CORPO, TEMPO E ENVELHECIMENTO

CORPO, TEMPO E ENVELHECIMENTO DELIA CATULLO GOLDFARB

Este texto, produto da dissertação de mestrado Defendida no programa de Psicologia Clínica da PUC-SP em 1997, sob orientação do Prof. Dr. Renato Mezán,
foi publicado como livro pela Editora do Psicólogo em 1998.

SUMÁRIO

Apresentação…………………………………………………….. 1

Introdução:

O SUJEITO DO ENVELHECIMENTO…………………. 8

Capítulo I:

A QUESTÃO DO CORPO……………………………………..17

1-As fontes na filosofia……………………………………….. 19

2 -O corpo na psicanálise……………………………………. 22

3 -O velho……esse outro……………………………………… 33

Capítulo II:

O TRABALHO DO TEMPO………………………………….. 41

1-Tempo e psicanálise…………………………………………. 43

2-O tempo e a questão clínica………………………………..53

3-Envelhecimento e projeto identificatório……………. 56

4-História ou repetição,reminiscência ou depressão…58

5-Sobre a morte…………………………………………………….61

6- A Fusão Pulsional……………………………………………. 63

Capítulo III:

ENVELHECER…..CERTAMENTE……………………….. 68

1-Algumas vias para o envelhecimento…………………. 69

2- O Velho Freud………………………………………………… 79

Conclusão………………………………………………………….. 85

Bibliografia………………………………………………………… 91

APRESENTAÇÃO _______________________________________________________________

Eros é o mais belo, e apresso-me a dizer por qual motivo: antes de mais nada, caro Fedro, por ser o mais jovem dos deuses
e dessa qualidade ele próprio se encarrega de ministrar-nos uma prova evidente: é a de que fugindo, evita ser alcançado pela velhice, que inegavelmente é em si mesma rápida, como se depreende do fato de vir a nós mais depressa do que deveria.

Eros, de conformidade com sua própria natureza, sente verdadeiro ódio à velhice e não suporta sua vizinhança, nem

mesmo a grande distância.

Discurso de Agatão “O Banquete”

PLATÃO

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As limitações corporais e a consciência da temporalidade são problemáticas fundamentais no processo de envelhecimento, aparecendo de forma reiterada no discurso dos idosos, embora possam adquirir diferentes nuanças e intensidades dependendo da sua situação social e da sua própria estrutura psíquica. Corpo e tempo se entrecruzam no devir do envelhecimento, e das formas desse entrecruzamento nascerão as múltiplas velhices. Mas não podemos deixar de considerar que esta articulação ocorre em um determinado contexto social e político que a influencia e determina nosso particular modo de abordagem.

Queremos então salientar que ao falar de velhice percebemos que aquilo que supúnhamos saber não é suficiente para defini-la, e mais ainda, verifica-mos que esse saber precário é produto de uma visão parcial engendrada na prática de cada profissional e de preconceitos fortemente enraizados no cultural. Então, de que realmente falamos quando falamos de velhice? E quando falamos do velho? Do velho reivindicativo que briga com todo mundo e por tudo, ou do velho passivo que aceita seu destino sem reclamar? Do velho engajado, ativo e divertido, ou do outro deprimido e solitário? Daquele que vive em família ou do que foi depositado em um asilo? Da velha elegante que passeia nos bairros nobres, ou da faxineira que ainda ajuda a criar os netos? Do velho que trabalha a nosso lado ou daquele que renunciou a lutar? Dos que renunciaram à sexualidade ou dos que reivindicam seu direito ao prazer ? Dos que vemos na fila do banco ou no banco da praça? Da velha “bruxa”? Do velho “sábio”? Do doente? Dos poderosos ou dos marginalizados?

Falamos de todos eles, já que são personagens conhecidos na nossa cultura; falamos de um velho em particular e da velhice como categoria. Mas fundamentalmente, através de todos eles falamos do velho que temos dentro de cada um de nós, do velho de nossa família, daquele que entrou muito cedo na nossa história e que direciona nosso olhar para todos os outros. Falando de todas as velhices (dos outros) sempre falamos de uma velhice (a nossa) e dos muitos velhos que poderemos chegar a ser. Da velhice que desejamos e da que tememos. Mas se cada sujeito tem sua velhice singular, as velhices são incontáveis.

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Não seria verdadeiro acreditar que só o crescimento populacional e o aumento das expectativas de vida provocaram o colapso social que levou à decadência dos sistemas previdenciários de todo o mundo nas últimas décadas. A má distribuição dos recursos financeiros e tecnológicos submetem uma grande parte da sociedade a níveis de extrema pobreza, que afeta especialmente os setores menos participantes do processo produtivo, como é o caso das crianças e dos idosos.

A população idosa cresce dia a dia e está cada vez mais pobre. Em meio a esta realidade e como resposta a uma demanda social (e não só por motivações subjetivas, individuais) uma prática clínica e elaborações teóricas começam a aparecer no universo da psicanálise. Temos conhecimento de numerosos trabalhos importantes na França e na Argentina, onde muitos psicanalistas trabalham há anos sobre estas questões. Acreditamos que isto se deva, entre outros fatores, ao fato de nesses países haver uma importante tradição de atividade sindical altamente politizada. Os aposentados argentinos, sindicalizados em sua esmagadora maioria, beneficiaram-se durante décadas das assim chamadas “obras sociais” dos sindicatos que foram absorvendo ao longo dos anos numerosos profissionais, especialmente das áreas da saúde e do serviço social. Foram assim desenvolvidos muitos projetos e pesquisas de ressonância internacional, embora muito deles tenham fracassado na atual conjuntura político-econômica.

Quando se deseja abordar a questão do envelhecimento do ponto de vista da psicanálise, uma das maiores dificuldades a ser enfrentada é a falta de bibliografia específica sobre o tema. Seria falso dizer que o mesmo nunca interessou aos psicanalistas, como testemunham os trabalhos de Abraham (1920), Ferenczi (1921), Erikson (1970)e Eliot Jaques (1963, citado por Krassoievitch, 1993) entre outros, mas esta área teve pouco desenvolvimento entre os seguidores de Freud. Poderíamos pensar que esta atitude talvez se deva ao fato do próprio Sigmund Freud ao menos em três ocasiões, ter-se mostrado contrário à aplicação do método psicanalítico em pacientes de “idades avançadas”. Ele diz: “A aplicabilidade da teoria psicanalítica apresenta as seguintes limitações: exige uma determinada maturidade intelectual dos doentes, sendo portanto inútil nas crianças e nos adultos débeis ou incultos. Quando se trata de pessoas de muita idade, a duração do tratamento, correlativo à quantidade de material acumulado,resultará excessivo, e talvez seu fim seja coincidente com o começo de um período da vida em que já não se atribui grande importância à saúde nervosa” (Freud 1898,T I, pág 155)

Quando tinha aproximadamente 47 anos escreve o seguinte: “Em uma idade próxima aos 50 anos criam-se condições desfavoráveis à psicanálise. A acumulação de material psíquico dificulta o trabalho, o tempo necessário para a recuperação torna-se longo demais e as possibilidades dos processos psíquicos acharem novos caminhos começam a se paralisar” (Freud 1904, T II, pág 396). Um ano mais tarde, ainda acrescentaria “a idade dos doentes desempenha também um papel importante na sua seleção para um tratamento analítico, pois, em primeiro lugar, as pessoas próximas aos 50 anos frequentemente carecem da plasticidade dos processos anímicos necessária para se empreender uma psicoterapia. Os velhos não são educáveis. E em segundo lugar, a acumulação de material psíquico prolongaria excessivamente a psicoterapia” (Freud 1904, T II, pág. 400):

Para compreender o fato de pessoas próximas aos 50 anos serem consideradas velhas, devemos considerar que, nos albores do século XX, além da expectativa de vida não ultrapassar os 50 ou 55 anos, a sociedade tradicional da pré- guerra reservava para estas pessoas o papel social de velhos. E a psicanálise tinha ainda muito caminho a percorrer.

Corrobora esta idéia o fato de, em 1937, Freud reconhecer a existência de rigidez, resistência à mudança e esgotamento da plasticidade (fenômenos que impossibilitam a psicanálise) em pessoas muito jovens, o que demonstra que nessa época Freud já pensava que estes fenômenos se relacionam mais com o quadro clínico do que com a idade do sujeito

Dentre os seguidores de Freud que mencionávamos há pouco, foi Karl Abraham quem mais contribuiu a uma melhor compreensão desta questão. Desde 1907 atuou como colaborador de Freud e foi Presidente da Sociedade Psicanalítica de Berlim e da Sociedade Psicanalítica Internacional. Seu trabalho se caracterizava por um agudo rigor teórico baseado em uma rica experiência clínica. Em 1920 escreve: “Podemos esperar que no começo da involução, uma pessoa se sinta menos inclinada a privar-se de uma neurose que tenha sofrido durante quase toda sua vida”. E prossegue: “Durante minha prática psicanalítica tratei pessoas de mais de quarenta e até de cinqüenta anos de idade. No começo hesitara em tomá-los em tratamento, mas várias vezes os próprios pacientes insistiam, já que tinham sido tratados por outros métodos sem resultado algum……Para minha surpresa, um número considerável deles reagiu favoravelmente ante o tratamento. Conto essas curas dentre alguns de meus casos mais bem sucedidos”

No mesmo texto ainda acrescenta: “O prognóstico é mais favorável se a neurose apareceu com toda sua gravidade bem após a puberdade e se o paciente conseguiu desfrutar de alguns anos de atividade sexual próxima à normal e de um período de atividade social útil. Os casos desfavoráveis são aqueles em que ocorreu na infância uma neurose obsessiva etc, e como nos casos já mencionados, aqueles que não conseguiram uma atividade próxima do normal”; e afirma: “São da mesma forma estes os casos em que a psicanálise fracassa também com pacientes mais jovens” (citado por Krassoievitch, 1993, pág 69).

Entre os casos que Abraham descreve estão um paciente obsessivo de 53 anos, outro de 50 que sofria de depressão melancólica, uma mulher de 41 anos com agorafobia. Como já mencionamos, estes sujeitos, adultos jovens para os padrões atuais, nas primeiras décadas deste século já se encontravam na chamada “idade involutiva”.

Observamos também, não sem uma certa surpresa, que estes autores usavam o conceito de involução sem sequer questionar sua atribuição ao processo de envelhecimento, quando muitos deles, e até seu próprio mestre, continuavam evoluindo intelectualmente, legando ao mundo magníficas obras, produzidas de forma criativa e original, apesar da idade avançada. Certamente, a idade necessária para ser reconhecido (ou acusado) como velho mudou, o preconceito não.

No ano de 1961 são publicados os comentários de Hanna Segal a respeito de um caso clínico de um homem de 74 anos. Na apresentação a autora esclarece: “Acredito que seja interessante apresentar este caso, já que frequentemente devemos decidir se iniciamos ou não a análise de um paciente determinado e se sua idade avançada não constitui um obstáculo para o tratamento. Acho que seria de interesse informar sobre o tratamento de um homem de 74 anos concluído com sucesso e até onde eu possa julgar, com excelentes resultados clínicos.” Nas suas conclusões a autora acrescenta: “ Não posso dizer que a cura analítica tenha sido completada e se meu paciente fosse adolescente ainda precisaria de muitos anos de análise para ter a garantia de um desenvolvimento futuro saudável e frutífero. Mas às vezes a análise produz pequenas mudanças que significam grandes diferenças. No caso de meu paciente acho que a pequena mudança foi uma virada de mecanismos depressivos, o que lhe permitiu enfrentar a perda da vida de uma forma mais depressiva e menos persecutória, e como conseqüência, sentir que podia apreciar e gozar a vida que ainda lhe restava” (Segal, 1961)

Apesar das recentes aberturas neste campo de aplicação da psicanálise, observamos algumas resistências à sua aceitação. Acreditamos que tal fenômeno seja consequência de preconceitos que vão desde a crença de que qualquer intervenção é inútil, já que os velhos não seriam modificáveis e estão perto do fim, até o medo de que os pacientes idosos morram durante o tratamento, o que sem dúvida mobiliza a própria onipotência; mas é bastante plausível que ele se deva bem mais à negação do próprio processo pessoal de envelhecimento do que a diferenças imanentes às diversas teorias . Um fato é inegável: o profissional que, desde qualquer área do conhecimento se dispõe a ouvir um idoso, só conta com a negação como estratégia para evitar o confronto com seu próprio destino. Ele sabe que se tiver sorte, e não morrer jovem, chegará lá . E este “chegar lá” na nossa sociedade moderna, não é nada alentador.

