, via régia da pulsão de morte.

Veremos então que as questões sobre a temporalidade, quando pensadas do ponto de vista da psicanálise, abordam fundamentalmente dois aspectos: os vínculos intersubjetivos e o processo de historização, que não podemos considerar sem analisar a noção de desamparo.

 

 

  1. Desamparo e angústia

 

O termo desamparo (Hilflosigkeit[3]) é utilizado por Freud ao longo de toda sua obra embora não lhe tenha dedicado nenhum artigo em especial. Costa Pereira, (1999) que pesquisou exaustivamente este tema, chama a atenção para o fato de esta noção ter sido negligenciada e seu alcance metapsicológico restringido por uma interpretação que fez prevalecer o ponto de vista genético; o desamparo, surgiria ante uma tensão de necessidade que o aparelho psíquico, por imaturidade neurológica, ainda não seria capaz de dominar. Esta perspectiva supõe que o desamparo seria totalmente eliminável pelo amadurecimento e não teria mais um papel essencial no funcionamento psíquico; mas não foi essa a perspectiva freudiana que continuou a ver na Hilflosigkeit “ a condição última de falta de garantias do funcionamento psíquico, que o homem tem de enfrentar quando de livra de todas as ilusões protetoras que cria para si mesmo” (Costa Pereira, p 130) .

No Projeto de 1895 Freud escreve:

 

O enchimento dos neurônios nucleares em y terá como resultado uma propensão à descarga, uma urgência que é liberada pela via motora. A experiência demonstra que, aqui, a primeira via a ser seguida é a que conduz a alteração interna (expressão das emoções, gritos inervação vascular). Mas, como já explicamos no início, nenhuma descarga pode produzir um resultado apaziguador, visto que o estímulo endógeno continua a ser recebido e se restabelece a tensão em y. Nesse caso, o estímulo só é passível de ser abolido por meio de uma intervenção que suspenda provisoriamente a descarga de Q no interior do corpo; e uma intervenção dessa ordem requer a alteração no mundo externo (fornecimento de víveres, aproximação do objeto sexual), que, como ação específica, só pode ser promovida de determinadas maneiras. (Freud, 1895, p 362)

 

E ainda completa:

 

O organismo humano é, a princípio, incapaz de promover essa ação específica. Ela se efetua por ajuda alheia, quando a atenção de uma pessoa experiente é voltada para um estado infantil por descarga através da via de alteração interna. Essa via de descarga adquire, assim, a importantíssima função secundária da comunicação, e o desamparo inicial dos seres humanos é a fonte primordial de todos os motivos morais (Freud, 1895, p. 362, grifos meus).

 

Vemos então que já em 1895, Freud afirmava claramente que o desamparo é fundante do ser humano já que é fonte de “todos seus motivos morais” e, desse modo, o marca para sempre. Como podemos observar desde o começo de suas formulações, Freud coloca a questão do desamparo na origem do sujeito. A ênfase genética é clara, porém o olhar para outros aspectos já está lá. E como bem o assinala Cristina Ocariz:

O fator determinante da angústia automática é uma situação traumática e esta é, essencialmente uma vivência de desamparo do eu frente a uma acumulação de excitação, seja de origem externa ou interna, com a qual não pode lidar. O excesso de estímulos, é vivido pelo sujeito como algo avassalador que o leva a uma situação de desamparo (Hilflosichkeit) . A situação de desamparo inicial vivida pelo bebê frente à ausência do outro (Nebenmensch) do qual depende por causa de sua imaturidade biológica, serve como modelo frente às situações perigosas que viverá na vida, às quais reagirá de acordo com sua configuração psíquica do momento. (Ocariz, 2003, p 92)

 

Jean Laplanche em “Novos fundamentos para a psicanálise”, dá ênfase ao aspecto genético que aborda o desamparo como um estado objetivo que deve ser separado do aspecto afetivo. Este estado em que se encontra o bebê por causa de sua imaturidade, seria uma situação de insocorro, desajuda indefensão. Em suma, um estado em que um ser não pode ajudar-se a si mesmo, um estado em que, se deixado só, perecerá.

No mesmo texto, o autor situa o desamparo como fundamento do que chamou “a situação originária” na qual, o recém nascido seria impotente para realizar a ação específica adequada que poria fim ao estado de tensão interna provocado pela necessidade e, assim, ficaria submetido à onipotência materna[4]. Estado de desamparo fundamental e definitivo na constituição do psiquismo e na sua relação com os outros dos quais dependerá para sua sobrevivência. Mas não haveria desamparo que se referisse só ao campo da autoconservação, pois uma das formas privilegiadas da expressão da sexualidade adulta está em franca relação com os cuidados do bebê. Laplanche, então, ele distingue dois níveis de prematuração: um na esfera de sobrevivência, adaptativo, e outro na esfera sexual, na qual baseia sua “teoria da sedução generalizada” em que a criança se confronta (passivamente) com a sexualidade adulta inconsciente.

Pois bem, em 1920, algo de transcendental acontece no cenário da psicanálise. A formulação da pulsão de morte vem outorgar ao desamparo uma nova dimensão. O desamparo é da ordem do originário e, como tal, seria impensável antes desta data. Uma pulsão sem representação e sem inscrição no circuito da satisfação, uma pulsão sem objeto, silenciosa, que coloca o ser humano, definitivamente e sem subterfúgios, na posição de desamparo. Virada fundamental que provocará efeitos em toda a teoria. (Birman 2000)

Neste caminho, Freud dá uma reviravolta na sua teoria da angústia que até então era considerada como proveniente da libido recalcada. No marco da segunda teoria –mais metapsicológica do que fenomenológica – tal como formulada em “Inibição, sintoma e angústia” (1926), a verdadeira origem da angústia está no eu e é ela que cria a repressão.[5] Freud distingue, então, duas formas de angústia: angústia automática, na qual há uma “situação traumática” provocada pelo excesso de excitação (tanto seja de origem interno ou externo) e angústia sinal, como forma de reação do eu ante a ameaça da situação de perigo, isto é, de se instaurar uma situação traumática.

Freud também supõe um deslocamento do poder primitivo originariamente associado às figuras parentais, ao supereu posterior ao período de latência. Considera que, para que se estruture uma neurose traumática, além da presença do perigo objetivo é necessária a participação dos níveis mais profundos do aparelho psíquico, pois seria “a conseqüência direta da angústia de supervivencia ou de morte” (Freud, 1926, p 122) e explica a analogia entre angústia de castração e angústia de morte

Mas o inconsciente parece nada conter que pudesse dar qualquer conteúdo ao nosso conceito da aniquilamento da vida. A castração pode ser retratada com base na experiência diária das fezes que estão sendo separadas do corpo ou com base na perda do seio da mãe no desmame. Mas nada que se assemelhe à morte jamais pode ter sido experimentado; ou se tiver, como no desmaio, não deixou quaisquer vestígios observáveis atrás de si. Estou inclinado, portanto, a aderir ao ponto de vista de que o medo da morte deve ser considerado como análogo ao medo da castração e que a situação à qual o ego está reagindo é de ser abandonado pelo superego protetor – os poderes do destino — de modo que ele não dispõe mais de qualquer salvaguarda contra todos os perigos que o cercam. (Freud, 1926, p.123, o grifo é meu)

Podemos observar que o desamparo, deixa de ser somente o produto da imaturidade psicomotora do bebê para se constituir em uma possibilidade da vida psíquica que, submetida a determinadas condições de excesso de estímulos, pode ser vítima de uma situação traumática concreta. Ceccarelli escreve:

 

Vale lembrar que o desamparo original não deve ser compreendido apenas do ponto de vista biológico. Para o bebê, o que a falta do Outro traz não é a morte biológica mas, antes, a morte ontológica que tem sua expressão máxima em algumas formas de psicose. A função essencial do Outro primordial encarnada inicialmente pela mãe é a de introduzir a criança no mundo da metáfora onde os objetos secundários substituem os primordiais: para manter-se o narcisismo secundário, o do eu, deve-se sacrificar o narcisismo primário. O bebê humano que recusasse esta necessidade seria impensável como humano, excluindo-se da cultura. (Ceccarelli, 2001, versão electrônica)

É em “O futuro de uma ilusão” e “O mal-estar na cultura” que a noção de desamparo, já anunciada nos primeiros textos da produção freudiana, se instala, definitivamente, no corpo teórico da psicanálise como fundante da subjetividade.

Em “O futuro de uma ilusão”, de 1928, Freud retoma o tema ligando o desamparo infantil à religiosidade, à justiça e à figura de um pai protetor:

 

Como já sabemos, a impressão terrificante de desamparo na infância despertou a necessidade de proteção – de proteção através do amor –, a qual foi proporcionada pelo pai; o reconhecimento de que esse desamparo perdura através da vida tornou necessário aferrar-se à existência de um pai, dessa vez, porém, um pai mais poderoso. Assim o governo benevolente de uma Providência divina mitiga nosso temor dos perigos da vida; o estabelecimento de uma ordem moral mundial assegura a realização das exigências de justiça… (Freud, 1928, p. 30).

Quem não tiver a sorte de viver em um mundo justo nem a possibilidade da ilusão religiosa deverá admitir para si mesmo toda a dolorosa dimensão do desamparo e sua insignificância dentro da ordem do universo e, se não achar outros caminhos, estará submetido às mesmas condições do desvalimento infantil.

Paulo Ceccarelli, (2001) a partir de uma apurada leitura dos textos de Freud, analisa como a figura do pai é central para este autor:

Para Freud é da relação com o pai em carne e osso, que o sujeito forja o protótipo de Deus e também o do demônio; é por ter tido um pai particularmente violento e cruel na realidade que Dostoievski desenvolve um superego sádico. Ao pai, a tarefa de substituir a mãe na proteção da criança pelo resto da infância contra os perigos de mundo externo, como lemos em O Futuro de uma Ilusão. (Ceccarelli, 2001, versão electrônica)

 

E acrescenta:

Do onipotente pai herói – o grande homem da infância – profundamente admirado, por vezes idolatrado, mas também temido – ficará a nostalgia do pai, sentimento que coincide com a necessidade de proteção ligada ao desamparo humano. É também ele que vai, via ameaça de castração, – o pai que castra mas que protege – marcar e direcionar, por assim dizer, o desejo do filho. (idem)

 

Se houver um colapso das funções parentais será impossível evocar a nostalgia da proteção do pai. Ceccarelli, (idem) utilizando o exemplo da drogadição observa que, quando falha esta evocação, quando é impossível apelar ao pai, a droga pode produzir um “arrimo de segurança”, como uma ilusão de retorno ao paraíso perdido, ao estado oceânico rompido. “O apelo ao pai é um pedido de proteção contra a castração – logo, contra a morte – num contexto onde a castração já se deu, ou seja, onde já houve função paterna.” (idem)

Haveria pois um desamparo originário, fundante, que marca de forma indelével a subjetividade humana e outro – que não seria mais que um reencontro – em que uma ilusão de amparo seja possível através do apelo ao pai simbólico.

E Freud vai continuar trabalhando com esta noção até se constituir como figura central em uma concepção trágica do homem, consciente de sua finitude e à mercê das vicissitudes da vida. Será desta forma que o encontraremos em “O mal-estar na cultura”, de 1929.

Neste texto, e seguindo a trilha inaugurada em “O futuro de uma ilusão”, Freud retoma um conceito de seu amigo Romand Rolland, que define a verdadeira origem da religiosidade na existência de um “sentimento oceânico”, “um sentimento como de algo sem limites, sem barreiras” (Freud, 1929, p.65). Seria algo como uma sensação de eternidade, produto da conservação do passado na vida anímica, que não necessariamente resulta destruído: “sua conservação é mais a regra que uma rara exceção” (idem, p.72).

Neste sentido, o sentimento oceânico remontaria a fases muito primitivas da formação do eu, embora Freud não considere esse sentimento como obrigatório, pois um sentimento só pode ser fonte de energia quando expressa uma necessidade intensa. Assim, a derivação do desamparo do bebê e o anseio pelo pai em necessidades religiosas só seria sustentada na vida adulta, pelo permanente medo e simultânea confiança no poder superior do destino e do divino.

 

Escreve Freud:

 

Não consigo pensar em nenhuma necessidade da infância tão intensa quanto a da proteção de um pai. Dessa maneira, o papel desempenhado pelo sentimento oceânico, que poderia buscar algo como a restauração do narcisismo ilimitado, é deslocado de um lugar em primeiro plano. A origem da atitude religiosa pode ser remontada, em linhas muito claras, até o sentimento de desamparo infantil. Pode haver algo mais por trás disso, mas presentemente ainda está envolto em obscuridade (idem, p. 72).

 

Freud considera que o sentimento oceânico seja uma produção posterior, e relaciona seu aparecimento à religião. A idéia de unidade com o universo e com Deus parece a primeira tentativa de consolo religioso, uma maneira de rejeitar os perigos do mundo que ameaçam o eu. Sendo um sentimento tão forte e perdurável, deve ter uma motivação da mesma intensidade, e essa motivação é, para Freud, o desamparo e a dependência que o humano sente em relação às outras pessoas.

A maior ameaça então será a fragilidade dos vínculos e a possível perda do amor do outro que o deixará no maior desamparo e sem proteção ante uma série de perigos e sofrimentos. Além desta ameaça, Freud coloca mais duas: o corpo, condenado à decadência e à finitude, corpo que não pode renunciar à dor e à angústia como sinal de alarme, e as forças da natureza impossíveis de dominar por inteiro. As três questionam a onipotência do sujeito humano e manifestam sua fragilidade ante a vida.

Para enfrentar os sofrimentos da vida, Freud reconhece algumas outras alternativas além da religião: distrações poderosas como, por exemplo, a ocupação com um projeto científico, satisfações substitutivas como a arte e a sublimação em geral, o uso de substâncias embriagadoras que nos tornem insensíveis, o gozo da beleza, o investimento no amor e nos vínculos e o trabalho. Diversos meios, enfim, que a cultura oferece para evitar os sofrimentos que provoca. Proteger-se do desamparo, subtrair-se ao medo, regular os vínculos e a divisão dos bens é a função fundamental que Freud atribui à sociedade. Mas os tempos mudam e estes fatores, embora sempre presentes, adquirem conotações diversas nas diferentes épocas históricas. Miriam Debieux Rosa retoma esta questão em relação à sociedade pós-moderna:

 

Logo, a cultura atende às funções de proteger e organizar as relações humanas quando supre o sujeito de duas formas: pela convicção de ser único, especial, relacionada ao narcisismo e a identificação e quando oferece a segurança da pertinência a um grupo desenvolvido por ideais comuns. Como foi visto, o primeiro aspecto tem sido exacerbado e este último aspecto tem sido pulverizado na cultura ‘pós-moderna’ (Debieux Rosa,1998, p. 88).

 

Vemos então como, na contemporaneidade, os vínculos de filiação são profundamente questionados e, embora seja verdade que a figura do pai simbólico – tal como era entendida nas sociedades tradicionais – entrou em colapso, é verdade também que a função “protetora” da cultura não estaria fazendo seu papel. Se o pai não garante mais nada em termos de proteção subjetiva é porque essa função paterna não tem mais em que se apoiar. Todos os mecanismos reguladores se mostram falidos e o desamparo passou a fazer parte da condição subjetiva própria ao ser humano.

A função paterna de suporte e transmissão da identidade para o filho é substituída por outros saberes, hoje especialmente representados pela mídia. Isto não acontece sem conseqüências; tanto a constituição do sujeito quanto o próprio processo civilizatório são profundamente afetados pela desintegração (ou talvez, modificação) dos vínculos sociais. O futuro não está mais garantido como o estava nas sociedades tradicionais.

Novas formas de expressão da sexualidade, novos conceitos de família, de parentalidade, de adolescência ou de velhice, fazem sua aparição nos surpreendendo e modificando nossas significações em relação a questões tão fundamentais como o amor e a morte. Significações essas que formam parte de uma trama na qual estamos incluídos como agentes e produtos. Trama que não podemos olhar senão como sujeitos.

Como sujeito incluído na trama social, o homem contemporâneo está longe de viver uma vida sem ideais e estes, embora não sejam os mesmos ideais sublimes do romantismo, dominam a existência e determinam os diferentes modos de produção subjetiva.

Rojas e Sternbach (1997) nucleiam estes ideais em seis grupos: o primeiro é o grupo dos ideais ligados ao consumo como pretensão de um desejo sempre satisfeito plenamente; o segundo grupo é o dos ideais ligados ao aqui e agora, que têm tudo a ver com a queda das utopias e a abolição da história; neste caso, a dimensão do futuro fica submetida a um presente que promove um movimento de desinvestimento em um Ideal do eu, sempre projetado no tempo futuro, em favor de um eu ideal que manda sê-lo todo e já. Os ideais de leveza constituem o terceiro grupo, que, como oposição a alguns ideais rigorosos da modernidade, evitam as profundezas em prol do culto da própria imagem e da superfície, do que não pesa na existência, do que torne a vida mais “leve”.

Um quarto grupo de ideais liga-se ao mundo da imagem transmitida pela mídia, ideais estes que são absorvidos passivamente por um público ávido de parâmetros organizadores de seu cotidiano. O quinto grupo é o dos ideais ligados à juventude, os quais, como produto dos anteriores, preconizam os padrões de estética e de comportamento ligados a essa fase da vida; negam o caminho natural em direção à velhice e à morte, que aparecem como tempo de concentração de tudo o que é decadente e deficitário, provocando uma necessidade de parar o tempo. Seguindo esta lógica, a juventude seria um estágio ideal a ser alcançado precocemente e indefinidamente prolongado.

Por último, o sexto grupo, o dos ideais ligados ao pragmatismo, pelo qual são valorizadas todas as ações práticas e eficientes – embora agressivas e competitivas – que ajudem a atingir os anteriores, desestimando valores éticos tradicionais em vez de criticá-los e superá-los. O sucesso a qualquer preço, como valor inquestionável, muda definitivamente o modelo.

Vemos que estes ideais estão ligados ao fim das utopias como possibilidade de projeção dos sonhos no tempo futuro, anulação do tempo para projetos a longo prazo, presentificação da vida no aqui e agora e rejeição -para as bordas deste universo– de tudo o que, como a velhice, pode negar estas constatações. Nestas modalidades, os sujeitos presos à realidade exterior e pouco conectados à própria conflitiva psíquica mostram um baixo nível de simbolização e manifestações psicopatológicas ligadas à experiência corporal; os vemos impregnados pelo vazio e sem palavras para falar de seus sentimentos.

Miriam Debieux Rosa (1998) assinala outros efeitos da pós-modernidade: a influência dos meios de comunicação na construção da identidade, a realização pessoal através do consumo, um sentimento de impotência tanto individual quanto coletivo, a não somatória dos destinos individuais – já que a vida comunitária é fabricada e dirigida pelos sistemas formadores de opinião – e o abandono dos fins sociais pela primazia da produção de tecnologia, o que altera a continuidade histórica da produção e sua confiabilidade.

 

Os efeitos envolvem, portanto, abalos na concepção da realidade e na identidade, nas relações entre os indivíduos e dos indivíduos com a vida social, abalos que fazem predominar sentimentos de impotência que têm, paradoxalmente, impulsionado grandes grupos de pessoas na direção da religião. A impotência contrasta com a euforia da oferta de inúmeras oportunidades de prazer e de conhecimento, com garantias implícitas de oportunidade de uma vida sem limites e impossibilidades, reforçadas pelas promessas de eternidade e onipotência advindas dos progressos tecnológicos, inclusive da medicina (Debieux Rosa, 1998, p. 85).

 

No cerne da formulação sobre o desamparo, o que se coloca é a falta de garantias da existência humana que nem a ciência consegue resolver. Haveria, pois, uma fragilidade estrutural do sujeito que se encontraria à mercê da fragilidade da vida, das ameaças da natureza e das difíceis vicissitudes do vínculo com os outros. Talvez ninguém esteja mais consciente de sua finitude, à mercê das dificuldades com a corporeidade, em situação de fragilidade ante as ameaças da natureza (e da cultura) do que o sujeito que envelhece. E, também, ninguém é mais sem esperança; tudo o que foi deixado “para depois” se presentifica de forma urgente e imperiosa, simplesmente porque o depois não existe ou é muito breve. Ante o fim iminente não há apelo possível, o socorro não chega, a morte se enfrenta sempre em solidão.

Por muito que o processo de castração tenha cumprido sua função, por melhor que seja a possibilidade de sublimação, o desamparo do sujeito, como bem o diz Birman:

 

Assume uma feição trágica, marcado que seria pela finitude e pelo imprevisível sem ter qualquer garantia absoluta para se sustentar. É o vazio e o abismo que está permanentemente sob seus pés, num vórtice tempestuoso que pode engoli-lo a qualquer momento, pois a morte o espreita com sua fase tenebrosa e hedionda em todos os instantes”. (Birman, 2001, p, 43)

  1. O não lugar do mal-estar

 

Sem dúvida, o progresso da medicina e os avanços tecnológicos têm colaborado amplamente para a mudança dos conceitos relacionados com as diferentes faixas etárias, especialmente daqueles que se referem ao processo de envelhecimento. Estes conceitos, nascem à luz do aumento da longevidade, da qualidade de vida e, portanto, do crescimento do número de idosos.

Mas, além do progresso científico, a produção conceitual de qualquer área do conhecimento é regulada por valores sociais e condições históricas que definem sua evolução e sua operacionalidade. Neste sentido, podemos observar que o conceito de velhice é bastante recente. O evolucionismo darwinista do século XIX e sua conseqüente separação da vida humana em faixas etárias introduziu o conceito de degeneração como fundamental para o saber biológico, o que levou ao entendimento da velhice como o locus privilegiado de tudo o que referenciasse decrepitude e decadência.

Por outro lado, os valores de produção e consumo ligados ao modo de produção capitalista também colocaram a velhice num lugar marginalizado, investido de valores simbólicos negativos e em contraposição aos da juventude, que sintetizariam todos os valores positivos, especialmente força, beleza, capacidade de trabalho, reprodução e produção de bens. Assim, o velho deixou de ser um patrimônio, transformando-se em um encargo social. Joel Birman aborda esta questão com as seguintes palavras:

 

Colocada na posição negativa de uma existência social que se fechou, a velhice não poderia ter mesmo qualquer forma de reconhecimento simbólico, de relação com o futuro, pois o velho estava desinvestido no seu presente. Portanto, apenas lhe restava a rememoração do passado e o confronto brutal com a morte. Os efeitos subjetivos dessa posição social negativa, para a velhice, são catastróficos (Birman, 1995, p. 199).

 

Quando um velho diz “no meu tempo”, está dizendo que não tem presente, que só pode existir em relação ao passado, que o tempo atual não lhe pertence, e menos ainda o futuro. O produto direto desta experiência é a desnarcisação, o desinvestimento da cultura que leva o velho a se identificar com esse espaço vazio, a falta de chances para a ressignificação do passado no presente, a impossibilidade de projeção no futuro.

Por outro lado, a cultura cria definições e promove uma linguagem que categoriza os cidadãos segundo gênero ou faixas etárias, determinando desse modo as relações sociais entre eles, tanto as de aliança, quanto as de conflito, de solidariedade ou dominação. Raul Pacheco escreve:

 

Velhice não é um estado biológico: é uma palavra ou significante. Como tal, não constitui uma condição biológica, do mesmo modo que as categorias de gênero. Ela define o lugar do sujeito na cultura e sua posição nas relações de dominação. E também nas demais relações sociais (Pacheco, 2002, p. 81).

 

O lugar do velho seria quase um não-lugar pois, embora a partir dos investimentos das últimas décadas sejam reconhecidos como sujeitos, sendo incluídos no panorama social contemporâneo (até porque seria impossível não incluir o grupo etário que mais cresce), os velhos são empurrados para as bordas da estrutura social, são reconhecidamente obrigados a uma subjetividade ancorada na passividade, a uma pobreza de trocas simbólicas, e à renúncia ao papel de agentes sociais; são empurrados a uma perda de todo poder, mesmo sobre si mesmos.

Este não-lugar do velho se manifesta em atitudes e políticas (freqüentemente solapadas) de exclusão social. Paulo Endo escreve:

 

Isto tudo está a favor, é claro, de um processo de exclusão em que o próprio sujeito se exclui a fim de evitar o conflito inevitável que a sua própria inclusão viria a gerar. Assim, é bom lembrar, a inclusão impõe uma série imensa de conflitos que o velho terá que enfrentar se quiser se habilitar ou se colocar como sujeito. Isso é agravado na medida em que, subjetivamente, o velho tem que dar conta dessa opção de ter de ser incluído, ou então ele abdica desse lugar. Necessariamente, esse lugar é de confronto, porque é um lugar hostil, porque é um lugar onde ele não é só desabilitado, ele é desabilitado e hostilizado. Então a reação dele teria que ser uma reação, no mínimo, também agressiva, ele teria que entrar nessa arena. Daí, penso a necessidade de instituições inclusivas, capazes de instrumentalizar os cidadãos para essa luta, e onde o Estado ocupa um papel essencial (Endo, 2002, p. 61).

 

Portanto, ante a perda das funções produtivas e reprodutivas na contemporaneidade, não há uma substituição por algo que seja investido simbolicamente pela cultura. “Capacidades produtivas” é um conceito que depende da ideologia social dominante, em que produção se refere só a produção de bens de consumo, a informação ou a serviços de apoio; outros tipos de produções, como as culturais, artísticas, intelectuais, de lazer ou de cuidados (de netos ou de doentes, por exemplo), não são investidas e nem valorizadas quando realizadas por um idoso. Se na cultura contemporânea não há mais lugar para o papel de transmissor da tradição e dos valores ancestrais, tampouco há lugar para o velho que quer permanecer ativo. Ainda não se criou um lugar onde exista uma real necessidade para essa atividade.

Sobre este particular, Paulo Endo diz que as representações centrípetas, quer dizer, aquelas que vêm do ambiente em relação ao velho “têm uma intenção, no nosso país, de desabilitar o velho como sujeito. Segundo estas categorias, o velho ou é um empecilho, ou é um problema, ou é um favorecido, goza de favorecimento e não de direitos” (Endo, 2002, p. 60).

Além de uma posição social negativa, há o sentimento de finitude. A proximidade da morte que, nestas circunstâncias, não pode ser elaborada, é sentida como um limite intransponível e fica no registro do destino iniludível da degeneração e da decrepitude. Os efeitos negativos desta experiência na economia libidinal se fazem evidentes nos discursos infantilizados, depressivos ou rígidos dos idosos.

A partir desta premissa, pode-se pensar em uma psicopatologia do envelhecimento, fundada no não-lugar social da inatividade forçada, na impossibilidade de uma temporalização do sujeito psíquico, no fracasso antecipado de qualquer projeto de futuro e no confronto com a morte inevitável que sempre chega antes do esperado.

Birman (1995) fala de três formas paradigmáticas de ordenação psíquica do idoso, que não se referem a quadros clínicos, mas a estilos psíquicos que marcam as diferentes maneiras de enfrentamento desta situação.

A forma depressiva acontece quando, sem poder retificar seu passado e nem projetar seu futuro, o sujeito se fecha a qualquer forma de presente possível e se articula só em virtude das perdas; na forma paranóide, eclode o ressentimento contra todos aqueles que supõe responsáveis pelo que lhe falta; por último, na mania, nega-se o presente da proximidade com a morte, assumem-se como próprios os ideais da juventude e nega-se a passagem do tempo, o que pode chegar a constituir verdadeiras construções caricatas de velhos usando modas e atitudes de adolescentes.

A estas três formas propostas por Birman, propomos acrescentar uma forma demencial, que, mais do que uma forma autônoma, seria um derivado da depressão. Uma forma de articulação pela qual foge-se da depressão, recusa-se o passado através do esquecimento de tudo o que for ligado à dor insuportável da perda. Nestes casos a depressão seria tão insuportável e o vazio tão infinito que não aceitaria nenhum recurso elaborativo.

Simone de Beauvoir, ao se indagar já em 1970 sobre as diversas patologias neuropsiquiátricas observáveis na velhice, escrevia:

 

Pensa-se hoje que a maioria desses problemas poderia ser evitada se a condição social dos velhos fosse menos catastrófica. E Bastide [Sociologie des maladies mentales] escreve: Pode-se perguntar se a senilidade é uma conseqüência da senescência , se ela não seria antes um produto artificial da sociedade que rejeita os velhos. Ele cita o Dr. Repond: ‘Estamos mesmo autorizados a indagar se o velho conceito de demência senil, pretenso resultado de perturbações cerebrais, não deve ser completamente revisto – e se essas pseudodemências[6] não são o resultado de fatores psico-sociológicos, agravados rapidamente por colocações em instituições inadequadamente equipadas e dirigidas, como também em hospitais psiquiátricos onde esses doentes ficam entregues a eles mesmo, privados dos estímulos psicológicos necessários, frustrados em qualquer interesse vital, e não tendo outra coisa a esperar senão um fim cuja rapidez todos concordam em desejar. Chegamos mesmo a pretender que o quadro clínico das demências é talvez um artefato, devido, na maior parte dos casos, à carência de cuidados e esforços de prevenção e reabilitação’ (Beauvoir, 1990, p. 617).

 

A falta de habitabilidade do mundo, a falência do reconhecimento social, a atomização da família provocam um sofrimento excessivo que subsume o eu numa situação de desamparo, na medida em que remetem a uma situação infantil de recusa de autonomia, deixando-o preso a uma situação da qual parece não haver saída senão através de um retorno a uma situação de abandono e dependência.

Se a morte é inevitável e sua proximidade angustiante, o nível de sofrimento que isso provoca é também responsabilidade social. Quando se privilegia a idéia de juventude e se expulsa o tema da morte para um lugar cada vez mais marginal ou banal, as pessoas mais idosas são empurradas a abandonar o que parece ser uma lucidez insuportável, são obrigados a reduzir ao mínimo, e até a anular drasticamente, todas as ligações com um meio especialmente hostil, são compelidas a não querer saber mais de um mundo do qual já não podem participar, no qual já não têm mais lugar. Uma antecipação da morte para conservar a vida à qual é impossível renunciar totalmente. Cabe aqui lembrar que a possibilidade de alguém cometer suicídio aumenta com a idade e que as pessoas afetadas por um estado demencial avançado não se suicidam.

Achamos incorreto atribuir os processos demenciais unicamente a fatores psicossociais – seria cometer o mesmo erro dos que acreditam na monocausalidade neurológica – mas não por isso deve-se negar a importância fundamental que estes têm na eclosão de uma demência, pois como bem diz Freud: “No cultivo da ciência há um expediente que oferece uma solução muito rápida: escolhe-se uma parte da verdade que é colocado no lugar do todo e, em prol dela, nega-se todo o resto que não é menos verdadeiro” (Freud, 1916, p. 315). Freud utiliza esta frase, justamente na Conferência 22, onde define as séries complementares retomando o conceito de “equação etiológica” já esboçada em carta a Fliess do 8 de fevereiro de 1893 (Manuscrito B) e desenvolvido ulteriormente em “A Herança e a Etiologia das Neuroses” de 1896.

Esta expressão é utilizada para compreender esta multiplicidade de fatores desencadeantes e superar a alternativa que obrigaria a escolher entre fatores exógenos ou endógenos. Estes fatores, longe de se opor, são complementares, quer dizer, aparecem de tal modo que enquanto um aumenta o outro diminui, variam de modo inverso. Ou seja, só no extremo da série não se encontraria mais que um fator provocador da neurose.

Na conferência 22, “Algumas perspectivas sobre o desenvolvimento e a regressão”, Freud estabelece a fixação libidinal como fator interno e a frustração como externo:

 

O conflito é engendrado pela frustração; ela faz que a libido perca sua satisfação e se veja obrigada a procurar outros objetos e caminhos. O conflito tem por condição que estes outros caminhos e objetos provoquem uma contrariedade em uma parta da personalidade, de modo que se produz um veto que, em princípio, impossibilita a nova forma de satisfação. De aqui parte o caminho para a formação do sintoma pelo qual depois nos internaremos. Mas, as aspirações libidinais rechaçadas, logram se impor com alguns rodeios que as obriga a sortear o veto através de certas desfigurações. Os rodeios são os caminhos da formação de sintomas. Os sintomas são a satisfação nova ou substitutiva que se fez necessária pela frustração. (Freud, 1916-17, p 318)

Mas para que um conflito se transforme em patogênico e siga este caminho é necessário que à frustração exterior que elimina uma possibilidade de satisfação, se acrescente a frustração interior que aborta o caminho da substituição.

Já na conferência 23, Freud divide o fator endógeno da fixação em dois componentes: a disposição constitucional, herdada das vivências deixadas pelos antepassados e as vivências sexuais da infância.

Assim, a disposição constitucional, as vivências dos cinco primeiros anos de vida e os acontecimentos atuais constituem os três pilares básicos para o entendimento dos “caminhos da formação de sintomas” (Freud, 1916-17, p. 330).

A partir deste entendimento, não será difícil compreender que a angústia que a proximidade da morte provoca é um fenômeno vivido de forma singular, por cada sujeito em particular, e que a reação ante esta angústia dependerá da forma pela qual cada um maneje a frustração ante a perspectiva de perda da própria vida, assim como o que cada pessoa fizer com isso vai depender, e muito, das condições sociais de sua existência.

De parte dessa multiplicidade de fatores tentaremos dar conta ao longo deste trabalho, mas antes, para nos localizarmos historicamente, faremos uma introdução à questão das demências.

 

[1] A polêmica sobre a existência de uma pós-modernidade diferente da modernidade, ou como uma nova fase ou novo projeto desta, não é objeto deste estudo; então, chamaremos pós-modernidade ao período que se inicia entre as duas grandes guerras, se afiança nos anos 70 com o desmoronamento dos regimes socialistas, caracterizando-se pela queda do paradigma científico e da noção de progresso como salvação da humanidade e pela falta de um outro paradigma dominante como âncora da subjetividade humana (Rojas y Sternbach, 1997).

[2] Voltaremos ao tema da psicopatologia no cap. V

[3] Foi procurado o verbete hilflosigkeit no Vocabulário de Psicanálise de Laplanche e Pontalis, no Dicionário Comentado de Luis Hans, no Dicionário de Psicanálise de Chemama, no Enciclopédico de Psicanálise de Kaufmann e no de Roudinesco e Plon. Só há registro no primeiro citado.

[4] Este aspecto já tinha sido levantado por Freud em “ A Etiologia da Histeria” de 1896. Voltaremos ao tema no capítulo IV quando estudaremos a construção do Eu e abordaremos as idéias de Piera Aulagnier.

[5] Optaremos pelo uso do termo “repressão” pois: “em português,‘recalque’, significa simplesmente o ato de calcar de novo, de pisar aos pés, enquanto ‘repressão’, segundo a lição de Aurélio Buarque de Holanda; tem um ágama de significações muito mais afim ao conteúdo de violência que, em nosso entender, é a conotação essencial do conceito freudiano. Conseqüentemente, traduzimos Unterdruckung por ‘supressão’, atentando para a etimologia do vocábulo. Os dois conceitos jamais se confundem sob a pena de Freud: ‘repressão’ alude a exclusão para o inconsciente, enquanto ‘supressão’ indica o ato de manter algo no pré-consciente” (Mezan, 1991, p. XVII). E “havendo argumentos a favor dos dois termos, deve-se chegar a um acordo[…] se atualmente o mais difundido é repressão, e se não parece haver fortes argumentos contra seu uso, ele talvez seja o mais indicado – como,afinal, queria o velho Freud” ( Souza, 1999, p. 116)

[6] Voltaremos a nos referir às pseudodemências no capítulo II, ao falar do diagnóstico.

CAPÍTULO   II

De-Mentis

 E depois das memórias vem o tempo

trazer novo sortimento de memórias,

até que, fatigado, te recuses

e não saibas se a vida é ou foi.

 

Carlos Drummond de Andrade

“Versos à boca da noite” (fragmento)

 

  1. Antecedentes históricos

 

O termo demência deriva do latim de-mentis – perder a mente – e, ao longo da história da medicina, foi usado de diversas maneiras, sempre em relação à perda da razão e da memória. É interessante notar que, na língua italiana, esta raiz latina dá origem ao verbo dimenticare que justamente se traduz como esquecer.

Já na mitologia grega, encontramos o mito de Lethe, segundo o qual, no inferno existem duas fontes próximas: Mnemosyne, a fonte da memória, e Lethe, a fonte do esquecimento (Chevance 2003). É desta fonte que os mortos vão beber para esquecer da vida terrestre ou seja, sua história de vida, quanto às almas que retornam ao mundo dos vivos, Lethe tem também a capacidade de fazê-las esquecer do mundo subterrâneo dos mortos. Em qualquer uma das duas funções, Lethe está promovendo o esquecimento necessário para evitar o sofrimento excessivo.

Garcia-Roza (1995) estudando um poema de Parmênides, do século V antes de Cristo, escreve que na Grécia arcaica:

 

A palavra, juntamente com as condições de sua enunciação, não valia apenas pelo seu sentido manifesto, mas como signo a ser decifrado para que um outro sentido, oculto e misterioso, pudesse emergir, num interminável de decifrações. Essa era a palavra do aedo, poeta profeta da Grécia arcaica, palavra portadora de Aletheia, da verdade. (p. 7)

 

Esta verdade é um desvelamento, não é a verdade entendida como a coincidência entre o pensamento e a coisa, “mas o caminho pelo qual ser e pensar podem dar-se” (idem p. 12) . Não é da ordem da evidência, mas de uma presença que se vela, que se oculta. Aletheia, o desvelado, é um termo privativo indicativo desse jogo do mostrar-se e do ocultar-se: a-letheia , sem Lethe, o desvelado e o velado.

Segundo outra versão do mesmo mito (GarciaRoza p. 27), a função da memória era um dom divino conferido ao poeta por Mnemosyne e seu objetivo era possibilitar o acesso ao outro mundo e o retorno ao mundo dos vivos. Nesta versão, é a mesma Mnemosyne que provoca tanto a memória quanto o esquecimento (Lethe). A rememoração que o poeta faz do passado tem como contrapartida o esquecimento do presente. Acedendo ao tempo dos deuses, se afasta do tempo da humanidade marcado pelo cansaço, a angústia, e as misérias humanas.

Mas Lethe, fonte do esquecimento, é filha de Eris -a discórdia– e irmã da morte e do sonho, o que nos leva a pensar não ser casual que, freqüentemente, as famílias assinalem como o começo do processo demencial um problema familiar, um desentendimento, uma discórdia.

Já para Sólon (500 a.C.) e Platão (350 a.C.), a demência senil era motivo suficiente para invalidar um testamento e, no século II de nossa era, Galeno a inclui pela primeira vez entre as doenças mentais.

Há 300 anos, ainda se definia como demente todo sujeito que mostrasse algum nível de perda da razão, qualquer tipo de loucura, produção delirante ou comportamento insensato (Thomas, Pesce e Cassuto, 1990). No Aurélio, a demência é definida como “deterioração progressiva e irreversível das funções intelectuais, resultantes de lesões cerebrais” e, na sua acepção popular, o termo é usado como “loucura, doidice, parvoíce e procedimento insensato”.

As primeiras descrições de estados demenciais próximas ao conhecimento com que contamos na atualidade datam de 1787. Nesse ano, Cullen diferencia as formas de demência inatas, acidentais e senis. Em 1816, Esquirol diferencia a demência da deficiência mental congênita dizendo: “o demente é um rico que virou pobre, enquanto o idiota foi sempre pobre” (idem, p. 5). Em 1838, fala mais especificamente da demência senil.

A partir de 1820, encontramos uma produção científica prolífica: Georget descreve casos de confusão mental transitória, Bayle, de paralisia geral, Klippel e Binswanger de degenerações cerebrais arterioescleróticas e Klippel e L’Hermitte são os primeiros a separar as demências com lesões vasculares das demências senis puras. Entre 1896 e 1915, Arnold Pick descreve seis casos de uma atrofia cerebral chamada posteriormente de demência de Pick. Finalmente, em 1907, Alois Alzheimer, psiquiatra e anatomopatólogo alemão, publica o caso de uma mulher de 51 anos, falecida após cinco anos de evolução de um quadro de demência com alucinação, que lhe permitiu o primeiro exame histológico, no qual identificou conglomerados neuronais, fibras anômalas e placas senis. Essa degeneração neurofibrilar passou a ser tomada como a característica patológica da doença que, desde então, leva seu nome e foi considerada uma demência pré-senil por causa de seu aparecimento prematuro[1].

Kraepelin, em 1910, inclui essa denominação em seu “Tratado de Psiquiatria”, inicialmente publicado com o nome de “Compêndio” em 1883. A classificação das formas de loucura que ele propunha variou de uma edição a outra, mas podemos encontrar uma versão completa na edição italiana de 1999, publicada pela editora Masson sob o nome de “Trattato Italiano de Psichiatria”[2].

Nesta exaustiva classificação de cunho organicista, Kraepelin inclui as demências senis no item Loucuras da Idade Involutiva, junto com as melancolias e o delírio pré-senil de dano. Esta classificação é um resgate da psiquiatria clássica, que aceitava as alterações comportamentais e psíquicas como meras manifestações de desordens biológicas e desarranjos humorais e privilegiava a descrição sintomática deixando de lado os critérios etiológicos que tinham dominado a primeira metade do séc. XIX. A vantagem deste tipo de classificação é que, segundo ela, a doença mental pode ter causas endógenas ou exógenas, mas, estas últimas só produzem uma patologia quando atuam sobre uma predisposição orgânica.

Vemos então que, nesta época, já se acreditava que as demências senis eram, em sua totalidade, produto do desgaste “natural” do cérebro e de problemas vasculares; eram “coisas de idade” e, como tais, inevitáveis. Mas, na mesma época (1911), Emmanuel Régis (1855–1918),[3] médico francês assíduo leitor de Freud, faz uma valiosa diferenciação que até hoje conserva sua vigência:

 

As doenças psíquicas de involução ou decadência se caracterizam pela dissolução do ser psíquico; não se trata, como na degeneração, de um vício de organização, de uma debilidade congênita; é uma desorganização, uma debilidade adquirida das faculdades. Atualmente, esta diferenciação dos estados de deformação, de opressão, de ruína intelectual, é perfeitamente clara; não acontecia assim em outro tempos, até que, graças a Esquirol, foi colocado, embora não completamente. A decadência psíquica está representada clinicamente por uma forma morbosa: a demência. (Revista Vertex, nº 44, p. 149; grifo meu)

 

Régis descreve também um quadro de pré-decadência cerebral caracterizado por enfraquecimento da possibilidade de transformar as sensações em idéias, diminuição da capacidade criativa, estreitamento do campo cerebral e preponderância da reminiscência e do automatismo; sintomas aos quais se sucederiam os próprios da fase essencial de demência. Régis denomina-a essencial e não inicial, dando a entender que a pré-decadência cerebral não seria específica da demência e poderia evoluir para outro tipo de quadro, por exemplo, para uma depressão profunda. Assim, o essencial ou específico da demência seria a perda do funcionamento psíquico normal. Para descrever essa fase de pré-decadência ou involução psíquica, Régis reproduz uma passagem de “Reveries d’um promeneur solitaire”, de Jean Jaques Rousseau que, pouco antes de morrer em 1778 e depois de sofrer uma “congestão cerebral”, descreve genialmente seu estado:

 

Senti que tinha demorado tempo demais em executar este projeto. Minha imaginação, menos viva, não se excitava já, como em outros tempos, pela contemplação do objeto que a animava; embriagava-me menos com o delírio do sonho; havia mais de reminiscência que de criação naquilo que produzia; um desfalecimento morno enervava todas minhas faculdades; o espírito da vida ia se acabando lentamente, por graus.

Não posso, como de outras vezes, me arrojar com a cabeça baixa neste vasto oceano da natureza, porque minhas faculdades, debilitadas, não encontram objetos bastante determinados, bastantes fixos, bastante ao alcance de minhas mãos, para aderir-me fortemente, e não me sinto suficientemente vigoroso para nadar no caos de meus antigos êxtases. Minhas idéias não são mais que sensações; a esfera de meu entendimento não abrange mais que os objetos mais imediatos. Minha alma, morta a todos os grandes movimentos, não pode se afetar mais que pelos objetos sensíveis; não tenho senão sensações, e só por elas posso, aqui embaixo, alcançar a dor ou o prazer.

Reduzido a mim mesmo, me alimento, é verdade, de minha própria substância, que não se esgota; me basto a mim mesmo, embora rumine no vazio, e minha imaginação pobre, e minhas idéias apagadas não proporcionam alimento a meu coração. Minha alma, ofuscada, obstruída pelos meus órgãos, enfraquece dia a dia e não tem mais vigor para lançar-se, como antigamente, para além de seu velho invólucro (Revista Vertex nº 44, p. 150; grifo meu).

 

Rousseau tinha 66 anos e, sem dúvida, estava deprimido.

A fase essencial se caracteriza por falta de precisão e lucidez das idéias e do juízo, lacunas de memória e fadiga. A amnésia afeta em primeiro lugar as lembranças mais recentes e depois, progressivamente, as mais antigas, menos aderidas. Esquece-se o nome das coisas e a linha discursiva, ficando-se entretido nos detalhes e se esquecendo do resto da história que se queria contar.

Observa-se uma clara diminuição da associação de idéias, da atenção e da vontade. Há uma retração sobre si próprio e um abalo significativo das atividades intelectuais em geral. É também característica dessa fase uma emotividade exagerada em relação a fatos sem importância, que convive com uma acentuada indiferença perante episódios mais significativos. Simultaneamente, começa-se a perder as atitudes mais educadas, os bons costumes, e se assiste ao congelamento da afetividade. Régis nos lembra também que a atividade psíquica normal requer boa memória, representações numerosas e rápida associação de idéias, características ausentes no começo da doença demencial.

Em relação a esse aspecto, cabe notar que o autor coloca como ponto de partida um “abandono da vida psíquica normal”, do qual seria conseqüência a falta de memória, e não o inverso, como é tão comum encontrar na literatura específica. E acrescenta: “A estes sintomas psíquicos unem-se, ordinariamente, signos somáticos” (idem, p. 150). Seriam eles a fadiga, vertigens, ruídos nos ouvidos, cefaléias, transtornos do sono, locomoção a passos curtos etc. Novamente, o autor coloca a sintomatologia psíquica como fundamental. Haveria, assim, uma somatória de déficit em relação às funções psíquicas, que não seriam todas atacadas da mesma maneira e com igual intensidade. Tratar-se-ia de um processo seletivo.

Em seguida, descreve o que chama de Período de Estado, no qual a amnésia se estende aos fatos recentes e a todo o saber adquirido, não se respeitando mais que as aquisições da primeira infância. Nessa fase também se apresentam certas incoerências: o demenciado, apesar de ter esquecido tudo, é capaz de atividades como ler um jornal, jogar cartas ou xadrez, momentos em que a memória das palavras parece conservada. E Régis ainda agrega: “A diminuição intelectual pode ser mais aparente que real” (idem).

Finalmente, Régis descreve a fase terminal como a absoluta perda de toda inteligência e a deterioração orgânica total com as seguintes palavras:

 

Desde o ponto de vista intelectual e moral, o demente encontra-se neste momento nas mesmas condições que o idiota: não existe nada do que foi noutro tempo. Emagrece, apresenta total incontinência esfinteriana, e reduzido a um estado mais ou menos completo de decrepitude, acaba morrendo em conseqüência de transtornos tróficos ou dos progressos da caquexia (idem).

 

 

  1. Demência: diagnóstico[4] ou condenação?

 

A clínica psicanalítica com idosos (assim como a médica) é testemunha de dois grandes motivos de consulta, tanto na área hospitalar quanto na particular: depressão e problemas de memória. Sabemos que alguns desses quadros podem evoluir para uma demência e, embora na consulta todos falem desse temor, a palavra demência raramente é pronunciada. Também sabemos que não é necessário estar dentro de um consultório para ouvir sobre esse medo. É só prestar atenção nos idosos, e mesmo em pessoas mais jovens, para descobrirmos variados neologismos e até gestos que nos falam sobre essa ameaça. Também é muito comum, nos dias de hoje, que os idosos manifestem seu medo de ter um Alzheimer – termo que vem substituir outro já em franca decadência – a esclerose – com o que definem qualquer forma possível de demência.

Do ponto de vista da medicina atual, o termo demência não se refere a uma, mas a várias doenças de origem e evolução diferentes, porém de prognósticos semelhantes, a maioria das vezes progressivas e irreversíveis. Nesse sentido, a demência pode ser considerada mais como um conjunto de sintomas que acompanham várias doenças. Teremos, então, quadros demenciais originados por diferentes doenças: Aids, AVC, traumatismo craniano, Parkinson, processo expansivo (tumor), Doença de Pick, Huntington ou Alzheimer.

Como vemos, é um quadro que, dependendo da origem, pode atingir o sujeito em qualquer idade, embora, na maioria dos casos atribuídos a uma degenerescência neuronal, se apresente em idades avançadas.

Cabe reafirmar que a demência não é considerada parte do envelhecimento dito normal, e sim um quadro patológico grave, freqüente na velhice, mas que é contingente e não necessário. Isso é importante salientar, pois, se uma pessoa de 35 ou 40 anos mostrar um quadro confusional, esquecer demais das coisas e, por causa disso, mostrar-se irritada ou deprimida, logo será tratada, uma vez que se reconhecerá nessa conduta algo de anormal. Mas, se isso acontecer aos 70 ou 75 anos, muitos ainda dirão que são coisas da idade.

A característica fundamental desses processos e doenças é o marcado déficit de memória, que terá como conseqüência perturbações das aptidões cognitivas, pensamento, fala e coordenação motora. Tais perturbações são suficientemente severas para interferir na vida familiar, social e de trabalho da pessoa que delas padece.

Seu aparecimento pode ser gradual – nos casos de dano cerebral progressivo – ou abrupto, se for o caso de uma interação medicamentosa, só para citar dois exemplos. O tempo de evolução até a fase terminal varia segundo os diferentes tipos, sendo a Doença de Alzheimer a de progressão mais lenta. Na atualidade já se conhecem casos de mais de 20 anos de evolução.

Quanto à causalidade, são inúmeras as hipóteses que se manejam; o único consenso é o que assinala sua idade-dependência. Isso quer dizer que, quanto mais tempo vive, maior a probabilidade de o sujeito ser afetado por algum tipo de demência (ou de câncer, ou de problemas vasculares ou de qualquer outra coisa). De qualquer maneira, e já que retomaremos esses temas mais tarde, no momento nos limitaremos a dizer que, em relação às demências atribuídas a um dano cerebral progressivo (especialmente do córtex cerebral), as etiologias ainda não foram esclarecidas, embora profundamente estudadas. Pensa-se em causas variadas que vão desde fatores tóxicos até causas genéticas, mas até o presente só há muitas hipóteses e nenhum tratamento que vise à cura. A única novidade dos últimos anos consiste em novos medicamentos que, em alguns casos, podem retardar a progressão do processo.

A divisão clássica se faz entre demências irreversíveis e reversíveis, contando-se entre as primeiras o Alzheimer, Pick, demência por multi-infartos, doença de Creutzfeld-Jacob. Entre as reversíveis encontram-se, principalmente, os quadros agudos por interação medicamentosa, quadros de origem psicológica que eclodem depois de um processo depressivo e as produzidas pela presença de tumores cerebrais passiveis de remoção cirúrgica. Hoje é consenso, especialmente entre os geriatras, que uma depressão severa ou não tratada pode conduzir a uma demência que, a partir de um certo ponto, também será irreversível.

Na “Enciclopédia Médico-Cirúrgica”, Brion (1978) define as demências como “uma deterioração global, progressiva e irreversível das funções intelectuais; por definição, trata-se de um fenômeno crônico e incurável”. Embora na versão de 1988 da mesma enciclopédia, tenha-se eliminado o termo “por definição”, o estigma de irreversibilidade continuou presente.

Assim, o diagnóstico de demência transforma-se numa condenação à exclusão. Em princípio, deveríamos pensar que nenhuma doença é incurável, menos ainda “por definição”, já que o que a faz incurável é o fato de ainda não se ter descoberto a cura. Por outro lado, os inúmeros pesquisadores que dedicam sua vida à pesquisa nesta área o fazem a partir do ponto de vista de uma causalidade neurológica. E dado que esta é a hipótese que comanda a direção da pesquisa, os resultados válidos serão apenas aqueles que corroborem ou neguem as hipóteses iniciais, sem produzir uma ampliação do campo de observação que leve à construção de outras hipóteses que excedam o campo da neurologia.

Atualmente, as possibilidades de se fazer um diagnóstico apurado têm crescido consideravelmente graças ao progresso dos diagnósticos por imagem. Isto permite que, do ponto de vista médico, seja possível diferenciar uma demência verdadeira, de causas neurológicas, de uma pseudodemência[5], de causas psicológicas por exemplo. Ora, não deixa de ser instigante o fato de que ante a probabilidade de uma origem psicológica algo seja qualificado como pseudo , com toda a carga de preconceito que isso acarreta

Freqüentemente os familiares se sentem enganados e manipulados pelo paciente quando recebem este tipo de diagnóstico: “o médico diz que ele não tem nada, os exames não demonstram nada, é pura manha de velho” eles dizem, porém, nestes casos, esse “não ter nada” refere-se ao fato de não ter nada detectável – através da tecnologia atual – no organismo, no corpo biológico. Mas a pessoa que se deprime e se demencia tem muito, até um excesso, de sofrimento, de angústia, de perda.. Os melhores métodos diagnósticos, não dão conta dos pensamentos, dos afetos, das emoções, dos conteúdos das lembranças, dos lutos impossíveis e, fundamentalmente, da especial significação dos esquecimentos. Só podem detectar perturbações morfológicas e funcionais no substrato material destas funções psíquicas tão imateriais. Além do mais, a maioria dos diagnósticos ainda são feitos por exclusão de outras patologias.

Sem dúvida, muito se tem avançado nos estudos sobre os estados demenciais, mas as contradições continuam, pois nem sempre a imagem de um cérebro profundamente lesionado corresponde a uma conduta geral e uma memória seriamente deficitária. Em alguns casos, a imagem considerada normal não acompanha uma conduta profundamente afetada, e o contrário também é possível. Com as necropsias, a situação é igual. Então, a pergunta continua sendo a mesma: por quê?

Ainda no caso de uma demência específica como a doença de Alzheimer que comprovadamente apresenta importante perda neuronal, degeneração neurofibrilar (DNF) e placas senis, podemos nos perguntar se estas lesões são causas ou conseqüência da doença. Este aspecto não foi ainda esclarecido pela ciência.