Trabalharemos então com uma certa representação social do velho e da velhice que, como construção coletiva, está enraizada no nosso tempo histórico, determinando atitudes e orientando estratégias. Nosso ponto de partida será uma idéia predominantemente presente na nossa sociedade segundo a qual se atribui a sujeitos de diferentes idades cronológicas um estado de decrepitude e inutilidade, sem esquecer que as próprias vítimas, frequentemente, assumem este lugar e incentivam estas atitudes. Porém, veremos também como a auto-imagem dos idosos e as funções sociais que exercem, muitas vezes não correspondem ao que a sociedade inevitavelmente lhes outorga em temos de atributos negativos. Veremos como a imagem do corpo e a representação do tempo constituem dois possíveis eixos da análise para se compreender a construção da subjetividade na velhice e os movimentos que podem ajudar, seja o sujeito idoso , seja quem com ele trabalha, a quebrar e reinventar esta representação social negativa.

Enfim, este trabalho pretende dar uma contribuição à compreensão das questões do envelhecimento desde o ponto de vista da psicanálise, e isso na convicção de que não pode esgotar toda a abrangência do tema, cuja riqueza torna qualquer aproximação limitada e restritiva. Só um movimento no sentido da transdisciplinariedade poderá evitar que este objeto de estudo se perca nas limitações que uma abordagem parcial poderia-lhe infligir, permitindo que ele mostre a dimensão que lhe cabe no atual universo do conhecimento .

 

INTRODUÇÃO
O SUJEITO DO ENVELHECIMENTO

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Sinto que o tempo sobre mim abate
sua mão pesada. Rugas, dentes, calva… Uma aceitação maior de tudo,
e o medo de novas descobertas.
Escreverei sonetos de madureza?
Darei aos outros a ilusão de calma?
Serei sempre louco? sempre mentiroso? Acreditarei em mitos? Zombarei do mundo? Há muito tempo suspeitei o velho em mim. Ainda criança já me atormentava.

Hoje estou só. Nenhum menino salta de minha vida, para restaurá-la.
Mas se pudesse recomeçar o dia! Usar de novo minha adoração.

Meu grito, minha fome…Vejo tudo impossível e nítido, no espaço. ……………………………………….
Que confusão de coisas no crepúsculo! Que riqueza! sem préstimos, é verdade. Bom seria captá-las e compô-las

num todo sábio, posto que sensível: uma ordem, uma luz, uma alegria baixando sobre o peito despojado.
E já não era o furor dos vinte anos nem a renúncia às coisas que elegeu, mas a penetração no lenho dócil,

um mergulho na piscina, sem esforço, um achado sem dor, uma fusão
tal, uma inteligência do universo. Comprada em sal, em rugas, em cabelo.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

“Versos à Boca da Noite”

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O aumento da população idosa em um meio social marcado pelo progresso tecnológico provoca uma considerável e constante mudança de valores, com a transcendência simbólica da existência deixando lugar ao efêmero da imagem, e com uma clara transformação no campo da família e, consequentemente, nos processos de filiação.

Na literatura específica sobre o tema, uma das primeiras questões a chamar a atenção do leitor é o uso frequente de eufemismos para nomear a velhice e tudo o que a ela se refere; falida tentativa de suavizar o peso que a palavra “velho” causa na nossa sociedade. Parece-me que a velhice, como alguma coisa da ordem do diabólico, não pode ser nomeada sem provocar medo e rejeição.

Neste século assistimos ao quase desaparecimento do substantivo “velho”, só permanecendo no uso corrente sua função adjetiva, quando falamos de coisas antigas ou usadas. O substantivo velho deu lugar a “um senhor de terceira idade” ou “uma senhora de idade avançada”, e a muitas outras tentativas de nomeação de alguma coisa que não é mais nominável no discurso do homem da modernidade. Ora, se não tem um nome, pode tê-los todos, e então a velhice vira uma espécie de buraco negro, onde qualquer interpretação pode entrar, qualquer representação ser possível e onde permanecemos ignorantes sobre o que realmente contém. Queremos dizer com isto que o fato de ser jovem ou velho, aparentemente tão simples para a consciência individual, passa a tornar- se incerto quando percebemos que as noções de juventude e velhice sofrem sérias transformações ao longo de nossa existência. Quando temos 5 anos o velho tem 30, quando atingimos os 40, o velho não pode ter menos de 70. E quando estamos nos 80………o velho é sempre o outro, como dizia Simone de Beauvoir (1970), que incluía a velhice na categoria dos “irrealizáveis” sartreanos. Irrealizável porque não podemos reconhecer a velhice em nós mesmos, só podemos vê-la nos outros, embora eles tenham a nossa idade.

A dificuldade principal para categorizar a velhice consiste em que ela não é unicamente um estado, mas um constante e sempre inacabado processo de subjetivação. Assim podemos dizer que na maior parte do tempo não existe um “ser velho”, mas um “ser envelhecendo” . Jack Messy (1993, pág 33) diz: “Se o

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envelhecimento é o tempo da idade que avança, a velhice é o da idade avançada, entenda-se, em direção à morte”

Como teorizar acerca de um conceito indefinível como tal? Embora todos saibamos reconhecer um velho, é muito difícil defini-lo; com qual parâmetro o faríamos? Poderíamos usar um referencial biológico que desse conta da aparência ou das patologias tidas como clássicas para este período da vida, como cabelos brancos, rugas, osteoporose, artrose, hipertensão, perda de memória, cardiopatias etc; mas se de um lado estes sinais se manifestam muitas vezes bem antes de que uma pessoa possa ser definida como velha ou em processo de envelhecimento, de outro a ciência atual está colaborando para superar a maioria deles, e então eles nada definem .

Poderíamos talvez arriscar uma definição mais psicológica, tomando parâmetros como enrijecimento do pensamento, certo grau de regressão, tendência a um certo tipo de reminiscência ou à depressão. Mas nada disto fala de todas as velhices, assemelhando-se mais a um apanhado de negatividades que a uma descrição correspondente a uma categoria universal. Tampouco podemos defini-la desde um ponto de vista social; a aposentadoria, por exemplo, não faz de um sujeito um velho, como o direito ao voto não faz de um adolescente um adulto. Vemos assim que, apesar de existirem sinais mais ou menos universais, para cada cultura, sobre o que seja a velhice, nem individualmente nem em conjunto elas dão conta de uma definição categorizante.

Como definir então um objeto de estudo, se falamos de algo que parece não existir senão como construção sempre mutante, como interpretação individual e cultural sobre o percurso da própria existência e sobre a existência dos outros ? Como falar de um objeto cuja representação aparece silenciada quando nos remete à impossibilidade da representação da própria morte?

De que sujeito falamos, quando como psicanalistas falamos do velho? O sujeito velho que fala na clínica e na vida nos fala de tempo o tempo todo. Fala-nos de uma consciência de finitude, fala de morte e de um corpo imaginário que se nega a envelhecer e que não se reconhece no espelho. Fala de temporalidade.

Faz-se então necessário um recorte, considerando que as conceitualizações atuais sobre o envelhecimento se fundam, como bem diz Joel Birman “…num campo de valores, implicando uma ética, uma política e uma estética da

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existência…(Birman 1995, pág 30). Formas de ser no mundo reguladas por escolhas e satisfações que orientam estratégias que podem ser de inclusão ou exclusão do idoso do campo social, fundantes da singular subjetivação do “ser velho.” Consequentemente, além do sujeito da psicanálise, estarão sempre presentes, ao falarmos de velhice, o sujeito da antropologia, da filosofia, e o sujeito social.

Nas sociedades tradicionais a figura do velho representava a sabedoria, a paciência, e transmitia os valores da ancestralidade: era ele quem detinha a memória coletiva; quem, através da evocação e da transmissão oral, construía uma narrativa com a qual se incorporava (fazia-se corpo) cada indivíduo na história do grupo, outorgando- lhe uma filiação bem mais abrangente do que conhecemos atualmente, quase restrita ao campo do familiar. O velho, então, era um elemento na vida do jovem que colaborava para sua ancoragem no registro do simbólico, e este era o lugar simbólico para a velhice.

Com as sucessivas transformações que se operam no âmbito social a partir do séc. XVIII e que culminam com a revolução industrial, há uma grande mudança de valores: o grupo que vive e trabalha junto deixa de ser fundante de tradições (e subjetividades) e o indivíduo isolado na família nuclear, livre das ataduras da religião e da tradição, passa a ter um valor quase que exclusivamente pelo que produz. Assim, os valores tradicionais vão se perdendo em favor de uma sociedade individualista onde o velho, por não ser reprodutor de vida nem produtor de riqueza, nada vale; o valor social da velhice passa então a ser associado à inutilidade e decrepitude.

Chegados neste ponto, podemos sem dúvida dizer que em nosso tema encontram-se fundamentalmente implicados aspectos de ordem histórica, social, e finalmente política. Mas, como eles podem se articular com um referencial teórico como o da psicanálise? Para uma possível resposta a esta questão sugerimos a leitura de outro artigo do mesmo autor, que nos oferece uma interessante reflexão a este respeito. Ele sustenta que o fato das autoridades lidarem com a coisa pública como se fosse a coisa privada, e a não delimitação simbólica dessas fronteiras provoca uma certeza da impunidade sobre a qual se constitui uma crise de valores. Assim é imperativo referir- se a um registro ético onde ……. “o que se evoca é a idéia e o valor de cidadania”….. “a categoria de cidadania tem a ética como sendo seu Outro, de

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forma que pensar nas condições de possibilidade da cidadania implica em enunciar os fundamentos éticos da política e da sociabilidade” (Birman, Boletim 60 pág 6)

Ao se falar de cidadania e de política evoca-se a idéia de sujeito do direito, conceito este próprio à modernidade, e que por sua vez remete à idéia do indivíduo como valor social; mas estes conceitos que se originaram na Grécia antiga chegaram ao séc. XVIII deformados pelas vicissitudes do poder. Perderam parte de sua magnitude original e hoje referem-se primordialmente a uma idéia de valor individual, onde cada cidadão vale pelas próprias realizações, não sendo determinado nem responsável pelo fato comunitário. É o indivíduo que orgulhosamente “se faz só”. Então, como consequência deste processo, perdem-se os referenciais únicos e seguros de ordenamento social tal como eram sustentados pela sociedade tradicional, fato que inaugura a existência de um “indivíduo” – outrora sustentado pelas rígidas normas sociais e as obrigações do clã, e psiquicamente identificado com os campos da razão, da consciência e da vontade- que se encontra agora dividido pelas dúvidas inerentes aos novos sistemas de valores e pelas angústias das livres escolhas próprias do liberalismo. Um sujeito que parece existir na firme convicção de nada dever a nenhum outro.

O resgate da verdadeira cidadania é o resgate da possibilidade de existir para o Outro. A garantia de ser olhado como alguém que só se garante como ser social na medida que possa exercer seus direitos. Com base neste sujeito do direito é que surge o sujeito da psicanálise, que não é mais que o sujeito do desejo, ou seja uma construção histórica ancorada nos fundamentos da modernidade. A psicanálise nasce paradoxalmente como produto desta modernidade para ser sua grande questionadora.

O sujeito da psicanálise vem dar uma resposta às angústias de um “individuo” como já dissemos dividido, descentrado , dominado por um inconsciente que fala por ele. Este sujeito do desejo funda-se na alteridade, antecipa-se no desejo parental que o determina como sujeitado ao desejo do outro.

Aqui retomamos o ponto de confluência de várias áreas do conhecimento: questão da ética, a questão do outro em nossa constituição como sujeitos, em nossa atuação como cidadãos, em nossa prática política que determinará os limites entre o público e o privado, o individual e o comunitário, e o que poderá formar parte de nosso

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universo ou ficar defensivamente excluído do mesmo, já que de alguma forma ameaça o individualismo e a realização narcísica mais primarizada.

Na nossa cultura não nascemos para sermos iguais, nascemos expulsos da comunidade que nos engendra porque somos concebidos para sermos diferentes, maravilhosos, únicos, para sermos melhores que os nossos antepassados recentes e destinados a realizar tudo que lhes foi impossível. Mas um sujeito continua a se constituir por dois caminhos: por um lado, tenta coincidir com as expectativas que os outros, especialmente os pais, tem a seu respeito, ser a imagem que pode satisfazê-los; por outro identifica-se com os valores da cultura, do social. Caso exista uma crise nesse aspecto, a tendência será de correr atrás de imagens que assegurem uma certa identidade, e não de valores que ofereçam identificações mais ou menos permanentes. (Calligaris, Boletim 86)

Se os valores da tradição já não oferecem nenhuma segurança, se o patrimônio moral herdado carece de todo valor, como operar esta identificação simbólica? O que fazer com tudo aquilo que faz parte de um universo simbólico? A resposta parece óbvia: ocorre um processo de descategorização, de exclusão.

Cabe então perguntarmos sobre a particular subjetivação do “ser velho” em um momento histórico onde a velhice perdeu as atribuições próprias da sociedade tradicional, e onde parece ser mais uma “invenção” social, uma categoria na qual é possível depositar tudo o que remete à inutilidade, à dor, à finitude e à morte e que é assim expulsa em direção às bordas, marginalizada.