Yvon Lamour (1990), pesquisador dedicado ao estudo dos mecanismos biológicos do envelhecimento, usa a metáfora do computador para exemplificar esta questão e apoiar a idéia de uma pesquisa multidisciplinar. O hardware representa os neurônios, as fibras nervosas, etc, enquanto o software representa os processos que acontecem dentro da máquina. E, embora fique claro que o software não funcione sem o hardware, o mais profundo conhecimento deste não explica as características, as propriedades nem os efeitos que a utilização de determinado software provoca. O conhecimento do hardware seria, para este autor, o domínio da neurologia, e o do software corresponderia à psicologia cognitiva e à psicanálise. E não se pode entender o funcionamento de todo o sistema desconsiderando um dos elementos.

Assim, abrindo o campo de pesquisa, pode-se formular uma causalidade multifatorial para as demências, um novo entendimento sobre a dinâmica de fatores externos e internos, de maneira a constituir uma hipótese psicogénica – na qual o desejo de esquecimento seja tão forte que possa provocar uma perda neuronal– que co-exista com as hipóteses genéticas, tóxicas, e tantas outras que possam surgir, sem que necessariamente, se excluam umas às outras.

 

  1. Aspetos descritivos e diferenciais

 

As pessoas demenciadas tem dificuldades para registrar os fenômenos atuais, enquanto os fatos do passado surgem vivamente em sua memória. Este passado pode até ressurgir na memória com uma força surpreendente e, embora seja este um fenômeno freqüente no processo de envelhecimento, observa-se que essas recordações aparecem mais claras e detalhadas do que antes de começarem os esquecimentos correspondentes ao presente, além de se apresentarem muito mais freqüentemente que antes.

Uma paciente relatava assim sua experiência: “Sei que estou com problemas de memória, me esqueço das coisas de todos os dias, se coloquei sal na comida, ou se fechei o gás, essas coisas, mas o mais estranho é que sinto que tenho uma grande memória, maior do que nunca, lembro tudo da minha vida, os detalhes de quando era pequena, da casa onde morava, de meus pais, da comida de minha mãe, até do cheiro eu lembro. Me lembro do cavalo de meu primo, das coisas que cultivávamos, dos vizinhos, da escola, tudo tudo, o tempo inteiro”. Mas os esquecimentos do presente provocam conflitos, impedem a operatividade no cotidiano, causam brigas, geram culpas.

Outra senhora dizia: “É terrível, não sei que acontece, eu sempre fui muito eficiente, minha família nem precisava me pedir nada, eu já sabia o que cada um queria, ia e fazia….. agora, até quando me pedem eu esqueço….. eles ficam bravos… eu sei que eles sofrem por minha causa…… eu sei que devo me esforçar mais….. eu tento mas……” e a família reforça: “Ela deveria prestar mais atenção, não se esforça”

Após um certo tempo o passado será também esquecido como relato organizado historicamente e passível de ser relatado, conservando-se só a memória de alguns fatos, como ilhas de saberes, sem conexão aparente entre si.

Ao mesmo tempo, esquecem-se as palavras que permitiriam nomear os objetos, ainda os mais conhecidos e necessários, e as perífrases[6] tentam explicar as funções dos objetos que se deseja designar. Aos poucos, as pessoas, das mais distantes às mais próximas, deixam de ser reconhecidas, e a desorientação temporo-espacial se instala. Começa então uma errância incontinente, como uma estéril procura do espaço e do tempo perdidos. Chegados neste ponto, não haverá mais manifestação de um pensamento coerente e todos os atos mais elementares da vida se tornam impossíveis, comprometendo de forma mais o menos total a autonomia no caminho da deterioração total do sujeito.

O corpo de um idoso demenciado (considerando fases avançadas da doença), apesar de poder conservar uma boa saúde clínica, não parece estar atravessado por nenhum registro simbólico: baba, defeca, urina, mexe com as fezes, se despe, se masturba, tudo sem o menor constrangimento, sem a alegria que os bebês demonstram em atividades semelhantes, sem nojo. Só ante a atitude repressora dos outros pode manifestar um certo pudor ou uma culpa por ter feito algo de errado, mas que não implica um aprendizado. Percebemos apenas o incômodo da sujeira e o prazer da higiene. É um corpo recorte de zonas erógenas, pura fragmentação. Incapazes dos menores cuidados com a própria higiene e com perda total do controle esfincteriano, os idosos demenciados acabam falecendo, freqüentemente, por causa de uma infecção intercorrente.

A queixa sobre uma diminuição da memória não é exclusiva das pessoas idosas, mas, sem dúvida, aumenta consideravelmente com a idade e adquire uma importância fundamental pois, em alguns casos, pode revelar a presença de um processo demencial em fase inicial.

Os pesquisadores coincidem em que uma das maiores dificuldades para o diagnóstico consiste em diferenciar o que é uma queixa que corresponde a um Declínio cognitivo leve relacionado com a idade (DSM IV, 2000), e o que pode ser considerado como um começo de processo demencial. Mas eles também oferecem algumas pistas. Vejamos.

Alguns estudos (Derouesné 2003) mostram um incremento das queixas de memória quando coexistem com uma apreciação negativa de saúde em geral. Queixas que se acentuam após o aparecimento de dificuldades visuais, auditivas, de locomoção ou de quadros que derivam em limitações alimentares por exemplo, como são a hipertensão ou a diabetes. Da mesma maneira, aumentam também relacionadas com fatores emocionais como lutos, ansiedade, perda de bem-estar geral, e perda de suportes sociais.

As atitudes dos pacientes em relação a suas perturbações de memória são das mais variadas, podem tanto reconhecê-las ou não, como aumentá-las ou subestimá-las. Os mesmos estudos citados mostram que pacientes afetados por um processo demencial, percebem menos suas dificuldades que – cabe destacar como dado de importância – são geralmente assinaladas pela família. E, à medida que o déficit aumenta, sua ignorância em relação ao mesmo se faz mais notória.

Na perda benigna, a dificuldade recai especialmente sobre os conteúdos de difícil registro como nomes próprios ou datas. Acontecimentos passados também são esquecidos, o conteúdo inacessível em um momento pode ressurgir espontaneamente minutos mais tarde. A pessoa é consciente de suas dificuldades, pelas quais por vontade própria, consulta um especialista, e, embora as mesmas afetam o comportamento cotidiano, provocam preocupação e ansiedade, não sendo tão notória a depressão como nos casos de demência.

O fato da existência de um declínio leve relacionado com a idade é contestado por alguns pesquisadores (Derouesné 2003) que não encontram no fator idade uma variável suficientemente forte. Para estes, o declínio da capacidade de memória é colocado como um sintoma multifatorial . Trata-se de um quadro no qual se inscrevem fatores orgânicos como o envelhecimento do cérebro e outros órgãos, problemas vasculares, déficits endócrinos etc; fatores psicológicos ligados à idade como mudança de imagem corporal, da sexualidade, da identidade e fatores sociais que provoquem solidão, isolamento ou violência. Nesta perspectiva, alguns sujeitos simplesmente se adaptariam a estas modificações e encontrariam estratégias de compensação e outros não.

Para outros pesquisadores como Dartigues (1997) o declínio leve da memória, só é significativo para um diagnóstico de demência quando acompanhado por baixos resultados nos testes específicos. Freqüentemente, pacientes que apresentam queixa sobre perturbações de memória, obtêm muito bom resultado nos testes e escalas de avaliação, o que leva a descartar o diagnóstico de demência em favor de algum outro, especialmente depressão.[7] Se existe um denominador comum para esta multiplicidade de fatores, pode ser encontrado em uma diminuição da auto-estima desencadeada pela perda da confiança no poder da própria memória. Isto poderia provocar uma atitude negativa que levasse a evitar tudo o que pudesse desencadear o trabalho da memória, desde as coisas mais simples do cotidiano, até as reminiscências mais elaboradas.

Na experiência clínica é bastante difícil realizar com sucesso o diagnóstico diferencial entre transtorno moderado da memória por causa da idade e início de quadro demencial, até porque não existe um consenso sobre sua validez. Por outro lado, sempre que existe uma queixa sobre transtornos de memória, esta deverá ser ouvida em seu profundo sentido subjetivo. Não deverá ser ouvida como coisas de velho e sim em sua profunda significação como discurso sobre o esquecimento.

Devemos acrescentar que, no geral, fora o sintoma de perda de memória, e a conseqüente perda da razão, os pacientes têm boa saúde. Assim nos encontramos ante o paradoxo que representa a existência de um ser humano com excelente saúde física, e sem nenhuma inteligência para resolver até as mais pequenas coisas da vida cotidiana.

Perturbações da linguagem também são freqüentemente descritas como centrais no diagnóstico de demência, mas sempre associadas às de memória (Irigaray, 1973). A primeira e mais evidente das características enunciadas é a que se refere à pobreza do discurso, em segundo lugar vem a incoerência dos enunciados e, por último, fenômenos de preservação que entranham um estereótipo do discurso falado e escrito. Tudo isto, com a perfeita preservação dos meios mecânicos necessários para a comunicação verbal.

Há uma pesquisa muito interessante realizada por cientistas da Universidade de Kentucky com um grupo de 678 freiras que relaciona a questão da linguagem com a incidência da Doença de Alzheimer.[8] Desde 1986, os pesquisadores fizeram testes cognitivos e dissecaram os cérebros das religiosas que morriam, para descobrir fatores de risco para a doença. Além de descobrirem que as portadoras tinham pouca concentração de ácido fólico no cérebro, concluíram também que o estilo de vida era relevante. A pesquisa demonstrou que o alto nível educacional e vida intelectual ativa, embora não evitem a doença, protegem o cérebro de seus efeitos devastadores. Porém, o mais surpreendente foi a relação encontrada entre incidência de Alzheimer e tipo de personalidade e as modalidades da linguagem.

Trata-se de uma ordem que exige que cada noviça, ao ingressar à vida religiosa, (aproximadamente aos 22 anos) escreva uma autobiografia. Os casos estudados tinham entre 79 e 96 anos ao morrerem.

Nesta pesquisa[9] surgem alguns dados muito interessantes como o fato de todas essas mulheres pesquisadas partilharem o mesmo tipo de vida e terem um nível educacional semelhante. Os neurologistas avaliaram a capacidade lingüística tomando como base dois critérios: a densidade das idéias e a complexidade gramatical. A densidade das idéias é medida segundo o número de idéias expressas em grupos de dez palavras e manifesta o grau de conhecimentos, o nível de estudos e o vocabulário, enquanto a complexidade gramatical está ligada com a memória, a capacidade de realizar tarefas rápidas e a escrita.

Os autores da pesquisa encontraram uma correlação entre a pobreza das aptidões linguísticas aos 20 anos e os baixos resultados nos testes cognitivos 60 anos depois . Cinco entre quatorze casos estudados tinham manifestado a doença de Alzheimer; em todos eles, a densidade de idéias na autobiografia era muito baixa, já a baixa complexidade gramatical, embora presente, era menor. Agora, o que mais nos chamou a atenção é que, entre as 200 autobiografias analisadas, pôde ser constatado que as que expressavam emoções como gratidão, alegria, amor e esperança foram menos atingidas pelo Alzheimer que aquelas outras que expressavam tristeza, medo raiva ou vergonha.

 

 

  1. A demência na psicanálise

 

Como já vimos, o uso do termo demência não é novo. Ele também foi profusamente usado desde as origens da psicanálise. Freud começa utilizando os termos cunhados por Kraepelim (1856-1926), que fala de “demência precoce” e “parafrenia”. Essa doença, que atingia pessoas jovens, se caracterizava por transtornos do pensamento, ensimesmamento, afetividade alterada e atividade delirante.

Bleuler, em 1911, começa a chamá-la de esquizofrenia, na tentativa de integrar o pensamento freudiano ao saber psiquiátrico e abrindo a possibilidade de, mesmo que respeitando sua origem orgânica, hereditária ou tóxica, se pudesse pensar a predisposição da personalidade e a relação do sujeito com o mundo como determinantes da doença. Inclui, assim, na mesma denominação todos os quadros com dissociação primária da personalidade, inadaptação, idéias bizarras, e delírios sem depressão nem mania, independentemente da idade do sujeito. Em “Dois exemplos de fantasias patogênicas” (Freud, vol. XI, 1910), falando de um jovem paciente de 20 anos, chama a demência precoce de “hebefrenia” e, em 1913 passará a chamá-la de “parafrenia” ou “esquizofrenia”, como Bleuler propunha.

Nas últimas décadas, foram poucos os trabalhos psicanalíticos que se ocuparam desta questão.[10] Tudo o que tem a ver com o fenômeno das demências parece ter sido devolvido ao âmbito da psiquiatria, da neurologia e, mais recentemente, também da geriatria[11], ou seja, foi relegado à área exclusivamente médica. Porém, se fizermos um breve resgate da obra freudiana, logo veremos que as preocupações de Freud excediam amplamente esse aspecto e abriam caminho para um ponto de vista muito mais abrangente e complexo.

Qualquer que seja o termo utilizado por Freud, entretanto, não corresponde ao que hoje se conhece como demência e que abordamos neste trabalho, mas vale mencionar que seu estudo provocou interessantes discussões.

Elisabeth Roudinesco menciona que, durante todo o final do século XIX, foi muito discutido se a demência precoce era uma doença que já existia – já que alguns de seus sintomas poderiam ser incluídos nos da melancolia ou da histeria – ou se era um novo quadro que “atingia jovens da sociedade burguesa, revoltados contra sua época ou seu meio, mas incapazes de traduzir suas aspirações de outro modo que não por um verdadeiro naufrágio da razão” (Roudinesco, 1997, p. 189).

Em 1911, no caso Schreber – de dementia paranoides, tal como aparece nó título do artigoFreud retoma a idéia já colocada em “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” segundo a qual cada estádio no desenvolvimento da sexualidade fornece uma possibilidade de fixação, ou seja, de um “ponto disposicional”. Assim, as pessoas que não se libertaram completamente do estádio do narcisismo:

 

… acham-se expostas ao perigo de que um incremento de libido excepcionalmente intenso, não encontrando outro escoadouro, possa conduzir a uma sexualização de suas investiduras sociais pulsionais e desfazer assim as sublimações que haviam alcançado no curso de seu desenvolvimento. Este resultado pode ser produzido por qualquer coisa que faça a libido fluir regressivamente (isto é, que cause uma ‘regressão’) (Freud, vol. XII, 1911, p. 57).

 

Freud diz que, quer se trate de desapontamentos em relação a questões amorosas ou na área das relações sociais, sempre há algo que represente uma frustração[12]. E acrescenta:

 

Visto nossas análises demonstrarem que os paranóicos se esforçam por proteger-se contra esse tipo de sexualização de suas investiduras sociais pulsionais, somos levados a supor que o ponto fraco em seu desenvolvimento deve ser procurado em algum lugar entre os estádios de auto-erotismo, narcisismo e homossexualismo, e que sua disposição à enfermidade (que talvez seja suscetível de definição mais precisa) deve estar localizada nessa região. Uma disposição semelhante teria de ser atribuída aos pacientes que sofrem da demência precoce de Kraepelin ou de (como Bleuler a denominou) esquizofrenia; e esperamos, posteriormente, encontrar pistas que nos permitam remontar às diferenças entre os dois distúrbios (com referência tanto à forma que assumem quanto ao curso que seguem) a diferenças correspondentes nas fixações disposicionais dos pacientes (idem p. 58).

 

Vemos como Freud não se conformava com as definições da psiquiatria de sua época e já apontava para uma visão totalmente diferente sobre a causalidade de certos casos clínicos, sem se intimidar diante da organicidade suposta ou comprovada das doenças que tratava. Reação a uma frustração, perda, fixação[13] em uma fase mais arcaica do desenvolvimento psíquico, fuga do eu por regressão, já comparecem aqui, para nos assinalar um horizonte.

Em “O interesse pela psicanálise” de 1913, Freud escreve:

 

Em outra perturbação neurótica, a demência precoce (parafrenia ou esquizofrenia), condição na realidade incurável, o paciente fica, nos casos mais graves, num estado evidente de completa apatia. Com freqüência as únicas ações que lhe restam são certos movimentos e gestos monotonamente repetidos e que têm o nome de ‘estereotipias’[14]. Uma investigação analítica desse tipo de resíduos, feita por Jung, demonstrou constituírem os remanescentes de ações miméticas perfeitamente significativas, as quais, em certa época, expressaram os desejos dominantes do indivíduo (Freud, 1913, p. 177).

 

Por outro lado, Freud chama a atenção para o fato de “estas psiconeuroses” [15] serem geralmente enumeradas em uma certa ordem: Histeria, Neurose Obsessiva, Paranóia, Demência Precoce, que corresponderia, embora não exatamente, à ordem das idades em que aparecem. É também nesse texto que reúne paranóia e demência precoce na categoria das parafrenias.

 

As características peculiares a ambos – megalomania, afastamento do mundo dos objetos, dificuldade aumentada na transferência – obrigaram-nos a concluir que sua fixação disposicional deve ser procurada num estádio de desenvolvimento libidinal antes de a escolha objetal ter-se estabelecido – isto é, na fase do auto-erotismo e do narcisismo. Assim, estas formas de moléstia, que fazem seu aparecimento tão tardiamente, remontam a inibições e fixações muito primitivas. Isto, por conseguinte, nos levaria a supor que a disposição à histeria e à neurose obsessiva, as duas neuroses de transferência propriamente ditas, que produzem seus sintomas bem cedo na vida, reside em fases posteriores de desenvolvimento libidinal (Freud, 1913, p. 338).

 

Em 1914, acrescenta:

 

Um motivo premente para nos ocuparmos com a concepção de um narcisismo primário e normal surgiu quando se fez a tentativa de incluir o que conhecemos da demência precoce (Kraepelin) ou da esquizofrenia (Bleuler) na hipótese da teoria da libido. Esse tipo de pacientes, que eu propus fossem denominados de parafrênicos, exibem duas características fundamentais: megalomania e desvios de seu interesse do mundo externo – de pessoas e coisas (Freud, 1914, p. 72).

 

Abraham, em 1908, já assinalava que, nas demências precoces, o investimento libidinal de objetos era ausente.[16] De tudo que estamos levantando, a única característica ausente nos casos de demência hoje diagnosticados é a megalomania.

Dentre todos estes autores dos primórdios da psicanálise, merece uma atenção especial Sandor Ferenczi, que foi quem mais interesse mostrou no entendimento das demências e em sua possível leitura a partir da psicanálise.

No artigo de 1917, “Para compreender as psiconeuroses do envelhecimento” ele explica que nestes casos, “as pessoas não tinham conseguido modificar a distribuição da libido” ou “não tinham podido adaptar-se a essa nova distribuição dos interesses libidinais” (Ferenczi, 1993, p. 145), e acrescenta:

 

Depois que o prof. Freud chamou minha atenção para esse ponto, sei (e não posso deixar de confirmá-lo) que o homem tende, ao envelhecer a retirar as “emanações da libido” dos objetos de seu amor e voltar para seu próprio ego o interesse libidinal, de que provavelmente dispõe em menor quantidade. As pessoas idosas voltam a ser como crianças narcísicas, perdem muitos de seus interesses familiares e sociais, uma grande parte de sua capacidade de sublimação desaparece, sobretudo no que se refere à vergonha e repugnância: tornam-se cínicas, ranzinzas e avarentas; em outras palavras, sua libido regride para as etapas pré-genitais do desenvolvimento e adota frequentemente a forma ostensiva do erotismo anal e uretral, da homosexualidade, do voyerismo, do exibicionismo e do onanismo. (idem, p 145)

 

O único problema deste breve texto, é o fato de o autor enunciar as características do envelhecimento claramente patológico como se fosse isto o que acontece habitualmente com pessoas idosas. Mas parece que ele mesmo percebe a inexatidão de suas afirmações, quando logo depois acrescenta: “Curiosamente, nem todos os neuróticos de ambos os sexos que atravessam esta idade crítica mostram esses sinais psíquicos da velhice” (idem, p. 146). A seguir, tece alguns comentários sobre estas transformações “operadas pela idade” e já no final fala da distribuição da libido nos casos de demência senil comentando que “pondo de lado o caso de atrofia cerebral”

 

Parece totalmente plausível explicar a perda freqüente da capacidade de registrar novas impressões sensoriais quando, por outro lado, há conservação de lembranças antigas, não por alterações histopatológicas do cérebro mas como uma conseqüência do empobrecimento em libido objetal disponível: as lembranças antigas devem sua capacidade de reprodução à viva nuança afetiva que, vestígio da libido de objeto ainda intacta, permanece ligada a elas, ao passo que o interesse atual pelo mundo externo já não permite adquirir mais lembranças duradouras. (idem, p. 150)

 

A preocupação de Ferenczi com este tema é evidente pois, no capítulo seguinte: “A psicanálise dos distúrbios mentais da paralisia geral” – texto também escrito por volta de 1917 – vai abordar esta doença causada por uma lesão cerebral e cujos sintomas psíquicos evoluem em quatro estágios: depressão inicial, excitação maníaca, delírios paranóicos, e demência terminal e, especialmente, vai se ocupar de como se opera relação entre doença física e estados psíquicos.

Sobre este particular, diz que a psicanálise só se interessou pelo tema depois da publicação de “Introdução ao Narcisismo”, quando Freud chama a atenção para o fato de haver uma relação libidinal especial com o próprio eu, durante os períodos de doença física, quando a pessoa retira seu interesse libidinal dos objetos do mundo e os desloca para si mesmo ou para o órgão doente. A doença faz com que ela regrida a um estágio anterior, infantil, do desenvolvimento. Torna-se narcisista.

Cita o caso dos traumatismos de guerra, que são menores quando existe uma ferida física, pois a libido é utilizada de um modo patoneurótico[17] , ou seja, “parte dela se liga ao órgão lesado e, por conseguinte, não pode flutuar livremente e constituir um fator de neurose” (idem, p. 152). Logo depois, chama a atenção do leitor para dois fatos: o primeiro refere-se a que uma lesão ou doença de zonas erógenas pode provocar graves doenças psicóticas como o caso das psicoses puerperais e o segundo, tal como o próprio Freud já o indicara, e que algumas psicose narcísicas graves de origem psicogênica, como seria o caso da melancolia, podem se curar repentinamente em conseqüência de uma doença orgânica intercorrente que liga o excesso de libido.

Ferenczi apresenta, então, alguns sintomas de paralisia geral, como uma patoneurose cerebral, quer dizer, como reação neurótica ao dano sofrido pelo cérebro ou por seu funcionamento, “como tentativa de controlar a quantidade de libido mobilizada pela lesão cerebral”. (idem, p. 150) Por um lado esclarece que o cérebro, mais que qualquer outro órgão, é depositário de “um investimento e uma estima particularmente importante por parte da libido narcisista” (idem, p. 153) já que é o órgão central das funções do eu e do princípio de realidade.

 

Podemos agora supor que a afecção metaléutica[18] do cérebro, quando ataca o órgão central das funções do ego, não provoca apenas “deficiências” mas age, além disso, à maneira de um traumatismo, perturbando o equilíbrio da economia da libido narcisista, perturbação expressa pelos sintomas psíquicos da paralisia geral. (Idem, p. 153)

 

Assim, vai descrevendo os diferentes estágios e seus sintomas. No começo, o sintoma psíquico evidente é uma espécie de astenia com freqüente perda da libido genital e da potência, como sinal de retirada do interesse dos objetos sexuais, libido que vai ressurgir em outro lugar servindo a interesses diferentes, por exemplo, em sensações hipocondríacas. Esta retirada radical será compensada, também radicalmente, por um período de euforia de investimento de objeto, especialmente erótico, que mitigue o desprazer narcísico-hipocondriaco. Este período não dura muito pois, se agravam os sintomas físicos e a deterioração mental. Encontramo-nos então, ante uma paralisia melancólica que, fora os sinais físicos, em nada se diferencia da psicogênica. Seria um caso de melancolia não por identificação com um objeto externo perdido e sim como um dano sofrido no próprio eu, “O melancólico vítima de paralisia geral, chora a perda de seu Ideal do eu, outrora realizado” (idem, p. 156). Os comentários que o autor tece ao longo do texto continuam sendo de absoluta relevância em relação ao tema que nos ocupa neste trabalho e precisam ser retomados nos atuais estudos sobre a demência. Vejamos, por exemplo, quando escreve:

 

A própria mutilação do corpo, a perda de um membro ou de um órgão dos sentidos, não acarretam necessariamente uma neurose; enquanto a libido estiver satisfeita com o valor de sua próprias realizações psíquicas, ela é capaz de superar toda e qualquer deficiência física com filosofia, humor ou cinismo, inclusive com orgulho, desafio, arrogância ou desprezo. Mas, ao que a libido pode prender-se, quando já se retirou há muito tempo dos objetos, não sente mais prazer nas realizações de um organismo enfraquecido, imprestável, e quando se vê, por fim, expulsa de seu derradeiro refúgio, o sentimento de auto-estima e a consideração pelo ego mental? (idem, p 157) [19]

 

Como neste quadro clínico o estágio demencial é o final, o doente vai assistindo impotente e lúcido ao declínio de sua capacidade física, a um organismo enfraquecido e, lentamente, à perda de suas capacidades intelectuais. Quando a doença cerebral acarreta a destruição dos produtos essenciais do desenvolvimento psíquico e o desaparecimento das capacidades mentais mais valorizadas, o eu só pode reagir melancolicamente, e quando a dor torna-se insuportável, o narcisismo abre caminho regredindo para fases do desenvolvimento mais primitivas, que outrora estiveram em conformidade com o eu. Verdadeiro processo de seqüestro do eu atual que permite sumir com tudo que é doloroso. Assim considerada: “do ponto de vista da psicanálise, a paralisia progressiva é, na verdade, uma paralisia regressiva” (idem p. 160)

Começamos este capítulo com um comentário sobre a mitologia grega e o terminamos com o estudo de Ferenczi sobre a Paralisia Geral Progressiva. Pudemos ver que o interesse em relação aos fenômenos demenciais, em suas diferentes acepções, ocupou a humanidade desde os tempos remotos e, seguindo este caminho, pretendemos acrescentar algumas reflexões que consideramos relevantes. Mas antes de continuar com o estudo das demências – desta vez, em suas implicações psicopatológicas – analisaremos outras teorizações que a psicanálise nos oferece para pensar esta questão, a partir de conceitos que nos aproximam de um entendimento de seus determinantes psíquicos e, ao mesmo tempo, nos permitem entendê-la como produção subjetiva paradoxal, em que o sujeito historicamente constituído, para se salvar, se perde.

 

[1] Mas, entre 1968 e 1970, Thomlinson, Blessed e Roth, analisando um grupo de cérebros de pacientes que tinham se demenciado com mais de 65 anos, concluíram que a degeneração neurofibrilar era do mesmo tipo da descrita por Alzheimer, o que tornou a divisão entre senil e pré-senil um tanto confusa.

[2] Citado por Isaias Pessotti em “Os nomes da loucura” 1999.

[3] Professor de psiquiatria em Bordeus desde 1905, foi o primeiro psiquiatra francês a aderir publicamente à psicanálise. Ver: Sigmund Freud: “Contribución a la historia del movimiento psicoanalítico” (1914).

[4] Existem 2 formas elaboradas para diagnóstico da demência: o Manual de Diagnóstico e Estatísticas das Doenças Mentais (DSM-III) que estabelece os seguintes critérios: prejuízo da memória para fatos recentes e antigos, do pensamento abstrato, do julgamento, da função cortical superior (afasia, agnósia, apraxia), mudança de personalidade. Interferência nas AVD (atividades da vida diária) que não devem ocorrer exclusivamente durante o período de delírio, evidência de um fator orgânico específico e exclusão de uma desordem mental não orgânica. O outro parâmetro diagnóstico é o do código Internacional de Doenças (CID– 10) que coloca os seguintes critérios: prejuízo da memória e das atividades intelectuais que possam ser objetivamente mensuráveis nas AVD e que estejam presentes durante pelo menos 6 meses, ausência de alteração no nível da consciência, deterioração do controle emocional , comportamento social e motivação. (Miranda Ventura e Campos Bottino, 1996)

[5] Chamamos a atenção para o fato deste parágrafo falar em “pseudodemências”. Esta classificação é pouco clara. O critério mais comum é entender como tal aqueles processos demenciais não originados por degeneração do tecido nervoso, sendo sua causalidade múltipla. Por exemplo: causas tóxicas, como interação medicamentosa, depressão, traumatismos, etc. Consideram-se também como demências curáveis, se tratadas antes do processo de cronificação. Voltaremos a este tema no cap. seguinte (Thomas e Cassutto 1990).

[6] Só a título de exemplo citarei duas: “me dá esse negócio aí que serve para beber” para pedir um copo, ou “pega para mim isso do cabelo” para pedir um pente.

[7] Os testes mais usados na atualidade são: o CAMDEX (1986), organizado como uma entrevista estruturada com o objetivo de diagnosticar e quantificar a demência, e o MEEM (1975) Mini Exame de Estado Mental, que avalia outras funções além da memória. Existe também o ENEDAM, utilizado para diagnóstico de demências em estado inicial, e várias escalas de avaliação clínica para confirmação do diagnóstico. Miranda Ventura e Campos Bottino, 1996)

[8] Um breve artigo que comentava os resultados, foi publicado no caderno Equilíbrio da Folha de São Paulo em 24 de maio de 2001.

[9] Publicada em jornal médico dos EEUU em 1997 e citada por Chévance (1999).

[10] Ver nas referencias as especificações editorias de: Maissondieu (2001) Lê Guès (1987) Chévance (1999), todos autores franceses que vivem numa sociedade que envelheceu rapidamente nos últimos anos.

[11] Cabe assinalar que atualmente, no campo médico, são ao geriatras que têm uma visão mais abrangente e holística no que se refere à causalidade nas demências.

[12] O termo “frustração” (Versangung, denegação) refere-se aqui exclusivamente a obstáculos externos, tal como o assinala Strachey na nota introdutória de “Tipos de desencadeamento das neuroses” (1912) Neste artigo volta a usar o mesmo termo de forma mais ampla, referido também aos obstáculos internos. (Strachey, p. 236)

[13] O fato de a libido se ligar fortemente a pessoas ou imagos, de reproduzir determinado modo de satisfação e permanecer organizada segundo a estrutura característica de uma das fases evolutivas. A fixação pode ser manifesta e real ou constituir uma virtualidade prevalecente que abre ao sujeito o caminho de uma regressão. [ ] Podemos considerá-la, fora de qualquer referência genética, dentro do quadro da teria freudiana do inconsciente, como designando o modo de inscrição de certos conteúdos representativos (experiências, imagos, fantasias) que persistem no inconsciente de forma inalterada e aos quais a pulsão permanece ligada. (Laplanche, 1995)

[14] Essas estereotipias são muito comuns também nas demências, tal como conhecidas atualmente. Um paciente que foi um dia um pintor de paredes muito bem conceituado, agora se dedica hora após hora a descascar as portas e paredes da instituição onde mora, e uma costureira procura, nas próprias roupas, um fio qualquer que lhe permita descostura-las. Um verdadeiro trabalho de desconstrução do que se levou uma vida construindo.

[15] Termo usado por Freud para caracterizar, em oposição às neuroses atuais, as afecções psíquicas em que os sintomas são expressão simbólica dos conflitos infantis, isto é, as neuroses de transferências e as neuroses narcísicas (Laplanche e Pontalis, “Vocabulário de Psicanálise”).

[16] Ver Conferência XXVI, nas “Conferências de introdução à psicanálise”, vol. XVI, 1916-1917, p. 378.

[17] Patoneuroses: “Neuroses resultantes de uma doença orgânica ou de um ferimento” (Ferenczi, 1993, p. 294).

[18] Refere-se a lues: sífilis.

[19] É interessante salientar que a maioria dos pacientes diagnosticados como portadores de algum tipo de demência possuem uma boa saúde clínica e, ao longo de suas vidas, tiveram poucas dificuldades neste particular.

CAPÍTULO   III

Tempo, História e Memória

 

A memória é invadida constantemente pela imaginação e os sonhos, e já que existe a tentação de crer na realidade do imaginário, acabamos por fazer uma verdade de nossa mentira, O que, por outra parte não tem mais que uma importância relativa, já que tão vital e pessoal é uma quanto outra.

 

Luis Buñuel – “Meu último suspiro”

  1. O tempo e a memória em Freud

 

Faremos em seguida, um percurso pela obra de Freud, recolhendo as elaborações sobre estes conceitos e optando por acompanhar o movimento de seu pensamento do ponto de vista cronológico.

 

1.1.      aparelho de linguagem, aparelho de memória: a pré-história da psicanálise

 

Embora Freud jamais tenha escrito um texto dedicado exclusivamente à questão da temporalidade, este tema atravessa toda sua obra, especialmente ligado a suas investigações sobre a memória. Esta temática comparece desde o começo como uma das grandes preocupações freudianas.

Estes temas foram trabalhados desde o período que pode ser considerado como a “pré-história”[1] da psicanálise, não sendo abandonados até o final da vida de Freud. Nosso percurso através da obra freudiana será longo e trabalhoso; em virtude do interesse desta pesquisa, iremos nos deter mais sobre alguns textos, ou sobre aspectos destes textos, do que sobre outros.

Em “Sobre a concepção das afasias” (1891),[2] Freud elabora um aparelho de linguagem que será o grande precursor do aparelho psíquico e estabelece a diferença entre representação de palavra e representação de objeto.

O mais importante, contudo, talvez seja o fato de que ele não concebe este aparelho de linguagem como algo que já está pronto ao nascer, mas como algo que se constitui, aos poucos, elemento por elemento, e sempre em relação com outro aparelho de linguagem.

As representações de palavras adquirem seu significado quando sua imagem acústica coincide com a imagem visual do objeto[3] e este significado é compartilhado por dois aparelhos de linguagem semelhantes. Então, é em relação ao outro como falante que se forma o aparelho da linguagem. O que nos importa destacar é que, em contraposição aos conhecimentos da época sobre as localizações cerebrais, Freud introduz a idéia de processo e funcionalidade e nega a idéia do psicológico como simples efeito do mecânico fisiológico. Garcia-Roza nos esclarece:

 

Não se trata mais de estabelecer uma relação mecânica entre elementos sensoriais (impressões) e elementos psíquicos (representações), mas de assinalar o paralelismo entre duas ordens de processos.[…] Esse processo, (de formação de uma representação) que se inicia em uma determinada parte do córtex, difunde-se, a partir desse ponto inicial, por todo o córtex, ao longo de vias particulares. É esta modificação no córtex que tornará possível a recordação, isto é, a possibilidade de essas mesmas vias serem novamente percorridas quando a mesma área cortical for excitada. (Garcia-Roza, 1994, p. 33)

 

Isto quer dizer que, “se o mesmo estímulo cortical se repete, ressurge o psíquico sob a forma de uma imagem mnêmica” (idem). Como veremos mais adiante, o tema das “facilitações” será retomado no Projeto de 1895.

Já na Comunicação Preliminar de “Estudos sobre a histeria” (1893), Freud outorga uma grande importância à questão da memória. Neste texto, escrito em parceria com Breuer, os autores referem-se ao fato de o sintoma histérico, que aparentemente desaparecia com a eclosão da recordação do episódio que o ocasionara, continuar a produzir efeitos ante a simples lembrança do mesmo, levando a reações emocionais como o choro, por exemplo. Observam, porém, que nem sempre cessada a causa cessa o efeito; por isso dizem que “o histérico padece de reminiscências” (Freud e Breuer, 1893-95, p. 33).

Se esta reação for sufocada, o afeto permanecerá conectado com a lembrança. O ser humano, porém, conta com a linguagem para substituir a ação. Assim, o sujeito liberaria o afeto e a lembrança entraria em outros circuitos psíquicos, associando-se a outras representações, aliviando o afeto acompanhante do trauma psíquico. Continuam os autores: “A isto se acrescenta esse universal apagamento das impressões, essa palidez das recordações que conhecemos sob o nome de ‘esquecimento’ e que desgasta todas as representações ineficazes afetivamente” (idem, p. 35).

Em “Projeto de uma Psicologia Científica”, escrito em 1895, Freud inicialmente se propõe a estudar as resistências. Vai muito além, entretanto, e, entre outras coisas, afirma que qualquer teoria sobre os processos psicológicos que se pretenda séria deve conter uma explicação sobre a memória. Tal é o destaque que este tema recebe, que é possível considerar o aparelho anímico de Freud fundamentalmente como um aparelho de memória. De acordo com isso, e dada a importância da temática da memória para esta pesquisa, é a partir desta perspectiva que faremos os recortes e comentários sobre
o texto.

Embora Freud tenha criado um modelo neurológico, não pretendia que fosse explicativo do sistema nervoso, mas esperava que desse coerência científica a suas teorias. Tratava-se de um modelo hipotético de funcionamento, no qual observamos, simultaneamente, a utilização e a negação dos conhecimentos da neuroanatomia mecanisista da época.

O grande valor do Projeto reside no fato de anunciar conceitos que aparecerão mais tarde em outros trabalhos fundamentais para a teoria psicanalítica. Por exemplo: já em 1895, o autor nos fala de barreiras de contato ou pára-excitações, que retomará em 1920 no modelo da vesícula em “Além do Princípio do Prazer”. Estas, graças à singular arquitetura dos neurônios, estariam localizadas nos órgãos celulares de contato e se constituiriam como verdadeiras barreiras de resistência à liberação de energia Qn.[4]. Assim, ele estabelece um modelo pelo qual existiriam dois sistemas de neurônios: o sistema de percepção e o sistema de memória. Os neurônios, embora semelhantes entre si, formariam sistemas diferenciados, não se constituindo uma diferença de natureza e sim estrutural.

Duas são as idéias reitoras do Projeto: a primeira, que os neurônios constituiriam simultaneamente a base de sustentação e a unidade material do sistema nervoso, e a segunda considera que, por esses neurônios, organizados como sistemas, circula energia que também pode ser armazenada.

O primeiro sistema seria formado por células permeáveis, identificadas pela letra grega f (fi). Estas células servem à percepção, não operam nenhuma resistência à passagem de energia e nada retêm. Elas possuem barreiras de contato (sinapses) que não se modificam com a passagem de excitação, aonde chegam, sem resistências, os estímulos externos.

O outro sistema, que Freud identifica com a letra grega y (psi), é formado por células impermeáveis; constituído pelos neurônios que recebem estímulos endógenos, possui barreiras de contato retentoras de energia que resistem e dificultam a passagem da descarga ao exterior; por estarem em estado de alteração permanente; porém, também se modificam com o sucessivo aprendizado e tornam-se mais suscetíveis de condução, facilitando a passagem de certas energias mais do que de outras. A função de resistência seria a grande diferença entre os dois sistemas. Insistimos em chamar a atenção para o fato de que Freud fala em função e em sistema, mas não em diferença de natureza entre os neurônios.

Quando as barreiras de contato protetoras recebem uma estimulação excessiva, podem sofrer rompimento, dando origem à dor. É verdade, todavia, que o sistema de percepção f assim estruturado receberia grandes quantidades de estímulos do exterior. Para evitar este excesso insuportável, existiria um outro sistema de percepção, designado com a letra  w (omega). Este sistema seria formado por neurônios que se ocupariam de filtrar a transmissão através de uma “tela protetora” e forneceriam os dados da realidade sensível (cor, som, textura). Desse modo, o caminho entre os órgãos dos sentidos e o sistema de percepção não seria direto. [5]

O mais importante para nossos interesses é destacar a existência de um sistema de percepção que forneceria dados ao sistema de consciência, que então os repassaria ao sistema de memória como signos de realidade. Ou seja, a memória, desde o começo da teorização freudiana, aparece como seletiva, protegida, dependente de algum outro fator ou sistema. Cabe esclarecer que os termos consciente e inconsciente não estão sendo utilizados no sentido da primeira tópica, ou seja, como instâncias psíquicas, mas de forma adjetiva.

O sistema de percepção teria mais proteção que o sistema y, que por sua vez seria mais vulnerável na recepção dos estímulos endógenos. Os neurônios y se dividiriam em dois grupos: as células do Pallium (manto), que são investidas por excitações provenientes do mundo exterior, e as do Núcleo, que são investidas desde o interior diretamente, sem nenhuma proteção. Esta falta de proteção e, portanto, de controle, que atua como uma força de excitação incessante, já em 1895 Freud a chamou “mola pulsional do mecanismo psíquico” (Freud, 1895, pág. 360), em oposição às excitações externas momentâneas e controladas.

A energia livre que investe permanentemente e de forma caótica o núcleo do sistema y, como estado de pura dispersão, tende a se distribuir através das barreiras de contato que oferecem menor nível de resistência. Estas energias que circulam livremente podem se ligar a outras que tenham menor nível de resistência, criando investimentos colaterais que formarão uma rede ou estado de integração ao qual Freud dá o nome de eu (Ich). Esta organização que se cria a partir do caos é então efeito da ligação.

Assim sendo, o eu é o conjunto dos investimentos no núcleo do sistema y que procura a descarga motora e que não elimina o estado de necessidade e a tensão que este provoca, pois não conta com o objeto adequado para a satisfação. Ele produz apenas modificações internas (choro, agitação). Este eu primordial se amplia posteriormente com os dados de realidade que lhe chegam desde o sistema w ocupando também o sistema y Pallium, desde onde exercerá uma função reguladora sobre todo o sistema y, dando lugar aos processos secundários.

Tendo chegado a este ponto na leitura do Projeto, não podemos deixar de reconhecer já ali, uma metapsicologia incipiente; como em um embrião, já estavam lá muitos elementos básicos da teoria psicanalítica. Mas é a questão da memória que nos interessa especialmente, então continuaremos percorrendo as primeiras elaborações de Freud em relação a este conceito.

Seguindo este caminho – e é justamente de caminhos que se trata – vemos formarem-se trilhas que se abrem à medida que são utilizadas e que constituirão marcas facilitadoras para percursos posteriores. [6] Estas diversas vias teriam diferentes graus de facilitação (Bahnung) da passagem energética. Então, haveria uma dinâmica entre células permeáveis, que nada retêm e portanto não se modificam, e as células impermeáveis, por onde a energia só pode passar com dificuldade e de forma incompleta. Este sistema de células impermeáveis que, a cada excitação, por oferecerem resistência ao serem “tocadas”, se modificam em um estado diferente do anterior, constitui a origem da memória.

Freud esclarece que as barreiras de contato ou pára-excitações deste sistema y de células impermeáveis entram em um estado de permanente excitação/alteração. Estas células “aprenderiam” com a repetição dos estímulos, permitindo às barreiras de contato adquirirem um maior poder de condução; isto as tornaria mais parecidas com as do sistema f Mas as barreiras de contato não oferecem todas nem as mesmas facilitações e nem as mesmas resistências, constituindo, ao contrário, uma rede de percursos diferenciados que serão facilitados em uma direção e não em outras. Deste nível de aprendizado das barreiras dependerá a “facilitação”, de modo que “a memória está constituída pelas facilitações entre neurônios” (Freud, 1985, p. 344).

Podemos dizer, então, que a memória se constitui porque as excitações não operam, todas elas, com igual intensidade ou freqüência, ou seja, que a memória também está constituída pela diferença de facilitações entre os neurônios. Observamos como Freud vem utilizando conceitos quantitativos, como besetzung que remete a intensidade de investimento, ocupação de um lugar, e qualitativos, como bahnung que se traduz como facilitação.

Compreendemos, então, que a memória, entendida como o poder de uma vivência de continuar produzindo efeitos, dependerá da magnitude e da freqüência com que se repita o trilhamento facilitado. Há memória porque existe um diferencial de caminhos possíveis; se todas as opções fossem igualmente possíveis, não existiria facilitação, ou seja, preferência de um caminho sobre outro, e a memória nem existiria.

Lacan retoma justamente do Projeto esta noção de facilitação (Bahnung) e alerta para o erro possível de entendê-la como efeito mecânico do hábito. Para ele, facilitação ou trilhamento possui uma dimensão própria regida pelo princípio de prazer, como prazer da repetição. A memória é constituída pela trama de representações (ou cadeia significante), que implica uma preferência das escolhas de itinerários possíveis (Lacan, 1988, p. 272).

Para Lacan, o que acontece na experiência de satisfação é que uma excitação endógena correspondente a um estado de necessidade (fome, por exemplo) produz em y um estado de apetite. Este será descarregado no sistema de percepção w como desprazer e será acompanhado por manifestações emocionais (choro, agitação dos membros etc.). A tensão continuará a mesma, entretanto, já que o estímulo endógeno não é anulado. Se, porém, o choro da criança provoca a ação de um adulto que o alimente, o estímulo endógeno é eliminado e aparece a vivência de satisfação ligada tanto à imagem do objeto quanto à imagem do movimento de descarga. Assim, a descarga motora adquire a dimensão de signos de uma demanda dirigida ao Outro. Outro não semelhante, não especular, mas pertencente à ordem simbólica. A satisfação da necessidade, então, introduz o sujeito na ordem simbólica. O caminho está traçado.

Quando a necessidade se apresenta novamente, ambas as marcas mnêmicas (necessidade e satisfação) serão reinvestidas e reativadas. Se o objeto permanecer ausente, será alucinado, seguindo as normas do princípio de prazer. O sistema w , regulador da percepção-consciência, entrará no jogo, oferecendo ao sistema y um signo de realidade que estabelecerá a diferença entre objeto real e alucinado, entre imagem-percepção e imagem-lembrança. Estão atuantes aqui, tanto o processo primário, que conduzirá à alucinação e ao desprazer, quanto o processo secundário, que possibilita a lembrança. Ambos os processos são próprios ao sistema y e, portanto, inconscientes.[7]

Em nosso caminho para o entendimento dos mecanismos da memória, tal como foram historicamente postulados por Freud, encontramos no capítulo 13 do Projeto, “Afetos e estados de desejo”, uma essencial contribuição para nosso objetivo de uma aproximação psicanalítica às demências. As experiências de dor e as vivências de satisfação produzem dois resíduos; o primeiro são os afetos, tratados aqui como descarga motora súbita, provocada por aumento de tensão e não guardando relação unicamente com vivências desprazerosas. O segundo resíduo das experiências de dor e satisfação são os estados de desejos, definidos como uma atração pelo objeto desejado e pelo reinvestimento de sua imagem mnêmica. Freud escreve:

 

Do estado de desejo segue-se diretamente uma atração em direção ao objeto de desejo e sua marca mnêmica correspondente; da vivência de dor resulta uma repulsa, uma retirada do investimento na imagem mnêmica hostil. São estas a atração de desejo primária e a defesa primária (Freud, 1985 pág. 367).

 

Do estado de desejo, resíduo da experiência de satisfação, resultará uma “atração” em relação ao objeto do desejo, um investimento de sua marca mnêmica agradável. Da vivência de dor que desencadeia o afeto resultará o rechaço e conseqüente repressão do investimento de uma marca mnêmica hostil: trata-se de “defesa primária”. Freud diz: “A defesa primária será mais intensa quanto mais intenso seja o desprazer” (idem, p 369). E acrescenta algo que consideramos fundamental para a abordagem das demências que faremos mais adiante:

 

Por outro lado, precisa de uma indicação que atraia sua atenção para a recatexização de uma imagem mnêmica hostil e que lhe permita evitar, por meio de catexias colaterais, a conseqüente liberação de desprazer. Se conseguir efetuar essa inibição a tempo, a liberação de desprazer e ao mesmo tempo as defesas serão mínimas; caso contrário, ocorrerá um desprazer imenso e uma defesa primária excessiva. Ambas, a catexia de desejo e a liberação de desprazer, quando a lembrança em questão é de novo catexizada, podem ser biologicamente nocivas (idem, p. 370)

 

Temos, então, um aspeto quantitativo, dado pelas intensidades do afeto, e outro qualitativo, balizado pelas sensações de prazer e desprazer. Neste esforço por uma repressão aliviadora esvaem-se as lembranças: perde-se a memória.

É muito interessante seguir o pensamento de Luis Alfredo Garcia Roza (1991) em relação a este ponto. Referindo-se a um comentário de Lacan em seu seminário sobre “A ética da psicanálise”, considera que Freud distingue duas estruturações diferentes da experiência humana no que se refere aos estados de desejo:

 

…a da reminiscência, que supõe uma adequação ou harmonia entre o homem e o mundo dos objetos; outra, da repetição, na qual, o que se apresenta a ele coincide apenas parcialmente com aquilo que já lhe proporcionou satisfação e que por essa razão lhe impõe uma busca, pela repetição, no sentido de reencontrar o objeto” (García Roza, 1994, p. 146).

 

Sabemos, porém, que o objeto procurado, tal como lembrado a partir da experiência de satisfação, jamais é encontrado; o sujeito se vê, então, impelido a uma busca interminável e ao encontro sempre precário com objetos substitutivos.

Desta diferença entre percepção e lembrança, desta falta de identidade de percepção, nasce a possibilidade de pensamento, que não existiria se a coincidência fosse total e a descarga imediata. Se a representação-percepção for apenas semelhante e não idêntica à representação-lembrança, isto provocará uma inibição no eu, impedindo a descarga imediata e dando lugar ao discernimento. No entanto, o aparelho psíquico, atento aos signos de qualidade que indicam a diferença entre as duas, operará um rastreamento entre as representações-lembrança (ou representação-fantasia) até achar alguma que coincida com a desejada. A procura é de uma identidade de pensamento, e não de percepção. O aparelho psíquico não procura a identidade com a vivência de satisfação e a conseqüente descarga imediata; procura a identidade com o caminho do investimento, com o percurso que suspende momentaneamente as intensidades e a descarga, caminho onde também encontrará marcas vazias de qualidades que serão re-significadas no processo. Condição prévia, enfim, de um pensar crítico.

Na segunda parte do Projeto, dedicado à psicopatologia da histeria, Freud empreende uma primeira articulação sistemática entre a questão do tempo e da memória. Bem no inicio deste capítulo,encontramos a seguinte observação:

 

Todo observador da histeria percebe que as histéricas estão submetidas a uma compulsão exercida por representações hiperintensas (…) que resultam estranhas pela raridade; são representações que em outros não trazem conseqüência nenhuma, mas nos histéricos nos aparecem como intrusas, usurpadoras e ridículas (Freud, 1895, p. 394-395).

Freud explica este fenômeno da seguinte maneira: há uma representação hiperintensa “A” que, sem lógica nenhuma, faz o histérico chorar. Mas se “A” provoca este efeito, é porque se associa a outra representação “B”, esta de origem sexual e que, como verdadeiro motivo da reação emocional intensa, foi reprimida. “A” representa uma “circunstância colateral”, neutra, que aparentemente não tem relação com o sexual, que circunstancialmente tem a ver com “B” mas não é “B”.

No final desta segunda parte, Freud esclarece que estes investimentos colaterais só são possíveis quando existe um eu; nestes casos, há um desprendimento de desprazer, porém o Eu pode se defender criando os investimentos colaterais. Nos primeiros traumas, nas primeiras intensidades que acontecem antes da estruturação egóica, a defesa resulta impossível. “A” se plasma na lembrança, como o verdadeiro motivo do infortúnio, transformando-se no substituto, no símbolo de “B”. Assim, toda vez que “A” aparece na consciência, vem acompanhada por emoções que, quanto à intensidade, correspondem a “B”. A representação verdadeiramente originária do sintoma é desalojada da consciência, reprimida, e a substituta não cessa de aparecer. Para Freud:

 

…a toda compulsão corresponde um recalcamento, e a todo esforço da consciência, uma amnésia (…) o recalcamento tem o sentido quantitativo de um despojamento de Q, … atribui-se a “A” alguma coisa que se subtrai de “B”. […] O processo patológico é o de um deslocamento tal como o conhecemos no sonho, portanto, um processo primário (Freud, 1895, p. 397).

 

Neste caso, infere-se que a verdadeira natureza de “B” pode ser estimada a partir das características de “A”. A proton pseudo[8] é justamente isto: tomar como causa verdadeira do desgosto a representação “A”, que, por circunstância colateral, alude à verdade, que oculta e faz uma ponte necessária com a representação “B”. Retomaremos este tema ao falar das lembranças encobridoras.

A articulação a que nos referíamos antes fica especialmente explícita na elucidação do caso Emma. Trata-se de uma moça que não consegue entrar nas lojas e atribui seu pânico a uma lembrança dos 12 anos, quando vendedores teriam rido de suas roupas (cena “A”). O que está velado à sua consciência, contudo, é um episódio ocorrido quando tinha 8 anos de idade. Nesta ocasião, um vendedor a teria molestado sexualmente, mexendo em seus genitais por cima de suas roupas, enquanto ria. Longe de se sentir abalada, ela volta normalmente a esta loja (cena “B”). Após o despertar sexual da puberdade, entretanto, a lembrança torna-se traumática por efeito retardado (nachtraglich) (idem, p. 403). A memória do traumático surge só depois do tempo de latência e torna-se real pela repetição ou seja, se ressignifica como sexual e torna-se traumática [9]

Sabemos que os anos transcorridos entre 1887 e 1902 marcam um tempo de farta e profunda comunicação epistolar entre Freud e Wilhem Fliess (1858-1928). Percorrendo este denso intercâmbio, podemos conferir que o aprés coup, o efeito de posterioridade e os mecanismos da memória em geral são constantemente anunciados e elaborados naquela época.

Logo depois de concluir o Projeto, em janeiro de 1896, Freud escreve uma carta (a carta número 39) com um adendo conhecido como o Manuscrito K. também chamado “Um conto de Natal” (1896, p. 260), onde trata das neuropsicoses de defesa e retoma a questão do efeito de posterioridade. Nesta ocasião, reafirma a idéia de que, no caso de existir uma excitação sexual intensa nos primeiros anos de vida, esta só será ressignificada como traumática na puberdade, pois a criança pequena não teria possibilidade de registrá-la como tal. Na carta catalogada sob o número 52 e datada de 6/12/96, passado um ano da conclusão do Projeto, podemos ler:

 

Você sabe que trabalho na suposição de que nosso mecanismo psíquico tenha sido gerado por estratificação sucessiva. De tempos em tempos, o material preexistente de marcas mnêmicas experimenta uma reordenação segundo novos nexos, uma retranscrição. O essencialmente novo em minha teoria é a tese de que a memória não preexiste de maneira simples, mas múltipla, e está registrada em diferentes variedades de signos… (Freud, carta 52, 1896, p. 274).