A maioria das culturas conhecidas na atualidade contam com uma considerável bagagem de condutas negativas em relação às pessoas idosas, muitas delas operadas de forma inconsciente, e muitas outras francamente explicitadas. Em 1973, Butler estudou este fenômeno sob o nome de ageism, e mais tarde, na Argentina , Leopoldo Salvarezza chamou-o de viejismo. Este conceito define “…um conjunto de preconceitos, estereótipos e discriminações que se aplicam aos velhos simplesmente em função de sua idade….. Este é um preconceito comparável a outros que se aplicam às diversas minorias conhecidas, e inclui a chamada gerontofobia que se refere a uma conduta, felizmente menos frequente, caracterizada pelo medo ou ódio irracional aos velhos”. (Salvarezzza, 1993, pág 23)

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Retomando o que até aqui foi analisado percebemos que na modernidade o velho não existe sob signos positivos de inclusão, não é considerado produtor de bens nem um consumidor importante; só muito recentemente esta imágem começou a mudar e assistimos ao surgimento de um mercado exclusivo para idosos que não se restringe a medicamentos e serviços de saúde. Perdendo seu valor social, perde seu valor simbólico positivo. Passa assim a ocupar um lugar marginalizado da existência humana, transforma- se numa espécie de sujeito em “suspensão” , sujeito sem projetos. Sem futuro, será então sujeitado pelo passado, que na forma de uma reminiscência repetitiva, produzirá um discurso que perderá significação social se ninguém o escutar. É assim lançado a uma vida sem sentido, sem futuro, numa violenta marginalização do circuito do desejo. Então precisa ser isolado, escondido, para que os mais jovens não tenham que ver neles seu próprio futuro de carência de recursos, de saúde, de força e poder. Assim, passa a simbolizar de maneira muito clara a impotência e a castração, onde os jovens depositam os aspectos mais denegridos e rejeitados de seu próprio Eu.

O velho, então, “impotente” e “incapaz” de superar criticamente o modelo vigente que prioriza o jovem, belo, forte e poderoso, a ele se submete tentando apagar as diferenças, passar para o interior do círculo de poder, fazendo tudo por se incluir, muitas vezes de forma maníaca e caricata, ou caindo no isolamento, na renúncia ao desejo.

O sujeito é produto de um encontro, de uma articulação entre interioridade e exterioridade, e esta não é apenas fundante de subjetividade, mas também constitui o campo onde se encontram os objetos de sua satisfação. A violência exercida através do discurso de exaltação da juventude e da produtividade propõe um modelo desvalorizado com o qual o velho se identifica, anulando sua condição desejante e seus direitos de cidadania. Então, a falta de um reconhecimento social para a velhice, a falta de um lugar simbólico, o fato de não mais ser fonte de prazer, resulta numa desnarcisação do sujeito. Isto é, numa falta de investimento do ambiente em direção a esse sujeito, e vice versa, o que impede a elaboração da perda e provoca um crescente empobrecimento da vida afetiva. Frequentemente, a resposta a este processo é a depressão ou a demência como defesa do último baluarte narcísico.

Se o limite da vida humana é a morte, a velhice é a fase da existência que está mais próxima deste horizonte. Por esta razão, os velhos são suportes ideais para a

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maior parte das significações negativas que a eles se referem. Podemos observar como muitas das ações supostamente destinadas a “cuidar “dos velhos, não são mais que subterfúgios para mantê-los isolados, assim como muitos discursos elogiosos não são mais que disfarces para encobrir o que de ameaçador e angustiante a velhice encerra em nosso imaginário social.

Na velhice, período de perdas de objetos significativos e de lugares de reconhecimento simbólico, falha frequentemente a função reguladora do Ideal do Eu: então, no confronto entre o Eu Ideal e a realidade corporal, presentifica-se a incompletude, que como uma avalancha arrasta todas as imagens narcísicas que foram constituintes do Eu. Abrem-se assim buracos por onde se filtram as fantasias inconscientes de castração e aniquilamento ligadas a um Eu fortemente desvalorizado.

Perde-se a beleza física padronizada pelos modelos atuais, a saúde plena, o trabalho, os colegas de tantos anos, os amigos, a família, o bem estar econômico, e fundamentalmente, a extensão infinita do futuro, e embora a qualidade de vida seja preservada, não pode ser evitado o sentimento de finitude que inexoravelmente se instala.

A consciência da própria deterioração põe fim à onipotência. Despojado da beleza e da saúde da juventude, de sua capacidade de produtor de bens e de reprodutor de vida, o corpo, em declínio, acaba com a fantasia de imutabilidade e imortalidade.

Ser velho pode muitas vezes significar a perda da ilusão da própria potência, aceitar o domínio inelutável da pulsão de morte e apesar disso, continuar lutando. Luta difícil, porque o luto que deve ser elaborado é o da própria vida, é um luto que age por antecipação, luto por um objeto ainda conservado, porém condenado: e a ameaça de aniquilação pela morte não é um sentimento ao qual alguém se adapte. O Eu, antes de qualquer outra coisa, exige continuidade.

A morte é este pano de fundo sempre fugidio, irrepresentável, que constitui a violência própria do ser temporal, ser para a morte. O sujeito se configura nas três dimensões do tempo: ante os obstáculos do presente, evoca o passado em busca do sentido necessário e joga para o futuro as possibilidades de reparação; porém, se o futuro não mais existe, o sujeito se afunda em um futuro de não-ser que o arranca violentamente do campo do desejo.

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Atualmente observamos que, com a diminuição da taxa de natalidade e o aumento das expectativas de vida, as famílias ficam cada vez menores e seus membros cada vez mais velhos; estes fatos, somados à exaltação das liberdades individuais, faz com que exista uma maior visibilidade social da velhice, que colabora para um reinvestimento nesta faixa etária , no sentido de outorgar-lhe um novo reconhecimento simbólico.

Em alguns países existe em nossos dias um grande investimento social na velhice, que garante além de um merecido bem-estar, o exercício de uma elementar cidadania. Lamentavelmente não é este hoje o caso de América Latina, onde qualquer iniciativa depende quase que exclusivamente da esfera privada e beneficia pequenos grupos privilegiados com a sorte de ter acesso a serviços diferenciados.

A mídia , com seu enorme poder de reagir e gerar mudanças, colabora para este novo reconhecimento. Verificamos a presença cada vez mais maciça de campanhas publicitárias dirigidas a pessoas com mais de 60 anos, programas turísticos e de lazer, planos de saúde especiais, cursos universitários exclusivos, escolas de ginástica, danças e mil formas imagináveis de agrupamentos para esta faixa etária. Porém, é preciso pensar muito seriamente sobre o ponto de vista ético que oriente este reconhecimento, e que determinará se as ações em relação aos velhos serão de inclusão, exclusão ou indiferença; pois segundo as palavras de Foucault : “…as éticas não só refletem diferenças no modo de subjetivação, mas participam da constituição de subjetividades; em outras palavras, podemos ver as éticas como dispositivos ensinantes de subjetivação, elas efetivamente sujeitam os indivíduos, ou seja, ensinam, orientam, modelam e exigem a conversão dos homens em sujeitos morais historicamente determinados” (citado por Figueiredo, 1995, pág 43)

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CAPÍTULO I
A QUESTÃO DO CORPO

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Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro, nem estes olhos tão vazios,

nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força, Tão paradas, e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por conta desta mudança tão simples, tão certa, tão fácil
__ Em que espelho ficou perdida
a minha face?

CECILIA MEIRELLES

“Retrato”

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“Estou aprisionado num velho corpo”

BERTRAND RUSSELL
É desse corpo prisão, ao qual se refere Russell, que queremos falar, desse corpo que é ferramenta, mediador organizado entre a psique e o mundo, através do qual o sujeito é reconhecido e com o qual se identifica. Corpo, como genialmente descreve Cecília Meirelles, capaz de tais mudanças que até pode chegar a ser sentido como estranho, a se separar do sujeito ou de aprisioná-lo por não acompanhar seus desejos. Mas antes de entrar na especificidade que liga a questão do corpo com o envelhecimento, vejamos algumas das interpretações que diferentes áreas do conhecimento dão a este

conceito.

Através da história da civilização, diferentes discursos científicos, poéticos ou religiosos tentaram dar conta da questão do corpo, do mistério de seu funcionamento, tomá-lo como seu objeto. Cada um com suas próprias conclusões, criando controvérsias, provocando indagações, falando enfim, de corpos diferentes. Então, do ponto de vista conceitual, não há um corpo único, comum a todas as áreas do conhecimento ou das artes, mas sim diferentes discursos que tentam capturar esta problemática

Especialmente para o paradigma religioso-cristão, predominante até a modernidade, o corpo habita a representação fantasmática da ressurreição, barro modelado por Deus, ato pelo qual sempre se enlaçará a um desejo divino, corpo submetido e não desejante, cujo interior, invisível e misterioso, guarda os segredos da criação divina. Este corpo unificado em uma imagem do visível, de interior desconhecido e inexplicável, preservava o enigma de seu funcionamento. Já para a ciência, não existe nada da ordem do desejo como causa do funcionamento somático, nem como explicação para seu destino de dor, prazer e morte.

O olhar da ciência concebe o corpo humano como uma somatória de órgãos e funções e confronta o sujeito com um interior feito de pedaços sobre o qual ele nada sabe. Assim, um sujeito leigo não pode habitar a causalidade “divina” da doença que aflige seu corpo e seu espírito. Para o paradigma científico tudo deve ser explicado pelos eruditos que detêm o saber. Os destinos do corpo se situam fora do desejo. O sujeito profano não pode mais apelar a suas construções fantasmáticas para explicar o próprio corpo, devendo dar crédito a um saber que diz sobre ele mas que lhe é estranho, contrariando frequentemente a certeza da própria experiência sensorial. A cultura

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outorgará os meios para que cada um se aproprie de diferentes formas desse saber, para a construção cultural de um modelo do corpo, que embora diferente do discurso científico é dele derivado. A eleição dos enunciados dependerá de quanto estes sejam aptos para dar conta de um corpo investido pela psique. Mas, qual a proposta da psicanálise para a questão do corpo? Com que conceitos herdados de outras áreas trabalhou Freud este tema além, claro está, da influência biologizante exercida por sua formação médica? Como foi a evolução desta problemática?

1- AS FONTES NA FILOSOFIA

Em relação à questão do corpo, as fontes na filosofia, assim como na religião na ciência ou na mitologia, são remotas. Escolhemos então dois filósofos contemporâneos a Freud, representantes do pensamento de sua época e que tiveram notada influência sobre sua produção teórica.

Para Nietzsche, que tentava eliminar o dualismo alma-corpo, o pensamento não está desligado do corpo, e isso a tal ponto que as idéias constituiriam sintomas de saúde ou doença, vitalidade ou morbidez. Assim, o corpo seria um revelador das forças que o dominam ou lutam para dominá-lo, e a alma designaria simplesmente algo no corpo. Designando-a, outorga-lhe existência e assim sua tentativa fracassa, ao menos no sentido de poder se omitir do uso de um conceito que se refere a esse “algo” que fica fora da ordem do natural.

O corpo é chamado de Grande Razão, e o espírito que nele habita, a Pequena Razão, seu brinquedo e instrumento. Esta Grande Razão que não diz EU, senão que faz EU, nos remete ao conceito de identificação tal como foi elaborado por Lacan no estádio do espelho, conceito ao qual voltaremos mais tarde.

Na nova dualidade, corpo natural- corpo da psicanálise, inaugurada por Freud, e seguida por Lacan, parece haver uma ruptura com os conceitos de Nietzsche, declaradamente contrário à aceitação de qualquer dualidade; porém não deixa de ser interessante notar que ele não desiste de falar de alma ou de espírito, especialmente em seus escritos póstumos, talvez afetado pela consciência de finitude que só a proximidade da morte pode outorgar. Ele diz também que a pulsão é matéria e demiurgo de toda concreção do mundo orgânico e cultural. Ora, sendo demiurgo, é ligação entre o humano e o divino, e só podem se ligar duas coisas que estão separadas,

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mesmo que por uma simples diferença, duas coisas que não sejam uma só. Novamente Nietzsche parece aqui estar se referindo a um conceito limítrofe.