 

Isto já anuncia uma condição fundamental da repressão: ela não se exerce sobre representações e sim sobre suas ligações. Como diz Elsa Schmid– Kitsikis: “Uma sorte de colapso de ligações entre elementos mnemônicos reservados no inconsciente (marcas mnêmicas) e as produções mnemônicas do sistema consciente (reminiscências, lembranças, etc.)” (Schmid-Kitsikes, 1997, p. 1779).

Vemos que Freud começa sua carta confirmando que o aparelho psíquico é, fundamentalmente, um aparelho de memória. Assim, esta não seria uma simples qualidade do aparelho psíquico e sim sua qualidade fundamental. O sistema psíquico seria o responsável pela memória e pelos acontecimentos psíquicos em geral.

Neste ponto, Freud introduz novos elementos ao falar de inscrições de signos e transcrições e, como muito bem assinala Garcia-Roza, estes elementos “estão muito mais próximos da linguagem e da escrita do que os neurônios da formulação anterior” (1994, p. 200). As transcrições às quais Freud se refere acontecem em diferentes momentos da vida e, entre essas épocas, deve existir uma tradução do material psíquico que o adapte às novas necessidades. Quando esta tradução não é possível, estabelecem-se as psiconeuroses. Se a nova reescritura não acontece, a tramitação psíquica ocorrerá de acordo com os mecanismos da fase anterior. A tradução é reprimida, pois isto acarretaria desprazer, o que não acontece sem conseqüências.

Dentro da mesma fase psíquica e com representações do mesmo tipo, haverá uma defesa normal. Porém, quando a marca mnêmica não traduzida é de uma fase anterior do desenvolvimento psíquico, estamos diante de uma defesa patológica. O não traduzido, que parece pertencer a outra pessoa ou a outra época, é o reprimido, que seguirá o destino da repetição e não das lembranças.

No final da segunda parte do Projeto, Freud já apontava para o fato de que, se a representação-lembrança não for recalcada, a cada retorno à consciência (e quando falamos em retorno estamos nos referindo a uma questão temporal) se repetirá o desprendimento de desprazer. Este será cada vez menor, até restar para o Eu a lembrança da dor e não sua intensidade. Ao final, como diz o ditado popular: ‘o tempo tudo cura’, mas para isso é necessário que o Eu esteja suficientemente estruturado e a vivência seja capturada pela consciência.

Freud constata que quanto mais freqüentemente ocorrer a recordação mais rapidamente a intensidade será reduzida, mas esclarece que este princípio não vale para o caso de experiências sexuais.

 

O acontecimento sexual de uma fase anterior produz efeitos como se fosse atual, então não pode ser inibido em uma fase seguinte. A condição da defesa patológica (repressão) é então a natureza sexual do acontecimento que deve ter ocorrido em uma fase anterior (Freud, 1896, p. 277).

 

Neste ponto, devemos lembrar que Freud tinha começado sua auto-análise no verão de 1897. Não é de se estranhar, portanto, que, estimuladas por este trabalho, numerosas recordações infantis tivessem surgido em sua memória e que ele se questionasse acerca da dificuldade de recordar e associar as lembranças. Em 2 de maio de 1897 (carta 61), ele escreve:

 

Pela primeira vez tenho conseguido um certo esclarecimento sobre a estrutura da histeria. Tudo me leva a pensar nos mecanismos de reprodução das cenas; umas produzem-se de maneira direta, outras, através de fantasias interpostas. As fantasias derivam do ouvido, entendido com posterioridade, e são autênticas em todo seu material (Freud, 1897, p. 288).

 

Esta carta, como muitas outras, tinha um adendo, o Manuscrito L. Nele, Freud descreve as fantasias como verdadeiras barreiras psíquicas para bloquear as lembranças, refiná-las e sublimá-las. Elas se constituem com base nas coisas que foram ouvidas e valorizadas ‘com posterioridade’. Assim, o vivenciado, o escutado e o passado (da história parental) se unem à própria experiência vivida pelo sujeito, transformando os conteúdos em recordações possíveis: “Elas são ao ouvido, como os sonhos são à visão” (Freud, 1897, p. 289). Na carta 84, de 10/03/98, Freud ainda voltará a este tema, dizendo:

 

Biologicamente parece-me que a vida onírica parte dos restos da época pré-histórica da vida – a mesma que é origem do inconsciente e a única em que se adquirem as etiologias de todas as psiconeuroses, época na qual existe uma amnésia semelhante à histérica. A fórmula é a seguinte: aquilo que na época pré-histórica é visto, dá por resultado o sonho; o ouvido resulta em fantasias e o vivenciado sexualmente, em psiconeuroses (Freud, 1898, p. 316).

 

No Manuscrito M, de maio de 97, acrescentará que as fantasias se originam por desfiguração e fragmentação, analogamente à decomposição de um corpo químico que se combina com outro. O primeiro efeito da desfiguração é a falsificação da lembrança por fragmentação, processo no qual são primordialmente descuidadas as relações temporais. Nos fragmentos do visto, mais o ouvido, mais as recordações associadas, a dimensão temporal se perde. O produto liberado associa-se a outra cena, de tal maneira que o produto original fica perdido. Podemos pensar que estas metabolizações resultam em uma temporalidade subjetiva, produto de uma reorganização. Uma temporalidade subjetiva conduzida pela linha temporal do desejo e não como reprodução linear e cronológica comandada desde o mundo externo.

As cenas são ordenadas seguindo um grau de resistência crescente: as menos reprimidas chegam antes, porém são mais incompletas. Estas verdadeiras “poetizações protetoras” como as chama na Carta 61 (Freud, 1897, p.289) não são vítimas da defesa como as marcas mnêmicas. Se contudo alguma fantasia muito intensa alcança à consciência, também sucumbe à repressão e gera um sintoma por associação com as recordações originais reprimidas. Finalmente, na carta 84 de 10/3/98, completa: “A repetição do vivenciado seria em si mesmo a realização de um desejo, e um desejo recente só provocaria um sonho quando enlaçado com um material daquela época”. (Freud, 1898, p. 316).

Em setembro de 1989, Freud viaja à costa Adriática. Imediatamente depois de seu retorno a Viena, escreve duas cartas a Fliess (cartas 96 e 97). Nesta ocasião, informa-lhe ter escrito um breve artigo sobre um episódio que lhe acontecera durante a viagem, de esquecimento de um nome próprio. Tratava-se de “Sobre o mecanismo psíquico do esquecimento” (1898). Neste artigo, que é considerado o primeiro passo para a “Psicopatologia da vida cotidiana” (1901), também vai se referir ao mesmo episódio de esquecimento do nome do pintor Signorelli. .

No trabalho de 1898, Freud fala muito claramente do fenômeno do esquecimento – especialmente de nomes próprios – como produtos do mecanismo da repressão. Escreve ele:

 

Cabe afirmá-lo com total universalidade: a facilidade e a fidelidade com que uma impressão é evocada na memória não depende só da constituição psíquica do indivíduo, da intensidade da impressão no momento em que aconteceu, do interesse que no momento lhe foi consagrado, da constelação psíquica presente, do interesse que agora se tenha em evocá-la, dos enlaces em que a impressão foi envolvida, etc. Depende mais do favor ou desfavor de um fator psíquico particular que se mostraria contrário a reproduzir algo que desprendesse desprazer ou pudesse levar em última instância a um desprendimento de desprazer. A função da memória que tendemos a nos representar como um arquivo aberto aos curiosos, é rebaixada desta forma por uma tendência da vontade, da mesma forma que qualquer outra conduta dirigida ao mundo exterior. Parte do secreto da amnésia histérica descobre-se dizendo que os histéricos ignoram do que se trate o que não querem saber (Freud, 1898, p. 287).

 

Em “As lembranças encobridoras”, de 1899, Freud afirma que a memória não pode reproduzir um encadeamento lógico dos fatos da vida antes dos 7 anos e que só a partir dessa idade as recordações adquirem coerência graças à significação psíquica que o sujeito lhes atribui. As lembranças conservadas, anteriores a esta fase, são pois testemunhas dos interesses dominantes da criança naquela época e de sua forma especial de vivê-los. Menciona dois tipos de lembranças: as anteriores ou regressivas, que são utilizadas como escudo protetor para ocultar um acontecimento posterior, e as posteriores ou progressivas, que encobrem recordações prematuras. Estas últimas, justamente, adquirirão maior importância em suas elaborações posteriores.

Estabelecem-se, portanto, diferentes tipos de relações temporais entre o encobridor e o encoberto, o que nos levará a denominar a recordação como regressiva ou progressiva, dependendo do tipo de temporalidade predominante. Por exemplo, a lembrança de Emma sobre seus doze anos, quando os vendedores teriam rido de suas roupas, é uma lembrança progressiva pois encobre a outra, dos oito anos, quando foi vítima do outro vendedor que mexeu nos seus genitais.

Nas lembranças infantis, acontece de serem descartados certos conteúdos enquanto conservam-se alguns detalhes que parecem carecer de importância. Este fenômeno torna a recordação carente de sentido, mas conserva sua força como impressão. Os elementos realmente significativos são sufocados, enquanto outros, que se enlaçam com aqueles, permanecem na memória. Estas são lembranças que aparecem justamente para que outras, mais conflitivas, possam ser esquecidas. A intensidade psíquica é deslocada da representação abandonada para a outra, que assume a função da primeira.

Podemos comprovar que o mecanismo da memória teria como função a preservação do sujeito, já que a tendência seria evitar as recordações dolorosas. Mas as lembranças não são aleatórias. Haveria uma espécie de compromisso através do qual as imagens mnêmicas guardam alguma relação (especialmente de tempo e espaço) com a vivência reprimida, possibilitando o trabalho de reconstrução. Freud afirma: “O processo aqui discernido – conflito, repressão, substituição com formação de compromisso – retorna em todos os sintomas psico-neuróticos e proporciona a chave para entender a formação dos sintomas” (Freud, 1899, p. 302).

Freud também chama a atenção para o fato de que, nas recordações infantis, a criança se recorda como pensa que foi visto por um observador externo. Ante a tentativa de confirmação dessa vivência com adultos presentes na mesma situação, todavia, rapidamente pode-se chegar à conclusão de que a lembrança está falseada. Ou bem o lugar não era aquele, ou foi noutra ocasião, ou as pessoas presentes eram outras. Varias situações se fusionam ou se separam em vivências diferentes não aleatoriamente, mas de forma tendenciosa e para cumprir com as necessidades da repressão.

Freud chama a atenção para uma questão crucial na articulação das questões do tempo e da memória. Se as recordações infantis são reprimidas, isto só pode acontecer depois da instalação deste mecanismo. Assim, podemos confirmar a já clássica sentença que diz que a memória só é possível porque existe o esquecimento. Neste sentido, não se possuem recordações da infância, e sim sobre a infância; a infância não é lembrada tal como foi “na realidade” e sim como foi construída em tempos posteriores. As lembranças não surgem, são criadas a partir de um sujeito que já não é mais o mesmo: “uma série de motivos alheios ao propósito da fidelidade histórico-vivencial influenciaram esta formação assim como a seleção das lembranças” (Freud, 1899, p. 315). Freud ainda vai tratar deste tema em “Recordar, repetir, elaborar”, de 1914.

 

1.2.      O aparelho psíquico: nascem os conceitos

 

Em 1900, Freud escreve “A interpretação dos sonhos”. No capítulo VII, descreve o que seria sua primeira concepção do aparelho psíquico, o qual imagina como um instrumento composto por sistemas que possuem uma ordenação espacial constante seguindo o modelo das lentes de um telescópio, uma depois da outra. O mais importante, contudo, é talvez pensar que a excitação provocada pelos processos psíquicos percorre estes sistemas “dentro de uma determinada série temporal” (Freud, 1900, p. 531).

Este sistema y teria uma direção, indo do sistema sensorial, que recebe os estímulos em direção ao extremo motor, que libera a motilidade. Vemos que, seguindo o caminho iniciado com “Sobre as afasias”, seria construído o aparelho psíquico como um aparelho de reflexos. A isso, Freud acrescenta:

Agora temos fundamentos para fazer com que ingresse, no extremo sensorial, uma primeira diferenciação. Das percepções que recebemos, resta no aparelho psíquico uma marca que podemos chamar “marca mnémica”. E a função correspondente a essa marca, a chamamos memória (idem).

 

Apresenta-se, agora, uma dificuldade: como entender um sistema que deve conservar fielmente as alterações acontecidas a seus elementos, e ao mesmo tempo manter-se aberto a novas possibilidades de alteração? Responde Freud:

 

Havemos de supor que o primeiro sistema recebe os estímulos perceptivos, mas não os conserva e, portanto, carece de memória e que por trás dele há um segundo sistema, que transpõe a excitação momentânea do primeiro como marcas permanentes (Idem,
p. 532).

 

Agora, como explicar que as lembranças estejam associadas, especialmente no que concerne à simultaneidade? Pois, se o sistema perceptivo não tem nenhuma memória, tampouco pode conservar marcas que sirvam à associação: “Portanto, devemos supor que a base da associação está preferentemente nos sistemas mnêmicos” (idem). Em contrapartida, é o sistema perceptivo que oferece à consciência o amplo leque de qualidades de que dispõe:

 

Inversamente, nossas recordações, especialmente as que se fixaram mais fundo, são inconscientes; é possível transformá-las em conscientes, mas não duvidamos que em estado inconsciente realizam todos seus efeitos. O que chamamos de ‘nosso caráter’ tem base nas marcas mnêmicas de nossa impressões, certamente as que nos produziram um efeito mais forte, as de nossa primeira juventude, são as que dificilmente devêm conscientes. Mas quando as recordações se fazem conscientes, não demonstram nenhuma qualidade sensorial ou uma qualidade sensorial muito pobre em relação às percepções (idem, p. 533).[10]

 

Em “Psicopatologia da vida cotidiana”, de 1901, Freud refere-se ao esquecimento de nomes próprios como fenômeno normal, sendo que, em alguns casos, não existe exatamente um esquecimento e sim uma falsa lembrança.[11] Já nos referimos a este episódio quando tratamos do texto sobre o mecanismo psíquico do esquecimento[12] e falamos sobre a substituição do nome do pintor Signorelli. Ali, o processo pelo qual se busca a evocação de um nome é deslocado até um substituto incorreto, que mantém com o original um nexo possível de ser rastreado, já que obedece a leis associativas.

Sem dúvida, alguns nomes são facilmente esquecíveis por causa da sua complexidade e condições de uso, sendo apenas necessário um esforço de atenção para que acudam à memória. Mas quando o esquecimento persiste aparecendo um substitutivo, devemos considerar a participação do fator repressivo e a significação especial do substituto. Entre o nome esquecido e o substituto deverá haver um nexo pré-existente. De alguma forma, ambos formarão parte de um complexo de representações interligados e a perturbação da lembrança terá como objetivo evitar algum tipo de desprazer.

A relação tempo e memória se faz mais evidente no ponto IV de Psicopatologia da vida cotidiana” chamado “Recordações da infância e recordações encobridoras”. Estas recordações não devem sua conservação ao próprio conteúdo, e sim a seu vínculo associativo com outro conteúdo reprimido, conservando entre eles particulares relações temporais. Retomando o já tratado em “As lembranças encobridoras”, sobre lembranças regressivas e progressivas,[13] Freud acrescentará que é possível os enlaces com a vivência se realizarem não só através do conteúdo, mas também por contigüidade temporal. Estas lembranças são chamadas de simultâneas ou contíguas.

Neste artigo, Freud afirma que é altamente suspeita a veracidade das lembranças anteriores aos quatro anos de vida e que, ainda mais tarde, também não existe garantia nenhuma de sua correção. Freud atribui a falsidade das imagens mnêmicas a deslocamentos no tempo e espaço. Estes “desvios” da memória são causados “por intensos poderes da vida posterior que modelaram a capacidade de recordar as vivências infantis” (Freud, 1901, p.51).

Chama a atenção de Freud o fato de as crianças pequenas terem tão elevado desenvolvimento de capacidades cognitivas e emocionais, e não guardarem lembranças disso. Aqui, no entanto, ele faz um comentário interessante: não se guardam lembranças no sentido da reprodução consciente “e é de supor que essas operações esquecidas da infância não tenham passado pelo desenvolvimento da pessoa sem deixar marcas” (idem, p. 51). E associa essa amnésia infantil com os sintomas neuróticos do adulto: “é possível que o esquecimento da infância possa nos proporcionar as chaves para entender aquelas amnésias infantis que, seguindo nossos mais recentes discernimentos, estão na base da formação de todos os sintomas neuróticos.” (idem)

Será porém em 1908 que Freud elaborará uma das descrições mais bem formuladas da questão temporal, em “O poeta e o fantasiar”:

 

Uma fantasia oscila entre três tempos, três momentos temporais de nosso representar. O trabalho anímico se enlaça a uma impressão atual, a uma ocasião do presente que foi capaz de despertar os grandes desejos da pessoa; a partir dali, remonta-se à lembrança de uma experiência anterior, geralmente infantil, em que aquele desejo era satisfeito, então cria uma situação referida ao futuro onde a satisfação seria possível: o sonho diurno ou a fantasia que levam impressas as marcas de sua origem na ocasião e na recordação. Vale dizer que passado, presente e futuro são como as contas de um colar encadeadas pelo desejo (Freud, 1909, p. 130).

 

O desejo então não é unicamente o motor da espera pelo futuro (sempre ideal); é também o responsável pela transcrição do passado. Assim, podemos entender a história como a relação do sujeito com o tempo, ordenada pelo desejo que metaboliza as lembranças e os anseios.

Em 1911, junto com o caso Schreber, Freud publica um artigo fundamental, em que o tema principal é a diferenciação entre os dois princípios reguladores – prazer e realidade – que dominam respectivamente os processos psíquicos primários e secundários. Neste artigo, chamado “Formulações sobre os dois princípios do acontecer psíquico” – uma excelente porta de entrada para os artigos sobre metapsicologia de 1915 – Freud retoma idéias de trabalhos anteriores, como por exemplo a questão de um sistema de registro de qualidades trabalhada no Projeto, agora articulada aos novos princípios que estão sendo formulados.

A partir da ausência de satisfação, a atividade psíquica não só deve representar o que provoca prazer, mas também aquilo que é desagradável. Assim, o mundo externo, com sua grande oferta de excitações, passa a ter um papel fundamental na formação do princípio de realidade e também de uma certa memória sensorial que diz sobre os atributos dos objetos. Freud escreve:

 

Instituiu-se uma função particular, a ‘atenção’, que iria explorar periodicamente o mundo exterior a fim de que seus dados já fossem conhecidos antes de se instalar uma necessidade interior inadiável. […] É provável que ao mesmo tempo se introduzisse um sistema de ‘registro’ que conteria os resultados desta atividade periódica da consciência, uma parte do que chamamos ‘ memória’ (Freud, 1911, p. 225)

 

Além da repressão, que pode excluir o desagradável, temos agora uma possibilidade de avaliação da representação. Podemos pensar se é verdadeira ou falsa, se suas qualidades coincidem ou não com aquilo que esperamos dela, se adapta ou não à realidade, sempre por comparação com as marcas mnêmicas correspondentes.

Alguns anos mais tarde, em “Recordar, repetir e elaborar”, de 1914, Freud oferece a seus leitores “novos conselhos sobre a técnica psicanalítica”, frase esta que formava parte do título original deste trabalho. Estes conselhos baseiam-se, especialmente, no esclarecimento dos fenômenos de resistência e repetição observados na clínica.

A questão do tempo e da memória, articulados à resistência e à repetição, é presença constante neste texto; o objetivo da técnica psicanalítica seria, em termos descritivos, preencher as lacunas da memória e, em termos dinâmicos, vencer as resistências da repressão. Vencer o bloqueio. Mas um dos pontos mais instigantes deste trabalho refere-se ao questionamento da verdade histórica das recordações.

Freud assinala que, freqüentemente, o paciente pode “recordar” algo que na verdade nunca foi esquecido, pelo fato de jamais ter sido consciente. Com isso, constrói-se uma certeza que não corresponde a recordações de vivências, mas a nexos, fantasias e moções de sentimentos que, definitivamente, não importa muito se alguma vez foram conscientes e depois esqueceram-se ou se jamais chegaram à consciência. Dito de outro modo, o esquecido pode-se limitar à dissolução de nexos, desconhecimento de conseqüências, isolamento de recordações.

Freud diz: “O analisado não se lembra de nada do reprimido, mas o vive de novo. Não o reproduz como lembrança, senão como ato; repete-o naturalmente, sem saber que repete” (Freud, 1914, p 152). Quer dizer que repete de forma inconsciente, que há algo que, naturalmente, impede sua presença na consciência, algo que parte do eu. Esse algo é a resistência.

O inconsciente repete pela resistência do eu. Para que esses conteúdos reprimidos, repetidos, resistidos passem a formar parte da história do eu, faz-se necessário um trabalho de elaboração, isto é, de simbolização. É esse justamente o trabalho da análise tal como Freud a entendia: transformar a repetição em lembranças. No curso da análise, o paciente não lembra o esquecido reprimido, mas o repete como atuação, repete na transferência. Repetição que está a serviço da resistência. Repetição do reprimido, próximo e ameaçador, repetição nos sintomas.

A doença não é um simples episódio a superar, mas uma força, um poder atual com origem no passado reprimido, passado ao qual o analista deve reconduzir o paciente. Parece-me que o tempo aqui é tratado como um espaço que permite considerações tópicas. O inconsciente seria um passado (lugar) ao qual se poderia voltar.

Em “O Inconsciente”, de 1915, sem abandonar o ponto de vista tópico, Freud também se refere ao inconsciente como estado. Estado que introduz a idéia de mobilidade, de possibilidade de transformação, de re-inscrição. Diz ele:

 

Podemos avançar mais um pouco e dizer, em apoio à existência de um estado psíquico inconsciente, que a consciência só abarca um conteúdo exíguo; portanto, a maior parte do que chamamos conhecimento consciente deve encontrar-se em cada caso, e por períodos mais prolongados, em um estado de latência, vale dizer, em um estado de inconsciência psíquica ( Freud, 1915, p. 163).

 

No capítulo V deste mesmo texto, Freud estabelece as propriedades particulares do sistema inconsciente, a saber: ausência de contradição, processo primário (mobilidade dos investimentos por condensação e deslocamento), caráter atemporal, e substituição da realidade exterior pela psíquica. É neste ponto que formula uma de suas mais conhecidas conclusões sobre o tempo, quando diz:

Os processos do sistema inconsciente são atemporais, não estão ordenados de acordo ao tempo, não se modificam pelo seu transcurso e, em geral, não têm nenhuma relação com ele. Também a relação com o tempo depende do sistema consciente (idem, p. 184).

 

Este parágrafo constitui um tema dos mais discutidos na psicanálise pós-freudiana. Por exemplo, Maurice Dayan chama a atenção para o fato de que, embora as três primeiras asseverações sejam verdadeiras, a conclusão é falsa ou ao menos questionável. Ou seja, o tempo tem algo a ver sim, com os processos inconscientes pois, em se tratando de processos, não podem ser pensados fora de qualquer tempo (Dayan apud Le Poulichet, 1994, p. 31).[14]

Le Poulichet concorda com Dayan e, dando ênfase à idéia de movimento e processo, acrescenta:

 

Cada operação própria de um processo inconsciente (deslocamento, projeção, formação de seqüências, transferências, etc.) tem apenas de fato uma consistência temporal, e não espacial: é um modo de tempo ou uma operação de transformação e da passagem. […] Trata-se de acontecimentos que não cessam, que não estão parados nos nomes, nem encaixados em imagens fixas … eles se fazem ainda e ainda, não evocando em nada a idéia de um ‘depósito inconsciente’ que jaz em nós mesmos (Le Poulichet, 1994, p. 32).

 

Em “Os caminhos da formação do sintoma” (Conferência 23, 1917), Freud vai acrescentar outra questão de suma importância para suas elaborações sobre a questão do tempo e a temporalidade, questão que se refere ao conceito de verdade. Ele diz que as cenas infantis lembradas no curso da análise algumas vezes são perfeitamente verdadeiras, a maioria das vezes uma mistura de verdadeiras e falsas e freqüentemente totalmente falsas, em total oposição “à verdade histórica” (Freud, 1917, p. 335).

Fica claro que Freud estava preocupado com o discernimento da verdade histórica, a tal ponto que confessa: “Estamos tentados a nos ofender pelo fato de os pacientes nos ocuparem com umas histórias inventadas” (idem). Ao mesmo tempo, trabalha no sentido do esclarecimento dessas invenções, não deixando de reconhecer que as mesmas ocultam “situações de desejo calcadas em vivências infantis” (idem). Acrescenta, porém: “Elas [as fantasias] possuem realidade psíquica, por oposição a uma realidade material, e aos poucos apreendemos que, no mundo das neuroses, a realidade psíquica é a decisiva” [15]

No capítulo IV de “Além do Princípio do Prazer” Freud volta a insistir na hipótese de que os processos excitatórios deixam marcas permanentes no inconsciente. Estas marcas formam a base da memória e isto nada tem a ver com a consciência; os processos mais fortes e duradouros são os que jamais chegaram a se fazer conscientes.

Se a memória fosse um fenômeno consciente, tudo registraria e não existiria o esquecimento. Funcionaria como a personagem de Jorge Luis Borges, “Funes, o memorioso”,[16] que nada podia esquecer e que estava condenado a viver um presente perpétuo, já que nada se tornaria passado. Estes processos excitatórios não deixam nenhuma marca duradoura sobre o sistema Cc, nada sobre o que se apoiar uma recordação e todas as marcas se produziriam por propagação da excitação aos sistemas internos (de memória): “A consciência surge no lugar da marca mnêmica” (Freud, 1920, p. 25).

Garcia-Roza insiste: “A memória de que nos fala Freud é memória do sistema y de neurônios, portanto, memória inconsciente” (Garcia-Roza, 1995, p. 44). E nos lembra que, quando Freud pensou seu aparelho anímico, não pensou a memória como uma propriedade do mesmo, algo que surge depois do aparelho já constituído, e sim como sua causa, sua pré-condição. “Para Freud, não há psiquismo sem memória” (idem. p. 45).

Claude Le Guen também assinala este aspecto, ligando-o à questão da história quando diz:

 

Os processos de memória pertencem exclusivamente ao inconsciente, então haveria uma incompatibilidade entre consciência e memória. A consciência aparece em lugar do traço mnêmico de Freud: na consciência, há o tempo, os afetos e os investimentos num mundo exterior, não há memória em ação, então não há história. A memória, que trabalha no inconsciente e a noção de tempo (apanágio da consciência) se excluem mutuamente. A consciência pode usar da memória em forma de recordações, porém não as fabrica. Os novos investimentos vão ser chamados a se integrar (por repressão, deslocamentos, etc.) às recordações portadoras das representações que fazendo um sentido as tornem suportáveis, representáveis, memorizáveis, ou seja, historizáveis (Le Guen, 1997, p. 1649).

 

Para explicar melhor este particular, e sempre na trilha do Projeto de 1895, Freud cria em “Além do princípio do prazer” o modelo da vesícula, através do qual representa o organismo vivo em sua máxima simplificação, como uma vesícula indiferenciada de substância viva.

Seguindo o modelo embriológico, pelo qual o sistema nervoso se constitui a partir do ectoderma, esta vesícula teria sua superfície voltada para o mundo exterior para ser receptora de estímulos dele provenientes.

 

Assim, seria facilmente pensável que, pelo incessante embate dos estímulos externos sobre a superfície da vesícula, a substancia desta alterasse até uma certa profundidade, de modo que o processo excitatório ocorresse de uma forma mais diversa do que em estratos mais profundos. Desse modo, se haveria formado uma casca tão crivada no final do processo pela ação dos estímulos que ofereceria as condições mais favoráveis à recepção dos mesmos, mas não sendo possível sua ulterior modificação. Transferido isto ao sistema Cc, isto significaria que a passagem da excitação já não pode imprimir nenhuma relação permanente a seus elementos. Eles estão modificados ao máximo neste efeito, sendo assim habilitados para gerar a consciência (Freud, 1920, p. 26).

 

Tal como no Projeto, no modelo da vesícula, a excitação deve vencer algumas resistências para continuar seu curso, abrindo caminhos, facilitações; seu estrato cortical, aberto ao mundo, só pode evitar ser aniquilado pela força dos estímulos externos criando uma proteção anti-estímulo. Este estrato cortical sensitivo também recebe estímulos internos, ante os quais não contaria com nenhuma proteção. Estes seriam os responsáveis pelas sensações de prazer ou desprazer em relação aos estímulos externos, que então poderão ser tratados como provenientes do exterior com a finalidade de aplicar-lhes a defesa da proteção anti-estímulo.

Haveria também estímulos externos de tal intensidade que poderiam perfurar essa barreira de proteção anti-estímulo dando origem aos traumas. Ante um trauma, o princípio do prazer seria anulado e o organismo ficaria à mercê das intensidades excitatórias. Por esta razão, o objetivo de todo o sistema será controlar essa intensidade, dominar os estímulos, religá-los e conduzi-los a uma tramitação.

Neste texto Freud também retoma o que já havia postulado em “O inconsciente”, de 1915, e, quase com as mesmas palavras, expressa a questão da atemporalidade do inconsciente quando escreve:

 

A tese de Kant segundo a qual o tempo e o espaço são formas necessárias do pensamento pode ser atualmente questionada à luz de certos conhecimentos obtidos por intermédio da psicanálise. Descobrimos que os processos anímicos são, em si mesmos, atemporais. Isto significa que, em princípio, eles não se ordenam temporalmente, que o tempo nada altera neles, que uma representação do tempo é impossível (Freud, 1920,
p. 28).

 

Freud nos lembra que 25 anos antes deste trabalho, “A psicanálise era fundamentalmente uma arte de interpretação” (Idem, p. 18). Mas nada se resolvia comunicando, explicando e reconstruindo para o neurótico o motivo de seu sofrimento e tampouco tornando consciente o inconsciente se resolvia a questão:

 

O doente não pode lembrar tudo o que nele há de reprimido, apenas o essencial. Assim, não terá convicção sobre a justeza da comunicação que lhe foi transmitida. Então se verá forçado a repetir o reprimido como vivência presente, em lugar de recordá-lo” (idem, p. 18, grifo meu).

 

Surge assim a compulsão à repetição, como esse “eterno retorno do igual” (idem, p. 22). Ora, se é eterno retorno, é movimento temporal, mas de uma temporalidade diferente da encadeada pela linearidade de passado, presente e futuro. Decididamente, o conceito de repetição envolve uma nova concepção sobre o tempo. Agora o inconsciente conserva suas propriedades básicas de atemporalidade cronológica, mas ganha sua própria temporalidade expressa na repetição, que se liga de forma definitiva à questão da pulsão de morte.

Vimos que Freud já trabalhara sobre estes temas em “A interpretação dos sonhos”. Junto com estes dois últimos textos que estamos tratando, constituem uma trilogia fundamental para quem quiser se adentrar nas questões da temporalidade freudiana.

Num breve texto de 1925, intitulado “Notas sobre o Bloco Mágico”, Freud insiste na idéia de que as cargas de excitação são periodicamente enviadas ao sistema perceptivo a partir do interior do organismo. Enquanto esse investimento perdurar, o sistema transmite as imagens acompanhadas de qualidades sensoriais, mas quando a carga é retirada, a consciência cessa.

 

As marcas duradouras das excitações recebidas teriam lugar em sistemas mnêmicos localizados atrás. E em “Além do princípio do prazer” (1920) disse que o inexplicado fenômeno da consciência surgiria no sistema perceptor no lugar das marcas duradouras (Freud, 1925, p. 244).

 

Assim como no bloco mágico, contamos com uma superfície perceptiva sempre disponível e marcas duradouras dos caracteres recebidos. Acrescenta Freud:

 

Seria como se o inconsciente, por meio do sistema P-Cc, emitisse em direção ao mundo exterior umas antenas e as retirasse rapidamente depois destas tomarem amostras de suas excitações. Na nossa hipótese, atribuímos as interrupções, que no caso do bloco mágico provêm do exterior, ao efeito de uma descontinuidade das inervações e, no lugar de uma supressão real do contato, supomos uma insensibilidade periódica do sistema perceptor. Por último, supomos também que este funcionamento descontínuo do sistema perceptor constitui a base da idéia de tempo ( idem, p. 247).

 

Esta sensibilidade periódica, esta descontinuidade do aparelho receptor, constitui para Freud a origem da idéia de tempo. Ou seja, um aparelho que se abre ou fecha de acordo com as exigências internas (econômicas) do psiquismo. Cabe notar que essas exigências internas têm a ver com o aumento ou diminuição da tensão, isto é, com a entrada em ação do princípio de prazer. Não se trata, contudo, apenas de um fator quantitativo: a periodicidade, o ritmo, aludem a algo qualitativo, a um ciclo temporal desse movimento. Algo que acontece em um período de tempo. Sobre este particular, não há melhor síntese do que o seguinte parágrafo de Renato Mezan:

 

Esta idéia parece menos surpreendente se levarmos em conta o caráter repetitivo do processo de perceber: perceber é reencontrar, o que supõe um corte representado pela perda. O enigma da temporalidade freudiana, centrado no conceito de repetição, vem se esclarecer por esta via, por assim dizer oblíqua. […] a temporalidade não é, para Freud, linear, já que inconscientemente desconhece a sucessão; ela tampouco é constituinte, porque o inconsciente deseja sempre o Mesmo. Nem positivista nem hegeliana, a temporalidade freudiana é repetição (Mezan, 1991, p. 274).

 

 

1.3.      O efeito de posterioridade

 

Chegamos, agora, ao momento de abordar um dos conceitos fundamentais da teoria freudiana sobre o tempo, que constitui um dos pilares mais importantes para a construção da psicopatologia psicanalítica. Refiro-me ao efeito de posterioridade, ou a posteriori, também chamado de ação diferida, aprés-coup ou, como Freud o nomeava em alemão, nactranglich e nachtranglichkeit, seja na forma adjetiva ou substantiva.

Embora seja profusamente usado em toda a obra freudiana (como no caso Emma, que já mencionamos neste capítulo), será em “O Homem dos Lobos” (1914) que encontraremos a mais bem acabada explicação de Freud sobre o assunto.

Um dos pontos mais interessantes sobre o Homem dos Lobos é que o texto não conta as vicissitudes do tratamento atual; há muito pouco sobre o presente do paciente. Freud nos anuncia que o Homem dos Lobos o consulta aos 23 anos, mas nos relata uma neurose infantil desenvolvida na infância e analisada somente 15 anos mais tarde. O texto não denota esse passado longínquo, podemos lê-lo como se os fatos ali relatados fossem recentes; no presente do texto, o passado se presentifica. O termo alemão nachtraglich comparece no texto uma vintena de vezes e o nachtraglichkeit se faz presente, no mínimo, em duas ocasiões. Veremos depois a diferença entre os dois.

Citarei a seguir alguns dos parágrafos mais importantes nos quais aparece nomeada especificamente a questão da posterioridade (nachtraglich e nachtraglichkeit).

  1. “Quando contava um ano e meio, recebeu as impressões cuja compreensão, com efeito retardado (nachtraglich), lhe foi possibilitada depois, na época em que o sonho acontece”. (Freud, 1914, p. 37).
  2. Falando da cena primária: “resultará evidente que a ativação dessa cena (propositalmente evito dizer lembrança) tem o mesmo efeito que se fosse uma cena recente. A cena produz um efeito com posterioridade” (nachtraglich) (Idem, p. 42).
  3. “Este é simplesmente um segundo caso de posterioridade (nachtraglichkeit), efeito retardado. Quando o menino conta com um ano e meio, recebe uma impressão frente à qual não pode reagir suficientemente; só atinge sua compreensão e é capturado por ela quando é revivida aos quatro anos, e só duas décadas mais tarde, durante a análise, pode realizar uma atividade de pensamento que o conecte com aquilo que então ocorrera dentro dele” (Idem, p.44).
  4. “Em primeira instância, é influenciado de forma decisiva pela sedução e depois desviado pela cena de observação do coito, que com posterioridade (nachtraglich) exerce o efeito de uma segunda sedução” (Idem, p. 46).
  5. “Não precisamos mais supor que os pais consumaram o coito na presença da criança, por pequeno que este fosse, fato que sem dúvida para muitos de nós constitui uma representação desagradável. Também diminui o prazo da posterioridade (nactraglichkeit) ‘efeito retardado’ que agora vemos reduzida a apenas uns meses do quarto ano de vida” (Idem, p. 56).

Para Luiz Hanns (1996), Freud usa Nachtraglich como a posteriori ou posteriormente, ou seja, como um advérbio. Isto aparece nos casos 1, 2 e 4 dos exemplos apresentados. Nachtraglichkeit, em contrapartida, corresponderia a ação diferida, ainda que não se trate exclusivamente de uma ação, podendo ser também um pensamento ou um efeito. Seria, neste caso, um substantivo, como nos exemplos 3 e 5.

Comprovamos que o substantivo Nachtraglich permite uma dupla leitura: a primeira é que o efeito de alguma coisa acontecida no passado só se manifesta depois, sendo este o caso do “efeito retardado” (o aprés-coup dos franceses), em que o choque de um evento é sentido posteriormente. Também pode significar que o próprio sujeito traz o evento do passado para o presente, uma “volta ao passado”, como fruto de uma intenção, isto é, de uma atividade consciente. Mas ambos encerram sempre um processo elaborativo.

Em alemão, porém, o termo nachtraglich

 

…enfoca a permanência de uma conexão entre o agora e o momento de então, mantendo ambos interligados. Pode-se carregar para o passado uma nova visão (o que leva ao retorno ou ao acréscimo de algo que faltava) ou então se pode trazer (carregar) do passado para o presente o evento antigo e acrescentar-lhe algo, atualizando-o” (Hanns, 1996, p. 83).

Quando traduzimos o termo por “posteriormente”, temos a idéia de que é possível se afastar do evento e, a partir deste ponto de vista mais distante, avaliá-lo melhor. Assim perdemos a idéia da permanência do evento com o sujeito e, portanto, a possibilidade elaborativa desse tempo de permanência como tempo de maturação e ressignificação. O que o nachtranglich freudiano principalmente evoca é um movimento, um trânsito entre o passado e o presente nos dois sentidos já assinalados:

 

…uma manifestação retardada (postergada) do passado, o qual, fermentado ao longo do tempo, só mais tarde se faz sentir, criando um efeito retardado ou, em vez disso, pode ocorrer um retorno ao passado (ou, o que é equivalente, uma presentificação do passado) realizando-se um acréscimo a posteriori de novos significados a ser acrescentados aos antigos eventos (Hanns, 1996, p. 84).

 

No primeiro caso, estamos na presença de uma representação reprimida que continua a agir provocando sintomas; no segundo caso, um evento acontecido no passado tem acesso a novos contextos de significação, sendo então reativado, ou melhor, ressignificado por acréscimo. Claro que uma combinatória dos dois é perfeitamente possível e mesmo verificável clinicamente, já que o termo nachtraglich aponta na direção do entendimento de uma ação simultânea de ambos os vetores de interpretação, como vemos no exemplo 3.

Sabemos que 1914 é o ano de finalização do primeiro tratamento do Homem dos Lobos e que, imediatamente, Freud escreve (mas não publica) seu historial clínico. Nesse mesmo ano é publicado “Recordar, Repetir, Elaborar” que, embora seja um legado da teoria da sedução, nos introduz à questão da temporalidade. Neste trabalho, Freud já faz uma menção ao historial clínico que nos ocupa. Ele diz:

 

Muitas vezes resulta impossível chegar a uma lembrança sobre importantes vivências acontecidas na infância e que, naquele tempo, não foram compreendidas mas que acharam uma interpretação com efeito retardado (nachtreglich). […] Este tema exige tal precaução crítica e aporta tantas coisas novas e surpreendentes, que o deixo para ser tratado de forma especial com outros materiais apropriados (Freud, 1914, p. 51).

 

Este delicado conceito, que já vinha sendo trabalhado havia tempo, nos introduz em uma nova dimensão da temporalidade. Agora, o tempo perde sua linearidade; passado, presente e futuro são subvertidos por um efeito de memória. A ação diferida não é mais uma questão de tempo como lapso, é um tempo de ressignificação, que aponta para uma construção. Não é entretanto todo e qualquer passado que pode ser presentificado, mas apenas aquele que no momento do acontecimento não pôde ser integrado a uma cadeia significativa, que não pôde ser simbolizado. Encontramo-nos, então, no campo do traumático.

Claro está que não esgotamos aqui – nem pretendíamos – os pensamentos de Freud sobre a questão temporal, mas este trajeto que acabamos de realizar e que abrange trinta anos de textos freudianos, permitiu-nos apreciar a evolução de seu pensamento sobre a questão da memória ligada com a temporalidade. Uma evolução que nos levou desde um modelo neurológico até a resistência e a repetição, e nos possibilita, agora, continuar pensando em relação a elaborações posteriores, como são as relacionadas com a segunda tópica, a pulsão de morte e a constituição do eu.

 

 

  1. História e repetição

 

Tal como vimos desde os primeiros escritos freudianos a este respeito, a temporalidade não se refere exclusivamente à percepção consciente do tempo, da qual temos uma representação que nos permite uma ordenação cronológica. No sistema inconsciente, e apesar do que Freud dizia sobre a atemporalidade dos processos inconscientes,[17] deslocamentos, condensações, regressões etc, esses outros tempos modulam o eterno presente da repetição. Repetição que é justamente o encontro (ou a colisão) desses tempos.

Na verdade, o inconsciente não realiza uma ordenação cronológica; os processos inconscientes não participam do tempo da realidade pelo simples fato de serem processos primários, que estão fora do princípio de realidade. No processo primário, a energia escoa livremente, passando de uma representação a outra sem nexo de união, sem o nexo simbólico que é função própria do processo secundário.

Por outro lado, o recalcado no inconsciente não fica quieto e desativado, mas ativo em seu papel de produzir efeitos, sempre prestes a fazer sua aparição no momento propício. O inconsciente insiste, não pode renunciar a nada; no inconsciente nada deixa de existir. Ele não tem a vantagem do consciente de poder expulsar algo indesejável para fora de si; por isso, está sempre procurando ligações, representações às quais se ligar para ganhar acesso à consciência. No inconsciente, o tempo não passa, isto é, não cessa, não acaba, está sempre pulsando numa espécie de atualidade absoluta. O tempo do traumático é um exemplo do tempo que não passa. A fantasia é outro. (Le Poulichet, 1996, p. 40).

Quando, ao longo de seu trabalho clínico, Freud percebe que conteúdos sexuais infantis são rechaçados e submetidos ao esquecimento, ele não atribui este fenômeno a um mecanismo próprio da memória como função neurológica, mas sim a certas situações originadas na vida cultural, como o asco, o pudor e as normas e valores sociais.[18] Situações que submetem mas não anulam. Vale dizer que a pulsão, que não cessa de pulsar, é submetida à cultura, que lhe permite uma historização. A cultura lhe destina um lugar num sistema temporal que abrirá os caminhos para os adiamentos, as postergações, enfim, para as transformações necessárias à obtenção dos fins socialmente aceitáveis.

Se, ante a primeira experiência de satisfação e a tendência a sua eterna repetição, não surgisse o Outro, provocando cortes e desvios de percursos, essa experiência não poderia ser chamada de primeira, pois não haveria repetição – só é primeira porque esperamos uma segunda. Do mesmo modo, só se pode repetir alguma coisa que já acabou, do contrário se constituiria um contínuo absoluto mortífero, um não-tempo. É no adiamento da satisfação, na espera pelo alimento que não chega, que surge a idéia do tempo no psiquismo, simultaneamente à noção de espaço e de eu.

Os processos secundários assim inaugurados (identidade de pensamento, energia ligada) virão permitir uma saída à repetição absoluta alucinatória. Deste modo, o sujeito poderá transformar a realidade externa que lhe impõe o adiamento da satisfação para poder achar os objetos de sua satisfação. Estes objetos, de toda forma, serão sempre incompletos já que a satisfação originária é irreproduzível.

Entre a busca permanente do prazer originário e a adaptação à realidade governada pela linguagem, que impõe a lógica da flecha temporal, o eu permanecerá sempre dividido. Agora, então, fica claro que princípio de prazer e princípio de realidade são processos psíquicos que não se anulam mas gozam de temporalidades diferentes. Por um lado, teremos o processo primário, que não aceita adiamentos, transformações, e negatividades, o tempo de repetição absoluta do mesmo; por outro, o processo secundário com seu principio de realidade que impõe o tempo linear. O processo secundário procura a reiteração na diferenciação com o primário e, graças à substituição, possibilita o prazer; exige, no entanto, a espera, promove a recordação e produz a esperança.

O inconsciente, tal como entendido por Freud, não é atemporal; é uma história que não se reconhece como tal. Não está fora do tempo, mas é regido por um outro tempo que, no presente constante de suas diferentes inscrições, rechaça o tempo do consciente, do secundário e se impõe como repetição. Então, podemos pensar em um registro inconsciente ligado ao prazer primário, um movimento em procura de um prazer originário ao qual o eu ideal não pode renunciar.[19]

Há ainda um outro tempo, o tempo dos processos secundários, que guardam uma promessa de futuro, tempo de construção de tentativas e caminhos na vã esperança de restituição do ideal absoluto. É o processo secundário, através da atividade do pensamento, que nos oferece uma prova de realidade.

Pode-se ter certeza da realidade de um objeto quando é reencontrado, quando sua representação corresponde a outro que já foi conhecido e perdido, como um padrão de avaliação; o objeto que alguma vez foi fonte de satisfação real e depois foi perdido é o padrão para avaliar a realidade do novo. A prova de realidade é uma prova do tempo transcorrido entre a primeira experiência em relação a esse objeto e a atual. A lembrança é a repetição de algo que já foi, é um reencontro; se assim não tivesse sido, não poderíamos encontrá-lo. Mas para que possua a qualidade de ter sido é necessário que se tenha perdido.

Tempo enfim de construção de história: não há historização possível no isolamento narcísico. Não há subjetivação possível fora do Outro. Não há história fora da alteridade e esta alteridade é em si mesma histórica. O outro originário, em relação ao qual a criança estrutura sua subjetividade, desde sua constituição, já está imerso em uma trama que é histórica e que marcará um caminho identificatório a ser trilhado. O originário não está fora da história, porque o outro está dentro dela. Por essa razão, embora falemos da historização do sujeito, não devemos esquecer que as condições em que este processo se desenvolve já são historizadas.

Poderíamos dizer que o sujeito não se torna histórico, pois já o é desde sua origem. As vicissitudes da vida encontrarão um núcleo básico, uma certa variedade de caminhos possíveis – mas não todos – sobre os quais uma grande quantidade de transformações será possível. Neste movimento, há de se definir a singularidade; a história, ainda que individual, é uma história social.

Freud postula a partir de 1920 – em “Além do princípio de Prazer” – o conceito de pulsão de morte. Esta teria um tempo de repetição compulsiva, diferente da repetição que procura o prazer encontrado, por exemplo, na fantasia, na criatividade, na sublimação, na transferência ou na reminiscência.

Será, entretanto, em “O mal-estar na cultura” que o desligamento do laço social cobrará seu sentido mas amplo e verdadeiro, relacionado com o isolamento, a solidão e o vazio que invadem a experiência subjetiva moderna. A experiência de destruição assim instaurada só pode ser neutralizada a partir do fortalecimento do laço social e da temporalidade histórica.

O narcisismo primário do eu ideal onipotente mantém o sujeito alienado dos objetos primordiais (pai primitivo, mãe narcísica), o que impossibilita todo movimento de substituição desses objetos por outros mais da ordem da fratría e da reunião de pares, além da relação com um líder ou um ideal valorizado e a união da massa. Este movimento só será possível através da mediação do Ideal do eu. O processo secundário virá impor sua temporalidade para que o sujeito possa se apropriar de sua história, do tempo originário e da filiação em relação a um futuro sempre ideal ligado ao coletivo. Podemos observar, então, que, tanto no plano individual quanto no social, a pulsão de morte é um limite que se contrapõe à função socializante da pulsão de vida.

Abre-se, assim, a possibilidade de pensar que a repetição compulsiva da pulsão de morte e os processos primários (nestas condições, mortíferos) regidos por um tempo de presente absoluto, negação de toda temporalização, dominem a vida do sujeito no fértil campo de interrupção do laço social e do isolamento narcísico. Para a Psicanálise, a história são aqueles nós em que o passado se atualiza e a morte temporaliza o presente, já que é ela que determina o sentido da vida como temporalidade. Sobre este particular, Galende afirma:

 

…Freud é levado a postular a presença da morte no seio da vida, entendendo o presente como tensão irresolúvel entre ambas. […] …as temporalidades subjetivas que denominamos história e repetição serão ordenadas por sua relação (fusão-defusão) com estas duas pulsões: Eros e Tânatos (Galende, 1992, p. 33).

 

A pulsão de morte, então, impede a função historizante e socializante e, como tal, é regressiva. O conceito de pulsão aparece como a chave mestra para elucidar a diferença entre história e repetição, pois o tempo pulsional é a-histórico, alheio às ordenações da linguagem, de onde se deduz a atemporalidade do inconsciente.

A relação do homem com o tempo, tal como nos aparece na modernidade, não pode mais ser pensada sem que se dê atenção às contribuições da psicanálise sobre este tema. A psicanálise chama a atenção para o não-linear, para o que resiste a qualquer cronologia, para os desvios, para as nuances e, sobretudo, para a história vivencial construída de memória emocional. A memória emocional declara a presença do desejo em sua relação com a temporalidade e questiona o conceito de verdade.

A história é a trama do vivido que pulsa para se presentificar; ela é um trabalho que tira o sujeito da pura atualidade, permitindo o investimento pelo desejo e a esperança. Cria-se, assim, um presente sobre o qual investe o passado e que projeta sua ilusão sobre o futuro.

Em ”Moisés e o monoteísmo”, no tópico intitulado “A verdade histórica vivencial”, Freud dirá que não foi demonstrado:

 

que o intelecto humano possua um faro particularmente bom para a verdade, ou que a mente humana demonstre qualquer inclinação especial para reconhecê-la.Encontramos antes, pelo contrário, que nosso intelecto facilmente se extravia sem qualquer aviso, e que nada é mais facilmente acreditado por nós do que aquilo que, sem referência à verdade, vem ao encontro de nossas ilusões carregadas de desejo. Temos por esta razão, de acrescentar uma reserva a nossa concordância. Nós também acreditamos que a solução piedosa contém a verdade – mas a verdade histórica, não a verdade material -. E assumimos o direito de corrigir uma certa deformação a que essa verdade foi submetida em seu retorno (Freud, 1934-38, p. 124).

 

A história vivencial, ao se inscrever sob diferentes representações, ao se ressignificar, marca no sujeito diferentes temporalidades: a temporalidade da repetição inconsciente e a temporalidade linear do processo secundário, que traduz as marcas psíquicas.[20] As marcas não traduzidas são as reprimidas, sentidas como se fossem de um “outro tempo”; estranhas porém próprias, provocam a repetição evitando a recordação.

Sob o ponto de vista da psicanálise, pensar a temporalidade implica fundamentalmente abordar dois aspetos distintos: a relação com o outro e os aspectos subjetivantes da historização. Quanto à questão do outro, podemos dizer que este outro originário não está fora da história, ele é também sujeito de sua história. Ele possui já uma história que passará para o novo sujeito sob a forma de valores e costumes, por exemplo. Disto se deduz que o sujeito não se historiza mas, por nascer num meio já historizado e de sujeitos históricos, se constitui numa trama intersubjetiva que já é histórica. Ou seja, o sujeito não se torna histórico, ele o é desde sua origem.

A dinâmica entre relação com o Outro e historização não se realiza sem acidentes de percurso, que podem provocar diversos estados marcados por um tempo originário de repetição tanto no plano subjetivo quanto no social. Fracasso do processo de historização que gera a liberação de um narcisismo primário mortífero. Repetição que não tem a ver com o prazer e sim com o compulsivo. A pulsão de morte é um limite imposto à função historizante da pulsão de vida.

Em “O Homem dos Lobos”, discutindo o estatuto de verdade das lembranças, Freud já afirmara:

 

….poderiam ser invocados muitos fatores em apoio à idéia destas cenas serem fantasias regressivas. Especialmente o seguinte: estas cenas infantis não são reproduzidas na cura como lembranças – ao menos até onde chega minha experiência atual – mas são resultado de uma construção (Freud, 1919, p. 49).

 

O passado não é pura marca mnêmica do vivido, é uma construção desejante que se ordena – da mesma forma que o futuro – de acordo com os anseios, esperanças e fantasias. História não é resgate, é construção que usa como material privilegiado os desejos do sujeito.

Claude Le Guen nos diz:

 

O tempo é, antes de qualquer coisa, uma questão de investimentos. A temporalidade não é mais que o efeito de um quantum de afeto projetado na realidade exterior. Para concluir em uma representação e em um julgamento desta realidade, uma verdadeira apropriação pelo sujeito de seus relações com o mundo: é isto que chamamos história, sua história, e nela, aí sim, o tempo é acessório (Le Guen, 1997, p. 1649).

 

Para a psicanálise, a história é formada por aqueles pontos de encontro ou balizamentos onde o vivido se reencontra, não como foi vivido, mas como deve ser lembrado em relação ao que no momento da recordação move o desejo. É por isso que sempre são possíveis novas interpretações para o mesmo fato. O que vem a demonstrar que jamais é o mesmo fato.

Na experiência temporal observamos que um incidente insignificante, um cheiro, uma sensação qualquer, nos coloca em contato com algo da ordem do passado, algo que pode ter sido despercebido, e não apenas esquecido. O cheiro de terra molhada que traz ao presente sensações da infância é algo que não volta como lembrança, mas como fato que se repete em um outro tempo. Uma presença que abole o tempo (estático, universal) transcorrido entre as experiências, uma presença que rasga a trama do tempo (instaurando um outro tempo) e atinge o corpo como emoção. Assim, o tempo linear é quebrado por um acontecimento que articula os vestígios mnêmicos de que Freud já nos falava na carta 52.

Estas infinitas combinações de vestígios de memória formam uma espécie de memória plural, em que cada vestígio vai assumir seu valor de acordo com o lugar que ocupe na rede de memória; eles só podem existir nesta rede (Pontalis, 1999).

O passado é historizado quando há identificação do fato atual com o fato passado, constituindo-se um fato único por abolição do tempo na emoção. O acontecimento novo é necessário para que aquele do passado adquira sua significação dentro da trama. Ele já estava lá, mas também não estava pois nada significava se não era lembrado, se não estava dentro do tecido da memória significante. A história só é o passado quando pode se atualizar no presente. Por isso não interessa qual é a história de alguém, quando considerada em termos biográficos de coisas vividas. A história que interessa é a dos fatos significativos da existência, que será a história do desejo.[21] Como dizia Freud em “O poeta e o fantasiar”, o desejo será o fio que unirá a verdadeira história desse sujeito. Então, se a história não pode se confundir com o passado, nem com o vivido, também não se pode confundi-la com o conteúdo de um receptáculo inconsciente.

Vemos então que, do ponto de vista da psicanálise, no cerne desta relação do homem com o tempo estão as duas formas da temporalidade humana: história e repetição. E, para nos aprofundarmos nos intrincados processos da historização, propomos seguir, mesmo que brevemente, o pensamento de Piera Aulagnier.

 

 

  1. A memória em Piera Aulagnier[22]

 

Leitura obrigatória para todos os psicanalistas interessados na psicose, Piera Aulagnier vem hoje em nosso auxílio porque suas elaborações sobre a constituição histórica do eu, sobre o tempo e sobre a memória são essenciais para aqueles psicanalistas que desejem compreender as vicissitudes da subjetividade no processo de envelhecimento. É justamente esta autora que retoma brilhantemente a questão da história vivencial tal como já tinha sido definida por Freud em “Moisés e o monotéismo”, articulada com a questão da formação do eu e do sujeito.

Veremos, neste capítulo, suas concepções acerca da memória e voltaremos a ela no capítulo seguinte para estudar seu conceito de eu, central em suas elaborações.

Piera Aulagnier sustenta que a possibilidade de construção histórica é o que permite esclarecer a ligação existente entre a emoção atual e aquela outra, correlata, que acompanhou uma experiência no passado. Esta ligação só pode acontecer entre duas reações emocionais, sentidas, portanto, no corpo. Ambas guardam entre si uma relação tal de re-vivência, que quase consegue abolir o tempo que distancia uma da outra, ao ponto de serem sentidas como se fossem a mesma; assim, uma intensidade que parecia perdida retorna provocando a avalanche da memória, pois um traço na emoção presente provoca um investimento na mesma lembrança que já provocara esse tipo de emoção. Este acontecimento que apaga o tempo entre uma e outra experiência terá como conseqüência algum tipo de modificação em ambas; assim, a emoção atual achará sua causa, e a passada sua re-significação.

Quando, ante algum estímulo presente e sob os efeitos de alguma emoção, as pessoas lembram de qualquer fato do passado, geralmente referem-se a isso dizendo que sentiram-se iguais à ocasião em que tal fato aconteceu. A partir daí, uma série de coisas que pareciam definitivamente esquecidas serão lembradas, construindo-se um sentido anteriormente ignorado. A emoção, sempre corporal, é também sempre consciente, embora o eu raramente possa explicar o que está sentindo (Aulagnier, 1996, p. 11).

Só através desta participação do corpo, experiências passadas, que não faziam parte do memorizável, podem encontrar uma via de aceso ao espaço do eu. Neste sentido, toda emoção, independente de suas qualidades, problemáticas ou idade do sujeito que a experimenta, envolve esse efeito de ligação entre um traço do acontecimento atual e outro do passado.

É como se existissem balizas a orientar o caminho da construção histórica, referências aguardando para serem reencontradas, cuja existência antes desconhecida pode agora constituir uma lembrança marcante. É aquilo que se encontra sem se procurar, a lembrança que irrompe como emoção reconhecida. Embora possam se reencontrar muitos destes pontos que balizam um caminho, contudo, este jamais poderá ser percorrido em toda sua extensão e complexidade.

Estas balizas constituem pontos de capiton, pontos de partida a partir dos quais uma história pode ser contada. Constituem um “fundo de memória”, que, sempre que acionado, protege contra o desinvestimento, constituindo nosso passado. Na construção desse passado, o eu desenvolverá um trabalho impondo a posteriori uma ordem temporal às recordações que não necessariamente corresponderá à ordem cronológica dos acontecimentos.

A estas balizas Piera Aulagnier também chama “representações conclusivas”; elas consistem de um condensado de representações que acompanharam as diferentes fases relacionais (orais, anais, fálicas). No conjunto, formam moldes relacionais que permitem ao sujeito falar de seu presente em relação a sua história. A cada fase relacional corresponde uma linguagem própria e a construção histórica consistirá na passagem de uma linguagem a outra, na possibilidade do sujeito “falar” seu passado com sua linguagem presente. Estamos, então, ante a evidência da existência do que podemos chamar de “memória fundamental”:

enunciados identificantes, cujos vestígios o Eu deve guardar para que aquilo no que ele vai se tornando possa ligar-se àquilo que ele era, de modo que uma linha vermelha ou um fio condutor mantenha juntos momentos de seu passado impedindo sua evaporação (idem,1996, pág 14).

 

Sem este fundo de memória, sem esses fragmentos de lembranças, o Eu seria condenado a uma eterna viagem de regresso a um continente escuro, sem encontrar jamais as balizas identificatórias que lhe permitam ser, no presente, o efeito do que já foi. Sem esse fundo de memória fundamental, não existiria o Eu.

Num belíssimo texto chamado “Se construire um passé” apresentado no Congresso de Mónaco sobre Narcisimo e Adolescencia em 1988 e ainda não traduzido ao portugués, Piera Aulgnier diz:

 

Volto ao mesmo tema na esperança de demonstrar que é durante o tempo da infancia que o sujeito deverá selecionar e apropriar-se dos elementos constitutivos desse fondo de memória, graças ao qual poderá ser tecida a tela de fundo de suas composições biográficas. Tessitura que pode apenas a segurá-lo de que o modificável e o inxoravelmente modificado dele mesmo, de seu desejo, de suas escolhas, não transformem aquilo que ele se torna em um estranho para aquele que le foi, que algo do “mesmo” persista neste Eu, condenado ao movimento e, por isso, à sua permanente auto-modificação (Aulagnier, 1988, p 3 e 4)

 

Neste capital de memória fundamental, encontramos três tipos de conjuntos. O primeiro deles é o conjunto do “memorizável”, isto é, aquilo que podemos encontrar espontaneamente ou com um pequeno esforço; o segundo é o conjunto do “reprimido”, composto pelas representações que fizeram parte do memorizável em algum momento da vida infantil, mas que depois foram apagadas da memória pois sua irrupção poderia provocar emoções desprazerosas; por último, há o conjunto que chamamos de “auto-memorizavel”, referente às primeiras experiências de prazer e desprazer, que não são memorizáveis pois são inconscientes. Sem representação possível, elas não foram reprimidas mas deixaram marcas, como um molde relacional ao qual serão referidas todas as experiências posteriores. Marcas que fazem com que todo desejo seja uma incansável procura do perdido. Estas primeiras experiências ligadas ao originário e ao primário são resgatadas pela memória “auto-memorizável”, diferente da memória da lembrança, ou memorizável.

A primeira memória do eu é a das marcas de prazer e sofrimento de uma época anterior ao Eu historiador, de uma época, portanto, da qual o Eu constituído nada lembra. Essa memória do prazer e do sofrimento que vêm associados às representações será o que marcará o rumo dos investimentos em definitivo. Quando se trata das possíveis modificações da realidade, quando se faz necessário um trabalho de elaboração, reflexão ou até de antecipação, será o memorizado “afetivo” que acabará por decidir o fiel da balança, tal como sustenta Piera Aulagnier na primeira parte de “Um intérprete em busca de sentido” (1990).

Este auto-memorizável não é, então, consciente, não é percebido pelo Eu como pertencente a seu passado; diferente do memorizável, não pode ser pensado, e também não pode ser reprimido. Poder-se-ia dizer que seu tempo é o presente, pois é permanentemente reorganizado pelo desejo, que marca caminhos, define procuras e provoca sensações que não conseguimos entender. O auto-memorizante seria como uma língua materna, que se usa sem pensar nela (Rother de Hornstein, 1991).

Neste sentido, podemos afirmar que há um trabalho possível de “recomposição da memória”, um trabalho em que algo da ordem do recalcado possa ganhar palavras no memorizável e em que o auto-memorizante, embora não memorizável, possa ser traduzido ou reinventado de maneira a constituir uma origem da história do sujeito, sua pré-história.

E este trabalho faz parte do projeto identificatório, ou melhor, podemos dizer que é sua base: a condição necessária para a existência do Eu que definimos como historiador. Esta é uma das razões fundamentais pela qual é impossível pensar o Eu separado de seu projeto de ser, pensá-lo sem a catexização[23] do porvir. Mas, paradoxalmente, este projeto guarda sempre a ilusão do encontro com o que já foi, retorno ao ideal em que não era necessária a renúncia à totalidade e à completude representadas pela união mãe-bebê.

 

[1] Sobre “pré-história” ver: Luiz A. Garcia-Roza: Introdução à Metapsicologia Freudiana– 1 onde o autor analisa o período assim chamado por ainda não terem sido elaborados conceitos fundamentais como inconsciente, repressão e pulsão. Nele se incluem: Sobre as afasias(1891) o Projeto de uma psicologia científica (1895) e a “Carta 52” (1896) que Freud escreve a Fliess.

[2] Afasia é, em sentido estrito, um distúrbio da linguagem e não da memória. Na afasia sensorial há uma perda da compreensão da linguagem e na motora encontramos uma incapacidade de pronunciar as palavras. Garcia Roza, 1994, p.19.

[3] Em “O Inconsciente”, de 1915, Freud usará a denominação representação de objeto para representação de coisa, pois o objeto é justamente o efeito da junção representação coisa e representação de palavra.

“A percepção, pura e simplesmente não oferece objetos. Aquilo que ela recebe do mundo não são imagens de objetos, mas imagens elementares (visuais, táteis, acústicas etc.) que vão construir o complexo de associações de objetos (e não da representação-objeto) […] E a palavra que constitui o objeto como objeto, e é este que fornece à palavra seu significado. Portanto o que fornece ao objeto seu significado , e a fortiriori sua unidade, não é a coisa externa, mas a articulação das associações de objeto com as palavras” Garcia-Roza,1995, p. 31.

[4] Q e Qn não são bem diferenciados no Projeto, entendendo-se, no geral, Qn como energia de magnitude intercelular, de fonte endógena, de ordem psíquica e Q, que também é designada como ‘excitação’, como energia de fonte exógena ao sistema. (Garcia-Rosa, 1991, p. 82)

[5] Em carta datada de 39 de janeiro de 1896, posterior, portanto, à elaboração do Projeto,esse aspecto é esclarecido: “Os neurônios wsão aqueles neurônios y suscetíveis de um escasso investimento quantitativo. Estas quantidades mínimas que lhe são transferidas desde o órgão terminal é a condição para a gênesis da consciência. Agora interpolo os neurônios w entre os neurônios f e os neurônios y de modo que f transfere qualidade a w e este não transfere a ynem qualidade nem quantidade, mas só o incita, ou seja assinala seus caminhos à energia livre de y (Freud, Vol I. pág 437).

[6] Freud retomará este tema na carta 52, de 6/12/1896, como veremos depois.

[7] Ver cap 14 do Projeto, “Processo primário e secundário em y”.

[8] Freud caracteriza o sintoma histérico como proton pseudo: silogismo em que uma premissa maior falsa dará lugar a uma conclusão também falsa, embora o percurso do raciocínio seja correto ( Strachey apud Freud, 1895, vol I, pág 400, nota de rodapé).

[9] Voltaremos especificamente sobre este tema por intermédio do caso clínico “O Homem dos Lobos”,
de 1919.

[10] E em nota agregada em 1925, chama a atenção para o fato de ter retomado este tema em dois trabalhos, “Anotações sobre o bloco mágico” (1925) e “Além do Princípio do Prazer” (1920), em que afirma que “a consciência surge em substituição da marca mnêmica” (Vol.XVIII, p.5). Mantendo a ordem cronológica desta apresentação, voltaremos sobre estes artigos mais tarde.

[11] Ver “Um estudo autobiográfico” 1924, p. 10.

[12] Ver p. 75 deste capítulo.

[13] Ver p. 76 deste capítulo.

[14] O texto de Maurice Dayan, citado por Sylie Le Poulichet é “Déni de la mort et passage du temps” apud Psychanalyse à la Université” tomo 15, n. 57, 1990, p. 270.

[15] Cabe assinalar que, 20 anos mais tarde, na parte G de “Moisés e o Monoteísmo” (que leva o nome de “A verdade histórica vivencial”) Freud retomará este tema, que abordaremos de forma mais ampla no ponto seguinte deste capítulo.

[16] Funes não lembra nada nem esquece nada, pois não tem memória. Pode-se dizer que sabe tudo, até os mínimos detalhes. Em um parágrafo, Borges diz: “apesar de tudo, suspeito que não era muito capaz de pensar. Pensar é esquecer diferenças, é generalizar, abstrair. No complexo mundo de Funes, não havia mas que detalhes, quase imediatos” (Borges, 1996, p 132).

[17] Ver pág. 84 deste capítulo.

[18] Ver “Três Ensaios para uma teoria sexual”.

[19] O conceito de eu ideal será abordado no capítulo seguinte.

[20] Não esqueçamos a reordenação que, de tempos em tempos, sofrem as diferentes marcas mnêmicas, tal como Freud o postula na carta 52.

[21] Desejo que também tem a ver com o tempo e a memória, pois é o vestígio da primeira experiência de satisfação que será reativado cada vez que, por força da necessidade, o sujeito sente fome e deve esperar pelo alimento.

[22] Psicanalista pouco conhecida no Brasil, Piera Aulagnier nasceu na Itália, onde também formou-se em medicina. Radicou-se posteriormente na França, onde abraçou a psicanálise. Paciente e discípula de Lacan, de quem se separou em 1969 por discordância sobre o “passe”, formou com François Perrier e Jean-Paul Valabrega a Organização Psicanalítica de Língua Francesa, conhecida também como o Quarto Grupo. Além disso, também fundou e dirigiu a Revista Topique.

[23] Ao longo deste trabalho usaremos os termos catexia ou investimento como tradução do termo alemão besetzung , pois, como assinala Luiz Hanns: “A tradução habitual de Besetzung é catexia ou investimento. Catexia soa bastante técnico e pouco compreensível na linguagem coloquial. Investimento, até certo ponto, corresponde a besetzung , mas não possui as conotações específicas do termo em alemão. “ (Hanns, 1996, p. 89) Mas pelo fato do termo investimento, ter-se popularizado na área da economia, escolhemos usar também o termo catexia, por considerá-lo mais apropriado ao saber psicanalítico.

CAPÍTULO   IV

História em Construção

 

“Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas –mas que elas vão sempre mudando”.

 

Guimarães Rosa – “Grande Sertão: Veredas”

  1. O eu e seus ideais

 

No discurso freudiano, o termo ich é utilizado de diferentes maneiras, incluído em tramas teóricas diversas. Pode ser definido como pólo do conflito psíquico, como sede dos mecanismos de defesa e almácego da angústia,[1] como instância de uma estrutura psíquica, ligado ao narcisismo, como eu ideal e ideal do eu, como eu prazer, eu realidade, eu consciente e inconsciente.

Esta grande diversidade conceitual, tão fundamental para a teoria psicanalítica, não deixa de provocar inconvenientes quanto à delimitação deste conceito. Como diz Luis Roberto Monzani:

 

O ego, em Freud, tem um estatuto ambíguo desde seus primeiros textos. Ora ele parece se identificar com o sistema percepção-consciência, ora ele parece ser mais extenso que este último, levando seus domínios para além do consciente e do pré-consciente e mergulhando no inconsciente (Monzani, 1998, p. 244).

 

Apesar das ambigüidades, o eu freudiano é definido como instância,
ou seja, possui um certo grau de organização e faz parte de um sistema junto
com outras instâncias também identificáveis pelas suas funções e que formam um aparelho.[2]

Não é nossa intenção, neste momento, aprofundarmo-nos nos meandros deste conceito tão ambíguo e ao mesmo tempo tão rico, que oferece tantos recursos e tantos inconvenientes. De todas estas formulações, comentaremos brevemente aquelas que interessam especificamente aos objetivos deste trabalho. Trataremos do eu especialmente no que se refere a sua constituição, já que falar da constituição do eu é falar da constituição do humano, é falar de um eu submetido, o tempo todo, ao trabalho das pulsões e às exigências do mundo externo. Afinal de contas, como bem assinala Renato Mezan:

 

O fracasso do ego em sua missão pacificadora resulta na perturbação mental, quer psicótica, quer neurótica, segundo a reação à frustração e segundo o aliado que escolher para combatê-la. Freud jamais deixou de insistir em que a diferença entre o normal e o patológico não é de natureza, mas de grau, e este é o sentido de suas repetidas invocações do ‘ponto de vista econômico’. As modalidades patológicas são todas redutíveis a um conflito entre o ego e as pulsões (Mezan, 1991, p. 336).

 

Já em “Estudos sobre a histeria”, o eu aparece como um conceito ambíguo. Por um lado, Freud o assimila à consciência; por outro, fala da possibilidade de uma resistência inconsciente. Pergunta-se sobre as forças que operam para contrariar o devir consciente (a lembrança) das representações patogênicas e reconhece, nelas, a qualidade de provocar uma dor psíquica suficientemente insuportável. Esta dor as condenaria ao esquecimento. Vejamos:

 

De tudo isso emergiu, como que de forma automática, a idéia de defesa. Com efeito, em geral os psicólogos têm admitido que a aceitação de uma nova representação (aceitação no sentido de crer ou de reconhecer como real) depende da natureza e tendência das representações já reunidas no eu, e inventaram nomes técnicos especiais para esse processo de censura a que a nova representação deve submeter-se. O eu do paciente teria sido abordado por uma representação que se mostrara incompatível, o que provocara, por parte do eu, uma força de repulsão cuja finalidade seria defender-se da representação incompatível. Essa defesa seria de fato bem-sucedida. A representação em questão fora forçada para fora da consciência e da memória (Freud, 1893-95, p. 276, grifo meu).

 

No Projeto de 1895, o eu aparece sob a forma de uma organização neuronal cuja função é essencialmente inibidora, constituindo-se como um sistema de defesas contra a liberação do desprazer. Os resíduos das experiências de dor e satisfação se transformam em afetos e estados de desejo que provocam um aumento de tensão em y. “Do estado do desejo resulta uma atração positiva para o objeto desejado, ou mais precisamente, por sua imagem mnêmica; a experiência da dor leva à repulsa, à aversão por manter investida a imagem mnêmica hostil. Eis aqui a atração de desejo primária e a defesa (represão) primária.” (Freud, 1895, p. 367) E Freud ainda agrega:

 

Com efeito, porém, com a hipótese da “atração de desejo” e da propensão à repressão, já abordamos um estado de y que ainda não foi discutido. Pois esses dois processos indicam que em y se formou uma organização cuja presença interfere nas passagens de quantidade que, na primeira vez, ocorreram de determinada maneira (isto é, acompanhadas de satisfação ou dor). Essa organização se chama eu. Pode ser facilmente descrito se considerarmos que a recepção sistematicamente repetida de Q endógena em certos neurônios (do núcleo) e o conseqüente efeito facilitador produzem um grupo de neurônios que é constantemente investido. (Idem p. 368)

 

Através da inibição do processo primário, o eu impede que a marca mnêmica da primeira vivência de satisfação invada alucinatoriamente a realidade ao surgir a necessidade. Cabe a ele então, a função de fazer a diferenciação entre alucinação e percepção. Mas o exame de realidade pertence ao sistema w que envia sua avaliação da realidade ao sistema y ao qual pertence o eu. Quando a mensagem recebida for desagradável ou hostil, o eu evitará o desprazer utilizando-se de suas defesas para a inibição da descarga total de energia. Vemos que, desde o Projeto, o eu fica, digamos, nesse “meio de campo”, recebendo informações do exterior e comparando-as com os traços mnêmicos. Este trabalho do eu é a base da atividade do pensar, que gera conhecimento baseado num juízo de realidade.

Em 1911, Freud escreve “Formulações sobre os dois princípios do funcionamento psíquico”, em que a oposição entre eu-prazer (Lust-Ich) e eu-realidade (Real-Ich) corresponde à oposição entre princípio de prazer e princípio de realidade. Não são propostas duas formas diferentes do eu, mas duas formas de funcionamento do mesmo eu. Um eu-prazer que só pode desejar e um eu-realidade que deve evitar as nefastas conseqüências disso.

O problema consiste no fracasso das tentativas de aplacar as exigências do mundo, pois a descarga de energia ou a alucinação de satisfação promovidas pelo eu-prazer só se mostram eficientes por um breve período. A ausência de satisfação gerará a desilusão, o que trará como conseqüência o surgimento do princípio de realidade, do registro das necessidades e do processo secundário. Como decorrência, surgirá o eu realidade, fruto da desilusão. Porém, embora a realidade resulte desagradável, far-se-á premente conhecê-la e controlá-la para evitar que sua irrupção desavisada ponha em perigo os cuidados necessários com a vida.

Freud trata aqui de um processo de adaptação do aparelho psíquico. Através deste processo, ao se aumentar a importância dos sentidos dirigidos ao mundo exterior (e da consciência acoplada a eles), aumenta-se também a percepção de qualidades sensoriais que até então não importavam, ocupado que estava o aparelho psíquico em discernir prazer e desprazer. O princípio de realidade permite a exploração e a catalogação do mundo exterior, a fim de que os dados fornecidos por esta atividade fiquem guardados ou registrados. Estes dados serão adequadamente usados quando “uma necessidade interior impostergável” (Freud, 1911, p. 225) se apresentar. Assim, a descarga pode ser adiada até o juízo de realidade avaliar o estímulo. Atenção, memória e pensamento são as novas funções que surgem do processo de adaptação e ao mesmo tempo o possibilitam.[3]

Embora Freud tenha falado do eu desde seus primeiros escritos – como acabamos de ver em relação ao Projeto e aos “Estudos sobre a histeria”será só a partir da virada de 1920 que este conceito ganhará seu estatuto fundamental para metapsicologia psicanalítica. Do ponto de vista tópico, mantém-se como mediador entre os imperativos do isso e as exigências do mundo externo, sustentando uma relação de dependência com ambos. Do ponto de vista dinâmico, é o pólo do conflito neurótico e sede dos mecanismos de defesa que se põem em funcionamento graças à percepção do sinal de angústia. Do ponto de vista econômico, é considerado um reservatório de libido a partir do qual esta é enviada aos objetos e onde conserva uma parte da libido que destes reflui. Além disso, o eu encarrega-se também de regular as ligações do aparelho psíquico, embora nas operações defensivas a energia pulsional seja contaminada pelo processo primário e assuma um aspecto compulsivo e repetitivo.

Entre os escritos anteriores a 1923, é fundamental mencionar “Introdução ao Narcisismo”, de 1914. Neste texto, Freud traça uma nova distinção entre libido do eu e libido de objeto, introduz o ideal do eu que, conceitualmente, será a base para a elaboração do supereu em “O eu e o Isso” e diz que o eu não vem dado, mas se constitui:

 

É uma suposição necessária que não esteja presente no indivíduo, desde o começo, uma unidade comparável ao eu; este deve ser desenvolvido. Bem, as pulsões auto-eróticas são iniciais, primordiais, portanto, algo deve se agregar ao auto-erotismo, uma nova ação psíquica, para que o narcisismo se constitua (Freud, 1914, p 74).

 

Este é o conceito que dá origem à famosa frase da conferência XXXI : “Wo Es war, soll ich werden”: onde era o isso, que haja o eu. Ou, como traduzido para o espanhol, na versão da Amorrortu: ”Donde Ello era, Yo debo devenir” (Freud, 1932, p.74).

Não encontramos em Freud nenhuma diferenciação clara entre eu ideal e ideal do eu,[4] mas as bases para futuras conceitualizações já são anunciadas:

 

Esse eu ideal é agora o alvo do amor de si mesmo, desfrutado na infância pelo eu real. O narcisismo do indivíduo surge deslocado em direção a esse novo ideal, o qual, como o eu infantil, se acha possuído de toda perfeição de valor. Como acontece sempre que a libido está envolvida, mais uma vez aqui o homem se mostra incapaz de abrir mão de uma satisfação de que outrora desfrutou. Ele não está disposto a renunciar à perfeição narcisista de sua infância; e quando, ao crescer, se vê perturbado pelas admoestações de terceiros e pelo despertar de seu próprio julgamento crítico, de modo a não mais poder reter aquela perfeição, procura recuperá-la sob a nova forma de um eu ideal. O que ele projeta diante de si como sendo seu ideal é o substituto do narcisismo perdido de sua infância, na qual ele era o seu próprio ideal (Freud, 1914, p. 91).

 

Esta nova formação partiria da influência crítica dos pais “agora agenciada pelas vozes” (idem, p. 92) dos professores e todas as outras pessoas do meio social, e do meio social ampliado representado pela opinião pública. Encontramos, aqui, um sinal claro do que mais tarde, em 1923, irá se constituir como um conceito fundamental da psicanálise: o supereu.

Neste mesmo texto, Freud ainda afirma que a supervalorização dos pais em relação a seu bebê não é outra coisa senão a reprodução do próprio narcisismo parental já abandonado. Observa-se, assim, uma compulsão a atribuir à criança todo tipo de perfeições e a esquecer os defeitos. Ao mesmo tempo, tenta-se poupá-los das exigências culturais e da submissão às leis da natureza que eles deveriam reconhecer. Assim, “Sua majestade o bebê” (idem, p. 88), surge como figura central que deverá cumprir os sonhos irrealizados dos pais.

Já na terceira parte de “Introdução ao Narcisismo”, Freud se pergunta sobre o que aconteceu com o narcisismo infantil e o que aconteceu com a libido do eu. Claro que não foi toda desviada aos investimentos objetais, então Freud responde: sucumbiu à repressão. E acrescenta: “Temos dito que a repressão parte do eu; poderíamos precisar ainda mais: do respeito do eu por si mesmo” (idem, p. 90).

Em seguida, ele se pergunta por que este mecanismo produz tão diferentes efeitos nos diferentes indivíduos; por que as mesmas impressões, as mesmas moções pulsionais, são por alguns reprimidas e por outros não: “Podemos dizer que há erigido no interior de si um ideal, pelo qual mede seu eu atual, enquanto no outro falta essa formação de ideal. A formação do ideal seria, de parte do eu, a condição da repressão” (idem, p. 90). A repressão, então, é função do eu e tem como origem exigências éticas e culturais.

Esta idéia é retomada em “O eu e o isso”, de 1923, quando Freud afirma que o eu é a parte do isso alterada pela influência do mundo exterior, a parte que prudentemente se adapta, (como sustentava em 1911) priorizando o princípio de realidade sobre o princípio de prazer. Em “Esboço de Psicanálise” de 1938, retoma esta mesma questão, concluindo uma explicação para a origem do eu:

Sob a influência do mundo externo que nos cerca, uma porção do isso sofreu um desenvolvimento especial. Do que era originalmente uma camada cortical, equipada com órgãos para receber estímulos e com disposições para agir como um escudo protetor contra estímulos, surgiu uma organização especial que, desde então, atua como intermediária entre o isso e o mundo externo. A esta região de nossa mente demos o nome de eu (Freud, 1938, p.143).

 

O eu se constituirá então como um complexo de representações de si mesmo, provenientes de estímulos internos e externos (e como tais, passíveis de mudanças através do tempo) representações que constroem um sentimento de si do qual a imagem corporal faz parte. Monzani também chama a atenção para o fato de o eu da época da “Introdução ao Narcisismo” ser conceituado como pólo de fixação da libido, não mais como um simples lugar de passagem para o investimento objetal, mas como um lugar onde a libido pode permanecer, seu grande reservatório. E acrescenta:

 

Freud coloca o narcisismo como o primeiro pólo onde a libido, embora ainda centrada no sujeito, já não está mais dispersa, mas sim organizada em função de uma imagem: a imagem de si. Fruto de uma diferenciação progressiva a partir de um solo original, o ego surge como uma unidade frente à diversidade do pulsional, que até então funcionou de maneira anárquica e dispersa… (Monzani, 1998, p. 245).

 

Em 1923, Freud já falava do papel da dor na formação da representação corporal, salientando sua importância na gênese do eu: o corpo, e especialmente sua superfície, é um lugar de onde podem partir simultaneamente percepções provenientes do interior e do exterior. Por outro lado, nos faz notar que a dor também tem um papel importante neste caso, uma vez que traz notícias de partes do corpo, antes ignoradas, que contribuem para a formação de uma representação do próprio corpo: “O eu é essencialmente corpo, não é só superfície, ele é a projeção de uma superfície” (Freud, 1923, p. 27) e “O eu consciente é sobretudo um eu corpo” (idem, p. 29). O eu seria, então, efeito de sensações corporais, projeção, no psiquismo, da superfície corporal. Não mais a organização neuronal da qual falava no Projeto.

Não são, contudo, apenas as sensações, dores e imagens corporais que constituem o Eu. Essa primeira unidade organizada de representações dispersas será constituída e modificada também em virtude de valores sociais e imagens idealizadas, e será a partir destas idealizações [5] que vão se constituir as instâncias idealizadas do eu: eu ideal e ideal do eu.

Neste ponto, entramos no campo da identificação, que devemos encarar como um dos mecanismos privilegiados na constituição do eu e em suas futuras modificações. Um mecanismo tão fundamental que Freud chega a definir o eu como um “precipitado de identificações abandonadas” (Freud, 1923, p. 31). Pode-se considerar que o conceito de identificação abre as portas para as posteriores elaborações freudianas sobre a cultura, pois oferece pistas fundamentais para pensar a influência do social na constituição do eu, como o encontramos em “O Malestar na Cultura” (1930) .

Para Renato Mezan, a introdução da problemática da identificação faz com que o conceito de eu passe por um profundo remanejamento a partir do qual podemos verificar que há quatro elaborações teóricas: a primeira refere-se à função inibidora apresentado no Projeto, na qual “sua emergência é exigida para controlar o investimento alucinatório próprio do processo primário” (Mezan, 1991, p. 175). A segunda é sugerida em “Formulações sobre os dois princípios do funcionamento psíquico”, de 1911, e nela o eu seria suporte das pulsões de auto-conservação. A terceira se funda sobre o conceito da narcisismo, tal como o encontramos em “Introdução ao Narcisismo” de 1914; sobre este ponto, o autor diz que “o narcisismo primário consiste no investimento libidinal primitivo do ego, do qual emanam, posteriormente, as porções de libido dirigidas aos objetos exteriores” (idem, p. 178). A libido do ego designa aqui o fato da pulsão sexual tomar por objeto o eu sem por isso abalar sua função de preservação. Fazendo referência ao princípio de constância da energia libidinal proposto por Freud.

 

O ego aparece assim como um suporte constante de energia libidinal, que não se origina nele, mas o toma como estação intermediária do percurso da libido, à maneira de um depósito de água: o líquido não é gerado ali, mas é preciso manter uma reserva constante para distribuí-la pelos canais de irrigação que conduzem aos objetos.Vemos que além de elaborar o conceito de organização libidinal narcisista, o que Freud faz neste texto, é sugerir uma verdadeira estase da libido, uma permanência dela no ego, capaz de realizar fluxos e refluxos em relação ao mundo exterior” (Mezan, 1991, p. 178)

 

Por último, encontramos a quarta hipótese em “Luto e Melancolia”, onde convergem os temas de narcisismo e incorporação, colocando-nos ante a teoria do eu que sustenta sua constituição através das identificações. Em ambos os estados encontramos uma diminuição das funções do ego e, na melancolia especialmente, uma identificação com a figura do morto que, como uma sombra, cai sobre o eu[6]. Estas elaborações não se excluem entre si, mas se articulam e se completam nesta rede teórica que é o conceito de eu.

Para terminar este breve percurso sobre os textos freudianos, desejo comentar um artigo de 1938, que Freud deixou inconcluso. Trata-se de “A divisão do eu no processo de defesa”. Nas poucas páginas deste texto, o autor faz uma análise sobre o comportamento do eu infantil em debate com a ameaça de castração[7], constituindo-se uma “situação de pressão” na qual o confronto entre satisfazer a exigência pulsional ou aderir ao princípio de realidade é difícil de suportar. Neste caso, a criança responde ao conflito com duas reações opostas, porém eficazes. Por um lado, rejeita a realidade e recusa a proibição e, por outro assume o medo desse perigo como sintoma patológico e tenta se desfazer dele. Assim a pulsão conserva sua satisfação enquanto mostra um respeito pela realidade. Mas o preço é alto e o eu, para se defender, se divide. Sua unidade está permanentemente ameaçada. E Freud acrescenta:

 

Mas tudo tem de ser pago de uma maneira ou de outra, e esse sucesso é alcançado ao preço de uma fenda no eu, a qual nunca se cura, mas aumenta à medida que o tempo passa. As duas reações contrárias ao conflito persistem como ponto central de uma divisão do eu. Todo esse processo nos parece tão estranho porque tomamos por certa a natureza sintética dos processos do eu. Quanto a isso, porém, estamos claramente em falta. A função sintética do eu, embora seja de importância tão extraordinária, está sujeita a condições particulares e exposta a grande número de distúrbios. (Freud, 1938, p 275, grifo meu)

 

Pouco mais de 10 anos depois de Freud ter escrito este artigo, Lacan volta à questão da dualidade, da divisão, da fenda, apresentando o eu sob dois registros: o moi, efeito do imaginário, o je, simbólico, que se constitui em relação ao Outro.[8] O moi marca um momento da relação identificatória da criança com seu semelhante, através do qual consegue montar uma gestalt de seu corpo, consegue transformar a fragmentação em unidade. É um eu especular que corresponderia ao eu do narcisismo primário de Freud.

Enquanto o moi se constitui como uma ortopedia – eu imaginário sustentado por uma imagem especular que lhe dá a ilusão de totalidade e completude – o je surge como construção dentro da ordem simbólica da cultura, podendo admitir a castração e construir sua própria identidade de acordo com os modelos estruturantes do Outro, de acordo com as identificações secundárias.

No texto citado, Lacan escreve:

 

A assunção jubilatória de sua imagem especular pelo ser ainda mergulhado na impotência motora e na dependência de nutrição que é o pequeno homem, nesse estádio infans, parecer-nos-á portanto manifestar, numa situação exemplar, a matriz simbólica onde o eu se precipita em forma primordial, antes que se objetive na dialética da identificação ao outro e que a linguagem lhe restitua no universal, sua função de sujeito (Lacan, 1949, p. 97).

 

No estádio do espelho, constitui-se o eu imaginário pelo reconhecimento da própria imagem, processo no qual a presença do Outro, que corrobora esta identificação, é fundamental. O je é capturado por esse moi, de maneira que o sujeito acredita ser aquele moi que vê no espelho. O je é o eu que fala no registro do simbólico.

Esse Outro “não é uma instância, mas a ordem simbólica, constituída pela linguagem e composta de elementos significantes formadores do inconsciente” (Garcia Roza, 1993, p. 211). Ele se diferencia do outro (com “o” minúsculo), que é o semelhante. Em “O estádio do espelho” Lacan trabalha a relação da criança com seu semelhante, através da qual vai constituir uma imagem totalizadora de seu corpo. O que a criança obtém é uma gestalt, que tem como função substituir a vivência do corpo fragmentado. Trata-se de uma primeira demarcação do próprio eu por um processo de identificação ao outro. “O que o infans tem devolvido pelo espelho, pela mãe ou pelo outro, é uma gestalt cuja função primeira é ser estruturante do sujeito” (idem, p. 213).

Em “O eu e o isso” Freud já assinala com esta idéia do eu como produto de identificações, quando escreve: “O eu é uma precipitação de investiduras de objetos resignadas, contém a história dessas eleições de objeto” (Freud, 1923, p. 31).

Outro ponto que outorga grande valor ao texto “O eu e o isso” é o de nele aparecer pela primeira vez o termo supereu (Über-ich), como uma instância que representa a lei e proíbe sua transgressão. Para Freud, sua formação é correlativa ao declínio do Complexo de Édipo, momento em que a criança finalmente aceita a interdição do incesto e transforma sua rivalidade com os pais em identificação com o supereu deles que encarnará a lei social transmitida de geração em geração. Se antes desta fase os fatores de censura e interdição eram só externos, agora são internalizados. O supereu se origina por identificação com a imagem parental.

Freud se pergunta como o supereu se manifesta especialmente como sentimento de culpa ou crítica, fazendo do eu o alvo de sua severidade. Uma severidade que pode, freqüentemente, chegar ao nível de uma intensa crueldade. Tomando como modelo a melancolia, ele conclui que o supereu toma para si todo o sadismo disponível no sujeito que, a partir daí, se volta sobre o eu: “O que agora governa o supereu é pura pulsão de morte, que, freqüentemente, consegue empurrar o eu em direção à morte, quando não consegue se defender de seu tirano através da mania” (Freud, 1923, p. 54).

Neste ponto de sua elaboração, Freud introduz a possibilidade de um supereu exageradamente hostil pois, considerando a moralidade como limitação das pulsões, a questão do grau ou intensidade joga aqui um papel fundamental. O eu se esforçaria em ser moral ante um isso que desconhece qualquer moralidade e poderia ser hipermoral, isto é, tirânico e cruel, obedecendo a um supereu que, dependendo das identificações, pode ter ganho uma carga agressiva importante[9].

No começo deste capítulo falávamos da ambigüidade que o conceito do eu tem na obra freudiana, mas não é só ele que, em sua riqueza, oferece tantas dificuldades para quem decide abordar os conceitos fundamentais da psicanálise. Outro conceito, o de sujeito[10] é atualmente mencionado pela maioria dos psicanalistas a partir de diferentes pontos de vista; a maioria dos autores citados neste trabalho o nomeiam, sem que fiquem claras as diferenças entre eles. Mas, apesar destas diferenças, podemos afirmar que a questão do sujeito já estava presente em Freud sem se confundir com o eu.

Para Assoum (1996) a base do “sujeito freudiano” está constituída pelo o “eu físsil” (que se pode fender). O eu pode se fender em duas partes: sujeito e objeto. O eu enquanto sujeito, exercendo esta função, pode tomar a si mesmo como objeto. Deste ponto de vista, encontrarmos-ia-nos ante uma instância eu e uma função sujeito, um eu que pode funcionar como sujeito (ou não)

Quando citamos o texto “A divisão do eu no processo de defesa”,[11] justamente fazíamos menção à função de síntese do eu que pode ser profundamente perturbada ante determinadas circunstâncias, provocando essa fenda que só se agrava com o passar do tempo. A clivagem do eu fica sendo esse compromisso entre a satisfação pulsional e o respeito devido à realidade, então é a castração que ataca essa função de síntese que tão trabalhosamente o eu consegue realizar. Escreve Assoun:

 

É justamente a prova do objeto da castração que desregula a sacrossanta função sintética do Eu, de modo que é nessa ocasião que ela se revela eminentemente frágil – o que nos obriga a fazer emergir a questão: logo, que deve ser o sujeito – com suas prerrogativas funcionais – para tolerar tal cisão” (Assoun, 1996, p. 275)

 

Freud divide o eu em uma parte consciente e outra inconsciente. Entre um eu que se acredita presente no discurso e um eu inconsciente de funcionamento surpreendente, e independente da vontade do falante. Esta clivagem do eu é retomada por Lacan, que coloca seu sujeito do inconsciente como sendo a própria divisão…. “O sujeito não é senão essa própria divisão” (citado por Bruce Fink, 1998, p. 67). E Fink, analisando o mesmo texto freudiano de 1938 acrescenta: “A variedade de expressões como ‘sujeito fendido’, ‘sujeito dividido’ ou ‘sujeito barrado’, cunhadas por Lacan, […] consiste inteiramente no fato de que as duas ‘partes’ ou avatares de um ser falante não têm nenhum traço em comum: elas estão separadas de forma radical” (Fink, 1998, p 67).

Fink fala de um “tornar-se” sujeito. Se há um estranho que fala por nós, que nos faz dizer o que não queremos, alguma coisa que parece externa mas incomoda como própria, tornar-se sujeito será tomar essa alteridade para si, implicar-se na estranheza, excluir as causas do destino e se apropriar dessas vicissitudes. Isso implica fazer a passagem de objeto a sujeito do próprio destino, causa da própria existência, no processo de subjetivação. Então o sujeito será dinâmico, móvel, sempre mutante, passível de diversos posicionamentos. O sujeito não será a cristalização de imagens ideais e sim o surpreendente sobre si mesmo. Será apenas um lampejo que cria uma metáfora, que substitui um não senso por um novo sentido, que produzirá uma ilusão de persistência e continuidade (muito frágil, certamente). O sujeito se descobrira ali onde não sabia que estava. O sujeito irrompe quando, ante uma surpresa sobre si mesmo, pode assumir-se como protagonista. Onde uma vez reinou o discurso do Outro, o sujeito é capaz de dizer “eu”. Não “aconteceu comigo “ ou “eles fizeram isto comigo” ou “o destino tinha isso guardado para mim” mas, “eu fui”, “eu fiz”, “eu causei”. E ainda comenta:

 

Mas embora ele seja um sujeito tão evanescente ou de vida efêmera quanto aquelas interrupções conhecidas como lapsos de língua e atos falhos, esse sujeito especificamente lacaniano não é tanto uma interrupção mas o ato de assumir isso, no sentido francês do termo assomption, isto é, uma aceitação da responsabilidade por aquilo que interrompe, assumir a responsabilidade (Fink, 1998, p. 69).

 

Podemos ver que, segundo as elaborações deste autor, tornar-se sujeito é ir além do registro imaginário do eu. É ter um posicionamento em relação ao Outro, ou melhor, uma postura em relação ao desejo do Outro, e aqui já estamos falando da ordem simbólica. Tornar-se sujeito é assumir a divisão, o que cancela a unidade e acaba com a onipotência; é ser cindido, barrado e, ao mesmo tempo, estar sempre tentando superar esta situação, sabendo antecipadamente do fracasso inevitável. É condição do sujeito a falta de estabilidade e permanência.

 

  1. Acompanhando o pensamento de Piera Aulagnier

 

Voltaremos agora a Piera Aulagnier para seguir o percurso de seu pensamento sobre a constituição do eu, já que uma de suas maiores contribuições é o que poderíamos compreender como uma ampliação do modelo freudiano de funcionamento psíquico. Esta autora postula a existência de processos que procuram metabolizar[12] o encontro entre o espaço psíquico e o extra-psíquico, e estes processos se definem pela especificidade do modelo relacional que imprimem aos elementos representados.

 

2.1.      Antecipação

 

O bebê nascido em estado de carência total é – na melhor das hipóteses – recebido por um meio familiar investido como a única realidade passível de ser conhecida nesse momento. Assim, a família será o meio psíquico privilegiado no qual as forças libidinais da criança vão se desenvolver e organizar em torno de dois organizadores essenciais do espaço familiar: o discurso e o desejo do casal parental. Nasce em um espaço falante no qual a mãe é porta-voz privilegiado, tanto no sentido literal – já que é essa a voz que a criança ouve – como no sentido simbólico, pois o discurso da mãe atua como um representante do meio social externo. Este meio transmite para o infans os segredos de seu funcionamento, suas leis e exigências.

A voz materna tem uma função de “prótese” psíquica (Aulagnier, 1979, p. 108), por ser o que permite uma comunicação portadora de significação entre o espaço interno do infans e o externo a ele, o meio social. Sem esta função, ainda que todas as necessidades vitais que garantem a sobrevivência biológica fossem satisfeitas, o pequeno ser poderia não sobreviver, ou ficar profundamente afetado no seu desenvolvimento psíquico: a presença do “outro” é essencial. A função de prótese só é possível porque a mãe transmite ao bebê uma realidade já elaborada, já metaforizada, tornada representável e, conseqüentemente, já adequada às exigências da repressão.

Mas, ainda antes do nascimento, há um discurso materno que concerne a esse futuro bebê. Piera Aulagnier diz: “espécie de sombra falada e suposta pela mãe que fala, ela se projeta sobre o corpo do infans – quando de seu nascimento – tomando o lugar deste a quem se dirige o discurso do porta-voz” (Aulagnier, 1979, p. 109).

A mãe fala à sombra de seu próprio discurso, ou seja, o bebê é precedido, antecipado, por um discurso materno a seu respeito, que constitui uma imagem identificatória antecipadora de um corpo ainda ausente. Dizer que o eu antecipado é “sombra falada” é dizer que esta instância está diretamente vinculada à linguagem, pois se origina com os primeiros enunciados produzidos pelo discurso materno[13].

A mãe fala a uma “sombra” de quem espera uma resposta; a resposta é imediata porque foi pré-formulada, como uma espécie de “solilóquio a duas vozes executado pela mãe” (Aulagnier, 1979, p. 110), que fala a uma sombra de seu próprio discurso. Neste solilóquio, a mãe projeta sobre o infans aquilo que ela gostaria que ele se tornasse. Idealização projetada de suas próprias idealizações edípicas reprimidas. Estes enunciados testemunham o desejo materno ou, ao menos, a parte desse desejo que se pode transformar em dizível e lícito, desejos que representam aquilo a que a mãe precisou renunciar em virtude da repressão, aquilo que esqueceu alguma vez ter desejado.

Desta maneira se transmite um reprimido. A sombra falada induz, por antecipação, o reprimido da criança, transmite uma instância repressora que, na verdade, antecipa o que será reprimido. Trata-se de uma espécie de capital fixo, um ancouradoro sobre o qual vai se organizar grande parte do espaço psíquico da criança: “O infans, fala à mãe como se a repressão já tivesse ocorrido” (Aulagnier, 1979, p. 117).

Esta transmissão de sujeito a sujeito – eixo fundamental da problemática identificatória – não acontece sem desvios ou acidentes de percurso, como se constata através dos diferentes quadros psicopatológicos. Por outro lado, é necessário considerar a influência que exerce o pai – ou sua substituição – como primeiro representante dos outros, de uma ordem cultural constitutiva do discurso social, ao qual ele também se submete. Trata-se de um papel fundamental da função paterna, que introduz o fator cultural, suas normas e limitações.

O que a mãe deseja é ser todo o necessário à vida do infans, ser a única provedora de amor e ser reconhecida como tal, sendo que ela é a única a ter um saber sobre o corpo e as necessidades do infans. Uma forma de violência primária, que impõe à psique do infans uma eleição, um pensamento ou uma ação motivados pelo desejo da mãe, mas que é absolutamente necessária ao desenvolvimento do eu. O perigo reside em que esta violência pode facilmente resultar excessiva, fato que só pode ser evitado se a mãe tiver a capacidade de renunciar a ser a única fonte de satisfação para essa criança. Desse modo, aceitando a diferença, produzindo alteridade, ela pode investir no pensar do filho como produto independente dela, um pensar autônomo onde caibam até segredos; ela tem de poder aceitar um não saber alguma coisa em relação ao filho. Sobre este aspecto, Hornstein escreve:

 

A mãe pode investir o pensamento da criança se aceita a diferença, a alteridade dessa criança em relação a ela própria. Se a mãe reconhece que pode não saber o que o filho pensa, o pensamento da criança pode obter um plus de prazer. O prazer de pensar só é possível se o pensamento pode outorgar a prova de não ser a simples repetição de outro já pensado (Hornstein, 1994, p. 43).

 

O desejo da mãe de ser tudo para essa criança torna-se a demanda do infans; ele espera da mãe justamente aquilo que ela deseja ser para ele, aquilo que ela quer que ele demande. Entretanto, este estado ideal tem suas limitações, especialmente de ordem temporal. Esta coincidência de demanda e desejo entre mãe e filho será legítima somente durante o breve período de tempo em que ela é o único outro possível; fora desse tempo, a coincidência será da ordem do excesso de poder e, conseqüentemente, da ordem da violência desnecessária.

Em princípio, o que satisfaz à mãe e a única coisa que o bebê pode entregar como símbolo de reconhecimento é o ótimo funcionamento de seu organismo. O bebê cresce, a função paterna faz o seu trabalho e novas funções aparecem. Assim, a mãe passará a exigir dele que seja capaz de pensar (dentro dos padrões por ela determinados nisso que chamamos educação) pois só assim poderá confirmar que continua dando a seu bebê todo o necessário para sua evolução.

No entanto, quanto mais a criança pensa, mais independente se torna, e mais autonomia adquire; quanto mais se separa da mãe, mais olha para outros que não ela. Segundo Aulagnier, podemos dizer que, cada vez menos, a criança escuta apenas sua voz, mas passa a escutar o conjunto de vozes que, como discurso social, ou texto escrito em forma de leis, oferece o referencial necessário para que ela se libere desse outro primeiro referencial absoluto que a voz materna representava. Esta nova atividade, que começa a ser percebida como uma extensão das atividades do corpo do infans, vai se tornando mais complexa, de modo a operar a separação até o ponto de a mãe não poder mais saber o que a criança pensa.

Se essa mãe – impossibilitada de aceitar a autonomia do pensamento do filho – continuar a determinar seus pensamentos de forma violenta, se não puder renunciar a esse lugar de privilégio de ser tudo para ele, se não puder renunciar a uma função que já foi legítima, mas que agora é um excesso, e, se não puder renunciar para investir no movimento futuro, em beneficio da manutenção da própria relação entre eles, isso certamente não será sem conseqüências. É possível pensar que esta não aceitação do pensamento independente do filho pode provocar, no adulto que essa criança se tornar, uma infantilização, um estado de dependência que, mesmo sessenta ou setenta anos mais tarde, ainda tente reparar o dano causado ao narcisismo materno pela tentativa de autonomia.

No processo originário ocorre um encontro, também chamado de originário, que “…em princípio, acontece no momento do nascimento, entretanto nos autorizamos a deslocar este momento para situá-lo quando de uma primeira e inaugural experiência de prazer: o encontro boca-seio” (Aulagnier, 1997, p. 41).

O produto típico deste processo é o que Aulagnier chama pictograma ou representação pictográfica, entendendo como tal o trabalho do psiquismo para representar a pulsão em seu encontro com a experiência. Um exemplo disso é o encontro boca-seio, experiência que se representaria no psiquismo como uma forma pictórica, uma representação única “bocaseio” e não duas: “boca e seio”. Uma percepção precoce de um a mais de prazer, provocado pela vivência da satisfação que acompanha a representação, não reduzida a saciar a necessidade. Trata-se de representação pictográfica por ser anterior à representação cênica, fantasmática própria do registro primário e à representação ideativa do processo secundário.

O tempo de vida “somato-psíquica”, que vai desde o nascimento até a constituição do eu, é um tempo pleno de representações pictográficas e fantasias,
que depois poderão ser metabolizadas em representações ideativas ou não. Estas representações, já metabolizadas, constituirão a memória e portanto, o passado. O passado do eu é um não-eu; o passado que o eu deve construir é um passado em que ele ainda não existia.

Em seu esforço de sobrevivência o eu encontra um “já-aí” cuja causalidade ignora, mas cuja capacidade de produzir prazer ou sofrimento teve, certamente, seus efeitos. Trata-se de um “já-aí” em que o outro é causa, e em que o eu não pode se representar como auto-engendrado. Entendemos por auto-engendramento o postulado de atribuição de causa no registro originário, no qual, por ainda não existir o eu-outro, todo o vivenciado é atribuído ao próprio eu como representação interna do corpo. Só no registro primário a causalidade poderá ser atribuída ao desejo onipotente do outro. Piera Aulagnier acrescenta:

 

O eu não apenas se descobre como resultado de um desejo ou de um discurso pronunciado por vozes que precederam as suas, mas se dá conta bem rápido de que esses outros e esse discurso não podem, sem fazê-lo correr um risco mortal, considerar sua vinda como um mero acidente, um acaso, um erro, que nada deve ao que eles mesmos já viveram, desejaram, esperaram (Aulagnier, 1989, p. 216).

 

Assim, o eu fica capturado numa trama temporalizada, onde percebe que nunca será idêntico ao que já foi. Essa memória de um passado incerto, porém, lhe dará a certeza do presente e a promessa de um futuro possível. O “já-aí”, embora confuso, lhe permitirá pensar-se como possuidor de uma história. A voz da mãe, que lhe conta uma história dessa primeira fase da vida em que o eu ainda não era seu próprio historiador, lhe outorga um passado coerente com seu presente, sem o qual só contaria com as estranhas “memórias” de seu corpo.

Quando um sujeito começa seu relato autobiográfico e diz: “eu nasci em….”, está falando de uma parte de sua vida que ele desconhece e sobre a qual não guarda nenhuma memória. Esse dado e outros que se seguem no relato como: “filho de….” são fundamentais na construção de sua história, já que constituem um conhecimento do qual é impossível prescindir e que depende exclusivamente dos outros. Para que os outros possam lhe oferecer essas faltas fundantes, ele deve ter sido acolhido neste mundo por testemunhos sociais capazes de guardar para esse sujeito a memória do que ele foi quando ainda não era um eu.

De qualquer maneira, e não importa qual seja a história contada, o eu permanecerá tributário do outro que sabe sobre ele algo que ele mesmo está impedido de saber, alguma coisa de fundamental sobre o tempo da origem. O eu se vê obrigado a se pensar como sujeito histórico a partir de uma origem anterior a sua existência, sobre o que nada sabe nem pode saber; o eu deve engendrar um antes dele mesmo para se temporalizar e poder escrever sua história, que resultará necessariamente romanceada, imersa num tempo sempre confuso e fugidio.

 

2.2.        Investimento, futuro e temporalidade

 

Os pais são o primeiro sustentáculo para a criança, nascida em situação de dependência total e demandante de tudo para sobreviver. A criança só poderá se afastar deles, só poderá se tornar independente, se encontrar novos alicerces para sua identidade na cultura. Assim como há um discurso parental que a antecede, há um discurso social que investirá o lugar que ocupará nessa sociedade.

A relação entre a criança e os pais leva sempre a marca da cultura, tanto em sentido amplo como no mais restrito, do grupo ao qual os pais pertencem. Os desejos parentais para esse filho trazem a marca dos ideais grupais. Vemos, então, que o investimento do casal parental sobre a criança é condição necessária, porém não suficiente para a constituição do eu. O grupo social deverá reservar a esta criança um lugar que o invista como seu legítimo destinatário, sendo que o sujeito deverá acreditar que os fundamentos que enunciam as normas grupais e regem seu funcionamento são legítimos.

A conseqüência direta deste investimento será que a verdade sobre seu passado como membro desse grupo estará garantida e, portanto, alguma certeza sobre o futuro será possível. De uma certa maneira, a cultura acalma as interrogações tão humanas sobre a origem e o destino do homem e solidifica a identidade. O discurso social garante a continuidade da cultura; como a criança vem ocupar um lugar predeterminado socialmente, espera-se que assuma o discurso social e garanta a continuidade das instituições. Com isso, ele também recebe algo em troca: se cumprir com esta missão terá um lugar garantido na cultura.