Para este autor, a pulsão é uma energia que transita entre a Grande e a Pequena razão, originando-se no corpo. Podemos descobrir nesta idéia algumas coincidências com os postulados freudianos sobre a pulsão como conceito limítrofe e a noção de apoio. As pulsões enunciam urgências, exigências, comandos, representações; a exigência pode até mesmo ser “enunciada naquilo que contraria radicalmente sua meta” , (transformação no contrário como destino possível); toda pulsão é habitada por uma natureza artística, instituidora de formas “realizando seu objeto com bela aparência” (a sublimação como destino). (Giacoia, 1995)

Nietzsche não faz uma diferenciação clara entre Instinkt e Trieb, porém nos fala de uma Força (Triebkrafte) sem fundo, misteriosa, com carga energética impalpável, invisível, plurívoca. Devemos compreender esta força como quantidades de energia dinâmica, cuja essência seria seu próprio efetivar-se, produzir efeitos sobre os outros “quantas”, instituir uma verdadeira relação de poder. É então uma intensidade que se constitui em seu efetivar-se. Toda pulsão é uma “ânsia de domínio” e cada uma têm sua própria perspectiva e área de influência. (pulsão parcial). Assim compreendida, esta força pode-se resumir a uma única forma fundamental de vontade: a Vontade de Potência. Assim sendo, a dinâmica pulsional só pode ser entendida como uma verdadeira guerra onde há composição, ajustamentos, alianças entre potências rivais; o que implica necessariamente na existência de resistências. A Vontade de Potência só pode existir no confronto.

A Força não é para Nietzsche vontade de vida, como para Schopenhauer, porque aquilo que já existe não pode querer existir, e o que não existe tampouco; a vida só pode querer mais vida, ou seja Vontade de Poder ou Potência.

Se como faz Nietzsche, a Vontade de Potência for identificada com a própria vida, esta será então uma vontade orgânica, própria não somente do homem, senão de todo ser vivo; vemos aqui uma clara diferença com Freud, para quem é essencial a diferenciação entre instinto como comportamento biologicamente determinado, sempre igual, e com objeto específico e pulsão como conceito limítrofe, lábil, que suporta diferentes destinos e objetos, originadas num corpo sim, porém erogeneizado,

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atravessado pelo desejo parental, corpo que já muito pouco tem a ver com a biologia. Em Nietzsche o movimento é, ora de união, ora de diferenciação. Em seu afinco por negar os dualismos, não pode aceitar as especificidades não naturais da Triebkrafte, que ele mesmo define como impalpável e misteriosa. Coerente com seu esforço, atribui à consciência uma origem biológica, como último e mais tardio efeito da evolução orgânica; assim entendida, a consciência seria o órgão responsável pela sobrevivência, já que surgiria pela relação do indivíduo com o mundo exterior, e obteria através da linguagem um meio de comunicabilidade. Neste processo haveria sempre presente um caráter falsificador pois não é todo pensamento que se torna linguagem, que vira consciente, mas só alguns podem atingir esta forma. Haveria então um “resto” indizível, que constituiria o inconsciente, embora Nietzsche não use esta denominação, não conseguindo portanto um lugar teórico para o não- representável.

Schopenhauer, predecessor de Nietzsche, aborda uma problemática semelhante inspirado em Kant. Para este há uma diferença entre a “coisa-em-si” (noumenon) que existe em si mesma, e o mundo que aparece; este universo dos fenômenos é o objetivo do conhecimento científico e se rege pelas formas a priori da sensibilidade (espaço e tempo), o mundo do representável que inclui o sujeito. A coisa- em-si, pelo contrário é tudo aquilo que fica fora da representação por não ser acessível através do conhecimento científico. Esta coisa-em-si, raiz metafísica de toda realidade, é a Vontade que Schopenhauer coloca como eixo de seu pensamento; e justamente a crítica que faz a Kant refere-se ao fato dele ter conferido à Razão o papel mais importante em seu sistema. (Cacciola, 1991)

A Vontade é uma, com diversos modos de manifestações que norteiam e geram o mundo das representações, como acontece com a vontade de conhecimento.

Embora o conhecer seja da ordem do sujeito da representação, e o querer corresponda ao sujeito da vontade, para conhecer o sujeito tem que querer. Temos então uma Vontade cega, puro ímpeto, irracional, essência humana, que direciona as escolhas dos atos dos homens, e uma vontade racional, poderosa, intelectual, que se submete à primeira, definida como o impensado, o desconhecido, o inconsciente, (embora Schopenhauer, tampouco use este conceito), e que tem absoluta primazia em seu sistema. O Eu é aquele elo temporal entre estas duas manifestações, o sujeito do querer e o sujeito

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do conhecer. Colocado desta forma, o dualismo não se coloca entre instinto e pulsão, mas entre a vontade entendida como pulsão e o intelecto.

Tanto a Vontade em Schopenhauer, quanto a Força em Nietzsche, manifestam-se no corpo, e é só em suas manifestações corporais que podemos limitadamente conhecê-las. Não é possível conhecermos a Vontade, mas apenas a manifestação de sua atividade; só temos acesso a ela mediatizada através de suas representações. Sua sede são os órgãos genitais, ou seja, sua mais importante manifestação é a sexualidade, e seu objetivo a perpetuação da espécie. O querer viver, é um querer viver como espécie. Vemos então a óbvia relação entre o conceito de Vontade em Schopenhauer e os postulados freudianos sobre a pulsão, assim como a influência que este filósofo exerceu sobre Nietzsche , e seu papel de precursor ao atribuir à sexualidade um status constitutivo da vida do indivíduo, além de sua função como atividade procriadora: com Schopenhauer surge o homem como ser sexual. Pulsão de vida e de morte não só se anunciam em Schopenhauer como formam parte de seu sistema, e darão a Freud base suficiente para continuar sua elaboração e recolocação no sistema da Psicanálise que, é claro, não deve ser confundida com uma simples transposição.

Nosso interesse em seguir estas elaborações foi o de balizar nosso trabalho para melhor compreender o estatuto do corpo na psicanálise, especialmente no que se refere ao conceito de pulsão, ao que iremos frequentemnete nos referir no decorrer deste texto. Mas vejamos quais foram, no pensamento freudiano, as consequências desta influência exercida pelos filósofos de sua época.

2- O CORPO NA PSICANÁLISE

A questão do corpo na psicanálise parece exigir um retorno ao caminho traçado por Freud desde o Projeto (1895) e consolidado com o longo desenvolvimento da teoria das pulsões. No texto de 1923 “O Eu e o Id”, ele reafirma a dimensão corpórea do Eu com as seguintes palavras: ”Na gênese do Eu e em sua diferenciação do Id, parece ter atuado ainda outro fator diferente da influência do sistema P (perceptivo) . O próprio corpo e especialmente a superfície do mesmo, é um lugar do qual podem partir simultaneamente percepções, externas e internas. Ele é objeto da visão como outro

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corpo qualquer, porém produz ao tato duas sensações, uma das quais pode-se equiparar a uma percepção interna. A psicofisiologia se ocupou já suficientemente da forma em que o próprio corpo se destaca do mundo das percepções. Também a dor parece desempenhar um papel importante nesta questão, e a forma em que adquirimos um novo conhecimento de nossos órgãos quando padecemos uma dolorosa doença constitui quiçá o protótipo daquela pela qual chegamos à representação de nosso próprio corpo. O Eu é um ser corpóreo, e não só um ser superficial, ele é também a projeção de uma superfície.” (Freud, 1923, T.II, pag 15)

É na consciência, camada mais superficial do aparelho psíquico, que reside o sistema perceptivo, que absorve tanto os estímulos provenientes do mundo exterior quanto os emergentes do interior do organismo. Sendo a consciência a receptora dos estímulos externos, como exigências de motilidade, é dela que partem a maioria das ações necessariamente organizadas que visam modificar o mundo exterior: “Consciência e acesso à motilidade pertencem ao eu, que assim se define de saída como a parte do psiquismo voltada para o exterior e dotada por isto mesmo de uma coerência própria” . (Mezan, 1982. pag 270)

No pós-freudismo, em certa medida se esqueceu esta dimensão corpórea do sujeito, restando à psicanálise um campo restrito à pura interioridade do mundo do pensamento. Mas o conceito de corpo, longe de ser alheio à psicanálise, é uma das mais fundamentais questões, já que se articula com a formação da instância que conhecemos como Eu.

Cabe aqui tecer alguns comentários sobre as teorizações do Dr. Garcia Roza. Ele nos fala de um corpo natural, dotado de uma organização e de um modo dearticulação com o mundo independente da linguagem; e de um corpo erógeno, submetido à linguagem e ordenado por ela. O corpo natural é campo de pesquisa da biologia, e não da psicanálise. Esta dualidade não interessa à psicanálise, embora o corpo erógeno seja objeto de seu estudo. Porém existe uma outra dualidade, que é sim do domínio da psicanálise, constituída pelo que é ordenado, quer dizer submetido à linguagem, representado e que inclui tanto a linguagem como a representação do corpo, e por aquilo que é exterior à ordem, que é caótico: as pulsões em estado bruto, o “corpo real” situado além da representação, o corpo pulsional. Corpo de uma pulsão que não é

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força natural, porém tem “potência corporal”, representando as exigências que o corpo faz à mente, e que não são de origem biológica. Não sendo nem energia física nem psíquica, é energia pulsional

Temos então um “corpo simbólico” atravessado pela linguagem, o corpo da representação, com representação no psiquismo, onde a pulsão está representada, sem entretanto aparecer em forma direta. Ora, se algo se encontra representado em algum lugar, em outro lugar tem que existir o original; esse outro registro, não representável, é o corpo pulsional, o corpo da pulsão em estado bruto . Da articulação destes dois registros, surge o terceiro que chamamos “corpo imaginário” já que é de uma imagem que se trata. Neste corpo criado como um efeito de superfície é que se constituirão os sintomas como expressão de um sentido, sentido que este “corpo erógeno” sempre manifesta como articulação do pulsional (real) com a linguagem (simbólico). E esclarece : “Não estou tentando afirmar o corpo da psicanálise como antítese do biológico, mas simplesmente afirmá-lo como diferença” (Garcia Roza, 1990, pag 63) Para este autor, toda a confusão em relação à questão do corpo na psicanálise reside no fato de se pensar em termos de gênese e não de estrutura. Estruturalmente não há uma instância anterior nem primordial. Não existe um corpo biológico sobre o qual a palavra vem impor uma ordem, existe um corpo que vem a se encontrar com um destino já desejado.

Quando Freud, em 1895, escreve o “Projeto de uma psicologia para neurólogos”, está preocupado com a dualidade corpo-alma e com a necessidade de outorgar a sua teoria a cientificidade que então lhe era negada. Mas ainda no mesmo artigo reconhecerá, com as seguintes palavras, o fracasso do enfoque biologizante: “…….A comprovação da diferente importância que têm as diversas partes do cérebro, e suas particulares relações com determinadas partes do corpo e com as atividades psíquicas leva-nos um passo mais adiante, embora não possamos dizer que esse passo seja grande. Todos os esforços realizados para deduzir desses fatos uma localização dos processos psíquicos, ou seja, todas as tentativas de entender as idéias como armazenadas nas células nervosas e as excitações como seguindo o curso das fibras nervosas fracassaram por completo” (Freud, 1895, T III, pag 883) Deverá empreender ainda a tentativa de transpor estas conceitualizações para o plano do psíquico em “A interpretação dos sonhos” de 1900 para, já em 1905, nos “Três ensaios

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para uma Teoria Sexual”, postular o conceito de pulsão com sua fonte no processo somático de excitação, seu objeto variável, a finalidade da satisfação, e as zonas erógenas como o apoio necessário de onde emanam as pulsões sexuais .

Em 1910, em “As Perturbações Psicogênicas da Visão” Freud diferencia as pulsões sexuais e as pulsões de conservação também chamadas de pulsões do Eu, incompatíveis entre si, dado que seus objetivos são opostos. Este verdadeiro conflito entre suas forças engendraria um Eu capaz de se defender das representações intoleráveis através da repressão. Teríamos então, pulsões do Eu, ligadas à consciência e regidas pelo Princípio de Realidade que aparece como imposto a partir do exterior do sujeito e pulsões sexuais ligadas a uma atividade fantasmática e regida pelo Princípio do Prazer. Neste ponto vemos claramente colocado um dualismo, ou melhor, um confronto ente cultura e sexualidade.

O passo seguinte de Freud será a elaboração do conceito de Narcisismo em “Introdução ao Narcisismo” de 1914. Aqui a teoria das pulsões se complica, porque o Eu também é sexualizado, parecendo então não haver mais espaço para as pulsões não sexuais, o que representaria o fim do dualismo pulsional. Faz-se necessário prosseguir até o texto de 1915 “A pulsão e suas Vicissitudes” onde o autor recapitula seu trajeto conceitual e define a pulsão dizendo: “Se consideramos a vida anímica do ponto de vista do biológico, a pulsão mostra-se como um conceito limítrofe entre o anímico e o somático, como um representante psíquico dos estímulos provenientes do interior do corpo que chegam à alma e como uma magnitude da exigência de trabalho imposta ao anímico em conseqüência de sua ligação com o somático” (Freud, 1915, T I, pag 1037) Ou seja, um impulso que tem sua fonte no corpo porém não é biológico, é representado no psiquismo, porém não é psíquico, tem como única finalidade a satisfação, que pode ser proporcionada através dos mais variados objetos. Isto vale para todas as pulsões sem se distinguir entre sexuais e de auto-conservação. Porém, antes de se referir aos quatro destinos possíveis para as pulsões (transformação no contrário- orientação contra a própria pessoa- repressão- sublimação) esclarece: “Como avançamos mais no conhecimento das pulsões sexuais, limitaremos a elas nossa investigação dos destinos pelos quais passam as pulsões no curso de seu desenvolvimento e da vida” (Freud, 1915, T I, pág. 1039)

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Ainda no mesmo artigo Freud estabelece o caráter conservador e ambivalente da pulsão e reconhece a presença, nas tendências eróticas, de componentes agressivos e destrutivos.“Enquanto as pulsões sexuais passam por um complicado desenvolvimento, aparecem fases preliminares do amor como fins sexuais”…”a primeira destas fases é a incorporação e a ingestão, modalidade do amor que resulta compatível com a supressão do objeto e que pode então ser qualificada de ambivalência”. E continua: “Na fase superior de organização pre-genital sádico-anal, surge a aspiração ao objeto na forma de pulsão de domínio, impulso para o qual é indiferente o dano infringido ou a destruição do objeto.” ( Freud, 1915, T I, pág. 1044)

Estas elaborações e outras (1) que datam do começo da primeira Grande Guerra, são sem dúvida o ponto de partida para que Freud, em 1920, vivendo seus lutos pessoais e os lutos pela humanidade produza a “grande virada” de 1920 em “Além do Principio do Prazer” onde conceitualiza a Pulsão de Vida e a Pulsão de Morte. Neste percurso dos textos sobre a Pulsão podemos verificar como Freud vai tomando distância de uma formulação biologizante do psiquismo e outorgando à questão do corpo (erogeneizado) um estatuto fundamental no edifício teórico da psicanálise. Por considerá-lo tematicamente mais adequado, deixaremos este tema para ser discutido no próximo capítulo (ponto 5) detendo-nos agora nas teorizações de alguns seguidores de Freud que, pela originalidade de pensamento e rigor conceitual, muito têm contribuído ao enriquecimento desta questão.

Para Piera Aulagnier (1991, cap 2) o corpo faz-se visível, manifesta-se através de inúmeros sinais, corpo manifesto falando de um corpo latente que permanece oculto . Entre todos os signos possíveis do corpo visível, toma especialmente dois: emoção e sofrimento somático, que considera os mensageiros por excelência do psiquismo para suas manifestações no plano somático. Emoção é diferente de afeto, emoção é uma vivência da qual o eu tem consciência: sabe o que é aquilo que a provocou e guarda relação com algo sensorial; é algo visto, ouvido, tocado, que modifica o estado somático de quem a experimenta e estimula uma identificação com quem a compartilha.

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1- a este respeito recomendo a leitura dos textos de S. Freud: “Consideraciones de actualidad sobre la Guerra e la Muerte (1915) e “Lo Perecedero” ( 1916)

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O sofrimento, causado por exemplo por uma doença, vem informar que algo que acreditávamos invulnerável pode ser afetado, que algo que permanecia oculto pode aparecer, provocando também uma reação em quem o testemunha; dizemos então que dor e emoção são “relacionais”, pois realizam uma conexão entre o corpo sensorial e um corpo relacional. Mensageiros, porque além de falar das próprias manifestações somáticas, possibilitam diferentes leituras das reações dos outros.

Quando um acontecimento ligado à dor ou emoção irrompe em uma história singular, a construção que o sujeito fará dessa ocorrência dependerá não só da conexão particular entre seu corpo e sua psique, mas também da resposta que sua dor ou emoção gerem no outro. Emoção e dor, (2) vão formando sucessivas representações do corpo , que se articularão com as motivações inconscientes , e juntas estas decidirão sobre a eleição da causa à qual o sujeito vai atribuir o sentido histórico dos acontecimentos de sua vida. A identidade de um sujeito será então esta historia que ele mesmo escreve, na qual fala de seu corpo. A história do sujeito é a história das marcas relacionais de dor e emoção em seu corpo; esta é sua identidade, e a história que ele escreve atribuindo sentidos a estas marcas é uma história que jamais se completa. Tal identidade corporal que parece sempre definitiva, deve permanecer sempre em aberto, ser uma versão sempre inacabada, para que o sujeito possa aceitar as mudanças que o tempo impõe, sem perder o sentido de permanência.

A certeza de habitar um único corpo, sempre o mesmo, quaisquer que sejam suas modificações, é a garantia de uma identidade e de uma permanência na relação com o outro. Para conseguí-lo, o sujeito deverá dar o mesmo sentido relacional a uma série de experiências, embora tenham acontecido em tempos diferentes, ou seja, deverão ter também um sentido temporal.

Seguindo o pensamento de Piera Aulagnier vemos que o reconhecimento de um outro separado de si, de um espaço “fora do eu” é acompanhado de um saber sobre a autonomia desse outro; sua possibilidade de estar presente ou ausente, de infligir

________________________________________________________________________ 2- Piera Aulagnier esclarece que não toma o prazer como mensageiro porque: “ enquanto o sofrimento apela ao poder de quem é supostamente capaz de modificar a realidade somática e o meio que envolve o sofredor, o prazer (como depois o gozo) vai acompanhado da mensagem contrária: O que poderia vir a se modificar no corpo ou no exterior é vivido como ameaça.” (Aulagnier, cap2, pág 131)

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prazer ou dor, ou seja, a capacidade do outro de ser sempre mutável submete o eu a uma situação de ser, ele também, sempre auto-modificável, já que se forja na relação com o objeto investido. Porém, para sustentar a diferença, é necessário que o eu se auto- represente como o pólo estável dessa relação de investimento. A continuidade desta relação dependerá da possibilidade de negociação do eu entre as demandas do próprio id e as do outro. Por isso Piera Aulagnier não vacilará em dizer que: “ O eu é o redator de um compromisso identificatório; o conteúdo de uma parte de suas cláusulas não deverá mudar; enquanto de outras deverá ser sempre modificável e assim garantir o devir desta instância” (Aulagnier, 1991, cap 5, pag 224)

O corpo é mediador entre a psique e o mundo, ou entre duas psiques, constrói-se nessa relação e constrói suas causalidades; se o eco do próprio corpo no mundo não encontra respostas adequadas, se o outro for surdo e cego à dor (ou não tiver a resposta esperada) irá se operar uma desconexão relativa com toda a história do sujeito. Só a título de comentário podemos dizer que a compreensão deste ponto ajuda na explicação de certos fenômenos freqüentes na velhice, como o fato de muitos idosos se demenciarem ao sofrer hospitalizações rigorosas ou doenças prolongadas. Os modernos Centros de Terapia Intensiva e sua alta tecnologia isolam o paciente em prol da preservação de um corpo biológico sem se considerar as suas necessidades emocionais, especialmente as de contato com os outros significativos e com um meio social e cultural. Visitas mais frequentes e prolongadas, uma música adequada, a presença de objetos estimados e uma reação mais “emocionada” por parte da equipe técnica evitam um corte radical com o entorno habitual e a consequente retração da libido.

Também para Françoise Dolto (1986) o corpo é ferramenta, mediador organizado entre o sujeito e o mundo, mas ela irá diferenciar esquema corporal de imagem inconsciente do corpo. O esquema corporal é uma realidade de fato, mais ou menos comum a todos os indivíduos de uma cultura, época e região determinadas. Estrutura-se mediante o aprendizado e a experiência, e é consciente, pré-consciente e inconsciente. A imagem do corpo, pelo contrário, é própria a cada sujeito e está ligada a sua historia. É relacional, depende especialmente da história libidinal , se presenta como síntese das experiências relacionais do sujeito desejante e pode ser considerada como sua encarnação simbólica. É eminentemente inconsciente; memória da vivência relacional

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sempre dinâmica pois estrutura-se através da relação entre sujeitos e é nela que se inscrevem as experiências relacionais (valorizantes ou não, narcisisantes ou não), que não são da mera ordem da necessidade mas fundamentalmente do desejo. Quando uma criança pede um doce, isto se articula com o prazer do contato da boca com o peito; porém, desprendido do nutricional (mera necessidade), o doce age como prova de amor e reconhecimento como sujeito desejante. Nesse caso, o doce pode ser substituído, ele já não importa. Como as necessidades devem ser satisfeitas de imediato para preservar a vida, essa satisfação ou essa falta, ligadas ao esquema corporal, não produzem uma carga narcísica como acontece com as manifestações do desejo ligadas à imagem corporal.

A fonte das pulsões, seu lugar, é o esquema corporal, mas onde elas se representam é na imagem inconsciente do corpo.Tem que haver um corpo que represente as pulsões, e não importa quão lesionado este esteja. Um sujeito pode não ter pernas e ter simbolizado o andar, graças à relação afetiva com seus pais, que devem ser capazes de suportar a própria frustração e projetar sobre a criança uma imagem saudável do corpo simbolizada em palavras. Assim, uma imagem inconsciente do corpo integrado e potente pode conviver com um esquema corporal deficitário, o contrário sendo também possível..

Como a realidade de fato do esquema corporal depende de nosso contato carnal com o mundo físico, então as experiências de realidade dependerão do tipo de contato do organismo com este mundo, e a qualidade deste contato dependerá da integridade do organismo, de suas lesões permanentes ou transitórias, das suas sensações possíveis. Como vemos, há aqui uma semelhança do pensamento de F. Dolto com o da P. Aulagnier: ambas ligam as primeiras sensações corporais , os primeiros contatos com o mundo físico, às experiências de realidade e ao processo identificatório.

Contrariando Lacan para quem a experiência do espelho é inaugural e primeira, Dolto afirma que a imagem especular não é mais que uma estimulação sensívelentre tantas outras no processo da produção da imagem inconsciente do corpo . Para esta psicanalista o corpo da criança que sofre o impacto do espelho não é um corpo fragmentado, disperso; é um corpo coeso e contínuo, dotado de um esquema corporal fruto de seu contato com a realidade física e de uma imagem inconsciente do corpo, produto da vida relacional, do contato afetivo, das experiências amorosas, ambos sempre

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em evolução, sempre mutantes. O confronto de experiência do espelho será então entre duas imagens: por um lado a imagem inconsciente do corpo, e por outro, a imagem especular, que contribui para modelar e individualizar a primeira. O que para Lacan é o começo jubilatório, para Dolto é uma experiência de castração, que provoca na criança a constatação dolorosa da diferença que a separa da imagem inconsciente. Imagem também “alienante” (como para Lacan), porém em outro sentido. Pensamos que o sentido da experiência especular vai depender da experiência prévia de contato com a realidade, que determinará o modo singular do impacto afetivo com o espelho. A imagem especular pode tanto abolir quanto integrar a imagem inconsciente do corpo

Outro fator fundamental nesta experiência é a presença do outro, do adulto presente nesse espaço para nomear o que acontece, e para compartilhar este campo concreto do espelho; a presença do adulto é que marcará a diferença entre a criança e o outro, que lhe ensinará a distinguir as diferentes qualidades da relação com um outro e com a própria imagem. Esta experiência de nada valerá se o sujeito enfrenta a falta de um espelho de seu ser no outro.

Quando um bebê nasce, ele tem um corpo, mas ainda não tem um Eu nem um Outro. Então, como já dizíamos, o adulto fala, nomeia, diferencia, deseja. Assim, o recém-nascido é investido de tal maneira que nele são projetadas todas as idéias de perfeição e principalmente todos os sonhos aos quais os pais tiveram que renunciar; assim, “sua majestade o bebê” representará a reprodução do narcisismo dos pais. Neste campo de mútua potenciação, o narcisismo do bebê nasce e o dos pais renasce.

O Eu do bebê não existe então desde o começo da vida como instância do aparelho psíquico, ele deve se constituir. A constituição do Eu e a consequente possibilidade de sua separação dos objetos é o novo ato psíquico que permitirá o surgimento do Narcisismo Secundário e a procura de satisfação nos objetos externos e separados dele. Mas também este é um processo doloroso. Quando a criança, em suas limitações, vê-se confrontada com os ideais impostos pelos desejos parentais, quando a mãe “falha” porque olha para outros objetos que não ela, quando deve esperar pela satisfação, percebe que já não é mais “sua majestade o bebê”, profunda ferida no narcisismo primário marcado pela segurança do amor incondicional e imediato. A partir

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deste momento, todo o esforço residirá em se fazer amar pelos outros tentando reproduzir a situação de onipotência originária, sem jamais conseguí-lo.

O Eu Ideal do rei da casa cede espaço para outra imagem idealizada, um Ideal do Eu, desta vez baseado nos imperativos sociais e culturais, transmitidos pelos pais. A libido assim regida irá se dirigir a muitos outros objetos, sempre falhos e incompletos, e que serão amados e abandonados, resgatando de cada um deles algum traço idealizado e incorporado a este difícil caminho de se constituir em um sujeito psíquico. Ideal do Eu, eterno mediador da esperança de alguma vez, nem que seja apenas por um instante, voltar lá.