Isto quer dizer que, quando a criança se afasta do casal parental (com toda sua bagagem de identificações), deve encontrar no âmbito social referências identificatórias mínimas que lhe permitam um movimento de projeção de futuro. Assim, tornar-se-á porta-voz de seu grupo e transmitirá os valores herdados à sua descendência.

Os fundamentos destes enunciados culturais, que dependendo do tipo de cultura poderão ser míticos ou científicos ou do senso comum, segundo a voz que anuncia a origem e o modelo, dirão sempre sobre a origem do grupo, sua razão de ser e os ideais que se justificam historicamente. Nesta retroatividade vemos já se esboçar um movimento temporal.

Dizíamos que o porta-voz formula os anelos identificatórios que se referem ao futuro; é a mãe que diz ao bebê como ele será, ela o antecipa. A criança ficara identificada com o anseio do porta-voz, transformando-o em seu próprio. É necessário que alguém lhe diga: “quando cresceres, tu serás um homem bom…”, para que ela possa dizer: “quando crescer, eu serei um homem bom…”, é necessário esse investimento no futuro. O porta-voz que antecipou o eu dessa criança, ainda antes do nascimento, deverá continuar investindo nessa segunda antecipação. Desta vez, será uma antecipação da própria possibilidade de existir no futuro. Não será, contudo, uma existência igual ao que era; o investimento que possibilita a continuidade do eu será no sentido do crescimento.

É necessário que o eu se aproprie dos anelos identificatórios transmitidos pelo porta-voz, não como modelo rígido imodificável, e sim como investimento do porvir. Trata-se de um investimento num futuro que não represente o retorno do passado como repetição do mesmo, que permita e proponha a modificação constante do eu pelo eu e que outorgue a esperança da continuidade identitária e a certeza de que um certo grau de liberdade de escolha é possível.

O movimento que se abre aqui é bem interessante, pois só a aceitação da realidade marcará que o eu idealizado – proposto pelo porta-voz – deverá ser abandonado em benefício de outros ideais e do que poderá ser construído para o bem-estar (e sobrevivência) desse eu. A diferença entre o eu que se descobre incompleto e descobre que nem tudo é possível e o eu que deseja vir-a-ser marca a entrada do sujeito na temporalidade. O eu deverá ter um projeto para si mesmo que se localizará sempre no futuro.

O grupo, falando da origem e dos ideais, direciona a escolha de um roteiro sobre o qual vai se construir uma história individual. Será oferecido assim um certo nível de certeza, uma confiança mínima que, além de permitir a continuidade da construção social, permitirá a integridade psíquica dos sujeitos que a constituem. Se esta certeza faltar, se os enunciados não oferecerem mais garantias de continuidade e sustentação, serão abandonados e substituídos de maneira mais ou menos dolorosa, mas haverá sempre um discurso fundador de cultura e um investimento do sujeito nos enunciados desse discurso, sob pena de ficar marginalizado se assim não o fizer.

 

2.3.      Sujeito social e contrato narcísico

 

O mais importante é deixar claro que os fundamentos implicam sempre um modelo, um ideal social e uma origem coincidente que juntos abram a possibilidade de uma verdade singular (histórica) se instaurar, freqüentemente de forma independente do veredicto familiar. O sujeito ideal desse meio social também ideal adere aos fundamentos para ser reconhecido, desse modo, como uma parte homogênea a um todo. Sobre o sujeito ideal, escreve Aulagnier:

 

Esta designação deve ser separada do registro identificatório em sentido estrito [do imaginário]: ela é co-extensiva a ele, segue uma via paralela, mas não pode ser a ela identificada. Ela permite uma apreensão que vai demarcar a problemática identificatória, fazendo com que esta última não seja totalmente aprisionada na armadilha da relação imaginária (Aulagnier, 1979, p. 150).

 

Assim, uma parte do que o sujeito singular investir narcisicamente em seu processo identificatório será transferida sobre o grupo que, assinalando com uma promessa de futuro, o protege da destruição.

Isto é o que Piera Aulagnier chama contrato narcísico. Contrato justamente porque há dois signatários: a criança e o grupo social que legitima sua existência. Pelo lado da criança, ela será a única signatária desse compromisso, pois o abandono do tempo da infância fará com que ela assuma sozinha as negociações com a realidade, sem apelar para as figuras parentais. A partir deste momento, o eu falará em nome próprio e, embora muitos sujeitos resistam a isto de forma mais ou menos apurada; como conquistadores mais ou menos bem-sucedidos, todos irão enfrentar a realidade que se lhes impõe, salvo nos casos em que uma psicose os poupe deste trabalho. O sujeito social é o sujeito do contrato narcísico, o que se depreende do grupo, ou melhor, a idéia de si mesmo que obtém do grupo que o reconhece como um elemento homogêneo.

O fim da infância será, então, o momento de uma redação conclusiva deste contrato, momento em que se fixarão as cláusulas que não deverão mudar, para que todo o resto seja modificável, para que o eu continue a se reconhecer naquilo que ele devém ao longo de seu tempo de vida. Os pais, que foram os primeiros co-signatários desse contrato, transmitirão ao filho o inalienável direito de continuar sozinho sua luta no processo identificatório e na construção de sua história de vida.

A certeza sobre a origem e a confiança sobre a possibilidade de investimento futuro abrem uma linha de historicidade. Sem este acesso à historicidade, o eu não poderia ganhar autonomia e ficaria eternamente preso ao desejo parental. A demanda do meio social, assim como as muitas ofertas de futuro, farão com que uma grande parte de seus investimentos identificatórios sejam ali colocados.

 

O tempo futuro, no qual o sujeito sabe que não mais existirá, pode, desde então, ser por ele representado como continuação de si próprio e de sua obra, graças à ilusão que o faz crer que uma nova voz virá retribuir vida à mesmidade de seu próprio discurso, escapando, assim, ao veredicto do tempo (Aulagnier, 1979 p. 151).

 

Aqui se apresenta uma questão interessante, já que o discurso do extra-familiar pode confirmar ou não o discurso familiar, abrindo infinitas possibilidades combinatórias. Estamos pensando a partir de exemplos de famílias que oferecem as condições necessárias para a constituição de um eu autônomo, embora saibamos que nem sempre isto acontece. Testemunho disso é a existência de milhares de crianças abandonadas. Quando, no lugar de aceitação e inclusão, o meio social oferece rejeição e exclusão, e um lugar de mera engrenagem no interior de uma máquina perversa, o contrato se torna inaceitável e as possíveis identificações que tornariam o eu autônomo fracassam.

Mesmo nos casos em que os dois discursos sejam de acolhimento e reconhecimento, sempre haverá barreiras sociais para o desejo que reforçarão o que na relação do eu com o casal parental foi sentido como recusa de sua autonomia. Por outro lado, a criança começa sua vida social projetando neste meio a mesma dinâmica que guarda em relação ao meio familiar, potencializando, assim, posições de rejeição.

Para que o eu possa se constituir e sustentar, é necessário que este espaço extra-familiar ofereça as condições mínimas de ser habitado[14]. O discurso social deve oferecer certas referências identificatórias para que o eu possa conservar suas funções; sabe-se também, no entanto, que estas referências devem ser constantemente investidas pelo eu.

A criança autônoma do meio familiar conserva o suporte identificatório já recebido, mas deverá encontrar no discurso social um lugar garantido para isso que ela é, ou seja, deverá encontrar referências básicas que lhe permitam projetar seus investimentos num futuro no qual poderá realizar seu projeto identificatório.

 

2.4.      Identificação e projeto

 

O eu pode se constituir e se sustentar num espaço que garanta o movimento temporal, que garanta a idéia de continuidade, que legitime um projeto. Temporalidade e historicidade são, portanto, inseparáveis. A constituição do eu é também a constituição de um tempo histórico. Assim considerado, o “eu constituído” – aquele capaz de assumir a experiência da castração – não é mais do que “o saber do eu pelo eu” (Aulagnier, 1979, p.154).[15] Este saber tem como finalidade um saber sobre o futuro do eu e sobre o eu futuro e, por se tratar de um saber do “eu constituído”, será um saber sobre uma imagem desejada, sobre um projeto a ser realizado. Assim, apesar de ser um saber, deverá renunciar ao atributo da certeza, sendo sempre condenado a duvidar[16].

No projeto identificatório o eu sabe o que quer ser, sabe o que espera tornar-se, mas não pode ter a certeza incondicional de consegui-lo. Bem, se a certeza é sempre ausente, a esperança não pode faltar-lhe nem como desejo do sujeito, nem como imagem identificatória socialmente valorizada pelo grupo. Aulagnier escreve:

Para ser, o eu deve se apoiar neste desejo, mas este tempo futuro, uma vez alcançado, deverá tornar-se fonte de um novo projeto, num movimento que só terminará com a morte. Entre o eu e seu projeto deve persistir uma separação: o que o eu pensa ser deve revelar um ‘a menos’, sempre presente, em relação ao que ele deseja tornar-se (Aulagnier, 1979, p. 157).

 

O projeto identificatório é um saber sobre os enunciados que ao longo da vida o sujeito vai utilizando para se definir e se apresentar ante os outros. É o que ele sabe e sobre o que pode falar: “aquilo que na cena do consciente se manifesta como efeito dos mecanismos inconscientes próprios da identificação; representa, a cada etapa, o compromisso em ato” (Aulagnier, 1990, p. 214). O projeto não é mais do que a resposta que o sujeito obtém cada vez que se pergunta “quem sou eu?”.

No tempo da identificação primária, um choro, um grito ou qualquer outra manifestação do infans será interpretada pela mãe como sinal de uma necessidade ou de um estado de prazer ou desconforto. Isto colocará a mãe em posição de ser demandada, como objeto a quem esta demanda é dirigida; ela então se vê na obrigação de acudir a este apelo. Para isto, ela lançará mão das interpretações oferecidas pela tramitação de seu próprio desejo.

Quando a mãe diz “coitadinho, está chorando porque ficou sozinho” ou “está com dor de barriga”, está interpretando de acordo com seu próprio modelo e criando um modelo para o filho. Este filho, porque indiferenciado, demanda tudo, avidamente e sem limitações, a uma mãe que quer dar-lhe tudo, satisfazê-lo em tudo. A mãe desse modo lhe oferece o objeto seio, sabendo que é muito mais do que alimento, que, a partir desse encontro inicial, se instituirá como primeiro objeto da demanda. Assim cria-se essa dialética tão especial segundo a qual “a mãe deseja que o infans demande e o infans demanda que a mãe deseje” (Aulagnier, 1990, p. 197). Há uma demanda de libido, de desejo, que é precursora do eu.

Depois virá o tempo da identificação especular, consagrado por Lacan como o estádio do espelho[17]. Trata-se do momento de encontro entre o olhar do bebê e sua imagem no espelho, encontro confirmado pela presença da mãe que está ali, justamente, para testemunhar sobre uma diferença e legitimar o júbilo; é o momento crucial de instauração da diferença entre seu corpo visto no espelho e o corpo da mãe.

O júbilo e a onipotência, no entanto duram pouco. Confrontada com as limitações da realidade, com o fato incontestável de não ser tudo para a mãe, com as provas do desejo desta por outras coisas que não ela, confrontada com a proibição do incesto quando esperava a realização do desejo, face a face enfim, com a ameaça de castração, a criança deverá empreender um difícil movimento de renúncia à demanda própria às modalidades anteriores de identificação. Do contrário, pode perder seu lugar como filho, sua filiação a uma família e sua inclusão num grupo social. É este o momento que Piera Aulagnier chama de “momento de compreender”. O que a criança deverá compreender é que, para ter um futuro, deve renunciar à onipotência, ou seja, à posse de tudo – especialmente da mãe – deve renunciar a ser tudo o tempo todo. Ela só poderá compreender e renunciar, entretanto, a partir de uma promessa de ganhos futuros.

As certezas da fase pré-edípica desmoronam quando, confrontada com o discurso paterno ou uma outra instância que o substitua, a criança percebe que o lugar que ocupava em relação à mãe era enganoso, uma vez que nunca foi tudo para a mãe e que era a única a acreditar que isto era possível. No registro identificatório, essa descoberta é a castração[18].

Deste doloroso processo de não mais se saber que lugar se ocupa no universo do outro é que surge a angústia. Para o “eu constituído”, a castração é um processo irreversível. Desterrado desse lugar de privilégio em relação ao desejo materno, só resta a insistente tentativa de voltar lá, embora seja apenas por um instante.

As primeiras formulações atreladas à fase edípica e anteriores à castração (“me casarei com mamãe ou vou possuir todos os objetos”) guardam ainda muito claro o desejo de que o futuro traga o mesmo que hoje se deseja. O futuro não seria diferente do passado, seria um retorno do mesmo. Mas isto nos diz que a condição do eu se projetar no futuro depende da possibilidade do reencontro de um passado. O futuro deve trazer a promessa desse reencontro.

Entretanto, ante a frustrada ilusão desse reencontro idêntico, o discurso social deve oferecer a possibilidade de um tornar-se valorizado, deve outorgar um direito de palavra e participação, este sim nada ilusório. Ou seja, é necessária uma grande recompensa que diga sobre o prazer futuro para se renunciar ao prazer mais primário. É necessário que o futuro seja promissor para se aceitar a mudança exigida e necessária. Mudança que depende principalmente do fato de se saber que o futuro não será igual ao passado, apesar de que se guardará sempre a crença na recuperação da identidade entre o que a criança já desejou e aquilo que agora se resigna a procurar.

Quando, em pleno processo de se tornar autônoma, a criança formula a frase: “quando crescer, eu vou ser….”, nos encontramos ante uma primeira proposta de projeto identificatório, que se formula pela conjugação de um tempo futuro. Piera Aulagnier chama a atenção para o fato da criança, nesta passagem, mudar o uso do verbo ter para o ser, evidenciando o abandono da avidez desmesurada em prol de um projeto para o eu ameaçado pela castração. O que o eu espera tornar-se vem substituir os objetos que antes esperava possuir; o desejo de responder ao desejo materno, de ser o objeto de seu desejo, a coincidência entre o Outro e a mãe, deverão ser abandonados.

A voz materna não poderá mais evitar as dúvidas e fechar o campo das incertezas. Como já foi dito, à pergunta “quem sou eu?” o eu responderá em nome próprio, forçada solidão que garante que o destino não dependerá exclusivamente do desejo de um outro único eu. Outras vozes serão ouvidas e outras idéias de si próprio serão constituídas, como uma duplicação da demanda que constitui o sujeito clivado, o ser sujeito. Se entre o eu e seu projeto deve sempre existir uma separação, se entre o “sou” de hoje e o “me tornarei” de amanhã deve sempre existir uma distância, se o eu presente é sempre um “a menos” que o eu futuro, há que poder lidar com essa frustração do re-encontro impossível; há que poder assumir a castração no registro identificatório, aceitar que a tentativa de encontro entre o eu e seu ideal – o que representaria o fim do processo identificatório – está fadada ao fracasso, e apesar disso continuar tentando. Piera Aulagnier diz:

 

O eu assina, portanto, um compromisso com o tempo: ele renuncia a fazer do futuro este lugar no qual o passado poderá retornar, aceita esta constatação, mas preserva a esperança de que, um dia, este futuro lhe devolverá a possessão de um passado, tal qual ele sonhou (Aulagnier, 1979, p. 157).

 

Trata-se, portanto, de uma esperança narcisista, que implica aceitar o fato de que não basta desejar para ter, e jamais se poderá possuir tudo; apesar disso, o desejo de concordância total entre o eu e o ideal continuará, em função de que assumirá que deverá viver entre a esperança narcísica e o princípio de realidade, entre esperar e viver.

Vemos então que, para que o eu se constitua, certas condições básicas – e não poucas – são necessárias. Talvez pudéssemos resumi-las dizendo que o eu, como enunciante singular, o discurso social e a realidade, devem ter alguns pontos de coincidência que lhes permitam uma montagem, que resulte no que estamos habituados a chamar de modelo.

O modelo pode variar dependendo do paradigma predominante em cada sociedade, de modo que poderemos achar que um modelo diferente do compartilhado por cada um de nós é inferior, pré-lógico, atrasado. Mas também os modelos não podem ser tão individuais que fiquem totalmente fora das normas que regem sua cultura (Aulagnier, 1990, p. 240). Qualquer que seja o modelo, deve sempre legitimar a singularidade. Sendo verdade que o modelo é proposto pelo discurso social, é verdadeiro também que se trata de um produto histórico dos tantos e diferentes sujeitos que habitaram essa cultura.

Bem, quando dissemos modelo, além de nos referirmos a um ideal, falamos também de algo que se oferece como padrão utilizável para verificar a própria realidade que o engendra e que oferecerá pontos de certeza. “A busca deste ponto e sua necessidade nos são comprovados através do pavor pelo qual o sujeito pode ser tomado frente a qualquer questionamento radical de sua verificação” (idem).

Sobre esse modelo de realidade proposto pelo discurso social é que vai se constituir o modelo identificatório. O modelo de realidade difere de uma cultura para outra, o mesmo ocorrendo com as referências identificatórias do eu. Piera Aulagnier acrescenta:

 

O desmoronamento do modelo identificatório ou do modelo da realidade, implica, inevitavelmente o desmoronamento do conjunto dos dois. Eis porque é impossível interrogar o modelo da estrutura psíquica, tal como forjado pela teoria de Freud, sem colocar a questão de seus efeitos sobre a realidade cultural (Aulagnier, 1990, p. 240).

 

Assim, quando o modelo identificatório cai, o modelo da realidade necessariamente vai junto, e perdem-se os padrões de verificação. Se o futuro for desinvestido – como observamos em certos momentos de crise na vida política da humanidade – a certeza da origem também se verá fragilizada. Isto sem dúvida produzirá efeitos na subjetividade e novas formas de organização que poderíamos definir como patológicas, pois são as modalidades de funcionamento do eu que justificam e dão sentido ao conceito de psicopatologia, independentemente das diversas definições que tenhamos ou ainda venham a ser elaboradas sobre esta instância. Terminada a infância, a criança deverá estar apta a modificar sua relação de dependência com o pensamento dos pais. Aulagnier diz que é neste momento

 

que se instala a “potencialidade” (neurótica, psicótica ou polimorfa) que decidirá sobre as formas de resposta e de defesa (neurótica, psicótica, perversa, somática) de que poderá dispor o eu confrontado com um conflito que pode surgir em diferentes pontos de seu percurso. O conceito de potencialidade engloba os ‘possíveis’do funcionamento do eu e de suas posições identificatórias, uma vez terminada a infância (Aulagnier, 1989, p. 228).

 

A potencialidade é portanto entendida não como destino e sim como possibilidade. Assim, seria impossível prever o futuro do eu, a não ser por aproximação. Pode-se sim, verificar presença ou ausência de condições que possibilitem um funcionamento harmônico do eu. Estaríamos, então, ante um amplo leque de possíveis respostas; amplo, porém limitado. Cabe ao eu fazer um trabalho através do qual pode procurar respostas mais ou menos adequadas aos estímulos que provocam mudanças em seu meio psíquico. Ante à falta de certas condições internas ou externas, porém, não poderá inventar novas defesas que não estejam já previstas em seu leque de potencialidades.

Podemos observar como, desde a sombra falada até o projeto identificatório, há um movimento no qual o eu se constitui com duas instâncias: a identificada, provida pelo discurso materno e a identificante, que não é produto passivo do discurso do outro.

Por algum tempo, o eu deixa ao outro a função de investir no seu futuro, uma “segunda antecipação” que funciona como alicerce para que, noutro momento, o eu tome para si estes desejos para não se transformar num “repetidor” do desejo do outro (Aulagnier, 1998, p. 29). O eu investe[19] os enunciados identificatórios do porta-voz, graças ao que pode se apropriar deles e ser seu próprio enunciante. Identificante é o trabalho de investimento do eu, e identificado é o enunciado do porta-voz, com o qual o identificante se identifica.

A garantia de continuidade do eu depende de que o identificante se assegure o identificado atual e o porvir desse identificado. Assim, o futuro apresenta-se como uma verdade passível de ser construída sobre um modelo que se deseja que seja sempre perfeito (ou quase), e do qual o identificante é sempre protagonista.

Estes identificados são móveis e, ao se juntar ao identificante, não sem conflito, provocarão modificações. Como o identificante se pretende fixo, a imagem que lhe outorga o identificado (o olhar do outro) vem coincidir ou não com ele, provocando então seu prazer ou sofrimento. Ele apreenderá, porém, que nenhum olhar é único e totalizador, que não existe um espelho único no qual se reconhecer, e que desta múltipla oferta de imagens, o eu terá que escolher as mais adequadas para prosseguir com o processo identificatório. Assim, poderá comprovar que as imagens mais adequadas serão aquelas que encaixem melhor no eu identificante. Deve existir, então, esse eu inamovível, fixo, ao qual alguma coisa possa ser acrescentada.

Comprovamos então, que é necessário que a unidade “identificado-identificante” conserve certos pontos de certeza para que a identificação simbólica seja sempre possível, para que o eu, ilusoriamente, se reconheça como “indivíduo”, isto é, dotado de uma continuidade própria e reconhecível no seu processo de historização. Neste processo, o que é deverá guardar uma relação de causalidade com o que foi e com o que será.

Só assim, o futuro poderá se apresentar como uma verdade passível de construção; só se o eu se reconhece nos enunciados sociais que falam dele é que poderá catexizá-los, o que é o mesmo que dizer que só catexizará aqueles enunciados identificatórios nos quais se reconhece.

Podemos dizer que essas mensagens que o eu recebe sobre sua própria existência devem possuir o atributo da certeza. Isto não significa que não possam ser questionados. Muito pelo contrário, constantemente o são, basta ver o que acontece na adolescência. A dúvida e o questionamento dos enunciados servem não só para confirmá-los, mas também para promover as mudanças sempre aneladas em prol de uma existência mais satisfatória e de maior coincidência (Aulagnier, 1998, p 30-31).

Sabemos, enfim, até pelo senso comum, que duvidar do próprio pensamento é o ponto de partida necessário para um outro pensamento que contenha mais atributos de certeza do que o anterior. Mas acidentes de percurso acontecem, e ninguém é livre de lutos, desilusões e fracassos, e estes momentos de verdadeira crise (como o envelhecimento, por exemplo) só serão suportáveis se existirem pontos fixos de ancoragem simbólica ao resguardo das vicissitudes da existência, certos pontos que não percam catexia, aconteça o que acontecer, pois deles depende a sobrevivência do eu. Quando, ante um luto, se diz: “ele é forte, vai superar” é desse eu solidamente investido e bem balizado que se está falando.

Piera Aulagnier utiliza a metáfora do quebra-cabeça (Aulagnier, 1989) para explicitar os mecanismos desta construção identitária ligada às diferentes “potencialidades”[20] do eu-identificante que constituiriam as peças básicas a partir das quais o resto do quebra-cabeça poderia ser montado com um mínimo de certezas. Assim, será necessário que as peças originais e as agregadas mais tarde se ajustem, ainda que nas diferentes tentativas sempre esteja presente o risco de desencaixe, a potencialidade de uma fissura.

Quando a fissura se apresenta no núcleo originário, encontramos a potencialidade psicótica correspondente ao conflito entre os componentes do próprio eu; no caso de serem as peças do segundo agrupamento que não se encaixam com as do primeiro, estamos na presença da potencialidade neurótica, marcada pelo conflito de ideais, pela frustração causada pela falta de amor e de objetos dignos de investimento.

Mas haverá uma terceira possibilidade, que é quando aparentemente tudo se encaixa perfeitamente, ainda que o resultado final não coincida com o modelo que se esperava reproduzir. Este é o caso da potencialidade polimorfa, na qual Piera Aulagnier inclui a perversão, as somatizações e as relações aditivas, que analisa como relações passionais ou alienantes. É na potencialidade polimorfa que o conflito identificatório é composto: por um lado, é um conflito entre suas dimensões identificante e identificada (psicose) e, por outro, é um conflito entre o eu e seus ideais (neuroses). Esta potencialidade polimorfa estaria presente nos casos de certas formas de somatizações, nas relações passionais ou alienantes, nas toxicomanias e nas perversões. O que encontramos de comum a todas estas alternativas é o conflito do sujeito com a realidade, seja do próprio corpo, dos outros ou do campo social. Esta realidade, assim, torna-se responsável pelo sofrimento a que o sujeito é submetido.

Considero fundamental ressaltar que Piera Aulagnier define todo o processo identificatório em termos temporais: o primeiro tempo é aquele que vai do nascimento até a constituição do eu e o segundo vai a partir deste ponto até o estabelecimento da potencialidade.

Sobre o primeiro tempo, só se pode ter conhecimento através dos relatos dos outros (geralmente os pais). São eles que falam desse tempo em que ainda não há um eu historiador, mas que produz os primeiros identificados, já antecipados no discurso materno e projetados sobre o bebê; aí justamente o tempo inexiste para o infans.

O segundo tempo, que se inicia com a constituição do eu, e portanto marca o começo da história (ou melhor, da função do eu como seu próprio historiador) e culmina com a implantação das potencialidades, é marcado pelos encontros com os objetos que serão as novas peças do quebra-cabeça de sua história. Pois bem, o mais interessante desta elaboração é que, nestes encontros, o eu não permanece imóvel e passivo, e sim num contínuo “trabalho de auto-modificação” (Aulagnier, 1989, p. 229-30).

Sem essa possibilidade de o eu se auto-modificar ante o olhar ou a voz do outro, o processo identificatorio cessaria por completo. Pensado assim, o processo identificatório só é possível no campo do relacional (do encontro). Neste campo, as propostas modificadoras do outro só poderão ser aceitas com a condição de respeitarem o não-modificável. Este ponto é um momento de virada, uma encruzilhada na qual, ante os encontros possíveis e necessários, o eu deverá modificar sua relação de dependência com o pensamento do casal parental.

Falamos de um momento em que se estabelece uma ligação entra as posições identificatórias conseguidas neste vínculo primário e as futuras, que virão modificar o posicionamento do sujeito ante esta relação. Ligação que marca um presente e a possibilidade de um futuro diferente, modificável, surpreendente até. E Piera Aulagnier esclarece:

 

Quando, por sua vez, o eu da criança atinge este ponto, deverá concluir definitivamente este trabalho realizado até então com a colaboração do eu dos pais: preservar uma separação entre os emblemas imaginários e as referências simbólicas, entre os suportes de uma esperança narcísica à qual o sujeito não renuncia nunca, e referências que lhe designam e lhe garantem sua posição na ordem simbólica, mas lhe proíbem de ocupar outra (Aulagnier,1989, p. 237).

A constituição do eu do primeiro tempo e as possibilidades de futuro que se abrem no segundo vão depender, então, dos encontros com os outros e com a realidade. Encontros sempre conflitivos, pois guardam em seu horizonte a ameaça – sempre presente entre dois desejantes – de que sejam desvalorizados os atributos que justamente os tornariam desejáveis. Ante esta situação, o eu irá estruturando diferentes qualidades de defesas, que constituirão uma espécie de capital defensivo ao qual poderá recorrer cada vez que o conflito for reeditado.

Enfim, podemos dizer que o que caracteriza o processo identificatório é o movimento permanente, isto é, o fato de nunca estar acabado (como diz Guimarães Rosa, através da fala de Riobaldo na epígrafe que abre este capítulo). Mas, para isto ser possível, é necessário que haja uma certa ancoragem, um ponto a partir do qual tudo adquira um sentido e onde passado, presente e futuro se encadeiem.

Essa ancoragem simbólica está formada por um conjunto complexo de identificações, realizadas com os enunciados “proferidos pelos outros significativos” (Aulagnier in: Hornstein, 1994, p. 74). Para o sujeito construir uma resposta para a pergunta básica “por que estou aqui?”, deve poder se responder sobre a origem e o fim, de onde vem e para onde vai. Este é o sentido que tem para a psique a figura do desejo, que, como já dizia Freud em “O Poeta e o Fantasiar”, atua como o fio que mantém unidas as contas de um colar, encadeando passado, presente e futuro.

 

2.5.      Construindo a história

 

Este nosso percurso pelos conceitos de Piera Aulagnier nos mostra que a história é uma malha formada pelos fios da memória e do desejo que tecem a temporalidade do sujeito, na qual se desenvolve seu pensamento.

Para o projeto identificatório se conservar vigente, é necessário que se exerça uma considerável dose de repressão, pois o eu, em sua totalidade, compreende todas as representações e enunciados nos quais ele alguma vez se reconheceu. Muitos deles permanecerão através do tempo como objetos de investimento atual ou como simples recordação de um momento da existência altamente investido, enquanto outros serão rejeitados.

As lembranças dessas posições passadas não são mais do que a história do eu, o saber do ‘eu pelo eu’, a partir do qual projetará o futuro. Mas isto só será possível porque uma parte é esquecida, justamente aquela que não coincide com o projeto. Assim, a própria história será coerente e adequada. Vemos então que o eu é uma história formada pelos enunciados que constituíram o projeto identificatório, pelos enunciados presentes que coincidem com o projeto e pelos outros que, justamente por não coincidirem, são vítimas da ação repressora.

 

O Eu é constituído por uma estória[21] representada pelo conjunto dos enunciados identificatórios cuja lembrança ele conserva, pelos enunciados que manifestam, no presente, sua relação com o projeto identificatório e, enfim, pelo conjunto dos enunciados em relação aos quais ele exerce sua ação repressora, para que eles permaneçam excluídos de seu campo, de sua memória, de seu saber. Permanece inconsciente para o Eu e é isto que, essencialmente, representa o Eu inconsciente: a ação repressora por ele exercida e que conduz à repressão de uma parte de sua estória” (Aulagnier, 1979,
p. 160).

 

A ação repressora exercida por uma parte do eu (a inconsciente) reprime os enunciados que não se adequam à história, os enunciados inconvenientes ao relato, que se reconstrói de forma permanente. Podemos dizer que há toda uma parte da história do eu que é reprimida, constituindo o eu inconsciente e que representa a condição necessária para que o eu consciente possa se constituir como um saber.

Vemos então que este saber fundante do projeto identificatório, além de permitir o acesso ao futuro, tem como resultado a construção de um passado compatível e adequado ao projeto, que será por definição, temporal. Assim, constituição do eu, tempo e história, são categorias inseparáveis ligadas à temporalidade. Lembremos que, embora as primeiras identificações sejam providas pela mãe, o que o torna identificado por
ela, o eu não é uma simples marionete na sua mão; ele é também uma instância identificante.

A realidade histórica é o conjunto dessas experiências que marcam a infância. Experiências de ordem afetiva, somática e psíquica, que produzem efeitos e especialmente uma organização de seus recursos psíquicos. Experiências que segundo sua qualidade serão estruturantes ou desestruturantes de sua aparelhagem básica. Experiências que serão reprimidas e reconstruídas sempre que a realidade venha a solicitar a utilização desses recursos. E Piera Aulagnier conclui:

 

Se pudemos afirmar que um dos efeitos da experiência da castração se manifesta através da assunção, pelo sujeito, de um saber sobre sua própria morte, devemos também acrescentar que esta assunção tem como antecedente necessário a apropriação de um projeto identificatório que é, inevitavelmente, um projeto temporal. Projeto no qual continua a existir o sonho de um amanhã sempre postergado, que permitiria, finalmente, que o desejo encontrasse o objeto de sua busca e que o Eu pudesse anular o ‘a menos’ que o separa do ideal por ele sonhado (Aulagnier, 1979, p. 161).

 

Quando dissemos que a psicanálise se importa com a verdade histórico-vivencial e com a realidade psíquica, não estamos colocando uma oposição entre realidade objetiva e representação fantasmática. Trata-se de encontrar as relações entre as experiências significativas da vida de um sujeito, balizadas pelas circunstâncias da realidade, e as circunstâncias fantasmáticas que a acompanharam. Entre ambas, encontraremos uma interpretação do eu que, como historiador, quererá elucidar a causalidade de sua existência (Aulagnier apud Hornstein, 1994, p. 25 e 1979, p. 59).

Então, todo estímulo, toda excitação, terá acesso ao registro do eu se for capaz de promover idéias, cujo encadeamento dará lugar a um “fluxo pensante” que atua como uma tradução simultânea dos estímulos em representações do eu consciente. Estas idéias podem permanecer em forma latente, sendo necessário o ato de pensar para fazê-las conscientes e criar um novo fluxo ideativo.

O que não for passível de representação não terá existência para o eu, mas isso não significa que se veja livre de seus efeitos. O eu pensa, critica, se questiona, duvida, conclui. A atividade de pensar é “condição de existência do eu”. Dissemos novo fluxo ideativo pois este trabalho de pensar, de metabolizar, não é a simples reprodução ou resgate do reprimido; neste trabalho de representar, há sempre a construção do novo. Esta função de inteleção, entretanto, só é possível porque se apresenta à psique como uma nova zona erógena, isto é, como fonte de prazer; esta é uma condição necessária para a permanência do investimento na atividade de pensamento.

Com o declínio do Complexo de Édipo, o eu deverá poder aceitar a diferença entre o que ele é (ou como ele pensa que é) e o que gostaria de ser. Deverá aceitar a idéia de que não ocupa o lugar que gostaria e deverá lutar para ocupar esse outro lugar tão anelado – que saberá não poder ser igual, jamais. Mas, neste processo, o eu não está só, pois novas referências virão modelá-lo, situando-o numa realidade possível e também oferecendo miragens.

É fundamentalmente neste momento, porém, que se abre um primeiro acesso ao futuro, pois é nele que deverá projetar o reencontro com um estado e um ser passados. O eu deverá fazer pensável para si mesmo o seu próprio devir, deverá ter um futuro, e esta é uma condição essencial para o seu funcionamento. O trabalho de historização é a base do processo de identificação, que transforma um tempo do que já foi em discurso, tempo do qual se pode falar; o discurso substitui o tempo perdido.

Usando uma metáfora bélica, Piera Aulagnier diz que o eu trava permanentemente um combate “nunca definitivamente ganho, nem definitivamente perdido” (Aulagnier, 1989, p. 207) para defender as posições que tanto custou a adquirir. Posições estas que orientam o auto-investimento no seu próprio espaço identificatório; este, embora arduamente conquistado, não está isento de ser invadido por um inimigo externo ou interno.

O eu pode se precaver deste duplo perigo conservando títulos de propriedade que o legitimem nesse espaço. Mas acontece que o eu perde, ao longo do tempo, todos os documentos com os quais poderia provar que realizou sobre esse espaço um verdadeiro trabalho de tomada de posse, convertendo-o num espaço habitável, que desalojou os fantasmas arcaicos que o habitavam antes dele e que não cessavam de acossá-lo.

Desses documentos que lhe permitiriam mostrar ante a “lei” que não é um usurpador, ele só conserva alguns fragmentos, alguns contratos desbotados, que falam de pedaços de sua história, de fatos isolados que não consegue articular com o resto, lembranças parciais de algumas batalhas e poucas conquistas. Escreve Piera Aulagnier: “A tarefa do eu será transformar esses documentos fragmentados numa construção histórica que dará ao autor e aos seus interlocutores a sensação de uma continuidade temporal” (Aulagnier, 1989, p. 208), podendo assim ligar o passado ao presente, o que é ao que foi e projetar no futuro um tornar-se. Aí, deve poder conciliar o que sempre foi, o fixo, o ilusoriamente imodificável, com os desejos do que quer ainda vir-a-ser.

Este discurso é essencialmente seletivo, pois reconstrói o passado em função das necessidades identificatórias do presente, tendo como objetivo fundamental substituir um conflito. Conflito este, que será em primeira instância aquele que opôs identificado a identificante, depois, o eu e seus ideais e, finalmente, o eu e os objetos por ele investidos, dos quais nem sempre recebe as respostas esperadas. Mas, será através da relação com esses objetos que o eu construirá sua própria história. Nesse sentido, é claro que não podem faltar ao eu objetos de identificação, objetos aos quais demandar a posição de desejante, sem a qual a construção se detém e o eu se aniquila.

Então o eu, que é uma instância não totalmente autônoma, porém tampouco totalmente dependente, precisa do outro para se constituir e para se sustentar. O eu é uma história construída na relação com os outros, como bem define Freud em “O eu e o isso”. Neste texto, Freud considera que o eu é um precipitado dos investimentos de objetos abandonados, contendo a história dessas relações de objeto. E Piera Aulagnier acrescenta: “O Eu é um produto das sucessivas experiências de impotência em que foi modelado pelo outro” (Aulagnier apud Hornstein 1994, p. 73).

Neste sentido, as idéias que constrói a seu respeito terão sempre uma dupla referência: por um lado, o saber que já possui sobre si, ou seja, seu próprio reconhecimento; por outro lado, terá o reconhecimento que deverá encontrar no olhar dos outros. Progressivamente, o eu abandonará a escuta exclusiva de uma única voz que o defina, para ouvir o conjunto de vozes, o discurso do conjunto.

Na identificação do narcisismo secundário, vão se incorporando ao eu traços dos objetos investidos, o que permite abandoná-los como tais. Assim a perda pode ser compensada, pois o investimento no eu substitui a eleição libidinal. O objeto é neutralizado ao ser substituído, convertendo-se o próprio eu em objeto de desejo. O eu passa a ser o objeto, ou ao menos um traço dele.

Ter o objeto (registro objetal), não sê-lo (registro narcísico), aceitá-lo como diferente, como um outro, significa aceitar sua variabilidade, sua vulnerabilidade e até sua ausência. Significa aceitar o sofrimento da não coincidência com o ideal e o sofrimento da frustração; diante disso, o eu poderá empobrecer suas relações objetais com um sobre-investimento narcísico que suprime, por incorporação, a distância que o separa dos objetos.

Há, sem dúvida, algo de muito paradoxal na maneira pela qual o processo identificatório institui a existência do eu, pois, sem as identificações primordiais com os enunciados maternos, ele não existiria. Para existir, todavia, tem que poder se separar desses enunciados. Deve haver um eu separado do eu da mãe, tem de haver uma possibilidade de não identificação, e esta possibilidade será dada pela presença de uma determinação simbólica no psiquismo dos pais que o reconheça como outro (Aulagnier apud Hornstein, 1994, p. 76).

Só assim o eu poderá se reconhecer como separado, diferente do outro. Mas neste processo ganhará uma instabilidade e precariedade que não conhecia, em que os objetos poderão faltar ou poderá ser abandonado por eles. Para poder enfrentar esta batalha, que lhe exigirá um permanente processo de auto-modificação, deverá sentir que conta com um porto seguro, uma parte de si que, “haja o que houver”, permanecerá sempre a mesma, imodificável, uma guardiã de sua identidade. Só com este “compromisso identificatório” poderá entregar uma parte de si para a mudança (e o crescimento). Piera escreve:

 

Mas também podemos afirmar que o Eu é este compromisso identificatório, através do qual nos reconhecemos como elemento de um conjunto e como ser singular, como efeito de uma história que nos precedeu e como autores de outro que conta nossa vida, como mortos futuros e como vivos capazes de não levar muito em consideração o que eles mesmos sabem acerca deste fim (Aulagnier, 1984, p. 225).

 

Auto-modificação (Aulagnier, 1990, p. 241) não é escolha, mas necessidade de sobrevivência do eu; à qual se chegará através do princípio de realidade. Só como produto das sucessivas frustrações, experimentadas ante a não satisfação imediata de suas necessidades ou ante o fracasso da alucinação para satisfazê-las, o eu abandona o modo primário de satisfação e enfrenta a realidade do mundo exterior. Esta lhe exigirá uma dupla modificação: em sua própria percepção e nessa exterioridade que será representada, incluindo, a partir desse momento, os motivos de seu desprazer.

Esta possibilidade do psiquismo de privilegiar o processo secundário se dará apoiada nos fenômenos do pensamento consciente que conhecemos como memória, atenção e ação modificadora da realidade. Estes permitirão a corroboração da percepção graças à rememoração de experiências passadas.

 

2.6.      Atividade de pensar e realidade

 

A realidade deverá sempre estar de acordo com o modelo que se tem dela, o que permite o afastamento do que pode se apresentar como perigoso ou ameaçador para o eu. A realidade assim concebida representa um saber que permite a construção do saber sobre o eu. Isto quer dizer que este eu que sabe sobre si, que tem um conhecimento perfeitamente estruturado da realidade exterior, tem também um saber sobre sua própria realidade psíquica, e é sobre estes dois fatores – mundo físico e mundo psíquico – que a ação modificadora há de se realizar.

Trata-se no entanto de um saber que versará, muito especialmente, sobre aqueles assuntos que o colocarão numa situação de salvaguarda de suas funções, relativas ao próprio corpo, a suas necessidades e às experiências que, em contato com o mundo, mostraram-lhe situações de perigo. O princípio de realidade, então, está formado por fragmentos do saber que se tornam vitais para a sobrevivência e o bem-estar do eu.

Em princípio, a realidade é aquilo que se nos apresenta como uma verdade evidente: “para o sujeito, a realidade coincide com a totalidade dos fenômenos cuja existência constitui uma evidência” (Aulagnier apud Hornstein, 1994, p. 118). Verdade e realidade são dois conceitos intimamente ligados ao cultural e aos referenciais dominantes. Assim, cada cultura criará seus próprios parâmetros de realidade, que darão conta da produção de um pensamento explicativo sobre as causas dessa realidade.

Por outro lado, existe uma “causalidade demonstrada” mais ou menos comum a todos os membros de uma cultura, não questionável, sobre a qual os indivíduos tecerão suas fantasias e farão suas interpretações pessoais. Ela constitui uma “causalidade interpretada”, esta singular, referida a sua própria maneira de participar da realidade e passível de ser questionada pelos outros. O parâmetro explicativo da realidade pouco importa, o que nos interessa agora é que ambos os tipos de explicações co-existem em todos os sujeitos, e por isso é tão difícil chegar a um acordo sobre algo aparentemente tão evidente quanto a realidade (Aulagnier, 1990, p. 233).

De qualquer ponto de vista, devemos concordar em que a explicação causal é uma necessidade psíquica e a ausência de explicação para o sofrimento pode causar profundos danos à integridade psíquica. Conhecer a causalidade do que aflige o homem é um de seus grandes anseios; conhecer a origem possibilita se dirigir a um destino também conhecido – as explicações religiosas que o digam.

O eu possui uma exigência de significação e, assim, tudo que vive e forma parte de seu universo passará por alguma prova de realidade e será atribuído a uma causalidade inteligível. Só pertence à realidade aquilo que se ajusta a um saber, que será o saber dominante em cada cultura, seja ele mítico, científico ou do senso comum, o que constitui uma evidência. É desta forma que o eu poderá produzir representações ou enunciados, poderá pensar e questionar a realidade, pois, apesar das constatações da realidade, o eu está condenado a duvidar: a atividade de pensar é condição de existência.

Como acabamos de ver, a atividade de pensar está em articulação com o eu e a realidade. Piera Aulagnier, em “A violência da Interpretação”, começa um tópico chamado “A atividade de pensar” dizendo:

 

A partir de um momento dado que marca a passagem do estado de infans ao de criança, a psique vai adquirir os primeiros rudimentos de linguagem e uma nova ‘função’: daí resultará a constituição de um terceiro lugar psíquico, no qual todo o existente deverá adquirir o status de ‘pensável’, necessário para que ele adquira o atributo de dizível. Este pensamento-dizível pode ser definido como ‘inteligível’: assim se estabelece uma ‘função de intelecção, cujo produto será o “fluxo ideativo” que acompanhará o conjunto da atividade, da mais elementar à mais elaborada, da qual o eu pode ser o agente. Toda fonte de excitação, toda informação, só pode ter acesso ao registro do eu se ela pode dar lugar à representação de uma idéia. Toda atividade do eu vai se traduzir num fluxo pensante explícito ou implícito. Uma verdadeira tradução simultânea em idéia de toda vivência consciente do eu. Esta tradução representa um fundo latente, silencioso, mas que o eu pode tornar presente por um ato de reflexão sobre sua própria atividade. O dizível é, portanto, a qualidade própria das produções do Eu (Aulagnier, 1979, p. 59).

 

Agora, esta “função de intelecção” apresenta-se à psique como uma nova “zona-função”, zona erógena investível que será fonte de prazer. Assim, o prazer do pensável deverá anteceder a atividade de pensar, própria do processo secundário.

É necessária uma certa reciprocidade entre o sujeito e a realidade. Esta deve colaborar para que o corpo e as atividades psíquicas sejam preservadas, para que o eu queira investir na vida e não renuncie a um ou às outras, para que queira pensar. O eu deve extrair um prazer mínimo necessário para que a vida seja possível, para preencher suas necessidades psíquicas e suas exigências vitais. Uma condição mínima necessária para que o eu invista na preservação de seu corpo e no funcionamento de seu psiquismo.

Este prazer é necessário para viver, porém não é suficiente para que o eu escolha continuar vivendo. Para escolher continuar investindo na vida como possibilidade, é necessário um “plus” de prazer, um prazer este sim, suficiente para suportar os sofrimentos que a realidade venha lhe impor. O prazer suficiente reside na possibilidade de escolher e ser escolhido fora do campo do estritamente necessário, aquilo que faz com que a vida, além de ser possível, valha a pena.

 

[1] É interessante notar que na tradução ao espanhol da Ed. Amorrortu usa-se “almácigo” no lugar de “sede”, como o encontramos na Imago. Almácego, segundo o Aurélio, é sinônimo de Alfobre, que é definido como viveiro de plantas. Isto é mais adequado do que “sede” para dar uma idéia de lugar de nascimento e crescimento.

[2] O termo Ich, tal como aparece em “Das Ich und das Es” (O Eu e o Isso), de 1923, é traduzido como eu ou ego, segundo os diferentes autores que escrevem em língua portuguesa; como moi em francês e como yo em espanhol. Adotaremos neste trabalho o termo ‘eu’ com fundamento nos esclarecimentos de Luis Carlos Menezes sobre a revisão brasileira do ‘Vocabulário de Psicanálise”, onde admite as opções Eu, Isso e Super-eu, devido a sua crescente utilização. (apud Souza, 1999, p. 94). Obviamente, conservaremos o termo “ego” quando assim constar no original dos diversos autores citados.

[3] Como veremos no capítulo seguinte, são justamente essas as funções que aparecem diminuídas em qualquer relatório psiquiátrico de um paciente demenciado ou deprimido.

[4] ”Depois de Freud, certos autores retomaram o par formado por estes termos para designarem duas formações intrapsíquicas diferentes. Numberg, em particular, faz do ego ideal uma formação geneticamente anterior ao superego: O ego ainda inorganizado, que se sente unido ao id. Corresponde a uma condição ideal (…) No decorrer de seu desenvolvimento, o sujeito deixaria para trás este ideal narcísico e aspiraria a regressar a ele, o que acontece sobretudo, mas não exclusivamente, nas psicoses”(Laplanche e Pontalis: “Vocabulário de psicanálise”, 1990, p. 139).

[5] Sobre este particular sugerimos a leitura de “Introdução à Metapsicologia Freudiana” vol 3 p. 56 e “Freud e o Inconsciente” p. 204, de L. A García Roza.

[6] Voltaremos nossa atenção sobre “Luto e Melancolia” no capítulo que segue.

[7] Freud relata o caso de um menino que teve conhecimento dos genitais femininos por sedução de uma menina mais velha, ao que se seguiu uma atividade onanista que ao ser surpreendida pela babá provocou uma ameaça de castração. (Freud, 1938, p. 276.

[8] “Este tipo de relação que caracteriza o imaginário, Lacan o chama de dual. O temo expressa a natureza especular da relação que consiste numa oposição imediata entre a consciência e o outro. […] Quando dizemos que a fase dual que caracteriza o imaginário é anterior ao acesso ao simbólico por parte do infans, isso não quer dizer que o simbólico esteja ausente. Apesar de a criança não ter ainda acesso a sua própria fala, ela é falada pelo outros, ela já surge num lugar marcado simbolicamente. Ela mesma não dispõe ainda de uma função simbólica própria, no entanto é desde seu nascimento e mesmo antes dele, é ‘simbolizada’ pelos outros. O imaginário não é, pois, autônomo em relação ao simbólico. Dos três registros a que Lacan se refere – o imaginário, o real e o simbólico – este último é o que deve ser tomado como determinante. [….] O real é o barrado, o impossível de ser definido, o que não é passível de simbolização, mas que é só apreendido por intermédio do simbólico. É a pulsão freudiana. O simbólico, por sua vez, é a Ordem, a Lei, o que distingue o homem do animal e funda o inconsciente, A Ordem Simbólica é a ordem humana, é transindividual na medida que precede o sujeito e é a condição de sua constituição como sujeito humano. É no interior do simbólico e por intermédio dele que o imaginário pode constituir-se” (Garcia Rosa, 1993, pp. 213-214).

[9] Não é objetivo deste trabalho nos aprofundar no conceito de supereu mas desejamos acrescentar aqui uma formulação de J.D Nassio pela qual, assim como o supereu primordial seria o herdeiro do Complexo de Édipo, o supereu tirânico seria o herdeiro de um trauma primitivo, de uma vociferação parental que não pode ser capturada simbolicamente. (ver Nassio, 1991, p.134).

[10] Este termo aparece repetidas vezes na tradução em português da Imago, mas não na espanhola da Amorrortu. O que a primeira traduz como sujeito, a segunda o faz como “yo próprio”, “individuo”, “persona” e outros.

[11] Ver p. 111 deste capítulo.

[12] Metabolizar é o termo escolhido por Piera Aulagnier, pois “O trabalho solicitado ao aparelho psíquico consistirá em metabolizar um elemento de informação que vem de um espaço que lhe é heterogêneo, em um material homogêneo à sua estrutura, a fim de permitir à psique se representar o que ela quer encontrar de sua própria vivência “(Aulagnier, 1979, p. 42).

[13] “Está vinculado à linguagem, mas não estruturado como tal”. Neste ponto, Piera Aulagnier marca uma de suas diferenças com Lacan: “Para mim, o eu é uma instância que está diretamente vinculada à linguagem. Não há lugar, na minha concepção metapsicológica, para o conceito freudiano de eu indiferenciado. O eu antecipado é um eu historizado que inscreve a criança, desde o começo, em uma ordem temporal e simbólica. Minha diferença com Lacan é que, para mim, o eu não está condenado ao desconhecimento, nem é uma instância passiva. Embora suas primeiras identificações sejam fornecidas pelo discurso materno, o eu é também uma instância identificante, e não um produto passivo do discurso do Outro” (Aulagnier apud Hornstein, 1994, p. 369). Cabe notar que Piera Aulagnier tampouco fala de supereu, pois ela prefere usar a denominação “ideal do eu”. Ela considera que a ação do supereu está nos ideais que “o eu se propõe com todas suas exigências e excessos possíveis” (idem, p. 368).

[14] Já abordamos este tema da habitabilidade ao falar de desamparo no cap. I.

[15] “A castração pode ser definida como a descoberta, no registro identificatório, de que não ocupamos jamais o lugar que acreditávamos nosso e que, inversamente, já estamos destinados a ocupar um lugar no qual não poderíamos ainda encontrar-nos. A angústia surge no momento em que descobrimos o risco que implica o saber que não estamos, para o olhar dos outros, no lugar que acreditávamos ocupar e que poderemos não mais saber de que lugar nos falam, e em que lugar nos situa aquele que nos fala. Será necessário, então, reconhecer que as referências que asseguram ao Eu seu saber identificatório podem sempre esbarrar numa ausência, num luto, numa recusa, numa mentira que obrigam o sujeito ao doloroso requestionamento de seus objetos, de suas referências, de sua ideologia. Eis porque a castração é uma experiência na qual podemos entrar mas da qual, num certo sentido, não podemos sair: podemos nos recusar a participar dela, podemos empreender uma desesperada marcha à ré, mas é uma ilusão acreditar que dela podemos sair” (Aulagnier, 1979, p. 158).

[16] Podemos ver como estas formulações são próximas às do sujeito lacaniano. Aliás, Piera Aulagnier, apesar de privilegiar o conceito de Eu, não deixa de nomear o sujeito o tempo todo.

[17] Já abordamos este tema no início deste capítulo. Aqui, os comentários se referem aos pontos de vista que sobre o particular, são apresentados por Piera Aulagnier

[18] Ver nota de rodapé na p. 125.

[19] A justificativa para o uso de catexia e seus derivados foi feita na última página do capítulo III.

[20] Piera Aulagnier elaborou o conceito “potencialidade” para substituir o de “estrutura” depois de seu rompimento com Lacan em 1969.

[21] Conserva-se o termo ‘estória’ em lugar de história, tal como consta na tradução de Maria Clara Pellegrino.

 

CAPÍTULO   V

Introdução a uma
Psicopatologia das Demências

 “Um sopro de esquecimento

como uma dança

que muda o dia em noite

para que eu não pense….

ele está lá

no meu coração

onde meu espírito se recolhe para cuidar da

[ felicidade dos dias que se foram

e afogar o terror de todo que esqueço”*

 

Jean Maisondieu, na nova edição de “Le crépuscule de la raison” [1] (2001), retoma sua antiga preocupação com a questão das demências e as identifica com um “naufrágio senil” que, como todo naufrágio pode ter inúmeras causas. Dentre estas causas, talvez, a mais relevante seja para este autor, a “tempestade existencial” a que a velhice está submetida em decorrência do confronto com a morte, agravado pelas condições da existência nos dias de hoje. A tempestade existencial deixaria o sujeito à deriva, sem porto seguro, sem parâmetros para pensar, e sem vontade de fazê-lo. “O demenciado se protege de pensar porque isso o faz sofrer demais, mas a boa vontade daqueles que desejam ajuda-lo contraria esse projeto, o que o leva a reafirmar, cada vez mais, a determinação de não mais pensar” (Maisodieu, 2001, p. 18) . Como condenados à morte, aqueles que não suportam a idéia de ter de perder a vida podem preferir perder a cabeça. Assim como alguns idosos, aterrados pela imagem da velhice que o espelho lhes devolve, podem evitar o reconhecimento, outros podem destruir a própria razão em um bem sucedido esforço de escapar de uma lucidez insuportável.

Indo ainda mais longe, Maisondieu declara que a demência não existe, que não passa de um mito, mas que as pessoas demenciadas são cada vez mais numerosas e reafirma que a doença é que deve ser colocada entre parênteses, não os doentes.