A partir de Lacan sabemos que, quando uma criança entre os 12 e 18 meses de vida se olha no espelho e finalmente se reconhece, é invadida por uma sensação de júbilo e pensa: “Esse sou eu”. Mas devido à imaturidade neurológica haverá uma discordância entre esta imagem virtual, total, que o espelho lhe oferece, e seu corpo sentido como descoordenado, impotente. A criança se reconhece em uma espécie de invólucro que lhe traz a ilusão de totalidade. Irá se identificar em relação a um outro a quem anunciará sua descoberta, diferenciará a imagem de seu próprio corpo da imagem do corpo do outro. Por isso dizemos que o eu imaginário é um eu corporal, já que se trata da consciência do próprio corpo operada por uma imagem.

Esta imagem no espelho fascina-a, porém também aliena-a, engana-a, já que não corresponde a seu corpo sentido como fragmentado. E justamente a esse eu corporal , imagem idealizada de si mesma, a esse “eu ideal” que a criança ficará presa, e embora nunca se una a ela, estará sempre a perseguí-la.

Lacan diz exatamente o seguinte: “É suficiente compreender o estádio do espelho como uma identificação no sentido pleno que a análise dá a esse termo: a saber, a transformação produzida no sujeito quando ele assume uma imagem cuja predestinação a esse efeito de fase está suficientemente indicada pelo uso, na teoria do termo imago. A assunção jubilatória de sua imagem especular pelo ser ainda mergulhado na sua impotência motora e na dependência da nutrição que é o pequeno homem, nesse estádio infans, parecer-nos-á portanto manifestar, numa situação exemplar, a matriz simbólica onde o eu se precipita em forma primordial, antes que se

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objetive na dialética da identificação ao outro e que a linguagem lhe restitua no universal sua função de sujeito” (Lacan, Boletin 26, pag 16)

Quando trabalhamos com esta noção do estádio do espelho devemos levar em consideração que esta foi uma das primeiras formulações de Lacan, anterior à questão do simbólico, sendo uma noção elaborada visando entender melhor a questão do narcisismo em Freud. Quando ele fala do infans mergulhado na impotência motora ou na imaturidade neurológica, ainda não contava com outros conceitos fundamentais em sua teoria. Desde a perspectiva das elaborações posteriores vemos que não se trata de um corpo que vai madurando no sentido biológico; o corpo não é algo que surge por maturação neurológica, não é este o corpo do qual a psicanálise quer falar. A idéia fundamental de Lacan é que o corpo é algo que deve ser constituído, construído, e que esta construção não é da ordem do organismo biológico. O organismo biológico não está disperso nem fragmentado, muito pelo contrário, tem uma coerência funcional que o mantém vivo. Só podemos falar de corpo fragmentado, reino das pulsões parciais do auto-erotismo, a partir da existência de um corpo unificado pela libido narcisista.

A criança do espelho não constrói essa imagem do corpo a partir de sensações internas de ordem biológica mas a partir de dados que lhe chegam do exterior através de um processo psíquico de identificação com um outro que está fora, identificação com uma imagem que é do outro. Este processo se antecipa à maturação neurológica. Constrói-se essa superfície-corpo por identificação com uma imagem exterior antes de poder se contar com a maturidade biológica, antes de se ter um domínio sobre o organismo e poder manejá-lo de forma coordenada. A imagem do corpo é anterior à maturidade orgânica, por isso se diz que o corpo completo se constrói por antecipação, mas isto graças a um processo psíquico e não orgânico. Assim, quando a maturidade orgânica se produzir, só terá como caminho a seguir aquele já marcado por essa outra experiência que a antecedeu. Só para citar um exemplo, podemos lembrar que a identidade sexual humana está estabelecida antes da maturidade sexual do sujeito. Esta idéia nos ajuda também a entender melhor a diferença entre esquema corporal e imagem inconsciente do corpo elaboradas por Françoise Dolto, à qual nos referimos em páginas anteriores.

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Este espelho, então, não é mais que o olhar da mãe, ou seja, certa imago pre-existente no desejo materno com relação a esse filho. O olhar da mãe que, ao vê-lo, outorga-lhe determinados atributos com os quais a criança de identifica. Este corpo unificado e reconhecido na experiência do espelho irá sofrer depois duas grandes crises, dois momentos especiais em que será sentido como estranho. O primeiro será a adolescência, em que o corpo cresce meio desproporcionado, e o sistema endócrino traz muitas novidades, mas onde fundamentalmente há a promessa de um futuro pleno de realizações. Mas quando um idoso se olha no espelho, o que este lhe devolve é uma imagem ligada a uma deterioração, uma imagem com a qual ele não se identifica. Não há júbilo nem alegria, há apenas estranheza e ele pensa : “esse não sou eu”. Novamente uma discrepância entre a imagem inconsciente do corpo e a imagem que o espelho lhe devolve.

3- O VELHO, ESSE OUTRO

Como já apontamos em nossa introdução, a velhice é para Simone de Beauvoir um dos “irrealizáveis” sartreanos. Ela afirma que o sujeito não pode ter uma experiência plena do ser velho, esta sería uma experiência irrealizável em si própria, e a velhice, a decadência e a finitude são mais aspectos percebidos pelos outros, do que pelo próprio sujeito que envelhece. É o olhar do outro que aponta nosso envelhecimento. Assim, o velho será sempre o outro e tratamos de representar o que somos através da visão que os outros têm de nos.

Lembremos do episódio acontecido com Freud quando tinha aproximadamente 63 anos, com o qual exemplifica o sentimento do estranho inquietante. Ele nos conta : “Posso contar uma aventura semelhante que ocorreu comigo. Estava eu sentado sozinho no meu compartimento do carro-leito quando, devido a um violento solavanco do trem, a porta que dava para o banheiro anexo se abriu e um homem de uma certa idade, de roupão e boné de viagem entrou na minha cabine. Imaginei que ao sair do banheiro que ficava entre os dois, ele tivesse se enganado de direção e tivesse entrado por engano no meu compartimento. Precipitei-me para informá-lo do equívoco, mas percebi, completamente perplexo, que o intruso nada mais era do que minha

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própria imagem refletida no espelho da porta de comunicação. Recordo-me ainda que esta aparição me desagradou profundamente” ( Freud 1919, pag 57)

O conto “A Outra”, de Mariana Frenk Westheim, escritora mexicana , também ilustra muito bem o tema que aqui nos ocupa:

“Um dia a senhora NTS se viu no espelho e se assustou. A mulher do espelho não era ela. Era outra mulher. Por um instante pensou que fosse uma brincadeira do espelho, porém descartou esta idéia e correu a se olhar no grande espelho da sala. Nada. A mesma senhora. Foi no banheiro, no corredor, nos pequenos espelhinhos que carregava na sua bolsa, e nada. Aquela mesma senhora desconhecida estava lá.

Decidiu sentar e fechar os olhos. Sentia vontade de fugir para um lugar bem longe onde não pudesse se encontrar com aquela pessoa. Porém era mais prudente ficar por perto, não deixá-la sozinha. Observá-la.

Parou para refletir: quem poderia ser essa senhora? Talvez a que morou antes de mim neste apartamento?. Talvez a que morará aqui quando eu sair? Ou quem sabe, a mulher que eu mesma seria se minha mãe se tivesse casado com seu primeiro namorado? Ou quem sabe, a mulher que eu mesma teria gostado de ser?

Lancei uma rápida olhada no espelho e decidi que não. De jeito nenhum eu teria gostado de ser essa senhora. Depois de pensar muito tempo, a senhora NTS chegou à conclusão de que todos os espelhos da casa tinham enlouquecido, agiam como atacados por uma doença misteriosa.

Tentei aceitar a situação, não me preocupar mais, e simplesmente parar de me olhar no espelho. A gente pode viver muito bem sem se olhar no espelho. Guardei os pequenos espelhos de bolsa para tempos melhores, e cobri com panos os maiores. Um belo dia, quando por força do hábito estava me penteando frente ao espelho do armário, o pano caiu, e ali estava a outra me olhando, aquela desconhecida. Desconhecida? parece-me que já não tanto assim. Contemplo-a durante longos minutos. Começo a achar que tem um certo ar de família. Talvez esta dama compreenda minha situação e por pura bondade tente se adaptar a mim, a minha imagem que por tanto tempo habitou meus espelhos.

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Desde então , olho-me ao espelho todos os dias, a toda hora. A outra, não tenho dúvidas, se parece cada vez mais comigo. Ou eu com ela? (Frenk Wenstein, 1995)

O velho é sempre o outro em que não nos reconhecemos. A imagem da velhice parece sempre estar “fora”, do outro lado, e embora saibamos que “aquela” é a nossa imagem, nos produz uma impressão de inquietante estranheza, o apavorante ligado ao familiar. Apavorante porque a imagem do espelho não corresponde mais à imagem da memória; a imagem do espelho antecipa ou confirma a velhice, enquanto a imagem da memória quer ser uma imagem idealizada que remeta à familiaridade do Eu especular.

Quando o sujeito que envelhece diz: “esse não sou eu”, evidentemente nos diz que o rosto no qual ele poderia se reconhecer tranquilamente não é aquele. Como dissemos no parágrafo anterior, o reconhecimento de que falamos não se refere a uma ignorância do sujeito como tal, pois tanto o adolescente quanto o sujeito que envelhece sabem perfeitamente que aquela imagem lhes pertence, mas experimentam ante ela uma certa estranheza, um susto, como se a imagem fosse de outro: há uma falta de reconhecimento como imagem, não como sujeito. Não é o rosto que lhes corresponde. Aquele ali, o velho do espelho é outro, não é a representação conhecida por ele como seu próprio rosto; a representação conhecida de sua face ficou perdida, e em alguns casos, como na demência, para sempre.

Dona Fanny é uma bela senhora de 75 anos. De inteligência vivaz, gosta de conversar e se mantém ocupada em atividades prazeirosas; conserva sua autonomia e independênia graças a seu trabalho e desenvolve um vínculo saudável com seus filhos e netos .Ela está satisfeita com sua imagem, não acha nada de errado com seu corpo, cuida da sua saúde e doaspeto estético, mas a estranheza se presentifica quando olha as fotografias da juventude, alí percebe a diferença, como ela diz: “então era linda”, era linda “quando era o caroço, o centro da família”, quando tinha filhos pequenos para criar; agora ela se sente amada, cuidada, “mas não sou mais necessária”, …. ela acredita. O rosto procurado ante o espelho (ou nas fotografias) coincide com aquele das fases de maior satisfação narcísica, fases que de um ou outro modo remeteriam à ilusão de completude do Eu Ideal, de sê-lo todo. Quando o “ideal” fracassa, revela-se desde o simples descontentamento com a própria imagem até o pior dos horrores, como acontece

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com Dorian Gray quando enfrenta seu retrato envelhecido e decrépito, como reverso de um ideal para sempre perdido (Wilde, 1989). Podemos então pensar que, enquanto a criança se rejubila ante o espelho antecipando sua unidade corporal, o sujeito que envelhece se deprime, antecipando a decrepitude da velhice e a finitude da morte. Mas um sujeito bem harmonizado nas suas instâncias psíquicas encontra sempre como se defender das surpresas do espelho. Muitas vezes parece bastar um pequeno truque. Dona Maria outra de nossas entrevistadas de mais de 70 anos resolve a questão muito graciosamente: não usa os óculos de olhar de perto.

Este momento singular de estranheza ante a própria imagem, que chamamos espelho negativo, acontece na maioria dos casos antes da velhice se instalar, entre os 50 e 60 anos; é um fenômeno que anuncia a velhice em termos de estética, e que vem acompanhado de outros, relacionados com a funcionalidade do corpo e com o significado social que cada cultura outorga a esta fase da vida. A sensação é que a transformação acontece de repente, como se um relógio que marcava sempre a mesma hora começasse a funcionar bruscamente. Observamos que geralmente existe um fator desencadeante como uma doença, uma perda, ou até um fato proveniente do social, algo que venha de “fora” e localiza ao sujeito em um novo tempo. É sempre o outro que repentinamente nos nomeia “velhos”.

Dona Elzie de 76 anos é uma pessoa muito ativa, e de vida social intensa. Quando fala do corpo ela diz: “Estava pensando nessa questão do corpo que muda. Como eu já disse para você, eu sempre me olhei. Não sei se é curiosidade ou o que é, mas nunca tive vergonha de me olhar, muitas mulheres têm vergonha de se olhar então, quando se olham levam um choque. Eu não, eu acompanhei meu corpo, eu percebi as mudanças quando tive filhos, quando envelheci…………. Eu tento passar isso para minhas filhas, vocês devem estar sempre se olhando que é para não tomar choque, para não se deprimir e para se cuidar, não tem que se deixar decair”. Olhar-se sempre, criticamente, fazer com que o espelho seja um aliado e não um inimigo, driblar os efeitos do espelho enganoso e alienante, é uma solução, mas não a única para Dona Elzie, que na sua entrevista propõe: “ É verdade isso de pessoas que não se reconhecem. Acho que deveria haver nos centros de saúde onde funcionam grupos de terceira idade, profissionais que desenvolvessem um trabalho com as pessoas de 40 a 50 anos, para

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orientar sobre como elas vão envelhecer, de que maneira têm que proceder para aceitar, se olhar mais no espelho, se conhecer mesmo. Tem que ser feito esse trabalho para que as pessoas não sofram tanto assim.”