Entre estes demenciados há, sem dúvida, muitos portadores de lesões orgânicas que provocam diversos efeitos sobre seu funcionamento psíquico, e muitos outros que, como já adiantamos em capítulos anteriores, não apresentam nenhuma modificação neuronal cujo cérebro permanece intacto e livre de alterações neurológicas. Para Maisondieu, esta evidência impediria erigir a demência como uma entidade patológica e como tal, poderia até ser colocada entre parênteses. Porém, ele insiste, não se pode fazer o mesmo com os sujeitos afetados por isto que, do ponto de vista médico, nem seria “uma” doença e sim um conjunto de manifestações de causalidade diversa e indeterminada.

Esta obra nos conduz a questionar o mito da incurabilidade, que teria como função limitar a área em relação à qual é possível pensar sobre este fenômeno, obstruindo o livre curso das idéias e interditando a possibilidade da dúvida. Esta posição de provocação procura então desmistificar um determinado discurso sobre a questão demencial, abrir o campo de estudo a este respeito e, especialmente, suspender o diagnóstico para bloquear o prognóstico fatal. Como já dissemos no cap. II, não se trata de negar o fato de que sujeitos em processo de envelhecimento podem sofrer alterações de suas faculdades intelectuais de diferentes níveis de gravidade e por causas diversas. Insistimos que deve-se, ao menos, ampliar o ponto de vista que centraliza a pesquisa no estudo do cérebro, incluindo fatores subjetivos e sociais

Na clínica observamos que, enquanto alguns pacientes entram em um estado demencial após terem sofrido uma perda que é realmente da ordem do irreparável, outros chegam lá sem que, aparentemente, nada de muito significativo tenha acontecido, nada que represente – ao menos aos olhos dos outros – uma perda de elaboração impossível. Mas há o tempo e a vida que findam, o que, por si só constitui uma perda irreparável que é antecipada pela consciência da finitude própria do ser humano e exige um luto por antecipação.

Fica claro que é só abrir-se à compreensão da multicausalidade para reconhecer o papel da angústia de morte na gênese do síndrome demencial e na obstinação coletiva em não poder imaginar outra causa fora das alterações cerebrais, pois é mais fácil lidar com um cérebro doente que com um ser humano que sofre a finitude da vida. Se não conseguimos abordar o sofrimento, só resta a doença e, como estamos vendo ao longo deste trabalho, a questão do sofrimento é fundamental para a compreensão das vicissitudes da demência. Nosso objetivo, então, neste capítulo, será o de abordar as demências pelo viés da psicopatologia psicanalítica, superando o impasse insolúvel que representa qualquer ponto de vista fragmentário. Para nos ajudar neste trajeto, recorreremos a algumas conceitualizações da Psicopatologia Fundamental.

Segundo Berlinck (1997), este termo é empregado pela primeira vez pelo psicanalista Pierre Fédida[2], para definir uma área de pesquisa sobre o sofrimento psíquico diferente da Psicopatologia Geral que é também campo da psiquiatria. Trata-se pois, ao meu ver, de uma abordagem específica para a psicanálise que dialoga não só com a psicopatologia geral, mas também com outras áreas do conhecimento como é a das ciências sociais. Diz Berlinck:

 

A posição da Psicopatologia Fundamental é assim denominada para se distinguir de outra posição que é a da Psicopatologia Geral. Enquanto esta rica posição é um discurso a respeito das doenças, das formas corporais-discursivas que assumem o pathos, a Psicopatologia Fundamental está interessada em suscitar uma experiência que seja compartilhada pelo sujeito. (Berlinck, 1988, p. 130)[3]

 

Vemos então que a psicopatologia fundamental se proporia uma redefinição do campo psicopatológico, através de uma ampla reflexão crítica sobre os modelos e paradigmas que definem os objetos de pesquisa e as práticas clínicas. Isso exige um diálogo com outras áreas “com outras leituras presentes na polis psicopatológica” (Ceccarelli, 2003, p 18)

 

A psicopatologia fundamental é um projeto de natureza intercientífica onde a comparação epistemológica dos modelos teóricos-clínicos e de seus funcionamentos propiciaria a ampliação do limite e da operacionalidade de cada um destes modelos e conseqüentemente a transformação destes últimos. Tal projeto levaria à construção de um espaço teórico-clínico, com fundamentos próprios, que permitiria a coexistência, o diálogo e o intercâmbio, dos diferentes modelos conceituais – neurociências, imunologia, farmacologia, oncologia e tantos outros que lidam com o pathos (Ceccarelli, 2003, p. 19)

 

O mesmo autor, acrescenta ainda que não se trataria de uma interdisciplinaridade, já que o que a neurologia tem a dizer sobre Alzheimer o Parkinson não entra em contato e comunicação com o que um psicanalista pode dizer. Tratar-se-ia antes, de uma transdiciplinaridade que reúne os conhecimentos particulares de cada disciplina e as singularidades de cada modelo sob uma concepção ética comum, formando uma ampla rede de significações capaz de produzir um campo discursivo e interações concretas.

Inspirado na cultura grega, o termo psicopatologia reúne conceitos provenientes de três palavras dessa origem: psique, que derivou-se em psique e psiquismo; pathos, que resultou em paixão, sofrimento excesso; e logos, da qual se derivaram lógica, discurso narrativa. Assim, a psicopatologia seria um discurso sobre a paixão que se manifesta no psiquismo, um discurso sobre o sofrimento psíquico. A Psicopatologia Fundamental não estaria interessada na descrição e classificação da doença mental, mas naquilo que sobre seu sofrimento, sua paixão e seu excesso expressa o doente; expressão de uma subjetividade que é capaz de através do relato, da narrativa, da expressão, transformar esse sofrimento em experiência que serva para si mesmo e para os outros. E ainda…

 

… a clínica psicoterapêutica, na ótica da Psicopatologia Fundamental, deve estar sempre orientada no sentido de encontrar as condições metodológicas que permitam, tanto ao paciente como ao psicoterapeuta, encontrar palavras que tenham a mais específica correspondência com o pathos que é tratado nesta clínica, pois o que se experimenta, nesta mesma clínica, é que o relato o mais preciso possível sobre o pathos produz uma transformação que faz desaparecer o sintoma e que altera a estrutura mesma do psiquismo e até mesmo do cérebro daqueles que estão envolvidos nesta prática. (Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, editorial s/asinatura, 1998)

 

Ou seja, o que a Psicopatologia Fundamental propõe e nos interessa especialmente, e o fato do efeito terapêutico de uma experiência realizável a partir do pathos, ou seja, da paixão, do sofrimento, do excesso. É nesta perspectiva que Ceccarelli volta a afirmar que “as manifestações da sexualidade, tanto as ‘normais’ quanto aquelas que fogem às normas, devem ser compreendidas não como problemas mas como soluções(Ceccarelli, 2003, p. 21) Segundo este autor, se transportamos este raciocínio à psicopatologia fundamental podemos pensar que o caminho identificatório de cada sujeito é uma solução[4], uma formação de compromisso frente às múltiplas variáveis desse caminho que a pessoa deve enfrentar ao longo da vida.

Veremos que são múltiplas e inesgotáveis as abordagens possíveis para nos aproximar de um estudo da etiologia e mecanismos das demências que permitem sua inclusão no universo da psicopatologia geral, mas que, sob nenhum ponto de vista, deve ser abandonada a tentativa de aproximação ao sofrimento que, fundamentalmente, está no cerne de sua causalidade. Se pudermos deixar em suspensão o furor classificatório da psicopatologia geral que fecha o caminho ao pensamento, poderemos nos aproximar do sujeito, de seu pathos, de seu sofrimento, de seu excesso.

Veremos à continuação algumas situações que podem ajudar a alargar nossa compreensão sobre as demências.

 

 

  1. Desinvestimento, demência e pulsão de morte

 

Uma das cenas mais freqüentes na clínica com idosos e com sujeitos em processo de envelhecimento é a de pessoas que, embora saudáveis, manifestam seu medo de vir a sofrer algum tipo de deterioração senil, um acidente vascular cerebral que os deixe em situação de dependência, ou qualquer doença degenerativa que os prive do pleno domínio de suas faculdades mentais. Medo da morte psíquica, que como morte do simbólico, desfalecimento do ser, pode se adiantar á morte biológica. Nunca na minha experiência clínica, achei alguém que preferisse sofrer uma doença longa e limitante do bom funcionamento mental à morte rápida e sem sofrimentos para ele próprio e sua família.

Em 1937, em carta a Arnold Zweig após a morte de Lou Andréas-Salomé, o próprio Freud manifestava seu temor à decadência com as seguintes palavras:

 

Não gostaria de durar mais, pois tudo a meu redor está se tornando mais sombrio, mais ameaçador, e a consciência de minha própria situação de desamparo mais aguda… O medo de que o processo de envelhecimento acarrete a perda de partes importantes da personalidade ainda intacta é um fator para que meu desejo de vê-lo torne-se mais urgente (Freud in Schur, p. 597).

 

A presença do tema da morte é uma constante na vida do idoso; em nenhuma outra fase da vida o sujeito se vê tão próximo da ruptura definitiva dos vínculos, e nenhuma outra fase da vida corre maior risco de ser atingida pela pulsão de morte com sua força de desligamento e destrutividade que, claro está, adquirirá diferentes formas e se fusionará de diferentes maneiras com a pulsão de vida, dependendo de cada sujeito singular. As saídas, então, serão variadas, a religiosidade, a realização de projetos de vida possíveis a curto prazo, o investimento em projetos para as futuras gerações, a serenidade ou, a mania e a regressão. Ou seja, formas elaborativas ou regressivas de dirimir esse inevitável confronto.[5] A vida é o conjunto das forças que se opõem à morte, a vida inscreve-se no tempo e se confronta de forma inelutável com seu fim.

Mas a morte não é um problema externo ao ser humano, algo que acontece como um acidente. A partir dos anos vinte, Freud vai considerar a morte como a consumação de determinadas forças internas próprias à vida, não como um fim que se pode desejar ou do qual se deseja fugir, mas a realização de uma pulsão que produz o retorno ao inanimado, ao silêncio. A vida surge e se desenvolve sobre este fundo, as forças da pulsão de morte são inerentes à vida mesma. Todos os fenômenos vitais “derivam da ação conjugada e antagônica” das pulsões de vida e pulsões de morte como Freud explicava á Einstein em carta de setembro de 1932.

A pulsão de morte faz sua controvertida entrada no corpo conceitual da teoria freudiana em “Além do princípio do prazer”, de 1920, apenas dezenove anos antes da morte de Freud. Com esse conceito, mudo e escondido, a psicanálise, que até então se pretendia formando parte do universo da ciência clássica, entra definitivamente no campo da especulação.[6]

Freud já vinha trabalhando havia muito tempo a questão da agressividade, do sadismo, do masoquismo e da repetição, mas continuava a se perguntar sobre sua origem e mecanismos, já que não encontrava solução para o fato de, no mesmo campo pulsional, existirem tendências de união e separação, de amor e de morte. Em 1920, resolve a questão com o postulado da pulsão de morte que, em contraposição a Eros, incluirá todas as tendências destrutivas do ser humano.

Mais do que isso, a pulsão de morte será o âmago de toda pulsão. Pulsão muda, despercebida enquanto fusionada com a pulsão de vida, mas que faz sua aparição dramática quando se desfusiona, como no caso da melancolia, em que o super-eu surge como seu campo de cultura privilegiado.

Essa ameaça de desfusão pulsional é percebida, não sem angústia ou preocupação, pelo sujeito que envelhece. Freud, em sua velhice, escrevia a Lou Andréas-Salomé:

 

Quanto a mim, já não a desejo ardentemente [a saúde]. Noto como se forma gradativamente sobre mim uma camada de indiferença, e observo esse fato sem que me sugira qualquer queixa. É uma coisa natural começar a ser inorgânico, e acredito que é a isto que se chama “a indiferença da velhice”. Sem dúvida guarda relação com a interdependência das pulsões da qual falei. A mudança talvez não seja muito notada exteriormente. Tudo continua a me interessar e a qualidade não tem mudado muito, mas falta a ressonância (Carta de 10/5/1925, grifo meu).

 

E realmente, para um observador desavisado, “exteriormente”, a vida dos idosos parece não mudar muito: “Ele está super bem” se diz de um velho que se mantém ativo e saudável; não se quer pensar nos efeitos que a consciência de finitude podem estar produzindo ‘internamente’, e menos ainda, falar com eles a esse respeito. Vejamos o que diz François Mauriac nas “Novas memórias interiores” escritas entre seus setenta e três e oitenta anos:

 

Como nos preparar para a morte se não podemos deter nela nosso pensamento? Sei hoje o que ignorava na época de minha licenciatura em letras: esta preparação se confunde com o desapego. Preparar-se para a morte, é desatar nós mesmos, um de cada vez, os laços que nos mantém, romper quantas amarras consigamos de modo que, quando o vento se levante, de repente, nos arrastará sem que resistamos. Desapego que se realiza dentro de nós mesmos e não se manifesta para fora. Nossa vida externa não fica afetada (Mauriac, 1965, p. 328)

 

Sem dúvida, é possível atingir a velhice “serenamente”[7] e isto só se consegue quando é possível manter um equilíbrio entre pulsão de vida e pulsão de morte. O próprio Freud reconhecia que apesar da “falta de ressonância”, a vida conserva uma certa beleza que “provém de seu caráter essencialmente fugidio” (Carta a Marie Bonaparte de 22/10/1925). Referindo-se à serenidade, Walt Whitman diz: “quando a vida declina e todas as paixões turbulentas se acalmam, chegam então os dias mais ricos, mais calmos, os mais felizes de todos(“Ramalhetes de outono”, citado por Simone de Beauvoir em “A velhice”).

Em 1937, quando já contava 83 anos, Freud insiste neste tema fundamental da fusão e desfusão pulsional, quando escreve ‘Análise terminável e interminável”, onde podemos ler:

 

Vendo a totalidade do quadro compostos pelos fenômenos do masoquismo imanente de tantas pessoas, a reação terapêutica negativa e a consciência de culpa dos neuróticos, estes não poderiam por si mesmos sustentar a crença de que o acontecer anímico é governado exclusivamente pelo afã de prazer. Estes fenômenos apontam de maneira inequívoca à presença na vida anímica de um poder que, pelas suas metas, chamamos pulsão de agressão ou de destruição[8], e derivamos da pulsão de morte originária, própria da matéria animada. Não conta aqui uma oposição entre teoria otimista e pessimista da vida; só a ação eficaz, conjugada e contrária das duas pulsões primordiais, Eros e pulsão de morte, explica a variedade dos fenômenos vitais, nunca só uma delas. (Freud, 1937, p. 244).

 

Mais adiante, conclui que o conflito pulsional é algo singular, novo, que tem mais a ver com um fragmento de pulsão agressiva livre que com a quantidade de libido disponível. Dado por demais interessante quando se pensa nas patologias do envelhecimento que são freqüentemente adjudicadas à diminuição de libido. Vemos, então, que esta diminuição não é necessariamente “coisa de velhos” e nem deverá provocar as diversas patologias da velhice, que poderá ser vivida serenamente, sem conflito, ainda que o quantum de libido não seja o mesmo da juventude ou sua dinâmica seja diferente. Estamos pois, ante uma nova luz para pensar estas questões a partir do desfusão pulsional .

Logo depois, e sempre visando ao entendimento da fusão pulsional, Freud traz a lembrança de Empédocles, o grande médico-filósofo grego para quem existiam dois princípios que regiam a vida tanto do mundo quanto da alma: amor e discórdia. O primeiro teria como aspiração aglomerar em uma unidade as partículas fundamentais dos quatro elementos (terra, água, fogo e ar) enquanto a discórdia[9] tenderia à separação. Assim, o movimento da vida seria marcado por momentos de predominância de um ou outro princípio e juntos dominariam o mundo e a alma. Como já salientávamos, situações de discórdia, de brigas, de conflitos familiares, lutas pelo poder ou pela sobrevivência são comuns no começo de um quadro demencial,

Como podemos observar, o conceito de desfusão pulsional é de grande ajuda quando pensamos a demência do ponto de vista da psicanálise, poi, a primeira idéia que nos ocorre é que ela representaria o triunfo da pulsão de morte, ou melhor, da defusão pulsional.

Se pensarmos na dinâmica de nosso mundo industrializado e consumista, não nos será difícil compreender os efeitos da aposentadoria – só para tomar um exemplo – que retira o sujeito do sistema produtivo e o joga na exclusão (e freqüentemente, na pobreza) impulsionando-o ao desinvestimento e provocando uma espécie de desapropriação subjetiva dos papéis sociais e uma ruptura da aliança narcisista com o mundo dos objetos. No idoso, o desinvestimento se alia a uma forte perda da auto-estima e a libido liberada, agora flutuante, deixa o campo livre à pulsão de morte a qual instala o desejo da morte que pode até se concretizar no suicídio.

André Green (1988), refere-se à função objetivante, de investimento, da pulsão de vida e função desobjetivante, de desligamento, de desinvestimento da pulsão de morte. A pulsão de vida admite em si mesma as duas funções: fusão e desfusão, quer dizer: pode absorver um aspecto de pulsão de morte, digamos, adaptada a seus objetivos. A pulsão de morte, ao contrário, é só desinvestimento e desfusão que ataca todos os objetos investidos, até o próprio eu na medida em que é objeto de investimento.

Quando Green fala do trabalho do negativo, refere-se a essa luta na qual, sob a égide da pulsão de vida, se faz imprescindível um trabalho sobre aspectos negativos da pulsão de morte para controlar a desfusão.[10] Trabalho do negativo que pode adquirir múltiplas feições, até as estruturantes do delírio, mas que sempre implica a possibilidade de uma negação (da morte ou da velhice) que proteja o eu numa tarefa elaborativa.

Para Green, o sujeito se encontra descentrado pelo movimento do desejo que o faz procurar o objeto de satisfação e viver a experiência de sentir que seu centro não está mais nele mesmo, que está num objeto separado dele e ao qual precisa se reunir para recuperar seu centro e sua unidade. Quando acontece a primeira experiência de falta, o desejo será realizado de forma alucinatória, posteriormente outras soluções deverão ser encontradas, como é o caso da identificação, na qual o eu se funde com o objeto suprimindo sua alteridade.

Mas a partir do momento em que o eu se distingue do não-eu e admite sua existência separada, sofrerá uma permanente desilusão, saberá da impossibilidade do reencontro, da inútil procura de um objeto substituto que repare as feridas da renúncia do objeto originário e será vítima da constante renovação do fracasso. O sofrimento surge como um desgarramento entre o eu e seu objeto, como conseqüência de uma rejeição, um abandono ou uma ausência sem esperança de retorno, o que confronta o eu com sua própria morte. Ante o fracasso, só o investimento em objetos idealizados, como os oferecidos pela religião, permitirá a desvalorização dos prazeres e necessidades simplesmente humanos e evitará a discórdia, possibilitando uma saída serena – ego-sintónica[11] – ao sofrimento do eu, em caso contrário

 

…..o efeito combinado da distância espacial impreenchível e da dissincronia temporal interminável, fazem da experiência do descentramento a marca do ressentimento, do ódio, do desespero. Por isto, o retraimento para a unidade, ou a confusão do Eu com um objeto, não estão mais ao alcance. É então a busca ativa, não da unidade, mas do nada; isto é, de uma redução das tensões ao nível zero, que é a aproximação da morte psíquica. (Green, 1988, p. 25)

 

Deste modo, o centro, como objetivo de plenitude, torna-se centro vazio ou seja, estaríamos ante uma ausência de centro. O apaciguamento de todo desejo torna a vida equivalente à morte.

Podemos observar que o perigo reside em que o desinvestimento, em vez de evoluir para a serenidade através da sublimação, o faça em direção a um desinvestimento mortífero que em nada seja elaborativo. Então, estaremos ante uma depressão por desinvestimento, que, em sua forma moderada e na maioria dos casos, pode permanecer como tal durante longos períodos ou evoluir para patologias mais graves, que comprometem a harmonia da vida psíquica.

Vale a pena insistir neste ponto: nesse jogo pulsional, adquirem fundamental importância as possibilidades vinculares. Sabemos que um isolamento relacional por exemplo, pode acelerar o desmoronamento dos objetos internos, enquanto a conservação dos vínculos pode frear a depressão. Conservar os belos motivos para que a vida valha a pena é questão de sobrevivência para o eu, pois, se o demenciado perde a razão, é a razão de viver que perde.

Sempre que o sofrimento colocar em perigo seus investimentos privilegiados, o eu procurará outra causa que seja capaz de suportar tal investimento. Obviamente estamos falando de uma causa que esteja ligada a seu desejo. O eu só pode investir no objeto que seja causa de seu desejo e que, justamente por isso, será também causa de seu sofrimento, já que, quanto mais um objeto é necessário para o prazer, mais sua ausência provocará o sofrimento. Fugir do sofrimento jamais será fácil, pois significará abrir mão de um objeto causa de prazer, mas a única forma de suportá-lo será esperar esse tempo futuro em que a felicidade perdida promete ser reencontrada, ilusão que se conhece sob o nome de esperança. Para continuar investindo, deverá haver sempre uma boa causa, pensável, lógica, com sentido para sua existência.

Sabemos que a pulsão de vida aponta sempre para a atração e conservação dos objetos fontes de prazer e a constância dos investimentos por meio da fusão e da ligação. Sabemos que procura formas organizativas cada vez mais complexas e que é fundamentalmente gregária. O objeto, enquanto variável, estará em permanente mutação, mas o que se manterá constante será o investimento. Enquanto isso, podemos dizer que a pulsão de morte trabalha no sentido contrário: desligamento, desunião e segregação serão seus métodos, mas a finalidade principal a encontraremos no desinvestimento.

Desinvestimento que, ao contrário do que achamos na pulsão de vida, não se realiza em favor de outro objeto que, embora de forma ilusória, garanta o prazer, mas ante qualquer possibilidade de encontro com qualquer objeto. Se há, na pulsão de morte, algum investimento, este se realizará, sem dúvida, sobre o processo de desinvestimento. O que aqui encontramos é a expulsão de qualquer objeto que possa ser fonte de prazer.

A pulsão de morte ameaça todos os objetos. Abole toda e qualquer experiência de ligação que possa contribuir para a sustentação da atividade psíquica. Podemos dizer que a meta final é cortar radicalmente a possibilidade de encontro com qualquer objeto cuja ausência pudesse se constituir em causa do desejo. Assim, transformando o objeto em insubstituível, não haverá mais procura, mais espera, mais desejo. Um não mais reconhecer-se como desejante, pois o desejar traz junto a possibilidade de não conseguir e remete à primeira experiência de desprazer que inaugura o estado de dependência psíquica do objeto. Desejo de não desejo. “Não mais querer, não mais estimar e não mais criar! Ai, que esse grande cansaço fique sempre longe de mim!” dizia Nietzsche em “Assim falava Zaratustra”. E Gide se lamentava:

 

Conheci uma palavra que descreve o estado do qual padeço há alguns meses, uma palavra muito bela: anorexia ….. Significa ausência de apetite. Acho exagerado dizer que eu sofro de anorexia; o pior é que quase não sofro dela, porém minha inapetência física e intelectual aumentou tanto que já não sei que outra coisa me mantém ainda vivo não sendo o hábito de viver (Gide, apud Péruchon p. 31)

 

O desinvestimento procura apagar todo e qualquer traço do objeto, não deixar nenhum sinal de que algum investimento foi realizado, nada que permita reencontrá-lo Um vazio, um oco, um nada (de representações).

Para Piera Aulagnier todo investimento não é outra coisa que o triunfo sobre um desinvestimento sempre em marcha e ela se refere às suas conseqüências com a seguintes palavras: “Compreende-se então o risco que representa qualquer experiência que pudesse culminar nesta forma de desinvestimento, único assassinato definitivamente bem sucedido” (Aulagnier, 1990, p. 288). Assassinato do eu, claro está. O objetivo da vida psíquica é manter ou criar interpretações sobre o vivido, de maneira que os investimento sobre esse vivido continuem possíveis. Então, para que aconteça um desinvestimento, é necessária uma grande dose de sofrimento; porém, felizmente, a pulsão de vida não renuncia facilmente às posições ganhas.

A mesma autora resume as funções do eu a três verbos: investir, pensar e sofrer. As duas primeiras são a condição de sua constituição e permanência e a terceira representa o preço que deverá pagar para consegui-lo. Um sujeito pode resignar-se a muitas perdas sempre que achar outros objetos de investimento, mas, se o sofrimento for excessivo, pode acontecer que se desinvista o próprio investimento. Pode haver um preço que não se quer pagar. Investir e pensar são justamente as funções que se acham alteradas nas patologias.

O sofrimento é próprio do sujeito que investe pois, como investidor, está sujeito à perda, à desilusão, ao fracasso. É um perigo constante; porém, é também uma necessidade, pois só o sofrimento confronta o sujeito com a diferença entre ele e os outros, entre a realidade e a fantasia, assim, a realidade nasce do sofrimento. Com a primeira experiência de insatisfação do alimento que não chega, o sofrimento inaugura o processo de conhecimento do mundo real.

Que a dura realidade é causa de sofrimento ninguém o ignora. Piera Aulagnier diz que são quatro os aspectos das provas de realidade impostas ao psiquismo (1990, p. 294): a realidade de um corpo vulnerável, a ameaça da morte sempre presente, a autonomia do desejo do outro que pode provocar a privação do objeto amado e a realidade social que cobra o alto preço da exclusão àqueles que não aceitam suas normas. Passar por essas provas da realidade pode ser altamente proveitoso para o psiquismo, que assim se forja mais condizente com um princípio de realidade necessário para sua própria saúde, além de sentir que paga um tributo à vida. Haveria, então, um sofrimento necessário. O eu confrontado com a dor cria uma dimensão temporal, pois abre uma expectativa de futuro no qual o reencontro com o prazer seja possível. Inventa a esperança.

Mas qualquer sofrimento excessivo será a via de acesso privilegiada para a pulsão de morte. Quando digo excessivo, refiro-me ao tipo de sofrimento não metabolizável, aquele sobre o qual não é possível fazer nenhuma elaboração, que não permite nenhum aprendizado, que não se transforma em experiência, mas o contrário: deixa na vida psíquica um buraco, um vazio. Vazio em que não há luto possível. Vazio como domínio da pulsão de morte.

 

 

  1. Depressão e demência

 

Freud escreve “Luto e melancolia” para diferenciar o que seria um processo normal ante uma perda de seu correspondente patológico. A melancolia tem, para Freud, “múltiplas formas clínicas cuja síntese em uma unidade não parece certificada” (Freud, 1914, p. 241). O luto se nos apresenta como uma reação normal à perda de um ente querido ou de uma abstração que o substitua, como a pátria ou um ideal, por exemplo. Considera-se normal e se acompanha sem perturbá-lo.

Os dois compartilham o mesmo sentimento doloroso, a perda de interesse pelo mundo exterior, a inibição de toda produtividade e investimento, e a incapacidade de amar; mas, no caso da melancolia, observamos, além destas características, a presença de sentimentos de culpa, autocensura e expectativa de punição.

No luto, à constatação da realidade que marca que o objeto amado não mais existe segue-se um verdadeiro trabalho de elaboração, pelo qual o sujeito deverá aceitar essa constatação, lento trabalho de desligamento dos investimentos um a um, até o eu ficar novamente em condições de se redirecionar a outro objeto e fazer novos investimentos. Mas este processo, por ser difícil e trabalhoso, não será feito de imediato; levará um tempo, em que a resistência à aceitação da realidade pode provocar tentativas de retenção do objeto perdido, até o extremo de uma “psicose alucinatória de desejo” (Freud, 1915, p. 228), como veremos mais adiante.

No luto não há nada de inconsciente; sabe-se o que se perdeu com o objeto que não está mais. O mundo se empobrece. Quem está de luto precisa de tempo para transformar a dor da perda em lembranças que passem a formar parte de sua história. O luto é, antes de mais nada, uma relação com o tempo e, como já adiantava Freud em Totem e Tabu (1913), o luto tem uma missão psíquica definida, que consiste em estabelecer uma separação entre, de um lado, os mortos, e de outro as lembranças e as esperanças dos sobreviventes. E Pierre Fédida concorda quando diz: “Freud tinha razão ao enfatizar o ganho narcísico que, uma vez rompido o vínculo com o objeto aniquilado, a realidade acaba por conceder ao enlutado a reconhecida vantagem de se permanecer vivo” (Fédida, 1999, p 52) E ainda: “O luto, antes de ser concebido como um trabalho, protege o enlutado contra sua própria destruição” (idem, p. 23).

Na melancolia, o que aparece pobre e sem brilho é o próprio eu, que está totalmente inibido e rebaixado. Há, nesse processo patológico, algo de inconsciente; conhece-se o objeto perdido, mas não se sabe o que foi perdido com ele. A este fator de desconhecimento referem-se as críticas exageradas – porém lógicas – que o melancólico, sem demonstrar a menor vergonha por isso, se faz em relação ao objeto perdido. Fica claro que a autocensura e o desejo de punição não correspondem à realidade do vínculo, nem à singularidade do eu que os profere. É esse justamente seu aspecto mais misterioso, aquilo que nos leva a pensar sobre o que foi realmente perdido, que nos convida a pensar que não constitui um processo normal.

Freud diz que “as queixas [sobre si mesmos] são realmente querelas”… ”tudo isso é possível porque as reações de sua conduta derivam-se da revolta, que depois, por um certo processo, foram transportadas à contrição melancólica” (Freud, 1914, p. 246). Ou seja, o que dizem de si mesmos, o estão dizendo realmente do objeto em falta. Esse “certo processo” do qual Freud fala não é outro que a identificação, pela qual “a sombra do objeto caiu sobre o eu” (idem). A investidura de objeto foi cancelada mas, em vez de se dirigir a outro objeto como acontece no trabalho de luto, dirige-se sobre o próprio eu que passa a ser julgado sob as mesmas premissas pelas quais se julgava o objeto perdido. Pierre Fédida fala do “canibal melancólico” com as seguintes palavras:

 

O canibalismo seria, então, a expressão mítica de um luto melancólico – espécie de assassinato – de um objeto, sob o encanto do qual o eu foi colocado e do qual ele não consegue resolver-se a se separar, como mostra a angústia de mantê-lo presente a partir de sua ausência. Pois a devoração de que fala essa angústia não poderia preencher seu sentido se a ausência, por si só, desse conta da perda (como acontece no luto dito “normal”) O canibalismo encontra na angústia, a violência de um desamparo que permite ao eu sobreviver com a aparência do objeto perdido, ou seja, com suas qualidades, que o fantasma transforma em realidade primeira pelo efeito de sua ausência. (Fédida, 1999, p. 67)

 

Freud não avança muito no sentido do modo de resolução do processo melancólico. Mas, fica claro que, na melancolia, há um objeto que ocupa um lugar determinante em sua dinâmica.

Para Fédida, a depressão pode ser comparada e até mesmo assimilada a um trabalho de luto e ser concebida como uma organização psíquica primária, protetora de um luto e defensiva contra um luto. Ele escreve:

 

Gostaria de enfatizar que aquilo que chamamos depressão define-se por uma posição econômica que diz respeito a uma organização narcísica do vazio [] que se assemelha a uma “simulação” da morte para se proteger da morte. [] A depressão não seria a experiência vital da morte impossível? (idem, p. 39)

E acrescenta:

Como já disse: depressão é uma morte impossível. Falar do luto na depressão é justamente evocá-lo [] como aquilo através do qual saímos dela!. (idem, p 48)

 

Fédida (1999) articula a depressão ao vazio e diz que, embora este deva ser considerado sob o viés do isolamento e da privação sensorial como medida da conservação de si, pode constituir “o ponto de apoio maior da cura. Portanto, o vazio não é a morte” (idem, p. 71) já que também representa a condição necessária anterior ao desejo de recolher. Mas também explicita seus inconvenientes.

O luto, como trabalho, é um projeto que faz crescer o espaço da memória com as lembranças que desafiam o esquecimento. No vazio, quem está vazio é o eu, no vazio não há projeto, portanto não há esperança. Depressão sem culpa nem objeto que se caracteriza por “um estado de conservação sem espera, de equilíbrio inerte anulador das tensões, de suspensão psíquica pela evacuação de qualquer conteúdo de pensamento e representação” (Fédida, 1999, p. 96).

Nos últimos anos, também Joel Birman vem analisando novas formas de subjetivações na contemporaneidade, novas formas de funcionamento psíquico que, de alguma maneira, representam um desafio para a psicanálise. Novas formas de processos depressivos que não têm antecedentes na psiquiatria, nem foram os descritos por Freud no texto que acabamos de comentar. Quadros que se aproximam do que a clínica vem descrevendo há décadas como estados-limites e se relacionam com uma nova forma de depressão onde o fundamental não seria a experiência da perda e sim o vazio.

 

…caracterizada pelo vazio e não pela experiência de perda, isto é, não existe a melancolia. Confrontamo-nos assim, com uma plêiade de experiências – depressão caracterizada pelo vazio, patologias psicossomáticas, sofrimentos de estados limites, além dos drogados e anoréxicos – nos quais o que se encontra subjacente são determinadas formas de impasse de subjetivação, e o que salta aos olhos num primeiro momento, é que são forma de manifestações psíquicas coladas à experiência corporal” (Birman, 2001, p. 154).

 

Roland Chemama, em entrevista divulgada pela Internet por ocasião do lançamento de “Elementos lacanianos para uma psicanálise do cotidiano”, diz:

Mais do que uma patologia de sintomas no sentido clássico, como histeria ou neurose obsessiva, estamos diante da patologia da depressão como uma impossibilidade de agir, de desejar. A depressão é uma patologia bem conhecida, não é só uma tristeza. É uma coisa que isola o sujeito, que o impede de contatos sociais. O que dá a identidade ao sujeito é o desejo. Assim, quando ele não deseja, perde sua identidade. Há o que os psicanalistas chamam de despersonalização: o sujeito não se reconhece. O que ele é, o que faz aqui ou lá, ele não sabe. Há pessoas que pegam um transporte, viajam a uma cidade qualquer e depois não sabem o que fazem lá. (Chemama, 2003)

 

Seguindo o pensamento de Birman, vemos que essas patologias mostram uma forma de desinvestimento narcísico no corpo; os sintomas são sempre no plano corporal. E a depressão por vazio é sua maior manifestação sintomática. Caracterizam-se também pela passagem ao ato que indica um baixo nível de simbolização, uma impossibilidade de colocar as excitações pulsionais no circuito simbólico.

Não haveria aqui uma cena, como seriam as cenas histéricas; há uma passagem ao ato, em que o sujeito está submetido ao desejo do outro, responde à sua demanda de maneira total e indiscriminada, não pode se erigir mesmo como sujeito. O sujeito se oferece ao outro “de corpo e alma” para ser protegido do desamparo. “Nesta experiência masoquista fundamental, o que está sempre presente é uma experiência de submissão ao outro em busca de proteção do desamparo” (Birman 2001, p. 155). Um apelo à proteção de um pai simbólico que não mais acode ao chamado.

Pontalis (1997) diz que o tempo da depressão é um tempo que não passa, um tempo parado. No vazio, nada acontece, espaço atemporal sem espera, em suspensão, como protótipo de espaço psíquico arcaico, que seria assimilável a experiências originárias como a do nascimento, por exemplo. Momento de um eu vazio, de antes de começar a se preencher com representações, que, utilizando um referencial kleiniano, poderia ser assimilado a uma posição do sujeito anterior a uma posição depressiva em que criativamente, um objeto, embora faltante, pode ser constituído.

O vazio seria uma amnésia da perda, o que torna o luto impossível. Seria necessário o reconhecimento de uma perda para haver um luto, seria necessário um luto para superar o vazio. Seria necessário aceitá-lo para elaborá-lo. Mas aceitar o luto é evocar a perda, e toda perda remete à morte. No vazio não encontraríamos nem o objeto do luto, nem a culpa da melancolia. O sujeito não alimenta qualquer queixa, nem se auto-deprecia, fica em suspensão. O objeto não se erige em substituível. No vazio, o objeto não se conserva.

Podemos ver que a depressão por vazio não é mais que uma forma de reação à perda que pode não caracterizar este tipo de depressão, mas que a contém. Acaso o vazio não é a perda de tudo, a perda da esperança? No vazio, a perda é defensivamente apagada, o que não quer dizer que não tenha existido. Na depressão por vazio não encontramos os lamentos do amor perdido, nem ódio, nem culpa. O deprimido se reduz a seu mínimo vital, defende-se dos sentimentos que lhe possam provocar um excesso de sofrimento, que lhe outorguem qualquer causalidade ao mesmo. Vazio de representação, até de si mesmo, que o aproxima da morte psíquica.

Falar em depressão por vazio define formas contemporâneas de reação à perda, em que não se faz o trabalho de luto, mas onde também não há identificação com o objeto como na melancolia. Para Birman, trata-se de novas formas de depressão pautadas por uma temporalidade que exige a rápida substituição do objeto, a restauração narcísica imediata. Temporalidade sem tempo nem valor positivo para um luto sofrido e demorado. As belas histéricas sofredoras de antanho não têm mais vez; na sociedade do espetáculo[12] devem, rapidamente, “partir para outra”.

Mas para onde partir quando o horizonte de futuro se estreita e os caminhos faltam? Substituir os objetos perdidos pelo que e em que tempo? Como elaborar os lutos quando parece não valer mais a pena fazer esse trabalho? O que fazer quando a finitude se presentifica? Esta forma especial da temporalidade do idoso faz que o presente adquira outra dimensão. A necessidade de bem-estar aqui e agora sofre um recrudescimento pois não há mais tempo para aguardar a satisfação futura.

 

Freud, em “A transitoriedade”, escreve:

 

sabemos que o luto, por doloroso que seja, expira de forma espontânea. Quando acaba de renunciar a todo o perdido, devorou-se também a si mesmo e então nossa libido se vê livre novamente para, se ainda formos jovens, e capazes de vida, substituir os objetos perdidos por outros novos que sejam, se possível, ainda mais apreciáveis (Freud, vol. XIV, p. 311, o grifo é meu).

 

Através deste comentário de Freud, podemos ver que a limitação temporal da vida se constitui num empecilho para o trabalho elaborativo do luto. “Se ainda formos jovens” é o limite para a substituição. Assim, o maior trabalho na velhice será o de um luto antecipado, luto por um objeto ainda não perdido – a própria vida – porém condenado. Luto que pode ser impossível.

O ser humano, diferente do animal, sabe que vai morrer, sabe que é finito e tenta desesperadamente negar essa idéia, embora não faça mais que confirmá-la nas intermináveis tentativas de planejamento de sua vida. E, apesar dessa certeza estar sempre presente quando a vida se vê ameaçada, é só no tempo do envelhecimento que ela adquire a conotação do iniludível. A forma especial em que isso será vivido dependerá das características de cada sujeito e das diferentes experiências de proximidade com a morte por ele vivenciadas ao longo de sua vida. Proximidade esta que, como sabemos, depende da experiência no árduo trabalho de elaboração de perdas, luto necessário para a substituição de objetos e a continuação dos investimentos que possibilitem a vida.

Eis por que afirmamos que a demência pode ser produzida por uma ausência de trabalho de luto. Por isso pode-se pensar que como diz Messy (1993) a depressão “se cura pela demência”, embora, mais que de cura, devamos falar de fuga, forma radical de escape da dor moral insuportável, que preserva a vida biológica mas leva a um verdadeiro suicídio psíquico. Assim, a depressão se constituiria em causa de demência, pois seria uma forma (regressiva) de sair dela pelo caminho da evitação do sofrimento que a depressão não deixa de produzir. Seria uma “solução”[13] para a depressão, no sentido que foi colocado no começo deste capítulo.

 

 

  1. A angústia e a dissolução do eu

 

Víamos no capítulo anterior que o eu só pode garantir sua continuidade tornando-se outro, modificando-se, sendo sempre diferente do que já foi e, ao mesmo tempo, sendo sempre o mesmo. Ou seja, deve aceitar estar sempre em movimento. Movimento que é essencialmente temporal.

É função do eu pensar a própria temporalidade e, para fazê-lo, deve investir um tempo-espaço futuro que se transforma em um objeto pleno das qualidades que lhe são mais assustadoras: sua imprevisibilidade e a falta total de garantia de, nesse futuro, continuar sendo um existente. Piera Aulagnier refere-se a este tema com as seguinte palavras:

 

Esta instância [o eu] deve poder responder cada vez que se coloca a questão de quem é o eu; questão que não será jamais reduzida ao silêncio, que acompanhará o homem durante toda sua vida, e que não poderá se defrontar, salvo em momentos fugazes com a ausência de reposta sem que o eu se dissolva na angústia (Aulagnier, 1979, p. 156).

 

Na demência, é da dissolução do eu que se trata, e a questão da angústia é indissociável do tema das ameaças ao eu.

Em 1915, no texto intitulado “De guerra e de morte”, Freud afirma que no inconsciente não há representação da morte e, justamente por ser da ordem do irrepresentável, é também um não metaforizável. A própria morte é, em sentido estrito, impossível de elaborar, e em “O Eu e o Isso”, de 1923, Freud se refere a este tema com a conhecida frase: “toda angústia é na verdade, angústia ante a morte”, dizendo que “dificilmente possua um sentido e de qualquer forma, é difícil de justificar” (Freud, 1923, p. 58). Mas logo a justifica quando acrescenta:

 

Parece-me, pelo contrário, perfeitamente correto distinguir a angústia da morte do temor de um objeto (ansiedade realística) e da angústia libidinal neurótica. Apresenta-se um problema difícil para a psicanálise, pois a morte é um conceito abstrato com conteúdo negativo para o qual nenhum correlato inconsciente pode ser encontrado. Pareceria que o mecanismo da angústia da morte só pode ser o fato de o eu abandonar em grande parte sua catexia libidinal narcísica, isto é, de ele se abandonar, tal como abandona algum objeto externo nos outros casos em que sente angústia. Creio que o medo da morte é algo que ocorre entre o eu e o supereu. (idem, p. 58).

 

Já anunciamos o tema da angústia de morte ao falarmos de desamparo, no primeiro capítulo deste trabalho quando, analisando alguns aspectos de “Inibição, Sintoma e Angústia” (1926), chamávamos a atenção para o fato de a angústia de morte ser concebida por Freud como análoga à angústia de castração, passagem realizada através da perda de confiança nos poderes protetores do supereu infantil. E Freud diz mais:

Mas o inconsciente parece nada conter que pudesse dar qualquer conteúdo ao nosso conceito da aniquilamento da vida. A castração pode ser retratada com base na experiência diária das fezes que estão sendo separadas do corpo ou com base na perda do seio da mãe no desmame. Mas nada que se assemelhe à morte jamais pode ter sido experimentado; ou se tiver, como no desmaio, não deixou quaisquer vestígios observáveis atrás de si. (Freud, 1926, p. 123)

 

Quando se refere às neuroses traumáticas Freud diz: “Parece evidente que a neurose traumática, tão freqüentemente seqüela de um perigo mortal, há de ser concebida como conseqüência direta da angústia de sobrevivencia ou de morte” (idem, p. 122). E agrega algo muito interessante sobre as condições econômicas da situação:

 

Devemos considerar o fato de que por causa das vivencias que levam às neuroses traumáticas é quebrada a proteção contra estímulos exteriores, assim, ingressam no aparelho psíquico, volumes hipertróficos de excitação, de maneira que nos vemos ante uma segunda possibilidade: que a angústia não se limite a ser um sinal-afeto, mas que seja também produzida como algo novo a partir das condições econômicas da situação. Mediante este último esclarecimento, a saber, que o eu se poria sobreaviso da castração através de perdas de objeto repetidas com regularidade, obtemos uma nova concepção da angústia. Se até agora a considerávamos um sinal-afeto do perigo, agora vemos que tanto se trata do perigo da castração como de reação frente a uma perda, uma separação. (idem, p. 123)

 

Acompanhando estas idéias, podemos nos permitir pensar em relação à particular economia do processo de envelhecimento e suas repetidas perdas, já que, chegado a certo ponto, o período entre lutos se encurta demasiadamente, provocando um excesso de excitação não metabolizável que ao modo das neuroses traumáticas, provocariam essa sensação de não haver saída, não haver tempo para elaborar.

O afeto de angústia frente à perda não deve ser confundida com a dor do luto. O mesmo Freud encontrou sérios inconvenientes para separa-los e, mais uma vez apóia-se no exemplo da angústia produzida pelo trauma do nascimento:

 

A primeira experiência de angústia pela qual passa um indivíduo (no caso de seres humanos, seja como for) é o nascimento, e, objetivamente falando, o nascimento é uma separação da mãe. Poderia ser comparado a uma castração da mãe (equiparando a criança a um pênis). Ora, seria muito satisfatório se a angústia, como símbolo de uma separação, devesse ser repetida em toda ocasião subseqüente na qual uma separação ocorresse. Mas infelizmente estamos impedidos de fazer uso dessa correlação pelo fato de que o nascimento não é experimentado subjetivamente como uma separação da mãe, visto que o feto, sendo uma criatura completamente narcísica, está totalmente alheio à sua existência como um objeto. Outro argumento adverso é que sabemos quais são as reações afetivas a uma separação: são a dor e o luto, e não a angústia. Incidentalmente, pode-se recordar que ao examinarmos a questão do luto também deixamos de descobrir por que deve ser uma coisa tão dolorosa. (Freud, 1926, p. 159)

 

Mas ele se refere aqui a uma dor que não é a do luto o qual é proposto como uma outra reação ante a perda, pois: “O luto se gera sob a influencia do exame de realidade que exige categoricamente a separação do objeto que já não existe mais” (idem, p.160)

Por outro lado, Freud faz questão de ligar inequivocamente a angústia com a expectativa, ou seja, sempre se trata de “angústia ante algo”, contém sempre o caráter de indeterminação e ausência de objeto. Do contrário, estaríamos ante um sentimento muito mais claro e preciso como é o medo. Parece-me oportuno lembrar aqui a frase de Dorian Gray : “Não tenho medo da morte, o que me aterroriza é sua proximidade” (Wilde 1989) Essa proximidade ameaçadora é a expectativa, essa é a verdadeira situação de perigo na qual se origina o sinal de angústia. “Por isso antecipo o trauma, quero me comportar como se já estivesse aí”, diz Freud (Freud, 1926 p. 155) .

Dizíamos que envelhecimento estamos ante um luto antecipado, luto por um objeto ainda não perdido, porém condenado pelo exame de realidade: a própria vida. E como todo processo de luto exige um trabalho elaborativo que nem sempre é possível, então, o eu é invadido pela angústia de morte.

Na melancolia, o eu se sentiria odiado pelo super-eu, que não cumpriria mais a função protetora de guardião da vida e abandonaria o eu a seu próprio destino. Assim, o eu desprotegido se deixaria aniquilar. Novamente em “Inibição, sintoma e angústia”, Freud adjudica ao eu a produção de angústia como resposta aos perigos que o ameaçam e, sem dúvida, o maior perigo que ameaça o eu é o de aniquilação.

 

 

  1. Do eu-horror ao vazio do eu

 

Desejo começar este ponto comentando dois magníficos contos de consagrados autores brasileiros, Machado de Assis (1839-1908) e João Guimarães Rosa (1908 –1967) que justamente levam o mesmo título: “O espelho”, sendo que o de Machado tem um subtítulo mais do que instigante: “Esboço de uma nova teoria da alma humana”.

No “espelho” de Machado de Assis, Jacobina, homem de aproximadamente 50 anos, defende ante seus amigos a idéia de que o ser humano possui duas almas, uma interna e outra externa, “Uma que olha de dentro para fora e outra que olha de fora para dentro” (Machado de Assis, p. 40). Essa alma externa pode ser muitas coisas: “um espírito, um fluído, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação. Há casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa (idem). E, para ilustrar sua teses, relata um fato que lhe acontecera aos 25 anos, quando fora nomeado alferes. O jovem alferes, com seu uniforme reluzente, transforma-se no orgulho da família de origem simples ao ponto tal que até as pessoas mais próximas deixam de chamá-lo pelo seu nome, e meio a desgosto, deve assumir sua nova identidade em todos os momentos de sua vida e passa a ser “exclusivamente alferes”. A tia Marcolina a quem visita a seu pedido no “sítio escuro e triste” (idem, p. 42) onde morava, encantada com o sucesso do sobrinho, manda colocar no quarto a melhor peça da casa, um espelho belíssimo e grande herdado de uma das fidalgas da corte de D.João VI , peça que lhe permitia se ver de corpo inteiro.[14] Ninguém mais o chamava de Joãozinho, “era alferes para cá, alferes para lá, alferes a toda hora” (idem) até que “O alferes eliminou o homem. Durante alguns dias as duas naturezas equilibraram-se; mas não tardou que a primeira cedesse à outra; ficou-me uma parte mínima de humanidade” (idem, p. 43).

Por uma série de situações, o alferes acaba ficando totalmente só no sítio da tia Marcolina, fato que lhe provoca um estado psíquico caracterizado por astenia, apatia, tristeza e profundo sentimento de solidão, “era como um defunto andando”. Não era medo: “Ora, fora bom se eu pudesse ter medo. Viveria! (idem, p. 46) diz o protagonista, e acrescenta que desde que ficara sozinho na casa não tinha se olhado no espelho “por receio de achar-me um e dois ao mesmo tempo” (idem, p. 47). Mas em certo momento decide se olhar e o que enxerga o espanta: uma figura “vaga, esfumada, difusa, sombra de sombra…[…] de decomposição de contornos ” (idem, p. 48) Então sim sentiu medo … medo de enlouquecer, pensou em fugir.

Desesperado, angustiado, sentindo-se enlouquecer, decide vestir a farda de alferes e, assim paramentado, o espelho o reconhece, os contornos ficam nítidos, os gestos determinados, esse era ele … “Não era mais um autômato, era um ente animado” (idem, p. 49). A partir desse dia, vestia-se de alferes durante algumas horas e ficava frente ao espelho em diversas atitudes. Essa recuperação lhe permite superar os dias de solidão e especialmente a perda da identidade em que esse isolamento o tinha submergido; o outro no espelho lhe permite reencontrar sua alma de alferes, o reorganiza até os outros (família e escravos) voltarem. Aliás, espelho, imagem e alma, são neste conto indissociáveis.

Já o texto de Guimarães Rosa é uma reflexão sobre a natureza dos espelhos, aos quais questiona sua fidelidade pois: “há os bons e os maus, os que favorecem e os que detraem; e os que são apenas honestos” como o próprio olhar, já que: “.. o tempo é o mágico de todas as traições…e os próprios olhos, de cada um de nós, padecem viciação de origem, defeitos com que cresceram e aos que se afizeram, mais e mais” (Guimarães Rosa, p. 120). Declara havê-los temido desde criança pois: “neles, às vezes, em lugar de nossa imagem, assombra-nos alguma outra medonha visão” (idem, p. 121) E ainda acrescenta:

 

Quem se olha no espelho, o faz partindo de um preconceito afetivo, de um mais o menos falaz pressuposto: ninguém se acha na verdade feio: quando muito, em certos momentos, desgostamo-nos por provisoriamente discrepantes de um ideal estético já aceito. Sou claro? O que se busca então, é verificar, acertar, trabalhar um modelo subjetivo, preexistente; enfim, ampliar o ilusório, mediante sucessivas capas de ilusão. (Idem, p 123)

 

Mas a genialidade de Guimarães Rosa não pára por aí. Depois de descrever outras atribulações em face ao espelho, consegue expressar o desespero da des-identificação, o aturdimento do desencontro consigo mesmo, o vazio do não reconhecimento:

O tempo, em longo trecho é sempre tranqüilo. E pode ser, não menos, que encoberta curiosidade me picasse. Um dia…Desculpe-me, não viso a efeitos de ficcionista, inflectindo de propósito, em agudo as situações. Simplesmente lhe digo que me olhei num espelho e não me vi. Não vi nada. Só o campo liso, às vácuas, aberto como o sol, água limpíssima, à dispersão da luz, tapadamente tudo. Eu não tinha formas, rosto? Apalpei-me, em muito. Mas, o invisto. O ficto. O sem evidência física. Eu era – o transparente contemplador?……tirei-me. Aturdi-me, a ponto de me deixar cair numa poltrona. (Idem, p. 126)

 

Descreve maravilhosamente como é se olhar no espelho ao fim de um período de grandes sofrimentos, como é encontrar uma pequena luz cintilante de vida e agrega:

 

São coisas que não se devem entrever, pelo menos, além de um tanto. São outras coisas, conforme pude distinguir, muito mais tarde –por último, num espelho. […] Sim, vi, a mi mesmo, de novo, meu rosto, um rosto; não este, que o senhor razoavelmente me atribui. Mas o ainda-nem-rosto – quase delineado apenas– mal emergindo, qual uma flor pelágica, de nascimento abissal….. E era não mais que: rostinho de menino, de menos-que-menino, só. Só. (Idem, p. 127)

 

Apesar do tempo transcorrido entre a escrita dos dois contos; apesar da diferença de estilos, eles nos oferecem um material de inigualável valor ao ilustrar, desde a literatura, um grande tema da psicanálise como é o conceito de identificação do qual já falamos no capítulo IV ao examinar a constituição do Eu. Então mencionávamos o estádio do espelho de Lacan e as diferentes abordagens do mesmo tema feitas por uma autora como Piera Aulagnier. Voltaremos agora a este tema, pois a ausência de reconhecimento da própria imagem no espelho é um fenômeno muito freqüente nas demências .

Em minha dissertação de mestrado já assinalava esse fato de os idosos passarem por uma fase de não reconhecimento no espelho. Na experiência do espelho se confirma a identidade como imagem e o pequeno ser diz “sou eu”. Temos assim o ponto culminante da constituição do eu: a criança se ilude com a unidade percebida que o faz sair momentaneamente da fragmentação e conhece, por um instante, o júbilo onipotente da perfeição. O espelho, como o positivo de uma fotografia, anuncia-lhe o Ideal.
Desde então chamo “espelho negativo” à fase em que um sujeito em processo de envelhecimento olha-se no espelho e diz “esse não sou eu”, momento em que confirmam-se as perdas do declínio físico e antecipam-se a velhice e a morte.