Com a primeira experiência do espelho positivo onde o individuo confirma sua identidade como imagem e diz : “sou eu” temos o ponto culminante da constituição do Eu; a criança se ilude com a unidade percebida que o faz sair momentaneamente da fragmentação e conhece, por um instante, o júbilo onipotente da perfeição. O espelho, como o positivo de uma fotografia, anuncia-lhe o Ideal. No espelho negativo, quando o sujeito diz: “não sou eu”, confirmam-se as perdas do declínio físico e antecipa-se a velhice e a morte. O envelhecimento anuncia-se, como já foi dito, em termos de estética. Bem antes da velhice chegar, assiste-se impotente às modificações corporais . O psiquismo porá então em marcha uma serie de mecanismos elaborativos, destinados a incluir novamente na instância egoica este corpo estranho que agride os ideais narcísicos, uma verdadeira “retomada” do próprio corpo , na velhice mais avançada.

“….que imaginação a de velhice para inventar feiúras” diz Bioy Casares no “Diário da Guerra do Porco”. A velhice, … essa coisa externa a nos inventar feiúras. Mas como Jorge Luis Borges afirma no “Elogio da Sombra”: : “A velhice (tal o nome que os outros lhe dão) pode ser o tempo de nossa felicidade” . Duas frases simples que parecem expressar uma oposição, mas devemos concordar que se as noções de feiúra e velhice se constituem em oposição à felicidade, isso não se dá senão por força do registro cultural. Então tal oposição verdadeiramente não existe, ou como tudo que é do registro da cultura, pode ser mudado e substituído por outra construção. É interessante lembrar que para os índios Nambiquaras existe só uma palavra para definir velho e feio.

A antecipação do envelhecimento encontra seu reflexo no espelho sob a forma de um eu de feiúra que é rejeitado (“esse não sou eu”) e que pode se manifestar desde uma simples estranheza até um verdadeiro horror. Ou seja, instala-se uma tensão entre o Eu Ideal e o Eu que deve ser regulada pelo Ideal do Eu que, como instância representante do social e seus discursos pode não estar outorgando ao sujeito que envelhece um lugar de sujeito desejado. Caso este sujeito não encontre um lugar de reconhecimento, o Ideal do Eu não tem como sustentar sua função reguladora. Junto

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com a queda do Eu Ideal, desabarão outras imagens narcísicas de onipotência, perfeição e sabedoria, que darão lugar aos atributos de um Eu de ”feiúra” ou “horror”(3) com sua carga de castração, desmembramento e aniquilação. A tensão agressiva, voltada contra si próprio, e sem uma função reguladora adequada, pode precipitar ao sujeito nas patologias da velhice que irão desde a simples depressão até a demência, dependendo sempre da singularidade de cada estrutura.

Em relação à funcionalidade, e não mais à estética, observamos que as limitações próprias de um corpo desgastado pelos anos também anunciam de forma assustadora a velhice mais avançada, especialmente no que se refere à perda de autonomia e independência. No período atual de nossa cultura, os homens parecem mais sensíveis a este aspecto que ao estético, e é sobre as perdas de funcionalidade e força que depositam suas maiores ansiedades. O próprio corpo novamente sentido como um estranho, porque o desejo continua forte, é o corpo que já não serve como instrumento para sua satisfação.

Vejamos o que nos diz o Sr Bispo ” …. eu penso bem para frente porque já estou com 63 anos e continuo pensando no futuro como quando era novo, mas não dá para fazer as coisas como quando era novo; quando era novo eu pensava e ia fazendo, um trabalho mais pesado, uma construção…………agora também faço as coisas com todo prazer graças a Deus, mas naquela época era o prazer do pesado……Mas quando eu ficar mais velho, ainda penso se eu precisar…. às vezes a gente não tem a compensação dos filhos, a gente pensa muito isso, mas eu tenho muita fé em Deus, que a gente não vai cair nessa dificuldade. O desejo permanece forte, mas quando o corpo fraqueja, parece melhor não desejar tanto “ …..eu penso…. continuar trabalhando fora daqui, mas o corpo às vezes não dá, a gente pensa, quer fazer, mas o corpo não dá… não há necessidade de tanto, para quê tanta coisa?”

Na velhice mais avançada , o mais preocupante não é a proximidade da morte nem o aspecto estético da deterioração física, mas a decadência orgânica, a falta de força, a perda da memória, a doença que desemboca na dependência.

_____________________________________________________ 3- Termos usados respectivamente por Jack Messy e Diana Singer

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Se o eu se instaura pelo reconhecimento do outro, podemos nos perguntar o que acontece quando falta esse reconhecimento, quando o corpo não é mais objeto do desejo. Os limites do mapa que o desejo do outro desenha no corpo de um sujeito vão-se apagando, deixando o ancião com um corpo sem contornos precisos, e desencadeando a hipercatexização dos órgãos internos. A preocupação centrada em um órgão doente evita a angústia diante do todo de um corpo decadente, e embora a doença represente um ataque narcísico aos ideais de onipotência e perfeição, localiza o sujeito em um outro papel, que será o de ser um “velho doente”. Conseguirá desta forma um beneficio secundário, o de ser tocado, cuidado, motivo de preocupação.

Na maioria das consultas na clínica psicológica de idosos as queixas somáticas são bem mais frequentes que em qualquer outra faixa etária. Claro que esta é uma preocupação real, tanto quanto o valor das aposentadorias, a solidão, e a vida dos filhos e netos, temas também bastante frequentes, mas a impressão que se tem é que falar de um corpo que sofre (geralmente mais do que os outros) sería a única forma de se falar de si mesmo, de um si-mesmo doente. Assiste-se a um verdadeiro desfile de órgãos deteriorados, membros desobedientes e sintomas intermináveis. Esta hipercatexização do corpo sofredor nos faz pensar no valor relacional que adquire o padecimento do corpo. O padecimento físico pode obturar o reconhecimento de uma falta, de uma ausência, de um luto que não pode ser elaborado. O corpo doente é um corpo altamente investido, e assim a doença permite satisfazer a necessidade de dependência, a criação de vínculos, constituindo-se numa forma eficaz de tornar-se objeto de investimentos amorosos, quando outras possibilidades parecem dificultadas.

Voltando à questão da estranheza em relação ao próprio corpo, observa-se um paradoxo na relação destes sujeitos com seus corpos sofredores. Apesar dos altos investimentos realizados, aparentemente estabelecem uma relação de distância com seus corpos quando o nomeiam em terceira pessoa: “Este corpo já não serve mais para nada”, “Eu quero correr mas meu corpo já não me deixa” ou “Meu corpo já não me permite descansar”. Ou quando a preocupação se reduz a um órgão que concentra a dor e o sofrimento: “Minhas pernas já não obedecem “, “este coração vai me matar” , ou

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“seria melhor jogar este fígado aos gatos. Falam do corpo como se fosse um outro, talvez uma criança desobediente e rebelde que demanda muita atenção e da qual nada se pode esperar. Além dos altos investimentos e do usufruto de benefícios secundários, estabelece-se uma relação de desconfiança. O corpo deixa de ser aliado confiável para se converter em um inimigo que é necessário controlar e cuidar constantemente.

Nestes envelhecimentos mais “patologizados”, observamos que o órgão doente é investido libidinalmente, órgão parcial erogeneizado sobre o qual a libido (antes concentrada pela primazia da sexualidade) se retrai quando não acha outros objetos nem formas de satisfação apropriadas. Muitas outras condutas não ligadas à doenças, como aquelas do tipo regressivo que descrevia Ferenczi, e às quais voltaremos no próximo capítulo, podem ter a mesma explicação. Então devemos concluir que, embora o velho seja um sujeito em “suspensão” – tal como dizíamos na introdução deste trabalho- não se sentirá indesejável se, além de contar com uma boa estrutura psíquica, o meio colaborar para que faça investimentos adaptados à realidade; se não for colocado de “escanteio” e especialmente se tiver tido condições para desenvolver ao longo de sua vida capacidades sublimatórias, que assim estarão disponíveis quando mais precisa delas, ou seja diante das freqüentes e intensas perdas próprias desta faixa etária. Um Ideal do Eu bem estruturado resistirá às agressões do tempo, da imagem e dos mandatos sociais e não sucumbirá às feridas narcísicas: o Ideal do Eu não será assim soterrado pelo Eu de feiúra e horror.

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CAPÍTULO II
O TRABALHO DO TEMPO

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El porvenir es tan irrevocable Como el rígido ayer.
No hay una cosa
Que no sea una letra Silenciosa

De la eterna escritura Indescifrable
Cuyo libro es el tiempo. Quien se aleja

De su casa ya ha vuelto. Nuestra vida
Es la senda
Futura e recorrida.

El rigor ha tejido su madeja.

JORGE LUIS BORGES: “I CHING” in: “El libro de las mutaciones”

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“A beleza da vida provém de seu caráter essencialmente fugidio”. FREUD

A vida se desenvolve entre o nascimento e a morte, este tempo vivido é o tempo subjetivo de formação do eu. A idade cronológica se define pelo tempo que avança, e pouco tem a ver com o tempo vivido, porém o tempo humano avança inelutavelmente em direção à morte. No entrecruzamento desses tempos acha-se o sujeito que percebe seu envelhecimento, aquele que deixa de contar os anos vividos e começa a fazer planos para os anos que ainda lhe restam viver e que deseja aproveitar intensamente.

O tempo do envelhecimento está ligado à consciência de finitude, que se instaura ao longo da vida nas diferentes experiências de proximidade com a morte, mas que na velhice adquire a dimensão do iniludível. Dona Maria, como todos os outros depoentes é também uma pessoa ativa, poderíamos dizer que está de bem com a vida e têm grande facilidade para estabelecer contatos positivos espeialmente com as gerações mais jovens. Mas ela nos diz a este respeito: “Para mim, eu achei que não ia envelhecer nunca, o tempo passou muito depressa, só acordei quando fiz 70 anos, achei que foi uma coisa muito rápida e não percebi, de maneira alguma, tanto que eu queria viver a vida toda, não queria morrer, não queria envelhecer, queria voltar um pouco, agora que passei pela vida, eu queria voltar e aproveitar o tempo que eu era mais jovem”.

A evolução da humanidade exige um constante reordenamento da relação do homem com o tempo. Homem e tempo se influenciam mutuamente, produzindo profundas mudanças nas subjetividades e diferentes representações que lhe permitem lidar com a questão temporal.

A modernidade veio marcar o “fim da história”; neste nosso tempo de presente perpétuo, o registro das experiências, ainda que na simples forma de avaliação do cotidiano, faz-se impossível pois o que acabou de acontecer já pertence a um passado descartável. Este é um tempo de consumo e produção de imagens, onde não existe o tempo necessário para a resignificação dos acontecimentos, para sua elaboração e simbolização.

Observamos na atualidade uma frequente tendência ao isolamento como produto de uma queda dos valores coletivos, que por sua vez acarretam o empobrecimento dos afetos entre os indivíduos e dos laços sociais sustentados na

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identidade e solidariedade dos grupos. A possibilidade de um sujeito produzir “sua história” depende da construção de um discurso onde se dê conta da questão da filiação e identidade. Este processo de “historização” será afetado pela falta ou pela descategorização de objetos identificatórios, que não são fixados, registrados como posse e referencial do grupo.

A idéia do tempo não escapa desta articulação; é sobre ela que se organiza grande parte da subjetividade e se faz história. Tempo encarnado na modernidade como progresso referido sempre às noções de apropriação, acumulação e consumo tanto de bens materiais como intelectuais ou culturais. Esta idéia de progresso organiza as subjetividades priorizando o individual sobre o coletivo, dando lugar a uma maior permissividade para as tendências destrutivas organizadas como rivalidade e oposição. O passado é sempre ultrapassado em favor de um porvir ilusório, que prejudica os investimentos na realidade presente, e o futuro é superinvestido como única possibilidade de satisfação. Cria-se assim um tempo vertiginoso que não permite a valorização do presente. Situação no mínimo problemática para quem vê, por causa da idade, encolher o horizonte de futuro e para quem conta com o capital da experiência passada como valor fundamental .