No mesmo trabalho, ainda comentava um conceito proposto por Jack Messy o “Eu-horror” com as seguintes palavras:

 

A antecipação do envelhecimento encontra seu reflexo no espelho sob a forma de um eu de feiúra que é rejeitado (Esse não sou eu) e que pode se manifestar desde uma simples estranheza até um verdadeiro horror. Ou seja, instala-se uma tensão entre o Eu Ideal e o Eu, que deve ser regulada pelo Ideal do Eu, que como instância representante do social e seus discursos, pode não estar outorgando ao sujeito que envelhece um lugar de sujeito desejado. Junto com a queda do Eu Ideal, desabarão outras imagens narcísicas de onipotência, perfeição e sabedoria que darão lugar aos atributos de um “eu de feiúra e horror” com sua carga de castração, desmembramento e aniquilação. A tensão agressiva voltada contra si próprio, e em sua função reguladora adequada, pode precipitar o sujeito nas patologias da velhice, que irão desde a simples depressão até a demência, dependendo da singularidade de cada estrutura. (Catullo Goldfarb, 1998, p. 56)

 

Esta surpresa de descobrir o próprio envelhecimento, assim, de repente, como se os ponteiros de um relógio que tivesse parado de funcionar começassem a correr de forma enlouquecida, pode criar uma dolorosa abertura para um caminho marcado pelo declínio e um porvir barrado pela morte. Aqui também, como no estágio do espelho de Lacan, o espelho representa o olhar dos outros: há as experiências do cotidiano que nas palavras, gestos e atitudes dos outros, anunciam e determinam a mudança, há o olhar de desejo ou de repulsa.

Na demência existe uma total falta de reconhecimento da própria imagem no espelho, tal ponto que, é comum encontrar um demenciado conversando com o reflexo de sua própria imagem exatamente como se fosse outra pessoa, como uma recusa da realidade ante o que poderia ser uma visão traumatizante. Opera-se um verdadeiro desaparecimento de si mesmo no lugar do duplo da imagem especular, da imagem de si como outro, e nesse universo dos outros todos desaparecem. Não se reconhece mais a si próprio, nem a ao filho mais amado, nem ao companheiro de tantos anos, nem ao amigo da vida toda. Os lugares dos outros ou não mais existem ou passam a ser intercambiáveis, podendo ser ocupados por qualquer pessoa como a enfermeira, o médico, a mucama.

O demenciado deixa a ordem simbólica, pode-se dizer que está “desculturizado”, o que paradoxalmente nos aparece como pouco natural quando, realmente, quase se transforma em pura natureza. Perde sua imagem no espaço do espelho, mas perde-se também no tempo pois não pode olhar para o porvir. Desgarrado da realidade do entorno, refugia-se nas lembranças que atualiza no tempo. Em numerosos exemplos a direção regressiva se faz evidente: uma paciente institucionalizada e cujo marido – que a visitava diariamente – acabara de morrer, chorava enquanto se queixava que o pai – que tinha morrido havia 40 anos – não vinha buscá-la. Mesmo a perda do controle esfinteriano e outras condutas infantilizadas poderiam ser consideradas como um esforço de retorno aos tempos do berço, longe do túmulo.

O demenciado seqüestrou sua própria imagem e cortou os laços com o entorno, fechou-se em um mundo particular que está fora do tempo da cultura. Recua frente ao porvir, ignora o presente e se ignora a si mesmo, só se permitindo – e por algum tempo – uma existência no passado. “É a presença de uma ausência “ dizia a filha de uma mulher demenciada.

As lembranças do passado são como uma maquiagem que tenta esconder o que o presente insiste em mostrar, uma camuflagem da perda. Esquecer o presente e viver o passado como pura repetição, até que este recurso também se mostre ineficaz. Depois o esquecimento total. O sujeito desaparece começando pelo plano mais superficial e indo ao mais profundo. Primeiro esquece o nome de objetos banais, depois o nome dos filhos; primeiro esquece que dia é hoje, até que esquece o dia de seu nascimento. Começam por não querer nem se olhar no espelho e acabam por ignorar a própria existência. “Eles nem sabem que estão vivos”, como diz sabiamente um enfermeiro que presta serviços em uma instituição geriátrica.

 

 

  1. Tanatose, psicólise e ação modificadora

 

Jean Maisondieu (2001) propõe recuperar o termo mal-estar para designar quadros de organização psíquica patológicos que não se correspondam a uma doença reconhecida e que estejam diretamente ligados a uma situação de sofrimento em relação direta com o contexto no qual se desenvolve a dita doença. Neste contexto propõe também a utilização do termo Tanatose como o conjunto de condutas psicopatológicas ligadas à angústia de morte e caracterizadas pela aparição de uma deterioração mental. Se a angústia de morte for negada, se não puder ser elaborada, se a cultura a esconder, a tanatose poderá ser uma demonstração de sua vigência, de modo que se concretizaria, no cérebro de alguns, a angústia de todos. Assim, o demenciado renunciaria à luta contra a morte, saberia melhor que ninguém que ela é sempre vitoriosa e a ela entregaria sua alma, antes que seu corpo.

Agora podemos pensar as possíveis reações do eu com esse estado de sofrimento provocado pela ameaça. A primeira saída poderá ser um mecanismo de regressão que o proteja em formas mais primitivas de funcionamento; em cada nível de regressão, se não se reinstalar o equilíbrio e a unidade perdidas, a angústia – justamente como sinal de alerta – poderá reaparecer, exigindo maior investimento e levando a uma regressão mais profunda se o fracasso se repetir… assim será até uma dissolução do eu, quase que uma desaparição no isso. Enfim: ação da pulsão de morte sobre o eu.

Ter a esperança da coincidência com a imagem ideal é o que garante a continuidade do investimento, apesar de a realidade marcar sua impossibilidade. A dor da coincidência perdida, a dor de já não ser a encarnação do desejo materno, só pode ser metabolizada se, de certa maneira, se guarda a esperança do reencontro. Movimento temporal em que o objetivo projetado no tempo futuro, uma vez atingido, servirá especialmente para demonstrar sua ineficácia como portador de um ideal permanente, mas que se tornará origem de um outro projeto. Movimento temporal que só terminará com a morte, como diz Piera Aulagnier… ou com a demência, como eu acrescentaria. No demenciado, o passado não está incluído no projeto futuro, simplesmente porque não há futuro.

A única possibilidade de enfrentar essa angústia de não mais poder responder à pergunta fundamental sobre o ser – pois não se pode responder quem é o eu se faltar um projeto de futuro – é conservar alguns pontos de ancoragem, certos referenciais fixos aos quais se possa aferrar quando surgir um conflito identificatório que questione os referenciais do modelo.

Quando um novo modelo não leva em consideração as necessidades básicas de sobrevivência psíquica, adaptar-se a ele pode ser difícil demais, pode significar uma renúncia excessiva. Fundamentalmente, perde-se um saber, que é o saber sobre a realidade, o saber que constitui o princípio de realidade. Assim, é impossível achar um mínimo de coincidência entre mundo físico e mundo psíquico que passam a sentir-se como pertencentes a esferas diferentes. Ante essa situação ameaçadora, não será estranho que alguns sujeitos empreendam um movimento de fuga desses referenciais sentidos como alheios e injustos, especialmente quando esse saber deixa de constituir uma salvaguarda de sua própria integridade.

A possibilidade de abandonar um modo primário de funcionamento e privilegiar o secundário só será possível se apoiando nos fenômenos do pensamento consciente: a memória, a atenção e a ação modificadora da realidade (tanto externa quanto do eu). Para se sustentar, o eu deve, em seu presente, poder reconsiderar o seu passado e se projetar numa ação modificadora para o futuro, em que os erros possam ser reparados e os acertos repetidos; deve poder pensar seu futuro mas, fundamentalmente, deve poder realizar uma ação verificadora da realidade, que precisa coincidir com suas lembranças. Deve poder confiar em sua memória e na validade de seu saber.

Comprovamos, então, que algumas condições são necessárias para o sucesso da ação modificadora. Piera Aulganier analisou quatro condições básicas que não poderiam faltar para atingir este objetivo: “1) O bom funcionamento de certos sistemas fisiológicos 2) Um meio ambiente conforme às exigências do corpo 3) O consenso do grupo 4) O consenso de sua própria psique…” (Aulagnier, 1990, p. 243).

Vale notar que, no envelhecimento, acontece freqüentemente de falharem os três primeiros de forma simultânea, do que é fácil deduzir que o quarto resulte abalado, provocando conseqüências patológicas de difícil resolução como a demência. O eu do demenciado não pode mais se automodificar, por isso retorna ao primeiro tempo de dependência, no qual o outro decide sobre sua história.

No capítulo anterior, ao falarmos de projeto identificatório, dizíamos que a identidade e o projeto são enlaçados à memória. Tanto é assim que podemos observar como a perda de memória, independente da intensidade e do motivo que a cause, provoca a perda de consideráveis fragmentos da identidade. Víamos também que a memória está ligada a um modo de repetição[15] que insistentemente procura o reencontro com o prazer, e a demência representa um estado em que esta repetição produtora de memória e história – própria do narcisismo secundário – é anulada.

Cabe pois pensar que essa anulação pode ser causa e não conseqüência em alguns estados demenciais. Nessas circunstâncias, estaríamos na presença de um movimento de retorno a um narcisismo primário absoluto que põe fim a qualquer processo de mudança e historização.

O eu exige estabilidade, não pode deixar de existir para passar a ser outro eu, deverá ser sempre o mesmo e modificável. Desde seu aparecimento na cena psíquica, deverá obrigatoriamente pensar seu corpo, sua realidade psíquica e a realidade exterior. Isso quer dizer que deverá ter representações disso tudo que se constituirá em seu campo do investível. Se alguma dessas representações faltar, não poderá se reconhecer como esse eu permanente e se produzirá um sério colapso identificatório, como o testemunham os efeitos que provocam, na subjetividade, as graves crises políticas e econômicas, as guerras e as catástrofes.

Mas todos os investimentos aos quais o eu está condenado para garantir sua sobrevivência são, em primeira instância, uma busca de prazer. Porém, ele deverá levar em consideração as limitações do próprio corpo, o desejo dos outros que, inevitavelmente, se oporá ao dele, e a realidade do mundo, que nem sempre vai coincidir com as representações dela construídas. Sem esquecer a maior prova de realidade, que é a ameaça da morte, presença iniludível enquanto a vida exista. Isso, sem dúvida, será fonte de sofrimento e originará um movimento de fuga do investimento para outros objetos. Mas o eu não poderá deixar de investir naqueles objetos vitais e, portanto, insubstituíveis. Não pode deixar de investir naquilo que lhe é absolutamente necessário. Está condenado a isso. Insiste-se no sofrimento para não desinvestir o objeto.

Uma dessas experiências de dissolução do eu constituído é mais comum do que gostaríamos de pensar. A velhice, em sua forma atual, é uma situação mais que propícia ao desinvestimento; há pouco a ser resgatado, reconstruído ou resignificado quando a vida está acabando em um meio social hostil. Sem o mínimo necessário para a sobrevivência, mas também sem o suficiente para que a vida valha a pena, não haverá como sustentar um mínimo de contrato narcísico que garanta a continuidade do eu que acaba por abandonar a luta.

Pode-se dizer que, na pessoa demenciada em estágio final da doença, não se evidencia a atuação de nenhum mecanismo de defesa do eu, pois, na sua tentativa de fuga do sofrimento – em que vários mecanismos foram usados sem sucesso – o eu constituído foi dissolvido. Não há mais mecanismo de defesa do eu porque não há eu. O desinvestimento realizado pela pulsão de morte apaga, dissolve para sempre a representação de objeto que é substituído pelo nada absoluto, esse nada que cancela até o próprio ato do apagamento. Assim, não haverá afetos, especialmente de culpa ou nostalgia que testemunhem que alguma vez algum objeto foi investido.

Rosemberg nos diz que, nesses casos, a pulsão de morte empurra o sujeito a “restabelecer um estado anterior, um passado idêntico ao que já foi, pela destruição de tudo o que surgiu posteriormente” (Rosemberg, 1989, p. 222). Ao nosso ver, esse fenômeno explicaria o fato de se esquecer em primeiro lugar as recordações mais recentes, conservando-se as mais antigas. O passado volta como mera repetição do mesmo, sem ligação com a atualidade, ao contrário do que acontece na reminiscência[16] que tem uma função integradora e de ligação entre passado e presente, que aumenta o bem-estar pelo contato que promove com as boas lembranças do passado. Em um congresso acontecido em 1988, Piera Aulagnier, sempre atenta a estas questões disse: “O passado como tempo da culpa, da nostalgia, do luto e da felicidade perdida é sobreinvestido pelo deprimido e esse mesmo sobreinvestimento o priva de um quantum de energia libidinal que poderia investir no futuro, como todo futuro, portador de mudanças.” (Aulagnier, 1988, p 10)

O desinvestimento da pulsão de morte não se fará apenas sobre os objetos investidos, mas também sobre os suportes que permitem o investimento. Assim, o eu deixará de pensar, não poderá criar um conhecimento sobre suas experiências, fazer ligações entre elas; serão todas excessivas. Não podendo representar, não poderá nomear seus afetos. Graças à possibilidade de nomeação da experiência é que a memória existe.

Na demência, os planos do presente e do futuro se separam, favorecidos por uma regressão, provocando uma esterotipia, sem incorporação de novos elementos, sem história ressignificada, até o sujeito se perder definitivamente. No presente, restabelece-se o passado idêntico ao que foi. É como se o sujeito vivesse num tempo em suspensão, em um nível onde pudesse parar a vida, no qual seria melhor conservar esse pouco quase nada a perdê-lo todo. Às vezes, flashes de lucidez, como vestígios de um eu que resiste a desaparecer. . Últimos fios da pulsão de vida a tecerem estratégias falidas.

Le Gouès (1987, p. 76-82) sustenta que o aparelho psíquico do demente sofre uma desconstrução, um desmantelamento psíquico e progressivo que ele chama de “psicólise”. Nesta situação, o paciente entra em um estado de “desertificação mental” que se realizará por etapas que afetam, nessa ordem, identidade de pensamento e identidade de percepção: em um primeiro momento encontramos uma perda da representação de palavra (sabe que objeto deseja, mas não lembra a palavra que o nomeia) e, posteriormente, a perda da representação de objeto (não sabe reconhecer um objeto nem sua função).

Deste ponto de vista, podem-se entender as perturbações da memória como perturbações do pensamento, conseqüências de um trabalho representacional que não acontece como deveria. A partir deste momento, a presença do outro que ajude a construir uma cadeia de associações é fundamental.[17]

No decurso deste processo, os afetos que ainda se mantêm por algum tempo vão mudando lentamente, vão se reduzindo às mais simples manifestações de prazer ou disprazer, vão perdendo referenciais, confundindo os objetos e a deterioração dos vínculos e de toda atividade simbólica impossibilita qualquer exercício de autonomia. A capacidade de abstração desaparece e se dissolvem as diferenças espaço-temporais.

Tudo isso acompanhado por um abrandamento do supereu provocado por uma regressão do eu, por uma cada vez menor capacidade de realizar associações, julgamentos, por uma incapacidade de analisar a realidade, de colocar o prazer a serviço da censura. O eu fica diminuído, mais observador que participante, mais atravessado pelas pulsões do que capaz de orientá-las.

Podemos pensar também numa recusa (renegação – verleugnung)[18] como um lado aparentemente psicótico das demências. A recusa, pela qual se nega a perda do objeto e o luto conseqüente, oferece a possibilidade de substituição por uma alucinação. Trata-se de fenômeno muito freqüente nas demências, pelo qual ainda se filtra um aspecto construtivo da pulsão de vida, embora não achemos, nesses casos, a força, a convicção e a criatividade que guardam as alucinações nas psicoses, pelo que Brenno Rosemberg o chama de “ilusão alucinatória”. É como se sonhassem acordados; vêem e vivem situações que um neurótico reserva para as horas em que pode abandonar o exame de realidade. Sem essa exigência, o aparelho psíquico permanece em um estado primitivo no qual o desejo se faz alucinatório. Como o bebê que, ante a frustração da falta de alimento, alucina o seio, o demenciado recorre a essa defesa precoce que lhe garante a satisfação, alucina um objeto bom, apaciguador: “minha mãe veio me buscar”, “fui com meu pai andar de carro novo”, “meu marido veio me visitar”; procurando, na maioria das vezes, reviver os mortos.

Baseado no conceito de amentia do Dr. Theodor Meynert (1833-1892), Freud trabalhou esse sintoma da satisfação alucinatória de desejo em relação à paranóia, à psicose e aos sonhos. No Manuscrito K (Freud 1896, p. 26), falando das psiconeuroses de defesa, diz que a “amentia alucinatória aguda” seria o quadro patológico correspondente ao luto; na Carta 55 (Freud, 1897, p. 280), refere-se à “amentia ou psicoses confusional”; e em 1915, ainda acrescenta:

 

A formação da fantasia de desejo e seu caminho regressivo até a alucinação são as peças mais importantes do trabalho do sonho, mas não lhe pertencem com exclusividade. Encontram-se também em dois estados patológicos: na confusão alucinatória aguda, a amentia (de Meynert) e na fase alucinatória da esquizofrenia. O delírio alucinatório da amentia é uma fantasia de desejo claramente reconhecível que se ordena freqüentemente, como um perfeito sonho diurno. De modo geral poder-se-ia falar de uma ‘psicose alucinatória de desejo’ em relação ao sonho e a amentia por igual (Freud, 1915, p. 228).

 

Mais tarde, perguntando-se sobre o objetivo do trabalho do luto, observa que, às vezes, o eu se nega a aceitar que o objeto amado não mais existe e, por conseqüência, se nega à correspondente retirada de libido:

 

O homem não abandona de bom grado uma posição libidinal nem mesmo quando o substituto já assoma. Essa resistência pode atingir tal intensidade que produz um estranhamento da realidade e uma retenção do objeto pela via de uma ‘psicose alucinatória de desejo (Freud, 1917, p. 242).

 

Nas alucinações e delírios das demências, há, claramente, uma perda da realidade; mas, como o próprio Freud assinala em “A perda da realidade na neurose e na psicose” (1924), isto não é suficiente para determinar a existência de uma psicose. É importante também ver como essa perda é substituída, qual é a consistência da construção posterior e seu grau de sucesso. A perda de realidade é comum a ambas perturbações. Freud deixa claro que, entre a simples fantasia e o delírio bem estruturado, podem existir inúmeras variedades de estranhamento da realidade, como a “ilusão alucinatória” que Rosemberg (2001) reconhece nas demências. Por outro lado, os estados confusionais, tão comuns nas demências, são lógicos se pensarmos em um aparelho psíquico em processo de desintegração, independentemente de existirem causas orgânicas para isso.

O demenciado volta ao padrão simbólico da infância e continua regredindo até não ser mais , até o real se desamarrar do tecido simbólico, até perder tudo aquilo que a intervenção do simbólico fez construir. O demenciado esquece a realidade, os vínculos, a história, a lei. É em gestos mínimos e repetidos até o cansaço (dos cuidadores) que percebemos um fio de união com a história do sujeito: a costureira que agora se dedica a descosturar tudo o que encontra em sua frente ou o pintor que descasca incansavelmente a tinta de portas e paredes[19]. E mais: estudando os temas predominantes nos estados confusionais e o conteúdo delirante, podemos observar que dependem de uma ordem simbólica, de uma experiência, de uma história do sujeito. Uma história que parece se repetir em gestos dos quais o sujeito que alguma vez os protagonizou agora está ausente.

A demência, então, não é uma psicose. Seguindo Lacan, diríamos que, na psicose, há um significante fundamental forcluído, rejeitado para fora do universo simbólico do sujeito. Significante que não é integrado no inconsciente como no caso da repressão; então, só pode retornar no real. O psicótico não se constitui como sujeito, não é barrado pelo nome-do-pai. O demenciado constitui sua possibilidade de ser sujeito (mais ou menos neurótico, é claro) e depois a abandona. Por outro lado, há uma constatação clínica: nas demências, podemos observar como o empobrecimento progressivo das funções intelectuais e dos afetos se contrapõe à riqueza de construções que encontramos na psicose.[20]

 

  1. As memórias e os esquecimentos

 

A complexidade de abordagem da questão da memória, deve-se entre outros, ao fato de estar constituída por várias funções: aquisição, estocagem, retenção e restituição, exigindo cada uma delas, a colocação em marcha de inúmeros mecanismos e, se alguma destas funções sofrer qualquer tipo de alteração, podemos dizer que nos encontramos ante uma perturbação da memória. Mas, além de fazer uma classificação pelas várias funções, podemos fazê-lo seguindo também outros critérios, por exemplo, de acordo com os mecanismos usados ou com seus objetivos, o que nos levará necessariamente a definir esse grande fenômeno de forma plural, como memórias, sempre em pares e por oposição. Há classificações muito interessantes, especialmente pelo seu valor descritivo (Chévance, 1999). Temos por exemplo:

  1. Memória a curto e longo prazo: Como o nome o indica, são conceito ligados com a questão do tempo. A curto prazo é a utilizada para registrar um dado por um período curto apenas necessário para sua utilização, por exemplo, quando registramos um número de telefone para uso imediato. Memória a longo prazo define os mecanismos necessários que se põem em marcha para guardar um registro por muito tempo; neste caso o mecanismo de retenção é mais complexo.
  2. Memória cognitiva e memória dos automatismos: a primeira é a que precisa de aprendizado, ou seja, põe em marcha mecanismos de atenção e concentração, como aprender a dirigir um carro, por exemplo. A segunda acontece involuntariamente,
    sem nenhum esforço de atenção e sua utilização segue o mesmo padrão de não intencionalidade, estão incluídos aqui todos os movimentos corporais aprendidos na infância.
  3. Memórias semântica e episódica: A memória semântica corresponde ao aprendizado de conhecimentos comuns e compartilhados como, por exemplo, a regras gramaticais da língua materna. A episódica, como o nome o indica, é a capacidade de lembrar episódios e fatos vividos em diferentes fases da vida.
  4. Memórias explícitas e implícitas: A explícita, totalmente consciente, é a utilizada no marco do aprendizado, quando se sabe que um conteúdo deve ser memorizado (aprender um poema ou uma fórmula química, por exemplo) A implícita é a que se opera quando o processo de aprendizado não é consciente e não há esforço de retenção, embora ela exista.

Nos diversos quadros demenciais, a primeira memória que apresenta modificações é a de curto prazo: se esquece onde se deixou um objeto, se esquece de tirar a panela do fogo ou se esquecem os números de telefone, isto sem que exista estresse ou alguma outra razão que justifique e constituindo-se em sinais que adquirem um valor especial quando se repetem frequentemente. Depois será a vez da memória episódica, a cognitiva e a explícita. Mas o maior problema do uso destas classificações é que, geralmente, o observador não as relaciona com questões subjetivas.

Ao tratar dos textos “Psicopatologia da vida cotidiana” (1901) “Sobre os mecanismos psíquicos do esquecimento”, (1898) vimos o processo pelo qual um nome próprio que não oferece complexidade pode ser esquecido em virtude de um deslocamento de significado que mantém um nexo com o original e obedece a leis associativas. Vimos ainda que nestes casos, nos quais o esquecimento persiste e se cria um substituto, devemos lembrar também que o mecanismo repressivo atua favorecendo o esquecimento, com o objetivo de evitar o desprazer que algumas lembranças podem provocar.[21]

Na demência se esquecem nomes de pessoas e coisas, mas não é comum a substituição por outro. O mas freqüentemente observado é a tentativa de definição através da descrição do objeto, por exemplo: “me dá esse negócio que serve para beber água”, sem que se encontre, no esquecimento da palavra “copo” nenhum significado especial. Mas em outros casos, a opção de pensar pelo viés da evitação do desprazer é totalmente válida. Como no caso de dona Maria que esquecia o nome do odiado namorado da neta, igual ao do marido, de quem não guardava boas lembranças.

Dona Eloísa lembrava perfeitamente o nome do ex-marido – que desde jovem teve importante desempenho no méio político – e o lugar onde mora atualmente com a “outra”. A perturbação da memória estava circunscrita ao momento do casamento (data, igreja,festa etc) dados que podiam fazer uma ligação direta com o “o momento mais feliz da vida” lugar narcísico de reconhecimento social que lhe fora negado.[22]

Outro caso interessante sobre o funcionamento da memória é o de dona Pierina[23], de 95 anos. Nascida na Argentina, morou sempre em seu país e teve uma vida muito ativa e participante até que aos 90 anos, vem ao Brasil para morar com o filho, já portadora de um diagnóstico de demência de tipo Alzheimer, comprovada por diagnósticos por imagem. Instalada em sua nova moradia, e com todos os cuidados necessários, (medicação controlada por especialista, acompanhante e manutenção dos vínculos afetivos fundamentais) a doença segue o curso esperado. Aos poucos, ela deixa de reconhecer as pessoas mais próximas, as confunde com outros personagens de sua história, desconhece o lugar onde se encontra e precisa assistência para as mais simples atividades. Por razões familiares, decide-se que volte à Argentina para ficar sob os cuidados de sua outra filha. Nesse momento, mais especificamente na hora de ir ao aeroporto, dona Pierina é invadida por uma lucidez inesperada. Reconhece às pessoas que a acompanham, sabe que está voltando para sua terra, lembra de nomes, reconhece lugares. Como se o sujeito que tinha se perdido reaparecesse repentinamente, para perder-se novamente pouco tempo depois.

Se as perturbações da memória dependessem exclusivamente de danos neurológicos permanentes, casos como este não seriam possíveis. Se o neurológico definisse todo o funcionamento da memória, o surgimento destas lembranças tão complexas seria inacreditável. Mas por alguns poucos instantes Dona Pierina se lembra, por um momento recupera a função historizadora da memória, produz idéias, encontra sentidos e abandona a posição de ignorância em relação a si própria e se alegra pelo reencontro.

Desde as sociedades ágrafas, a questão da memória sempre esteve ligada à história e foi tida como um patrimônio dos velhos na medida em que representava um saber sobre o passado. Este posicionamento positivo foi abandonado em tempos mais recentes, em favor de uma versão negativa que liga o processo de envelhecimento só às perdas.

Em certas ocasiões, as lembranças – por efeito da repetição – perdem sua função construtora de história e por tanto sua essência. São lembranças que não lembram nada, que não se associam a nada. Uma senhora de setenta e cinco anos, recentemente institucionalizada, recebe-me muito jovialmente num quarto ensolarado e alegre onde se dedicava à arrumação de seu armário. Me pergunta se conheço a Márcia e, ante minha negativa, mostra-me sua foto, os móveis que ela lhe comprou , … as roupas, ….. e se mostra muito agradecida a essa sobrinha que a cuida tão bem. Tudo dito num discurso muito coerente, lógico, sem furos, até que, depois de longos minutos, a interrompo para perguntar desde quando está na instituição. Então me responde que faz pouco tempo e que foi a sobrinha Márcia que a trouxe e agrega, “Você conhece a Márcia?” a partir do que, e sem se importar com minha resposta, recomeça exatamente o mesmo discurso, sem trocar uma palavra, sem modificar uma vírgula. Este processo se repete várias vezes sem que eu consiga encontrar uma pergunta ou qualquer tipo de intervenção que o modifique, até que exausta, me retiro.

 

 

 

 

 

 

* Este poema foi escrito por uma senhora que aos 49 anos recebe um diagnóstico de Alzheimer em fase inicial. Dez anos antes, devido a uma grande infelicidade gerada pela permanente “discórdia” com seu marido e submergida em um estado depressivo, começa a escrever um diário onde foram encontrados estes versos. Citado por André Chévance , 2003, p 82.

[1] A primeira edição é do ano 1988 . Da bibliografia pesquisada sobre uma articulação entre demência é psicanálise, esta obra é a mais antiga que encontramos depois da de Régis pertencente aos primórdios do sáculo XX e que já foi citada no cap. II.

[2] Da Université Paris 7 – Denis Diderot.

[3] Aconselhamos a leitura completa deste artigo para melhor compreender o conceito de “posições” assim como outros provenientes da cultura grega.

[4] “A palavra solução deve ser entendida no sentido matemático do termo: uma equação que comporta diferentes variantes frente às quais, tal como em um sistema vetorial de forças, uma resultante, uma solução será encontrada” (Ceccarelli, 2003, p 21)

[5] Ver “Corpo, tempo e envelhecimento”, Catullo Goldfarb, 1998.

[6] Ver parte IV de “Além do princípio do prazer” de 1920 e Green , 1993, p. 20.

[7] Ver Peruchón M. e Renault ª 1995.

[8] Pulsão de agressão ou destruição designa a pulsão de morte quando voltada ao exterior tendo como meta a destruição do objeto. (Ver Laplanche, 1995)

[9] O Aurélio define discórdia sob dois aspetos: desarmonia, desentendimento, desinteligência, desavença e briga, luta.

[10] Marion Peruchón (1995) trabalha sobre um tríptico de desfusão pulsional maior, no qual, além das demência, inclui a melancolia e o suicídio.

[11] Para Green “a ego-sintonia do Eu deve ser procurada nos investimentos do Eu por suas próprias pulsões: é o narcisismo positivo: efeito de neutralização do objeto” (1988, p.25) e chama narcisismo negativo “as relações entre narcisismo e pulsão de morte” (idem. p 14).

[12] Ver elaborações de Debord no cap. I.

[13] Ver nota de rodapé da p. 146.

[14] Acho interessante que em francês, a palavra Psyché – que na sua origem grega significa “alma”– define também estes espelhos verticais, tal como o testemunha o dicionário Le Robert: Grande glacê móbile montée sur um châisis à pivots.

[15] Ver cap. III.

[16] Já nos referimos ao tema da reminiscência no cap III.

[17]Uma residente que encontro não momento em que entro na instituição para uma visita informal, me segura pelo braço e repete, um tanto desesperada as seguintes palavras: “mulher……cama……rua….., só mais tarde, falando com o enfermeiro pude perceber o acontecido: queria me contar que sua grande amiga tinha falecido enquanto dormia e seu corpo tinha sido retirado em uma ambulância, o que me permitiu voltar a ter com ela e reconstruir minimamente o acontecido; falar “o possível” sobre esse episódio, a acalmou e lhe permitiu um grau incerto de elaboração do luto.

[18] Mecanismo de defesa que Freud identifica nas perversões e na psicose. Consiste na recusa do sujeito em reconhecer a realidade de uma percepção traumatizante, essencialmente a de ausência de pênis na mulher. Não se trata, como nos neuróticos, de um conflito entre eu e isso, e sim de uma clivagem do eu que incide na realidade exterior: recusa de uma percepção. (Laplanche e Pontalis 1995)

[19] Casos observados em instituições asilares.

[20] Não negamos a possibilidade da existência das duas patologias simultâneas, a possibilidade de um psicótico vir sofrer um quadro demencial de origem neurológica, só asseveramos que até o presente não tivemos a oportunidade de conhecer um quadro com essas características nem pesquisas sobre esse particular.

[21] Ver capítulo III.

[22] Ver casos estes casos no item: Vinhetas Clínicas.

[23] Caso relatado por familiares.

CAPÍTULO   VI

Perspectivas Terapêuticas

 

José Arcádio Buendía decidiu então construir a máquina da memória, que uma vez tinha desejado para se lembrar dos maravilhosos inventos dos ciganos. A geringonça se fundamentava na possibilidade de repassar, todas as manhãs, e do princípio ao fim, a totalidade dos conhecimentos adquiridos na vida. Imaginava-a como um dicionário giratório que um indivíduo, situado no eixo, pudesse controlar com uma manivela, de modo que em poucas horas passassem diante de seus olhos as noções mais necessárias para viver. Tinha conseguido escrever já cerca de quatorze mil fichas……..*

 

Gabriel Garcia Márquez – “Cem anos de solidão”

 Apostas e desafios

 

Otrabalho com os pacientes afetados por demência, seja de origem neurológica ou não, exige um atendimento em equipe interdisciplinar que inclua a família e o entorno social do paciente. No mundo todo, diversas técnicas são aplicadas especialmente a partir do ponto de vista da psicologia comportamental ou da neuropsicologia. As mesmas visam, em geral, a recuperação ou conservação da memória. Algumas levam em consideração os aspetos subjetivos destes mecanismos, mas ainda não temos propostas metodológicas abrangentes que incluam a totalidade destes fatores.

A maioria das tentativas terapêuticas conhecidas no campo das demências estão relacionadas com um trabalho a partir da questão da memória exclusivamente como função neurológica. Diferentes tipos de exercícios e treinamentos cognitivos foram tentados neste sentido. Mas propostas isoladas ou parciais devem ser superadas em favor de uma ampla compreensão do fenômeno demencial, pois o estilo interdisciplinar ou transdisciplinar[1] de pesquisa é, sobretudo, uma questão ética, já que se, aprioristicamente, aceitamos um diagnóstico fechado de progressão e irreversibilidade, estamos condenando o paciente à exclusão, como vimos no segundo capítulo deste trabalho.

De todo o modo, qualquer técnica ou abordagem que possamos tentar será sempre um desafio e uma aposta. Desafio contra a crença generalizada de que não há nada a ser feito ante um diagnóstico de demência e aposta em que, apesar da deterioração evidente, existe ao menos durante um longo tempo algum tipo de vida psíquica sobre a qual é possível trabalhar no sentido da preservação e restauração do funcionamento psíquico.

Em relação às terapêuticas possíveis, nos encontramo-nos ante um novo campo clínico que se constitui como um verdadeiro “deserto metodológico” (Maisondieu, 2001), uma vastidão se abre a nossa frente e não podemos dizer que estamos no começo do caminho, pois nem temos ainda caminho para percorrer, só o desejo de uma trilha que deve ser desbravada. Mas, como avançar em um caminho que antes de começado já nos prova ser extenuante? Como pensar em trabalhar com pacientes em fases mais avançadas da doença, quando o menor diálogo é praticamente impossível? Como suportar a frustração diante do silencio, das repetições, do vazio? Como lidar com o nosso sentimento de inutilidade?

Freud, em “Análise terminável e interminável”, de 1937 nos oferece uma luz para começar a pensar nestas questões quando fala da “viscosidade da libido”. Ele diz que há pacientes que parecem não querer desinvestir certos objetos para investir outros. Compara o trabalho do analista ao do artista plástico que trabalha sobre pedra dura e não sobre argila mole, esclarecendo que, também neste labor, os efeitos do trabalho fácil são menos duradouros que daquele outro em que as resistências são maiores. Logo depois acrescenta que há um outro grupo de pessoas em que o funcionamento psíquico se caracteriza pelo esgotamento da plasticidade e da capacidade para as mudanças, uma “inércia psíquica” da que já tinha falado nas “Conferencias Introdutórias sobre Psicanálise” (1915-17) e em “O homem dos Lobos” (1916-17), quando, referindo-se à revolta contra a religião, disse:

 

Uma vez adotada uma posição libidinal, procurava preservá-la, pela angústia que sua perda poderia lhe causar e pela desconfiança de que uma nova posição não representasse um substituto apropriado. Isto já foi definido nos “Três Ensaios”como fixação e é o que Jung chamou, com razão, de inércia psíquica, ao que adjudicou todos os fracassos neuróticos. Sabemos que a mobilidade dos investimentos se reduz significativamente com a idade, o que limita as indicações de tratamento psicanalítico. Mas há pessoas que conservam esta plasticidade psíquica além dos limites de idade habituais. (Freud, 1916-17, p. 105)

Vemos que desde 1917, embora Freud associasse rigidez mental com idade avançada, não fazia deste fator um determinante tão absoluto quanto em produções anteriores em que claramente negava a pessoas de mais de cinqüenta anos a possibilidade de análises.[2] Mas o tempo passa e as conceitualizações de Freud mudam, até que, vinte anos mais tarde, ele nos brinda com um convite para nos adentrarmos no estudo do processo de envelhecimento quando se refere a estes “caracteres temporais” que podem provocar modificações na vida psíquica ao dizer:

 

Mas nos casos que agora consideramos, todos os decursos, vínculos e distribuições de força provaram ser imutáveis, fixos, petrificados. Nos casos de pessoas de idade muito avançada, achamos uma explicação por causa da força dos costumes, pelo esgotamento da capacidade receptiva – uma espécie de entropia psíquica – mas aqui trata-se de indivíduos ainda jovens. Nosso preparo teórico parece insuficiente para entender corretamente os tipos que correspondem a esta descrição; talvez intervenham uns caracteres temporais, variações dentro da vida psíquica de um ritmo do desenvolvimento que ainda não foi apreciado. […] Estes fenômenos apontam de maneira inequívoca à presença na vida anímica de um poder que, pelas suas metas, chamamos pulsão de agressão e derivamos da pulsão de morte originária, própria da matéria animada. (Freud, 1937, p. 244)

 

Não deixa de ser interessante que estes comentários sobre as dificuldades de trabalho com estruturas rígidas e libidos viscosas venham, neste texto, associados ao trabalho com idosos. Mas o que nos interessa destacar neste momento, são as pontuações do autor sobre o papel do analista e sua eficácia terapêutica.

Em relação a este particular, cita uma conferência proferida por Ferenczi em 1927 no Congresso Psicanalítico de Innsbruck, oportunidade na qual disse que considerava da maior importância que o analista apreendesse com seus próprios fracassos e agrega que: “Não só a complexidade do eu do paciente; também a peculiaridade do analista demanda seu lugar entre os fatores que influenciam as perspectivas da cura analítica e a dificultam do mesmo modo que as resistências”. (Freud, 1937, p. 249) . Por outro lado, diz que se exige do analista um certo grau de “normalidade” e afastamento dos próprios problemas e que não devemos esquecer que “….o vínculo analítico se funda no amor pela verdade, ou seja, no reconhecimento da realidade objetiva e exclui toda ilusão e todo engano” (idem) condições que fazem da psicanálise, junto com o educar e o governar, uma das profissões impossíveis.

Tomamos este artigo para ser comentado neste capítulo sobre as terapêuticas possíveis com pacientes demenciados, porque nele Freud marca claramente uma posição ética – no que concerne especialmente à posição do analista – e um limite metodológico. Tanto assim que conclui o sétimo tópico com as seguintes palavras: “A psicanálise deve criar as condições psicológicas mais favoráveis para as funções do eu; com isso se daria por tramitada sua tarefa” (Idem, p. 251)

No caso das demências, o progressivo desmoronamento do eu provoca uma situação de perda das funções inibidoras, deixando o sujeito à mercê de um narcisismo primarizado e mortífero. Assim, o trabalho terapêutico poderá se dirigir a restaurar (embora não seja mais que como prótese[3] ) as funções do eu, colocando no caminho desse sujeito, os sinais da realidade que possam ajuda-lo a reconstruir suas lembranças. Podemos dizer que deve-se “neurotizar” o paciente, recriar o conflito, para que consiga trabalhar o luto interrompido.

O próprio Freud, em “Os novos caminhos da terapia psicanalítica” (1919), fala das mudanças técnicas exigidas pelo tratamento das fobias e insiste em que, com a evolução organizativa e técnica, a psicanálise poderá chegar a ser praticada em instituições, de forma gratuita, acrescentando: “Quando isso acontecer, deveremos enfrentar a tarefa de adequar nossa técnica às novas situações” (Freud, 1919, p. 163). Deduzimos então que o analista pode aceitar desafios e ir, cuidadosamente, além de suas próprias fronteiras quando um novo campo clínico se abre.

A ressignificação do passado é o caminho para romper com fixações e vícios nos relacionamentos, acabar com condutas repetitivas e aceitar o imprevisto, o não planejado. Trata-se, enfim, da desconstrução de uma rigidez que transformou o eu em um todo imutável que não pode mais aceitar a frustração. Uma rigidez que acaba com qualquer possibilidade de movimento. Um verdadeiro trabalho de reinterpretação deve ser realizado para que novos caminhos possam ser construídos, embora temporalmente sejam caminhos muito curtos e não seja possível percorrê-los em toda sua extensão. Mas só na construção do caminho se achará o horizonte. Como dona Eloísa[4] que, ciente dos poucos anos de vida que lhe restam, decide voltar para sua casa, junto a tudo que motiva suas recordações.

No caso de pacientes em processo demencial, raramente há demanda de análise; o pedido é de alguém que ajude a procurar o perdido, encontrar as palavras que lhe permitam lembrar a perda que tão profundamente atacou seu narcisismo, achar a lembrança do que precisou ser esquecido e que acabou provocando a avalanche da memória. Missão difícil sem dúvida.

Mas há um caminho possível e prazeroso que se realiza através do exercício da reminiscência, que se ocupa de organizar o laço entre sujeito e objeto. Como a fantasia, também permite substituir os objetos reais pelos imaginários da lembrança, ou os mistura uns com outros. Reminiscência que, como forma de fantasia característica do processo de envelhecimento, é posta ao serviço da pulsão de vida, o qual como sabemos, procura construir unidades cada vez maiores e mais complexas. Pulsão conservadora que quer incluir o anterior no posterior, o passado no presente, conjugando-o em construções cada vez mais vastas, até chegar a transformá-lo. Reatar laços com o passado, com objetos de amor perdidos (embora não seja mas que nas lembranças), transmitir essas recordações à alguém que ofereça uma escuta interessada, pode ser uma atividade objetivante[5] quando o presente se mostra empobrecido ou vazio.

Embora a memória do sujeito em fase inicial de processo demencial seja fugidia, há uma tendência à conservação da atividade reminiscente, especialmente quando estimulada. Sempre que houver uma ruptura com o tempo futuro que parece não mais existir, então a projeção se fará em relação ao passado, pois a inscrição no futuro se encontra impossibilitada se falta a esperança .

Sobre este particular, Messy se pergunta:

 

Que acontece com um idoso que se sente sem futuro, sem esperança, para quem o tempo parou em um dia de luto? Porque investir no atual se não é mais fonte de satisfação, mas de angústia? O que há na memória como reserva de prazer à qual possamos recorrer de tempos em tempos?. (Messy, 2002, p 119)

Péruchon e Renault denominam “anti-cortes” os efeitos do exercício da reminiscência: anti-corte presente e passado; anti-corte psique e soma que Eros reúne; anti-corte sujeito-objeto graças ao ato criador por excelência; anti-corte entre vida e morte. No idoso, o importante é trabalhar com as sensações do passado: músicas, cheiros, sabores, pois, assim como os esquecimentos se produzem como uma avalanche, as recordações também. Podemos observar que a atenção só é sustentada em atividades como o canto e a dança que podem trazer para o presente sensações de prazer já vividas e nas quais o corpo adquire um papel de protagonista, ou em atividades manuais quando relacionadas com gestos familiares, o que confirma que a memória não pode se reduzir a um mecanismo neuronal mas que é também um modo de relação com o mundo exterior e os objetos investidos. Para dona Maria[6], por exemplo, as lembranças culinárias são o disparador necessário para a reconstrução de cenas infantis completas e dos sentimentos que as acompanharam.

Em “O poeta e a fantasia”, de 1908, Freud fala das mudanças que a atividade de fantasear sofre ao longo do tempo. Explica como passamos do jogo da infância à fantasia da vida adulta em um movimento temporal incessante o qual nos obriga a não considerar rígidos ou imutáveis os produtos do fantasiar, pois estes “…se adequam às diferentes impressões vitais, se alteram ante a variação das condições de vida, recebem de cada nova impressão eficaz, uma ‘marca temporal’”. (Freud, 1908 p. 130) e, como já o assinalávamos no cap III esta relação entre tempo e fantasia é fundamental para entender o trabalho psíquico especialmente quando abordado em relação ao processo de historização.

E Freud ainda escreve:

 

Pode-se dizer que uma fantasia flutua entre três tempos: os três fatores temporais de nossa atividade representativa. O labor anímico se enlaça a uma impressão atual, a uma ocasião do presente, capaz de despertar algum dos grandes desejos do sujeito; apreende regressivamente, desde este ponto a recordação de um sucesso pretérito, quase sempre infantil, no qual ficou satisfeito esse desejo, e cria uma situação referida ao futuro que se apresenta como satisfação desse desejo, o sonho diurno ou a fantasia, que levará então, em si mesma, as marcas de sua procedência, da ocasião e da recordação. Assim, então, o pretérito, o presente e o futuro aparecem como encadeados pela linha do desejo que passa através deles (Freud, idem).

 

Entendemos a reminiscência elaborativa como uma forma especial da fantasia que se desenvolve na velhice e que, longe de representar um fator patológico, é mais uma reafirmação da própria história que devemos considerar como uma salvaguarda do declínio mental. A reminiscência nos fala da cena que origina a lembrança e revive a emoção da ilusória satisfação do desejo. As circunstâncias do presente, trazem uma lembrança relacionada com o desejo que permite construir a idéia de continuidade do ser, trabalho incansável do eu que não cessa de escrever sua própria história.

Produto de sangue misto, processo primário e secundário, consciente e inconsciente, realidade e o imaginário se atam nisto que não deixa de ser um relato mítico, como aliás o são todas as recordações. O eu só se preserva na medida que se reconheça a si mesmo como um existente sustentado por uma história permanente. É a reminiscência que insiste nessa história, preserva a identidade, oferece aquelas balizas das quais fala Piera Aulagnier[7], permite a atualização das lembranças.

Sabemos desde Freud que as crianças elaboram no jogo o excesso de estimulação; no velho não é diferente, pois a falta de estimulo no presente, o encurtamento do horizonte da vida e o aumento das dificuldades do cotidiano, especialmente quando existem problemas de saúde e/ou financeiros, são um sofrimento excessivo que produz um aumento da necessidade de bem-estar. Quando esse bem-estar não pode ser construído, quando as identificações caem, a reminiscência segura a identidade. No momento da vida em que se está passando ao “não mais ser”, as recordações do “já fui” garantem a preservação da memória

Mas, para que um colar seja construído com pérolas soltas, é necessário que exista o fio que as una; para que a reminiscência seja elaborativa é necessário que as circunstancias atuais restabeleçam uma comunicação com o passado e despertem a esperança no futuro. Para que a reminiscência seja elaborativa e não se transforme em mera repetição, deve levar a alguma ação modificadora da realidade atual, e para isso, alguém que escute de forma adequada, interessada e ajude na elaboração, é fundamental. O trabalho de reminiscência consiste, enfim, em ligar emoção atual e passada e unir o que foi ao que é, dando unidade à existência…

Norberto Bobbio, falecido em 9-1-04, e em quem nos inspiramos para dar um nome a este trabalho, relaciona a construção da identidade com temporalidade e memória quando escreve:

 

O passado revive na memória. O grande patrimônio do velho está no mundo maravilhosos da memória, fonte inesgotável de reflexões sobre nós mesmos, sobre o universo que vivemos, sobre as pessoas e acontecimento que, ao longo do caminho, atraíram nossa atenção. […] Este imenso tesouro submerso jaz à espera de ser trazido de volta à superfície durante uma conversa ou leitura; ou quando nós mesmos vamos à sua procura nas horas de insônia; outras vezes surge de repente por uma associação involuntária, por um movimento espontâneo e secreto da mente. Se o mundo do futuro se abre para a imaginação, mas não nos pertence mais, o mundo do passado é aquele no qual, recorrendo a nossas lembranças, podemos buscar refúgio dentro de nos mesmos, debruçar-nos sobre nós mesmos e nele construir nossa identidade […] O tempo da memória é um caminho inverso ao tempo real: quanto mais vivas as lembranças que vêm à tona de nossas recordações, mais remoto o tempo em que os fatos ocorreram (Bobbio, 1997, p. 55, o grifo é meu).

 

 

  1. Ensaios e erros

 

É evidente que nas demências existe um trabalho psíquico, tanto que a linguagem, embora muito empobrecida, continua presente e, em muitos casos, até na fase final. Expressões faciais, corporais, gestos, também dizem muito a respeito e sobre isto tudo devemos trabalhar. Mas as formas de trabalho se modificam radicalmente segundo se trate de pacientes em fase inicial ou em alguma das incontáveis etapas da fase intermediária em que o aparelho psíquico vai se desestruturando lentamente[8]. Do ponto de vista dos mecanismos psíquicos, as fases não tem uma divisão clara, e seu funcionamento – como é lógico – vai depender muito da história prévia, dos modos de reação particulares e das características singulares de casa sujeito.

Em todos os casos, o tratamento integral deve ser dirigido a todos os envolvidos na situação (portador, família, cuidadores) . O diagnóstico é a tal ponto condenatório, que na conduta mais generalizada consiste em colocar o paciente sob cuidados exclusivos de um neurologista, enquanto a família – no melhor dos casos – vai ao psicólogo ou aos grupos de apoio para elaborar a catástrofe que a eclosão da doença demencial provoca. Ainda são poucas as experiências em trabalhos de reabilitação com pacientes demenciados como se no momento do diagnóstico a pessoa perdesse sua capacidade de pensar.

A primeira fase da doença, quando o sujeito começa a sofrer as primeiras perdas de sua operatividade psíquica e a família começa a percebê-las, pode trazer como conseqüência a reatualização de sentimentos de raiva, rivalidade e ódios, colaborando para a instalação de um clima de irritabilidade e hostilidade que tomam conta dos vínculos, e a negação instala-se como mecanismo predominante. Por outro lado, como já dizíamos em um trabalho anterior, não podemos esquecer que:

 

O desconhecimento colabora para a construção dos mais terríveis preconceitos, e a demência, como as doenças mentais carrega o mesmo destino de doença marginalizada, vergonhosa, destinada a ser ocultada como verdadeiro estigma familiar, quando não, tratada com a indiferença ou resignação com que se trata o inevitável. Pior ainda quando se atribui ao doente a designação de “velho esclerosado”, como se a perda de memória fosse uma questão inerente a idade avançada. Esta atitude provoca uma paralisia perigosa tanto nos meios científicos mal informados, quanto nas famílias e nos próprios pacientes que acham uma certa “normalidade” nas primeiras perdas das funções cognitivas. (Gelherter e Goldfarb, 1996)

 

Nesta fase é comum a demora em solicitar ajuda profissional, a negação atua em todos os níveis dos vínculos familiares, e quando a situação insustentável provoca um movimento de pedido de auxílio, a procura é de algo que explique o porquê dessas mudanças, porque essa pessoa “já não é mais a mesma”. Há uma insistência dos familiares em recuperar a “pessoa de antes”. E como o diagnóstico é em geral condenatório, a família entra em uma situação de desespero, frustração e culpa em meio à qual se organiza um certo entrosamento familiar na busca de uma solução.

Se fosse possível realizar o diagnóstico de forma multidisciplinar, precocemente, ante os primeiros sinais de deterioração cognitiva, angústia ou mudanças de comportamento e – como propúnhamos – deixar em suspensão seu aspecto condenatório, seria esse um excelente momento para começar com uma intervenção terapêutica, mas são raros os casos em que a família consulta e pede ajuda durante a fase inicial da doença.

Os maiores obstáculos ao se tentar agir terapeuticamente são – além das próprias resistências dos profissionais envolvidos – as resistências familiares e do pessoal técnico que cuida diretamente o doente. Devemos entender que, até chegar ao diagnóstico condenatório, a família em primeiro lugar nega a gravidade da situação, a seguir sofre com a incerteza e depois com a sentença de irreversibilidade Finalmente, deve-se organizar para cuidar do familiar doente, para o qual – sem dúvida – precisa de apóio. Mas este é um momento perigoso, já que profissionais e familiares podem fazer uma aliança em torno do diagnóstico de irreversibilidade, negando ao sujeito doente as possibilidades de lutar pela sua recuperação e opinar sobre seu futuro, afundando-o cada vez mais em uma situação de dependência.

A família e os cuidadores se mostram interessados e ávidos de conhecimentos e informação, não querem ter dúvidas, o diagnóstico, embora trágico, acalma. O apóio é necessário, mas não deve ser dirigido ao convencimento em relação ao prognóstico condenatório, e sim ao entendimento da individualidade do paciente que permita tirá-lo de uma categoria excludente; às possibilidades do uso de diversos recursos terapêuticos; à salvaguarda das capacidades que ainda restam intactas e à restauração das perdidas. Se conseguirmos mudar o olhar sobre as demências, talvez mude a sorte dos demenciados.

É nesta fase inicial que alguns pacientes trazidos pelos familiares ou encaminhados por outros profissionais podem chegar ao consultório de um psicanalista, ou em um ambulatório de geriatria ou de clínica geral. E, nestes casos, é só se afastando dos preconceitos que um diagnóstico (ou suspeita) de demência provocam que será possível trabalhar a falta de memória como resistência, trabalhar sobre os lapsos, os sonhos, a palavra que se esquece. E será se despindo de amarras técnicas que se poderão introduzir novas formas de aproximação com pacientes nos quais a possibilidade discursiva esteja mais afetada, como no caso de Dona Eugenia[9], a quem peço para trazer fotografias ligadas a sua vida. Isto nos permitiu uma interessante reconstrução histórica e se mostrou uma excelente ponte para a construção de lembranças, adaptação ao mundo atual e à vida social.

Na repetição desta experiência, algumas vezes tivemos sucesso e outras não…. pela simples razão de que algumas pessoas não têm o menor interesse em fotografia, não as guardam e não lhes representam nada…. Outras trilhas devem ser abertas.

O que a experiência médica considera como fase intermediária das doenças demenciais (especialmente de tipo Alzheimer) é a mais longa de todas, podendo chegar a durar vários anos. Inclui estados diversos, que vão desde alteração do sono e apetite até a desorientação temporo-espacial, passando por dificuldades da fala e da escrita, apatia, inafetividade, dificuldades de locomoção e deterioração da memória anterógrada, que vão se agravando na medida que o tempo passa, confirmando a cronificação e a irreversibilidade e aumentando a dependência.

Nesta fase o contato se faz mais difícil e frustrante, o paciente permanece mais isolado e contrário a qualquer tipo de interação, especialmente quando esse traço formava parte de sua estrutura prévia. Frases são ditas sem que saibamos a quem são dirigidas. Quando há um discurso, está estruturado na repetição. As respostas a nossas perguntas são curtas, frias, e isto só muda com um contato intenso, diário e prolongado. Então olham, sorriem e falam, mas não há muita possibilidade de mudar o rumo da “conversa”.

O papel do terapeuta será o de trabalhar sobre as capacidades que restam, fazendo que adquiram um valor superior ao que tinham, reduzindo assim a frustração. É necessário, então, reduzir o sofrimento pondo o prazer possível a funcionar, trabalhar sempre sobre os recursos ainda presentes e não sobre os déficits.

Os olhares também podem se dirigir a um vazio além do terapeuta. Acontece freqüentemente que, ao tentar uma aproximação, o analista se sinta como um verdadeiro inexistente, é como querer se olhar em um espelho que não devolve a imagem. Assim como eles não se reconhecem no espelho, nos também não somos vistos, não há um outro possível. No capítulo anterior, dizíamos que o demenciado se ignora a si mesmo. Parece que na transferência, consegue colocar-nos no mesmo lugar, nos ignora e nos demonstra calmamente que nossa presença lhe é indiferente. Só na insistência da cotidaneidade poderemos estabelecer um laço mínimo.

Uma das possibilidades será a de virar o espelho: em vez de o terapeuta se identificar com o vazio e sentir a força paralisante da frustração, trabalhar sobre a possibilidade de ser um espelho para o paciente. Esta idéia me ocorreu num dia em que cheguei para visitar uma paciente estando profundamente triste. Ela, que sempre me recebia sentada em sua poltrona, indiferente, desafetiva e apática, começou a chorar silenciosamente. Quando lhe pergunto sobre o motivo de tanta tristeza nada diz ….. Nesse momento me aproximo mais dela, tomo suas mãos entre as minhas e lhe digo que estou triste porque uma pessoa que eu amava muito morreu. Então ela pára de chorar, embora com dificuldade fica em pé – pela primeira vez em meses a vejo altiva, como nas fotos de sua juventude – e sai ao jardim onde mexe em algumas plantas. Eu começo a brincar com seu gato e ela me diz: “cuidado…cuidado”. Cuidado dela?, de mim?, que a cuide mais, que me cuide melhor? Saí de sua casa me fazendo perguntas. Considerei essa sessão um enorme sucesso.

O mesmo caso me fez pensar no uso de objetos intermediários, pois nas sessões seguintes que aconteciam duas vezes por semana, deixei o gato entrar na sala e pude observar como estabelecia com ele uma comunicação afetiva que eu poderia aproveitar. Porém, por decisão familiar o tratamento foi interrompido logo depois.

Não é rara a solicitação de atendimento domiciliar integral (Home Care) Repito: não é rara a solicitação …. o difícil é a continuidade do trabalho pelo alto custo do mesmo. Raros são os casos de famílias que contam com a bagagem de conhecimentos, a força anímica e os meios financeiros que lhes permita um atendimento individualizado do paciente, tanto no lar quanto na instituição.

O ideal é a implementação deste tipo de tratamento interdisciplinar em hospitais dia. Esta é uma solução cada vez são mais frequente no mundo todo, já que, além dos serviços especializados em enfermagem, fisioterapia e terapia ocupacional, estes estabelecimentos podem oferecer psicoterapias grupais e individuais, além de todos os benefícios de uma vida social[10] conservando o convívio familiar fundamental para o bem-estar do paciente. Considero este aspecto da maior relevância na discussão de uma estratégia para o tratamento das demências dentro da saúde pública, especialmente no que se refere ao alto grau de benefícios que promove e ao baixo custo relativo.

Em estágios mais avançados – e dependendo da capacitação e boa vontade das instituições onde geralmente estes doentes são asilados – a ênfase é colocada nos próprios pacientes, mas apontando fundamentalmente à melhora da qualidade de vida e não à restauração da funcionalidade psíquica. Podemos observar que são propostas atividades de jardinagem, movimento, artesanato e muitas outras que, embora muito bem conduzidas, no geral não levam em consideração a história individual do sujeito demenciado[11].

No atendimento domiciliar participam vários profissionais, como enfermeiros, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas, médicos, acompanhantes terapêuticos e psicanalistas. O objetivo destes últimos, além do específico com os pacientes, que visará à manutenção da atividade simbólica, será o de trabalhar as tensões e conflitos familiares que eclodem ou se geram ante a situação de ter que cuidar do familiar doente, como também trabalhar os conflitos entre a equipe de assistência e desta com a família, além das dificuldades subjetivas de cada profissional no atendimento daquele paciente em especial. Em relação ao paciente será possível ajudar na manifestação de sentimentos que não encontram palavras para se exprimir e restaurar algumas funções do eu que ajudem a manter a autonomia possível.

A título de exemplo, podemos mencionar o caso de uma senhora de 84 anos que era cuidada sob um padrão extremamente infantilizado, até o ponto de receber uma chupeta na hora de dormir ou quando se mostrava agitada e de ser alimentada com semi-sólidos, na boca, como um bebê. A cuidadora era uma filha solteira, de 64 anos, sem outra ocupação, e que tinha assumido esse papel para si desde muito jovem, ainda antes que a mão adoecesse e com quem tinha um vínculo conflitivo, o que se manifestava em atitudes agressivas, disfarçadas de cuidados extremos.

Cabe acrescentar que esta filha se negava a deixar participar dessa tarefa qualquer outro membro da família, ante os quais se colocava como vítima da terrível situação. A saída desta cuidadora, em meio a uma enorme briga familiar, e a entrada de uma equipe multidisciplinar de atendimento, permitiu a esta senhora recuperar algumas funções. Ainda que sem lembrar as palavras, conseguia escolher o que desejava comer, o que passou a fazer sem ajuda; não só começou a andar mais pela casa, como chegou a ensaiar alguns passos de valsa com a fisioterapeuta, mostrou-se mais colaboradora na hora da higiene pessoal e, no geral, adquiriu uma expressão mais serena.

Nesta fase do processo de demenciação, muitos pacientes são institucionalizados e outros escolhem essa alternativa por própria vontade. Em uma única ocasião tive oportunidade de trabalhar com um senhor de 75 anos com um diagnóstico de Alzheimer confirmado por ressonância magnética. Brilhante advogado aposentado, ainda tinha contato com colegas e ex-alunos. Ajudado por um desses velhos colegas, procurou-me secretamente para que o ajudasse a falar com a família sobre suas últimas vontades, já que -ele sabia – em pouco tempo mais não seria capaz de expressá-las ou de tê-las. A família, no afã de poupá-lo do sofrimento, negava-se a falar do futuro e da progressão da doença. Muito bem informado sobre a doença diagnosticada, não queria “perder tempo” com conversas prolongadas, pois era consciente do pouco tempo de plena lucidez que lhe restava e da irreversibilidade do processo. Assim, programamos três entrevistas individuais que se estenderam a seis e se começou depois o trabalho com a família.

Nas seis reuniões familiares, pode manifestar seu desejo de ser institucionalizado num lugar que ele mesmo escolhesse e, apesar da resistência dos filhos que eram favoráveis a mantê-lo no lar, conseguiu que aceitassem ajudá-lo nessa escolha. Pôde decidir sobre o tipo de tratamento que desejava receber e até pela eutanásia passiva para encurtar o sofrimento inútil se uma fase terminal se apresentasse sofrida demais.

 

 

  1. Vinhetas clínicas

 

Apresentarei a continuação três vinhetas clínicas que ilustram a possibilidade de trabalho clínico em situações nas quais a queixa apresentada (pelos outros) foi de déficit de memória em estágio inicial. Em todos os casos, fiz um esforço para deixar em suspenso as suspeitas diagnósticas em favor de uma abordagem do sujeito e suas angústias.

 

Dona Maria, senhora de 72 anos, consulta-me por indicação do médico, que descreve a paciente como “depressiva” e suspeita de um caso de Alzheimer em fase inicial.

Na primeira entrevista, diz que não queria vir pois sabe que psicanalista “mexe no passado” e ela não quer. “O passado é para ser esquecido”. Na vida dela tudo é “normal”, mas o médico insistiu que me consultasse pois está com perda de memória: “Na verdade, esqueço de bobagens do dia-a-dia, o passado que queria esquecer ainda lembro”. Viúva, mora sozinha com uma empregada, tem filhos e netos com quem se dá bem.

Nascida no interior de Minas, freqüentou a escola primária e chegou a estudar piano. Nunca namorou, pois era muito vigiada pelos irmãos mais velhos, e acabou casando aos 17 anos, com um senhor de 30 que ela apenas conhecia e era amigo do irmão mais velho. “Naquela época, lá naquele fim de mundo era assim, tinha que aceitar, nem pensava em outra possibilidade… no começo não gostava, mas depois me acostumei, vieram os filhos… mudamos para São Paulo… tinha minha casa… Mas aí, a firma que ele trabalhava fechou e ele começou a beber… Sempre tinha sido frio comigo mas aí ficou violento, a gente passou a se odiar. Bom… a verdade é que amor mesmo nunca teve, mas tinha os filhos… depois nem isso, você sabe, os filhos a gente tem por pouco tempo mesmo”.

Dona Maria continua com o relato das mazelas de seu casamento infeliz, até que diz: “quando ele morreu do coração, fazia tempo que a gente nem se falava, eu pensei que ia me sentir aliviada, não falei para as crianças, mas no fundo, bem no fundo, acho que estava até um pouquinho feliz…. feliz não, aliviada….mas não sei por que tudo piorou para mim, eu que nunca tive nada, fiquei doente várias vezes, até fui parar no hospital, uma vez até me perdi na rua”.

A essa altura pensei que, para alguém que não queria falar do passado, até que tinha oferecido muita informação. Na sessão seguinte, Dona Maria faltou, e veio na terceira dizendo que se esquecera da anterior, fato ao qual não atribuiu particular importância.

Continuamos o trabalho sem que ela fale muito de outras coisas além de sua infelicidade conjugal. Não lembrava detalhes da infância e adolescência. Diz que tinha muitos amigos, mas não lembra o nome de nenhum; lembra o nome da escola que freqüentou por seis anos, porém esqueceu o das professoras. A adolescência parece ter sido um grande vazio passado dentro de casa sobre um bordado interminável. Lembra do casamento com uma festa linda, mas não dos convidados: “a família, claro”, diz, deduzindo que deveriam estar presentes. Não há lembranças específicas sobre a mãe ou o pai, só diz que eram muitos bons, mas “em minha casa não havia muito disso de conversa com os filhos”. Parece que, apesar da infelicidade do casamento, foi a única coisa importante que lhe aconteceu, ou, ao menos, a única à qual ficou ligada.

Depois de vários meses monótonos, traz uma novidade (algo finalmente a atingiu): uma neta de 22 anos saiu de casa e foi viver com o namorado, negro, artista, de quem a família não gosta. Então tem um ataque de raiva, chora, se agita, fala invejosamente das netas que fazem o que querem, que não há mais “modos”, “eles são bons meninos, mas a vida está muito diferente agora”, e diz: “Pôxa vida, se eu tivesse tido coragem, mas a esta idade não vale mais a pena lutar, eu perdi minha vida e isso não se recupera”.

Durante os meses que se seguem, o tema da neta e “o negro” (como era nomeado pela família) comparece em todas as sessões. Repetidas vezes perguntei pelo nome do rapaz e a resposta era sempre a mesma: “Não me lembro, me foge da cabeça”. Até que, um belo dia, começa a chamar o “negro” pelo seu nome. E era o mesmo nome do marido!! Podemos trabalhar isto e, assim, começa um relacionamento com o jovem casal que, graças a sua intervenção, se aproxima da família.

A partir deste momento parece que se abre o baú das recordações de onde começa a tirar objetos valiosos que estavam esquecidos. Um dia me traz uns bolinhos que não fazia havia 30 anos e que voltou a fazer agora para a neta que a convidara a jantar na sua casa. A partir das recordações culinárias, grandes cenas sobre sua infância foram relembradas (ou construídas) com detalhes e revivência dos sentimentos correspondentes. Agora voltou a cozinhar – por puro prazer – quitutes para a família, e todos adoram.

Nosso trabalho dura no total oito meses, e termina porque não sabe o que está fazendo aqui e não quer gastar mais dinheiro com papos muito bonitos mas que não levam a nada. “A vida é como ela é, e ela já vem pronta”, me diz antes de partir.

Quando escrevo este trabalho, já se passaram dois anos desde o “fim” do tratamento. Às vezes a encontro na rua, já que moramos no mesmo bairro; telefona-me no Natal e no último disse estar muito feliz, a neta estava grávida e lhe pediu ajuda para cuidar do bebê. Apesar da falta de memória não ter sido tema de nossos encontros, pego-me perguntando sobre esse aspecto, então ela me dá uma excelente notícia: “igual, nem melhor nem pior, tudo igual”.

O médico continua suspeitando de um Alzheimer em fase inicial que, por enquanto, parece estar evoluindo muito lentamente. Ele está atento e observando. Se aparecer um novo estado depressivo lhe será indicada a volta à psicoterapia e, se for necessário, será medicada. Por enquanto está muito ocupada e feliz com o bisneto.

 

Dona Eloísa, de 84 anos, é “trazida” a meu consultório pela filha, preocupada com a crescente falta de memória apresentada por sua mãe. Foi diagnosticada como portadora de uma demência de tipo Alzhiemer e sofre de diabete e hipertensão controladas, embora de vez em quando leve “alguns sustos”. Intelectualizada e de boas maneiras, é uma mulher elegante e culta que adora falar de arte, literatura, teatro e se apresenta às entrevistas muito simpática e colaboradora.

Na primeira entrevista relata especialmente fatos da infância, com muitos detalhes e reações afetivas apropriadas. Quando demandada, demonstra lembrar fatos mais recentes, e seus pequenos esquecimentos podem ser considerados dentro do esperado para sua idade. Já no final de nosso tempo, percebo que ela fala muito de duas de suas três filhas, mas não da terceira, como se esta não existisse, e que alguns temas são apenas tocados, como se não quisesse falar sobre eles. Na segunda entrevista, decido perguntar sobre esses temas, e é então que a memória começa a faltar.

O casamento, começado mais de 50 anos atrás, havia acabado fazia dez anos de forma inesperada para ela, com a comunicação do marido de que ia morar com outra mulher com quem tinha um relacionamento sério havia mais de 15 anos. Isso lhe foi dito numa situação social em que ela não podia ter nenhuma reação mais emocional. A partir desse momento, aos 74 anos, viu-se sozinha.

Diz não poder falar muito com as filhas, porque estas amam muito o pai, mas fundamentalmente porque suspeita que já soubessem do caso extraconjugal do marido (ela jamais referiu-se a ele como “ex”) e não lhe disseram nada. Esta senhora pode relatar com detalhes, repetidas vezes – como um sonho traumático – a cena do rompimento, mas consegue esquecer o dia e ano em que se casou, o nome da igreja, o nome do navio em que viajaram em lua de mel, e tantos outros detalhes que ela confessa que antigamente fazia questão de lembrar com orgulho: “Que coisa, esquecer assim do que foi o momento mais feliz da vida de alguém…….Não quero nem lembrar dessas coisas, seria bem mais fácil viver sem essas lembranças”.

Depois da separação, sentiu-se muito solitária, não tanto pela ausência do marido, mas porque a nova situação conjugal a obrigou a abandonar muitas amizades, pois eram relacionamentos todos mantidos em função do trabalho dele. Em meio a estas reflexões, percebe que tinha vivido em um mundo muito superficial, cheio de aparências e hipocrisias. Também, ninguém mais perguntava pelo marido e as filhas haviam tirado dela as fotos que testemunhavam essa época, para não vê-la sofrer.

O rendimento de sua memória parece ser melhor durante as entrevistas que no cotidiano. Lembra de coisas que – segundo a filha que faz o pedido de tratamento – não lembrava em casa. Atribuo este fato ao estímulo que representa alguém que está ali justamente para ouvir o que os outros não podem: o sofrimento que fez parte de sua história. Ouvir com o objetivo de reconstruir alguma coisa a partir desse ponto onde algo falta. Não há, em todo esse tempo, nenhum trabalho interpretativo, nenhuma mudança de rumo nas significações, nenhuma reavaliação por mim provocada. Só um trabalho de balizamento… e claro está, de escuta.

Mas e aquela filha da qual quase não fala? Passados três meses de tratamento e na certeza de que eu não mantenho contatos secretos com a filha que a trouxe, finalmente me conta que ela sempre suspeitou que aquela filha “inominada” não fosse filha de seu marido, e sim de um amante – amigo do marido – com quem teve um breve caso, coisa que segundo ela mesma disse: “tinha preferido esquecer, não morrer com essa culpa, e só agora estou contando para você, mas este assunto morre aqui”. “Nem foi uma grande paixão” . “Naquele mundo, tudo era hipocrisia” “Daquilo lá, não resta nada…… só os filhos”

Depois de mais três meses de trabalho, a paciente decide voltar a morar “até morrer” na mesma cidade onde morou durante a maior parte de seu casamento, onde mora outra de suas filhas, e onde até hoje tem amigos (agora lembra que tem alguns). Volta para a mesma casa onde viveu durante seus anos mais felizes e onde não conseguiu se sentir bem desde a separação: “Volto para minha casa, porque essa é “minha” casa, estão meus quadros, minhas fotografias, meus objetos de arte que fui comprando pelo mundo afora, vou enfrentar os fantasmas, sem medo das recordações”…. disse-me ao partir.

 

Dona Eugenia, 75 anos, vem por indicação de seu geriatra, amigo da família e que a conhece há bastante tempo.

É tratada há mais de dois anos “por nada sério”. Uma pequena hipertensão e uma leve glicemia controladas com medicação e alimentação apropriada. Não sabe por que está aqui, já que não tem problemas psicológicos e “jamais teve”. O geriatra me informa que a paciente começou a sofrer déficits de memória e atenção sem nada que a justifique clinicamente, só parece estar um pouco triste, também sem motivo aparente. Não há sinais de depressão profunda mas, aos poucos, está começando a se limitar, não quer sair de casa, abandona a vida social, não se arruma como antes, está menos faladeira; ele teme que esteja começando um processo de “alzheimerização”.

A paciente relata uma vida boa, plena, satisfatória e bastante ativa. Nunca trabalhou, mas sempre fez muitas coisas e teve uma intensa vida social. Ultimamente, não sente vontade de sair de casa. Teve uma infância feliz e tranqüila, sem sufocos econômicos, “claro que não havia para as crianças tudo o que há agora”, não sabe se os pais se amavam, mas amavam os filhos (seis no total, três já falecidos, “de velhos”). Foram criados sem luxos, mas tiveram uma boa educação “como só havia naquela época”. Casou-se jovem, com o homem que amava. Ficou viúva há mais de dez anos, não lembra exatamente quantos, mas muitos. Sofreu muito, mas superou, os filhos ajudaram. “São dois homens, bons meninos, carinhosos, se deram bem na vida, nunca deram problemas”.

“O geriatra falou umas coisas para eu vir aqui, mas já esqueci, eu estou bem. Os meninos se preocupam muito comigo, estão o tempo todo controlando o que faço, se preciso de alguma coisa, se tomo os remédios… Minhas noras também são boas. Eles têm filhos, tenho dois netos, um de cada um. Uma menina e um menino. Idade? Não sei bem, mas já são adolescentes. O menino é um pouco bravo, um taurino bravo” . Mas quando pergunto em que dia ele nasceu, ela diz não lembrar. Lembra o nome de todos e os lugares onde trabalham, porém, não recorda que cargo eles ocupam nem onde moram. Para visitá-los, pega um táxi, mostra o endereço anotado num papel e assim chega lá. Mora sozinha com a mesma empregada – que atua também como acompanhante – há anos. Não sabe quantos.

Percebo que, cada vez que não se lembra de alguma coisa, também não faz os cálculos nem as associações lógicas para chegar ao dado necessário, como se não lhe interessasse saber. Noto também que, aos poucos, vai me falando de sua falta de memória, mas quando pergunto novamente sobre o motivo de estar lá, de novo diz que o geriatra a mandou, mas não sabe por quê. Quando o geriatra me telefonou para fazer o encaminhamento, disse claramente que a paciente sabia o motivo do mesmo.

Quando marcamos nosso segundo encontro, ela me pede para anotar a data, o horário e meu nome num papel e, feito isto, o prende numa agenda lotada de pequenos bilhetes semelhantes.

Nas entrevistas seguintes faço algumas perguntas sobre seu passado. Conta muitos episódios, e digo episódios pois não chegam a se constituir em histórias. São como flashes, como se estivesse vendo fotos de épocas e pessoas diferentes. Não há um nexo temporal entre eles, embora ela lembre detalhes sobre cada episódio; são como ilhas de lembranças. Quando percebe as confusões, ela se angustia e passa para outra coisa. Confunde-se e me confunde com as cenas desconexas. Então, peço-lhe para trazer fotos, e sem saber porque, não especifico a época nem se ela deve aparecer nas mesmas.

Nos primeiros dias, traz fotos de épocas recentes, da família, aniversários dos netos, mas ela nunca está presente. Ela se ignora, não aparece, parece não existir. Comento: – “Parece que a senhora não participou desta festa”, “Não, eu estava sim, até fiz o bolo”. Aos poucos, começa a trazer fotos onde ela aparece, primeiro meio escondida, depois em lugares de destaque.

Continua esquecida de alguns dados, mas começa a fazer associações entre as diferentes situações, do tipo “nesta foto aqui sou a única sentada porque tinha acabado de operar por um problema no pé”, e acrescenta: “Veja só, tinha esquecido disso, foi uma bobagem na unha, mas tinha esquecido”. Depois disso, diz que voltou no geriatra e se lembrou que ele tinha dito que ela estava “um tiquinho mal da memória, coisas da idade”.

Relata alguns sonhos nos quais se encontra, pequena, em lugares escuros, desamparada ou subindo escadas sem nada em torno. Angustia-se e se nega a se concentrar nisso. “Para mim, isso tudo não significa nada”, ela diz. Quando comento que os sonhos parecem lhe provocar um pouco de angústia, responde: “eu não tenho mais medo de nada …… Uma velha como eu já não pode ter medo de nada, nem de morrer”. Então se fala bastante da morte especialmente da morte dos pais, do marido, da dela e confessa que muitas vezes não pode dormir pensando nisso.

Aos poucos vai trazendo fotos cada vez mais antigas, e o trabalho continua na mesma linha. Vemos as fotos e ela vai reconstruindo a história. As lembranças vão surgindo cada vez mais coesas. Os fatos vão se alinhavando em uma seqüência lógica.

Nesse tempo, uma das noras me telefona para saber minha opinião sobre ajudá-la a fazer um álbum de fotografias. Tinha conseguido mobilizar a família que começava a se organizar em torno de suas lembranças.

Depois de três meses (duas vezes por semana) neste trabalho, as fotos acabam. Pessoalmente, sinto medo do que possa acontecer, mas ela continua falando de sua vida e começa a manifestar preocupação com o presente. “O duro – diz – é não poder falar com ninguém sobre isso, eu sinto que minha vida vai acabando, por que, Deus, se foi tão boa, por que tem de acabar? Só deveriam acabar as vidas sofridas, mas a minha foi boa, eu deveria viver mais 30, 40 anos. Não posso falar isso com as crianças, eles ficam mal, não querem nem ouvir falar nisso. A vida não deveria acabar, ou ao menos a gente não deveria se dar conta de que acaba, não me conformo”. Há então, um luto a elaborar, e nisso continuamos por mais algum tempo. Depois de cinco meses, ela diz que foi convidada por um dos filhos para uma viagem à Europa com a família. Ela aceita com a condição de poder passar por uma pequena cidade da Itália onde nasceram seus pais. E parte.

Quando retorna, quase dois meses depois, volta às sessões por insistência dos filhos. Conta-me que naquela cidadezinha viu o registro do nascimento e do casamento dos pais. A história continua a se escrever. Claro, traz também as fotos muito bem organizadas graças à ajuda da nora.

Depois de quase dois anos de trabalho, começa um curso de computação junto com o neto: “por essa coisa da Internet, eu já sou meio dura para aprender coisas novas, mas ele e o professor me dão uma forcinha”. Conta que eles entram num site de turismo da Itália e ela fica clicando olhando as fotos. Na mesma época, vai formar parte de um círculo de senhoras italianas que realizam obras beneficentes em uma igreja e até organizam uma exposição …..de fotos !

Agora tem uma agenda bem organizada, onde anota tudo: compromissos, listas de compras, datas de aniversários, até as prováveis datas de partos das filhas ou noras de suas amigas, para não esquecer de perguntar pelo novo bebê. “A memória continua um pouco fraca, mas eu estou mais organizada”, ela diz. Despede-se e não sei mais dela há dois anos. O geriatra diz que a deterioração continua mas, muito lentamente, por enquanto a diferença é quase imperceptível. Ela se mantém organizada e a família ajuda.

 

 

  1. Com a inocência dos iniciantes e a ignorância dos exploradores [12]

 

Neste ponto, desejo apresentar algumas experiências recolhidas da literatura específica sobre o tema ou relatadas por colegas. Todas elas têm em comum o fato de serem tentativas de intervenções realizadas por psicanalistas ou que contaram com a participação de psicólogos na equipe multidisciplinar. Entre outras, escolhi pela
sua originalidade a vídeo-confrontação descrita por Maisondieu; o trabalho com musicoterapia de Ogay; outro realizado pelo psicanalista Jack Messy em dupla com uma fisioterapeuta; as viagens de férias realizadas pelo mesmo Messy junto a pacientes demenciados e por ele mesmo relatadas e a experiência da terapia do riso de Tauzia.

O objetivo desta breve apresentação é o de demonstrar que, ainda nas situações mais desalentadoras, sempre é possível a construção de um caminho passível de ser percorrido junto aos pacientes. De situações aparentemente absurdas, podem surgir soluções que imprimam movimento, dinamismo e plasticidade ao que foi condenado à rigidez e silêncio. Mas é necessário teimar e insistir. Vejamos:

A vídeo-confrontação descrita por Maisondieu (2001) consiste na projeção sobre a tela da televisão de uma ação atual e o paciente pode se ver simultaneamente, como ator e espectador enquanto efetua alguma tarefa. As sessões são breves, em pequenos grupos, uma ou duas vezes por semana. O coordenador lhes pede que falem sobre o que vêm na TV. É comum acontecer que nas primeiras sessões os pacientes permaneçam aparentemente indiferentes ao aparelho, em ocasiões são estimulados a fazer pequenos gestos com as mãos, o que ajuda o reconhecimento da imagem como algo que tem a ver com eles.

Acontece freqüentemente que depois de algum tempo se reconhecem como sendo alguém da família (por exemplo, a mãe) e, em alguns casos, chegam a se reconhecer a si próprios. Mas também, denunciam a limitação do projeto terapêutico: a senhora G de sessenta e oito anos, demenciada há alguns anos, fala quase nada e se comunica freqüentemente através de assobios.[13] Logo na primeira sessão do vídeo-confrontação diz: “É minha mãe, sem dúvida.. não…. não vejo quem é essa senhora” , na sessão seguinte, para de assobiar por um momento e frente da TV diz: “Uma noite se acaba….. e não há mais nada”, depois agride verbalmente o terapeuta dizendo: “Há alguém aqui que não é legal” e confrontada de novo com a tela da TV acrescenta: “vocês são grandes, vocês podem fazer muita coisa, eu….. eu fico e casa” e depois tem um monólogo entremeado de assobios: “alguma coisa acontece…. alguma coisa acontece….. havia pessoas que eu amava e que me amavam….. agora tudo acabou…. não quero mais falar.” Então começa a assobiar insistentemente e mostrando a TV grita com surpreendente lucidez e teimosia: “Não vai ser essa máquina que nos fará renascer”

Cabe agregar que embora os bons resultados tenham se mostrado temporários, abriram as portas para outro olhar sobre o funcionamento do psiquismo da pessoa demenciada e suas possibilidades. Deve-se destacar que estes pacientes não se reconheciam no espelho havia já muito tempo mas se reconheceram no vídeo, o que permitiu restabelecer a comunicação. Não temos notícias sobre a continuidade desta experiência, porém, este relato por si só já constitui um convite à reprodução desta técnica

Um trabalho interessante especialmente para ser realizado em forma grupal e institucional é feito junto a musicoterapeutas. Ogay (1996), que estudou casos de demência tipo Alzheimer, defende a idéia de trabalhar com músicas cuidadosamente selecionadas em função de uma identidade sonora do sujeito com o objetivo de restabelecer a comunicação interrompida. A evocação através da música permitiria a lembrança de sucessos passados já esquecidos o que levaria à restauração da auto-estima pela re-apropriação desse passado reatualizado no presente através das sensações revividas, em um excelente uso do exercício da reminiscência.

Messy (1993) relata 30 sessões de um caso diagnosticado como Alzheimer em fase inicial e tratado em um Centro Dia em encontros semanais de uma hora. O trabalho, realizado em dupla com uma fisioterapeuta, consistia em uma sessão de relaxamento pouco diretiva, seguida de uma sessão de pintura feita numa folha de papel colada na parede e de uma verbalização livre. A paciente de 68 anos, que ao ser perguntada pelo seu nome diz: “me chamam Lili”, vai falando durante as sessões de relaxamento, vai falando enquanto pinta…… fala de seu corpo, se identifica com a fisioterapeuta, faz transferência, desenha duplas de objetos enquanto diz: “eu estou fora”, até que começa a se incluir nos desenhos. Um dos pontos mais interessante deste relato é que Lili trazia como sintoma (ou como estigma) a desorientação espacial na rua e o descontrole dos esfíncteres, sendo que jamais se perdia quando ia para o Centro Dia e estando lá, fazia uso do banheiro normalmente. Mas, a mudança de fisioterapeuta faz que entre um uma fase depressiva e se acentue a deterioração.

Ao cabo de alguns meses em que se trabalha na elaboração dessa perda, a filha que até então tomava conta dela, ao ver o próprio casamento ameaçado a interna em uma casa de repouso. Nessa situação, seu estado é descrito como de total deterioração, não reconhecendo ninguém e permanecendo apática. Passados alguns meses, a primeira fisioterapeuta (de sobrenome Fechot) a visita e, no momento em que Lili percebe sua presença diz: “Enfim você está aí…..eu sabia que você havia de vir…..você demorou em vir….” e ao se despedir lança um sonoro: “Adeus senhora Fechot” (Messy, 1993, p. 78) Lili morre dois meses depois, então o diagnóstico inicial de Alzheimer já tinha mudado para Doença de Pick, mas a autópsia demonstrou a existência de uma lesão localizada.

O mesmo autor (2002), faz um interessante relato de viagens de férias ao exterior com residentes de casas de repouso. Entre os viajantes há pessoas com diversos tipos de quadros de desorientação temporo-espacial e demenciados. Contrariamente ao esperado, a primeira constatação revela que não há nenhum agravamento da angústia por causa da viagem em avião nem na chegada ao hotel, sendo que os mesmos pacientes, na instituição, se angustiam ante uma simples mudança de cama. Dentre os cuidados tomados na hora de organizar a viagem, a escolha do período do ano foi especialmente considerada. A programação foi feita para baixa temporada turística, assim, os espaços dos hotéis ocupados aproximadamente na metade de sua capacidade, ficaram mais disponíveis para esta clientela tão especial.

Uma das primeiras mudanças que a equipe percebe é uma incorporação ao discurso de referências sobre o novo lugar, em que é levado em consideração o atual e o passado, porém não o futuro. Só para dar um exemplo: eram feitas referências a viagens anteriores com a família, mas não ao que aconteceria depois dessa viagem. Também foi observada uma diminuição da dependência e um aumento das possibilidades vinculares e da confiança nos cuidadores.

Por outro lado, o hotel era vivido como espaço de liberdade até pelos cuidadores que ficavam a um meio caminho entre o trabalho e o lazer. No novo espaço todos se vinculavam seguindo um modelo relacional mais de hotelaria que hospitalar, movimento que prima pela idéia de acompanhamento e não pela de interdição. Quando esta modalidade se prolonga no retorno à instituição, faz que os efeitos benéficos não sejam transitórios.

As viagens provocam uma nova relação com o mundo exterior além dos limites da instituição. Os viajantes são corretamente cuidados, sem aumentar sua dependência. Na instituição tudo é regulamentado e organizado no tempo e no espaço, as jornadas são regradas seguindo a iniciativa e conveniência dos cuidadores, tudo segue um ritual imutável no qual o sujeito rapidamente se dissolve e converte-se apenas em objeto de cuidados. A entrada em uma casa de repouso[14] corta toda possibilidade de se projetar no futuro, movimento que sabemos ser o verdadeiro motor da memória. Infantilizados, maternalizados ou, no pior dos casos, mal-tratados, os residentes de uma casa de repouso não terão outra opção que se deixar deslizar em um processo regressivo ou se colocar em posições francamente psicóticas.

Os cuidadores são freqüentemente desprovidos dos recursos para entender a especial organização psíquica daqueles que devem cuidar. Um maior investimento na formação destes profissionais e uma regulamentação de suas atividades devem ser de prioridade absoluta nos futuros projetos da saúde pública pois, ante a desinformação, infantilização, repressão e neurolépticos acabam tomando o lugar de cuidados mais apropriados.

Devemos ousar em nossa aproximação à questão das demências que é ainda muito rudimentar, presa como está em conceitos organicistas que não dão lugar para pensar nas possibilidades de uma psicogênese. Estas viagens destes “viajantes sem bússola” (Messy, 2002) , nos convidam-nos a ultrapassar os limites das fronteiras institucionais e nossos próprios comportamentos estereotipados para reencontrar a essência e a singularidade de aqueles que cuidamos.

Natália Tauzia (2002) é uma jovem psicóloga clínica que trabalha no Centro Hospitalar Camille Claudel em Angoulême (França), no setor de Geriatria. Quando começou esse trabalho não tinha nenhuma experiência na área mas, corajosamente e contrariando todas as expectativas de fracasso manifestadas por seus chefes e colegas, decidiu montar um grupo de senhoras demenciadas, sem saber ainda como o conduziria nem quais eram seus objetivos. Escolheu oito pacientes das mais afetadas pela deterioração e três em fase apenas inicial de demência que pudessem servir como apoio e “motores” do grupo, todas com mais de 85 anos. Só uma era mais jovem, tinha 74 anos, e outra, mais velha que a maioria, já contava 96.

Ao cabo de duas sessões caóticas e desorganizadas, ela mesma, presa de angústia começa a rir e gesticular. Nesse momento descobre a mobilização e organização do grupo frente à novidade. A partir de então, começou a usar o recurso do cômico e do riso como técnica para a interação grupal.

A cada sessão, a terapeuta propunha um tema de discussão relacionado com o feminino, inevitavelmente isto trazia a tona a questão sexual, a excitação, algumas lembranças, o riso, algumas piadas. O mais notável é que, nesta experiência – e eu tive a oportunidade de assistir ao vídeo de uma das sessões – não é possível diferenciar as pacientes muito deterioradas, daquelas que apenas estão na fase inicial do processo. Ao cabo de um ano de trabalho, a melhoria das participantes do grupo era evidente em todos os aspectos, tantos nos cognitivos quanto no afetivo e no social.

* Este parágrafo é apenas uma parte da descrição da doença do esquecimento em Macondo. Uma versão mais completa será reproduzida nas últimas páginas das Palavras Finais.

[1] Como defende Ceccarelli no cap V.

[2] Sobre este particular, aconselha -se a leitura de “A sexualidade na teria das neuroses” de 1898, “O método psicanalítico” e “Sobre Psicoterapia” de 1904.

[3] Este conceito de Piera Aulagnier, foi comentado no cap. IV.

[4] Ver as “Vinhetas Clínicas” neste capítulo.

[5] Ver cap. V.

[6] Ver “Vinhetas Clínicas” neste capítulo.

[7] Ver cap. III.

[8] Constatamos que um dos critérios mais usados para a classificação por fases refere-se ao grau de independência ou autonomia conservado. (Ver cap. II )

[9] Ver vinhetas Clínicas neste capítulo.

[10] Alguns desses hospitais dia se assemelham “clubes” com serviços de cabelereiro, manicure, sessões de cinema, esportes etc.

[11] Lembro de ter supervisionado um caso atendido por uma T.O., de um paciente institucionalizado que se negava raivosamente a fazer as atividades de artesanato. Era um intelectual, ex-professor universitário que não só se acalmou, mas também demonstrou felicidade quando foi solicitado a ajudar na arrumação da biblioteca. Tirando a poeira dos livros e arrumando-os de acordo ao tamanho, encontrou o nexo histórico perdido que o ligou novamente com o prazer.

[12] Frase extraída do texto de Jaques Messy: “A Pessoa Idosa não existe” , 1993, p. 51.

[13] Caso relatado por Chévance na sua tese de doutorado. (1999)

[14] O mesmo sábio enfermeiro de uma instituição asilar, de quem já falei em outro capítulo, disse-me em certa ocasião: “Dizem que o cemitério é última morada, mas lá todo mundo está morto, a verdadeira última morada é esta”.

 

Palavras Finais

 

Mas vêm o tempo e a idéia de passado

visitar-te na curva de um jardim.

Vem a recordação e te penetra

dentro de um cinema, subitamente.

E as memórias escorrem do pescoço,

do paletó, da guerra, do arco íris;

enroscam-se no sono e te perseguem,

à busca da pupila que as reflita.

 

Carlos Drummond de Andrade

“Versos à boca da noite” (fragmento)

 

E agora chegamos ao momento de concluir, momento de fazer uma avaliação sobre esta produção, seu percurso, suas intenções, suas conseqüências. Com este objetivo farei, à continuação, uma breve síntese das principais propostas formuladas , já que as diversas hipótese ficaram distribuídas ao longo dos capítulos.

Já desde as primeiras páginas, retomo uma idéia que trago desde o mestrado e que baliza um posicionamento ético em relação a esta questão: A velhice não é percorrer um caminho já traçado e sim construí-lo, inacabável processo de subjetivação do ser velho, construção histórica singular e cultural comandado pelo trabalho do tempo, que seguirá vias elaborativas como o exercício da reminiscência, o compromisso com projetos, a serenidade, a religiosidade, etc., ou regressivas como a depressão ou a demência. Então, a libido não seria um quantum esgotável mas o resultado de um investimento sempre possível. Desse modo, não existiriam “coisas de velhos” rígidas e uniformizadas, não existiria a velhice como categoria e sim velhos singulares em permanente processo de construção de suas subjetividades. Assim, retomo e sublinho o que terá sido um fio condutor desta pesquisa: o entendimento do processo demencial como forma regressiva de defesa contra a depressão de final de vida, o que acaba nos levando a uma reflexão sobre o papel social do velho e seus efeitos na subjetividade.

Através da articulação com o conceito de desamparo, o sentimento de finitude e das idéias elaboradas por Freud em textos como “O mal estar na cultura”, proponho incluir as demências nas patologias próprias da pós-modernidade. Quando a situação provocada pela posição social carregada de negatividades e somada ao encurtamento do horizonte de futuro não pode ser elaborada, inscreve-se no registro da decadência inevitável e não no do declínio passível de ser compensado com recursos diversos. Decrepitude instalada a partir da impossibilidade de temporalização do sujeito psíquico e do fracasso antecipado de qualquer projeto de futuro.

Como já disse, Freud não dedicou à questão do tempo nenhum trabalho em especial, mas jamais deixou de considerá-lo um eixo fundamental de suas elaborações, como o constatam o conceito de repetição e de posterioridade, que liga a temporalidade à causalidade psíquica, articulação absolutamente necessária para pensar a historicidade do sujeito. Historicidade que, por outro lado é impossível de ser pensada sem o sentimento de finitude.

A temporalidade humana, ou seja, o movimento de sua historicidade, se constrói sobre uma linha temporal que, a partir do presente, nos permite avaliar o passado, retificá-lo e nos projetarmos no futuro. Esse é o movimento que cria subjetividade dando um sentido de permanência que preserva a identidade. Assim, entendemos o tempo de vida como aquele que se mede cronologicamente, através de diversos acordos culturais, mas é vivenciado fora de qualquer convenção. Tempo de construção de subjetividade que não podemos medir, a não ser na sua mais pura intensidade. Tempo de construção da história vivencial que resiste à medida do registro biográfico.

O tempo do envelhecimento, então, vai se caracterizar pelo sentimento de finitude, a ser vivenciado com diferentes qualidades e intensidades emocionais, que dependerão de cada sujeito singular e do modo particular com que tenha vivido as diferentes experiências de proximidade com a morte ao longo de seu desenvolvimento. Essa proximidade com a morte marcará experiências de elaboração de perdas, uma forma de se fazer o trabalho de luto, processo sempre necessário para que se instaurem outros objetos no lugar do perdido, para que outros investimentos sejam possíveis. Mas há os casos em que essa elaboração não é possível e isto pode ser razão suficiente para provocar o mais radical e violento dos esquecimentos, o da própria identidade, e assim, muitos sujeitos preferem perder a cabeça a perder a vida.

Designo o lugar dos velhos como um não-lugar, pois, apesar de incluídos no panorama social atual, eles não são estimulados a falar como sujeitos, sendo reconhecidos apenas quando falam como velhos, como pertencentes a uma categoria definida previamente e que os define – vale dizer – de forma negativa.

A partir das três formas paradigmáticas de ordenação psíquica do idoso sugeridas por Birman (1995) (depressiva, maníaca e paranóide), acrescento a demência como derivado da forma depressiva. Forma de articulação que permite a fuga da depressão e o esquecimento de tudo o que se liga com a dor insuportável da perda.

Faço também uma primeira aproximação à necessidade do trabalho interdisciplinar ao falar da obrigatoriedade de abordar esta patologia a partir de tudo o que possa ser incluído em um ponto de vista bio-psico-social.

Entrando no tema específico das demências, após ter apresentado alguns dados históricos em relação ao uso dessa denominação, passo a considerar aspectos descritivos tradicionais e a surpreendente e quase esquecida obra de Emmanuelle Régis, de começos do século XX, na qual o autor já apresenta um posicionamento clínico diferenciado ao afirmar a possibilidade de se trabalhar no começo do processo demencial neurotizando o paciente, ajudando-o a restaurar as funções do eu, refazendo o caminho do desejo, elaborando o luto que ficou interrompido.

Seguindo este caminho, dou especial ênfase ao tema do diagnóstico condenatório e coloco aquilo que considero um tema fundamental do ponto de vista da psicopatologia, a saber: a possibilidade de considerar a demência como produção subjetiva paradoxal, na qual o sujeito historicamente constituído se desconstrói como última tentativa de evitação da dor provocada pelo tempo que finda. O demenciado volta ao padrão simbólico da infância e continua regredindo até se perder, até se desamarrar do tecido simbólico, até perder tudo aquilo que a intervenção do simbólico fez construir. A pessoa afetada pela demência se furta à realidade, esquece os vínculos, a história, a lei.

Na tentativa de dar conta de questões tão polêmicas recorri a conceitos psicanalíticos que pudessem me fornecer os recursos teóricos necessários para os entendimentos propostos. Assim, percorri especialmente as obras de Sigmund Freud e Piera Aulagnier para abordar os conceitos de tempo, história, memória e a constituição do eu, por considerá-los básicos no entendimento dos processos demenciais.

Esses conceitos constituem os recortes teóricos que foi possível fazer nesta etapa de minha pesquisa sobre uma abordagem psicanalítica das demências. Recortes que surgiram a partir do trabalho clínico no qual não cessava de me perguntar: Onde está o sujeito? Onde está a história? Por que o paciente com demência avançada não diz mais ‘eu’? Por que um esquecimento tão radical? Porque essa destruição dos vínculos e pior ainda, do próprio ser? Caminhos que ainda antes de serem trilhados já se abriam a tantos outros nem imaginados no começo deste trabalho.

O passo inicial foi percorrer a obra freudiana desde “Estúdios sobre a histeria” e o “Projeto para uma psicologia científica”, em busca das elaborações de Freud sobre a memória. Assim, desde o começo ficou claro que ela aparece como seletiva, dependente de algum outro fator ou sistema, eliminada pelas experiências dolorosas que provocam o esquecimento, organizada em estratificações sucessivas que exigem uma retranscrição de tempos em tempos e registrada em diferentes variedades de signos.

Enfim, ressignificações feitas com efeito de posterioridade tão bem analisados no caso de Emma. Freud então, a partir da análise das lembranças anteriores (regressivas) ou posteriores (progressivas), reafirma o tema da temporalidade em relação com a questão da memória e destes com a história vivencial, trama do vivido que se presentifica, trabalho que tira o sujeito da pura atualidade, permitindo o investimento pelo desejo e a esperança. Investimento do passado que retifica o presente e se projeta em direção ao futuro criando a esperança. Inscrevemos o desejo em um tempo futuro pois é o motor da esperança, mas ele é também o responsável pela transcrição do passado. Assim, podemos compreender a história como a relação do sujeito com o tempo, ordenada pelo desejo que constrói as lembranças e os anseios.

O fracasso do processo de historização provoca a liberação de um narcisismo primário mortífero. A pulsão de morte é um limite imposto à função historizante da pulsão de vida. A escolha deste caminho, deste recorte sobre tempo, história e memória, acabou determinando a utilização dos textos de Piera Aulagnier que nos brindam com uma contribuição inestimável ao estudo destes temas.

Especificamente no que se refere ao eu e sua constituição abordei textos freudianos como “Introdução ao Narcisismo” (1914) e “O eu e o isso” (1923) que sempre nos oferecem os alicerces básicos necessários para a compreensão deste conceito fundamental. Depois de uma breve passagem pelas conceitualizações lacanianas sobre o eu e o sujeito, são analisadas as contribuições da autora já citada. Assim, conceitos como antecipação, sujeito social, contrato narcísico e projeto identificatório vêm nos socorrer nos esclarecimentos sobre o eu constituído na linha da historicidade quando corroboramos a idéia de que o futuro deverá representar a possibilidade do reencontro de um passado, trazer a promessa desse reencontro.

Acredito que a contribuição fundamental deste trabalho foi a de resgatar as demências do campo exclusivo das neurociências, para abordá-las também do ponto de vista da psicopatologia psicanalítica. Com essa intenção comentei a obra de Maisondieu, um dos poucos autores que abordam esta questão desde o campo da psicanálise, e recorri às propostas da Psicopatologia Fundamental: do pathos, com toda sua carga de paixão sofrimento e excesso.

Seguindo esta trilha, chego aos conceitos de desinvestimento e defusão pulsional, pois eles se articulam com a pulsão de morte e a morte do sujeito psíquico que pode anteceder à morte biológica. Reitera-se a idéia de que o processo de envelhecimento exige um luto por antecipação, luto pela perda da própria vida, processo que, por não ser possível, deixa o eu invadido pela angústia de morte. A depressão por vazio, a dissolução do eu e conceitos como tanatose, psicólise e desconstrução psíquica de Le Gouès e ação modificadora de Piera Aulagnier vieram em nosso auxílio para melhor compreender a dinâmica destes processos. De acordo com esta linha de raciocínio chegamos a uma das afirmações centrais que nos permite pensar uma hipótese psicogênica para as demências: o fracasso do trabalho de luto como um de seus grandes motivadores.

Em relação à metodologia, foi possível fundamentar a proposta de deixar entre parêntese os mais rígidos padrões técnicos da clínica psicanalítica, para revalorizar a criatividade e a experiência acumulada ao longo dos anos pelos poucos psicanalistas tiveram a coragem suficiente de abordar o trabalho com pacientes em processo de demenciação. A comunicação de diferentes possibilidades de atuação em situações diversas (consultório, instituições geriátricas e atendimento domiciliar); o trabalho
com grupos de familiares de portadores e, fundamentalmente, o destaque para a interdisciplinaridade, constituíram o cerne este trabalho no que se refere a suas perspectivas terapêuticas. Neste ponto, as contribuições de Ferenczi foram essenciais.

Finalmente, com respeito e admiração, faço uma síntese de algumas experiências de colegas que teimosamente insistem em trabalhar sobre aquilo que a maioria condena.

E, falando em teimosia, percebo agora como, ao longo deste trabalho, tentei transmitir a contínua sensação de fracasso e o desânimo que se sente ao trabalhar com pessoas cujos aparelhos psíquicos estão em processo de desconstrução, com sujeitos psíquicos que querem fugir do mundo simbólico, que parecem não querer aceitar o auxilio, que [mal] abrem portinholas mínimas (e escondidas) para o outro entrar em seu empobrecido mundo. Mas vejo também a insistência em acreditar que a psicanálise tem aí um outro “continente negro”[1] a desbravar, sabendo que nunca será conquistado.

Vimos até aqui as possibilidades de se fazer uma leitura psicanalítica das demências, articulamos apenas alguns dos grandes conceitos da psicanálise, mas insisto, eles nos permitiram pensar a inclusão das demências na psicopatologia psicanalítica. Como psicanalistas e trabalhadores da saúde mental, podemos e devemos abordar este tema e aceitar o desafio de trabalhar a produção psíquica que, embora empobrecida e altamente questionada, encontramos nestes patologias. Mas não é só isso….

À medida que me aproximava da conclusão do trabalho, cada vez mais percebia quantos pontos importantes tinham ficado sem ser trabalhados, quantos recortes deveriam ter sido ser realizados, com que vastidão este tema nos desafia Porém, percebi também quantas portas se abriram.

Considero que, a partir deste ponto, muitas outras linhas de pesquisa e [novas] produções poderão nascer. Só para citar algumas que me interessam especialmente, parece-me de grande importância estudar profundamente o papel do narcisismo nas demências; o destino e dinâmica das instâncias psíquicas nestes tipos de processos; a relação depressão-demência; a diferenciação entre demência e psicose; o papel da sublimação; os mecanismos de defesa, a transferência, questões às quais espero poder me dedicar futuramente .

Por outro lado, considero também altamente relevante que futuras pesquisas possam se concentrar na análise do contexto familiar e sua dinâmica ante a presença da doença demencial, bem como do papel dos cuidadores, sejam estes familiares ou profissionais e das vicissitudes dos processos demenciais nos casos de pacientes institucionalizados. Um estudo aprofundado destes temas poderia produzir efeitos práticos em curto prazo, no que se refere aos cuidados específicos dados aos pacientes, o que resultaria de grande valia para ações dirigidas à saúde pública. Acredito ter dado um passo importante e fundamental na abertura de novos caminhos, mas dada a magnitude e as conseqüências devastadoras desta doença, continuamos apenas no início.

Finalmente, voltando à criação literária que me acompanhou ao longo deste percurso, desejo agora transcrever um fragmento que me comove particularmente e serve aqui para guardar o intervalo entre o limite deste texto, seu necessário encerramento, e o que dele já transborda, convidando a novos começos.

“…… a índia explicou que o mais temível da doença da insônia não era a impossibilidade de dormir, pois o corpo não sentia cansaço nenhum, mas sim sua inexorável evolução para uma manifestação mais crítica: o esquecimento. Queria dizer que quando o doente se acostumava a seu estado de vigília, começavam a apagar-se de sua memória as lembranças da infância, em seguida o nome e a noção das coisas, e por último a identidade das pessoas e a consciência do próprio ser, até se afundar numa espécie de idiotice sem passado. José Arcadio Buendía, morto de rir, considerou que se tratava de mais uma das tantas enfermidades inventadas pela superstição dos indígenas. []“Nesse estado de alucinada lucidez, não só viam as imagens de seus próprios sonhos, mas também, uns viam as imagens sonhadas pelos outros. []

“Foi Aureliano que concebeu a fórmula que havia de defendê-los, durante vários meses, das evasões da memória. Descubriu-a por acaso. Insone experimentado, por ter sido um dos primeiros, tinha apreendido com perfeição a arte da ourivesaria. Um dia estava procurando a pequena bigorna que utilizava para laminar os metais, e não se lembrou de seu nome. Seu pai lhe disse: ‘tás’. Aureliano escreveu o nome num papel que pegou com cola na base da bigorninha: ‘tás’. Assim ficou certo de não esquecê-lo no futuro. Não lhe ocorreu que fosse aquela a primeira manifestação do esquecimento, porque o objeto tinha um nome difícil de lembrar. Mas poucos dias depois, descobriu que tinha dificuldade de se lembrar de quase todas as coisas do laboratório. Então, marco-as com o nome respectivo, de modo que bastava ler a inscrição para identificá-las. Quando seu pai lhe comunicou o seu pavor por ter-se esquecido até dos fatos mais impressionantes de sua infância, Aureliano lhe explicou o seu método, e José Arcadio Buendía, o pôs em prática para toda a casa e mais tarde o impôs a todo o povoado. Com um pincel cheio de tinta, marcou cada coisa com seu nome: mesa, cadeira, relógio, porta, parede, cama, panela. Foi ao curral e marcou os animais e as plantas: vaca, cabrito, porco, galinha, aipim, taioba, bananeira. Pouco a pouco, estudando as infinitas possibilidades do esquecimento, percebeu que podia chegar um dia em que se reconhecessem as coisas pelas inscrições, mas não se recordasse a sua utilidade. Então foi mais explícito. O letreiro que pendurou no cachaço da vaca era uma forma exemplar pela qual os habitantes de Macondo estavam dispostos a lutar contra o esquecimento: ‘Esta é a vaca, tem-se que ordenhá-la todas as manhãs para que produza o leite e o leite é preciso ferver para mistura-lo com o café e fazer café com leite’. Assim, continuaram vivendo uma realidade escorregadia, momentaneamente capturada pelas palavras, mas que fugiriam sem remédio quando esquecessem os valores da letra escrita.

Na entrada do caminho do pântano, puseram um cartaz que dizia ‘Macondo’ e outro maior na rua central que dizia ‘Deus existe’. Em todas as casas haviam escrito lembretes para memorizar objetos e sentimentos. Mas o sistema exigia tanta vigilância e tanta fortaleza moral, que muitos sucumbiram ao feitiço de uma realidade imaginária, inventada por eles mesmos, que acabava por ser menos prática, porém mais reconfortante. Pilar Ternera foi quem mais contribuiu para popularizar essa mistificação, quando concebeu o artifício de ler o passado nas cartas como antes tinha lido o futuro. [] derrotado por aquelas práticas de consolação, José Arcádio Buendía decidiu então construir a máquina da memória, que uma vez tinha desejado para se lembrar dos maravilhosos inventos dos ciganos. A geringonça se fundamentava na possibilidade de repassar, todas as manhãs, e do princípio ao fim, a totalidade dos conhecimentos adquiridos na vida. Imaginava-a como um dicionário giratório que um indivíduo, situado no eixo, pudesse controlar com uma manivela, de modo que em poucas horas passassem diante de seus olhos as noções mais necessárias para viver. Tinha conseguido escrever já cerca de quatorze mil fichas, quando apareceu pelo caminho do pântano um ancião mal-ajambrado ….[] Era um homem decrépito. Embora sua voz estivesse também oscilante pela incerteza e suas mãos parecessem duvidar da existência das coisas, era evidente que vinha do mundo onde os homens ainda podem dormir e recordar. José Arcádio Buendía [] cumprimentou-o com amplas demonstrações de afeto [] Mas o visitante percebeu a falsidade. Sentiu-se esquecido, não com o esquecimento remediável do coração, mas com outro esquecimento mais cruel e irrevogável que ele conhecia muito bem, porque era o esquecimento da morte. Então entendeu. Abriu a mala entupida de objetos indecifráveis e dentre deles tirou uma maleta com muitos frascos. Deu para beber a José Arcádio Buendía uma sustância de cor suave e a luz se fez na sua memória… (p. 45 a 49)

Gabriel García Márquez – “Cem anos de solidão”

 

 

[1] Frase utilizada por Freud em “A questão da análise leiga” de 1926, em referencia ao psiquismo feminino.

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