1-TEMPO E PSICANÁLISE

Embora não exista nenhum texto freudiano que trate formalmente a questão do tempo, este conceito se faz presente ao longo de toda sua obra. Entre outros, podemos citar: o Manuscrito K (“As Neuroses de Defesa”) de 1896 onde o “efeito de posterioridade” da recordação já é considerado como mais poderoso que a experiência que a originara; em “O Poeta e o Fantasiar” (1908) faz referência aos fatores temporais da atividade representacional. De 1920 é o “Além do Princípio do Prazer”, talvez o texto onde mais Freud fala de tempo, mais exatamente da atemporalidade do inconsciente, tema que retoma também em “A Negação”, de 1925. É o mesmo ano de “Nota sobre o Bloco Mágico” quando Freud diz: “Supomos que do interior sejam constantemente enviadas ao sistema perceptor e retiradas dele inervações de carga psíquica. Enquanto o sistema se mantém investido de energia psíquica, recebe as percepções acompanhadas de consciência e transmite o estímulo aos sistemas mnêmicos inconscientes. Mas quando

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a carga de energia psíquica lhe é retirada, apaga-se a consciência e cessa a função do sistema. Como se o inconsciente emitisse através do sistema receptor e em direção ao mundo exterior, uns sensíveis tentáculos e os retraísse una vez comprovados os estímulos. Na nossa hipótese atribuimos as interrupções que no caso do “bloco maravilhoso” provocam una ação exterior, ao efeito de uma descontinuidade das inervações, e no lugar de uma supressão real do contato, “supomos uma insensibilidade periódica do sistema perceptor. Por último, supomos também que este funcionamento descontínuo do sistema perceptor constitui a base da idéia de tempo”. Freud (1925)

Podemos observar que neste texto o autor diferencia o sistema perceptivo do sistema da memória (que guarda as marcas mnêmicas perduráveis, mas não inalteráveis) e sugere que a descontinuidade do funcionamento destes sistemas é que fornece o modelo para a idéia do tempo sucessivo que domina a consciência . Mas aparentemente esse era um tema que oferecia grandes dificuldades a Freud. Em novembro de 1938, já com 83 anos e pouco antes de sua morte, escreve a Marie Bonaparte: “Seus comentários em relação ao tempo e ao espaço pareceram-me melhores do que poderiam ter sido os meus, embora no que respeita ao tempo, ainda não lhe tivesse informado de todas minhas idéias. Na verdade, nem a você nem a ninguém. Uma certa repugnância por uma tendência subjetiva a deixar voar minha imaginação , levaram-me sempre a me conter” (Freud, 1976, carta do 12-11-38, pág 198)

Para o próprio Freud, este conceito parecia quase inapreensível nos termos em que ele desejara (mais científicos que filosóficos), e sempre suscetível de uma aproximação subjetiva , o que contrariava sua permanente disposição para garantir um estatuto científico para a psicanálise.

Percorrendo os textos acima citados, fica claro para o leitor como a questão do tempo permeia toda a produção teórica freudiana. Freud nos fala de tempo de rememoração, de repetição, de posterioridade; do tempo mítico das origens, do tempo resignificante da historização. Pode-se em sua obra encontrar o tempo como fator determinante da construção da subjetividade humana, no ordenamento e diferenciação das instâncias psíquicas, na construção enfim da “história vivencial” do sujeito que resiste a toda linearidade cronológica, a toda possibilidade biográfica e a toda realidade objetiva. Trata-se aqui de uma história “retroativa”, onde o presente tem influência

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sobre o passado que se atualiza na repetição; é sobre esta atualização que se faz possível qualquer intervenção (Freud, 1937) . É a partir do presente que experiências inscritas como marcas mnêmicas são modificadas, recuperadas e resignificadas, produzindo o atual sob a forma de acontecimentos significativos, crises, lutos sucessos ou fracassos.

À psicanálise interessa sempre a história atualizada, retomada e ao mesmo tempo modificada pela particular leitura que o sujeito faz dela. Não é simplesmente uma “ação diferida” no tempo, como se poderia mal-entender apenas a partir do “efeito de posterioridade”, não é o retorno idêntico de um acontecimento do passado.

Jean Laplanche explica isto muito bem quando diz: “Cada circunstância importante de sua vida (demos os exemplos de um luto ou de uma psicanálise) é para ele – o ser humano – ocasião de recolocar em questão a tradução presente, de de-traduzi- la voltando-se para um passado e de tentar uma melhor tradução desse passado. Tradução mais abrangente, menos recalcante, com os recursos renovados. Os momentos fundamentais da temporalização humana são aqueles onde se produz este remanejamento no efeito de posterioridade . Porque atualiza retroativamente experiências passadas, cada acontecimento significativo pode fazer surgir novas histórias para o mesmo sujeito. Este não terá só uma história biográfica única e linear, mas várias “histórias vivências” de constante descentramento entre o que muda e o que permanece, entre o Eu e seu eterno devir. Lacan diz: “A história não é o passado. A história é o passado, historizado no presente porque foi vivido no passado” e Sylivie Le Poulichet acrescenta: “Era preciso um acontecimento novo para que o acontecimento antigo ressoasse e tivesse acesso à presença. Ele já estava ali, mas chega repentinamente. É um já-ali que só toma corpo posteriormente. No campo psicanalítico, essa temporalidade organiza não apenas a constituição do sintoma no só-depois, pela via do recalque, mas também a historização do passado no presente. Esta não pode, efetivamente, assimilar-se à procura de um passado sepulto, que se estagnaria em alguma profundeza, como depósito inconsciente…..É também no próprio movimento, pelo qual ele se apreende e se conta como mortal, que o sujeito faz com que seu passado tenha acesso à dimensão da história. Assim, a história não pode ser confundida com o passado, nem aliás, com o vivido” (Le Poulichet, 1996, pág 18). Neste sentido entendemos que a memória que constrói a “história vivencial” de um sujeito não é uma simples acumulação de

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recordações, mas a revivescência de uma trama de sequências significativas, isto é, uma memória não de fatos com sentido e coerência lógica, mas de acontecimentos com a possibilidade de produzir efeitos de sentido e significação no presente.

O que interessa desse passado que se evoca é aquilo que tem a ver com sua repetição atualizada, e a questão da história e da repetição constituem o núcleo central que definirá a relação do homem com o tempo, relação entre o ser e o devir, entre a “permanência e a mudança”, princípios que regem o processo identificatório como já vimos no texto de Piera Aulagnier em que se refere ao compromisso identificatório assinado pelo eu (Aulagnier, 1991)

A “experiência temporal” é própria do ser humano, já que ele é o único ser vivo a se reconhecer finito e a organizar sua vida em torno desta realidade. Esta idéia do tempo se constrói sobre a ilusão de uma sucessão interminável de instantes. Neste constante fluir, cada acontecimento, cada experiência significativa deixa sua marca que guardará uma relação de causalidade com um acontecido antes e com um efeito posterior. Este movimento garante uma construção histórica onde o sujeito não seja um mero espectador, mas possa intervir ativamente, tentando modificar os efeitos segundo suas vontades ou conveniências. Mas a causalidade não explica a totalidade da experiência temporal. O efeito que a repetição provoca na consciência é o de uma aleatoridade dos acontecimentos; estes se apresentam como sem causa, produzindo uma espécie de espaço vazio de significação que nos impõe a idéia da fatalidade, do incontroláve (Bianchi Hugo, 1991) . Não há nada que o sujeito possa fazer para evitar ou modificar o que o destino determina, ficando totalmente submetido a ele. O “destino” operará então como uma trama de fatos, de causas desconhecidas e sem significação, resumindo tudo o que se opõe à construção histórica regida pela causalidade. Assim entendida, a repetição tem a função de resistência à elaboração. Porém ela tem também uma função construtiva de psiquismo e memória já que, por um lado, de tanto se repetir, o “destino” levanta suspeitas sobre uma “outra” causalidade que escapou ao apanhado biográfico; e por outro, o sujeito buscará sempre repetir, como reencontro, a satisfação narcísica originária, base de todo processo de identificação. Permanente procura na forma de repetição inconsciente que será eterna, porque o objeto achado será sempre um substituto. Assim, suprimir a repetição seria renunciar à identificação, não ter ancoragem

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nem referencial. A história moderna baseada na sucessividade temporal é também acumulativa. Isto provoca a idéia de que nas sociedades pré-modernas os seres humanos eram menos inteligentes que hoje, como se devesse existir um tempo originário de ignorância que sustentasse a idéia de um progresso cumulativo. Nessa perspectiva, os velhos, que “pertencem a outro tempo”, não seriam mais sábios por terem vivido mais, mas um pouco tontos, por estarem próximos da linha do fim, que é a mesma coisa que dizer origem. Origem e fim, onde o tempo linear acaba. Estariam quase “fora do tempo”.

Mas quando falamos de história em psicanálise, falamos de um processo de recriação, de resignificação simbólica do passado que não se esgota no tempo. É o princípio de realidade que vem impor a temporalidade do processo secundário, que organiza o tempo em forma linear e sucessiva (presente-passado-futuro) permitindo que o desejo encontre vias possíveis de satisfação. O sujeito deverá sofrer a insatisfação do adiamento do prazer e guardar as marcas dos erros e dos sucessos acontecidos durante a procura da satisfação, instituindo, enfim, a memória. Então, a “temporalização” do sujeito gera-se na relação subvertida das três dimensões do tempo linear é a partir do presente que podem se avaliar as realizações passadas e planejar o futuro, tentando sempre reparar o que pode ser considerado como seus erros, bem como repetir os acertos. É o tempo já vivido, passado, que dá sentido ao presente e se projeta no futuro, mas é ante a consciência da finitude desse futuro que se impõe ao sujeito uma exigência de retificação. Este “tempo psicológico” da experiência humana é o ponto onde a subjetividade se ancora, onde o eu se reconhece como histórico, e a partir do qual se projeta no futuro. (Laplanche, 1990).

A psicanálise mostra que todo processo de subjetivação só é possível na alteridade histórica. Mas aqui já estamos falando de outra história, não biográfica nem universal. Aqui falamos da história dos vínculos, de alteridade, de afetos, de singularidade, de negação de tempo cronológico. Não há história sem o outro, não há história no isolamento.

Para se constituir, o Eu precisa do outro com quem se identificar. “Sua majestade o bebê” só será Ideal como enunciado identificatório onipotente dos pais, e embora seja preciso abandonar este lugar incompatível com a realidade da vida, esta

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renúncia jamais será total, e o sujeito estará eternamente à procura daquele paraíso perdido, sob a forma das identificações secundárias do Ideal do Eu. A renuncia à satisfação imediata, o adiamento da satisfação, o investimento em objetos substitutivos, lançam o sujeito rumo a um futuro de promessas onde espera recuperar aquilo que imagina, alguma vez (no passado) ter sido (ideal). Vemos então como, neste esforço por recuperar a imagem ideal, vão se criando novas instâncias psíquicas com diferentes temporalidades. Tempo de repetição e tempo de recordação, de se fazer história.

Este processo que podemos chamar de subjetivação historizada, tem como base – além dos desejos parentais – a história do outro ou outros primordiais, que será também uma história da cultura. A criança se subjetiva e se historiza dentro de uma rede que já é histórica. A cultura outorga ou nega as possiblidades da memória, oferece ou não os suportes necessários para a construção dos espaços possíveis de simbolização.

Do ponto de visto tópico, haverá dois registros temporais. Atemporalidade do inconsciente que não significa um inconsciente fora de qualquer tempo, mas no presente constante da repetição, cujos processos ignoram toda cronologia, tempo que “não passa” não cessa e, como testemunham seus efeitos, não sofre alterações pelo “transcurso” do tempo. Inconsciente que desconhece qualquer linearidade temporal. A única ordem possível será então a do processo primário: representação de coisa, energia livre, identidade de percepção, repetição; o âmbito de um tempo de presente absoluto onde o que se repete é uma identidade do mesmo. Quanto ao processo secundário, encontramos como características: representação de palavra, energia ligada, identidade de pensamento; a repetição será a tendência à reiteração do desejo, ou seja uma repetição cuja essência não seja uma repetição compulsiva (5) do mesmo, e sim uma diferenciação com o registro primário que possibilite o processo de recordação. Não se trata, porém, de uma anulação dos modos anteriores de funcionamento, mas de diferentes processos

_______________________________________________________________________ 5- Para Emiliano Galende a repetição compulsiva não deve se confundir com as formas de repetição do prazer que achamos na fantasia, na criatividade, na sublimação e na transferência, produtos de “sangue misto” entre processo primário e secundário, entre tempo de repetir e tempo de recordar. A repetição compulsiva é o modo falido de relação com o outro, aquilo da experiência do sujeito que não encontra ligação nem possibilidade de tramitação psíquica (o traumático), permanecendo como pura insistência do mesmo.

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psíquicos com diferentes temporalidades.
Por um lado temos então processo primário, pulsão de morte,

desinvestimento objetal e tempo de repetição compulsiva do mesmo com sua tentativa de não-frustração, não-sofrimento, estado zero de tensão, anulação da identificação objetal, condensação, deslocamento, isolamento, demência, loucura e morte. Por outro, processo secundário, pulsão de vida, e tempo de recordação, elaboração e consequências de investimentos objetais, criação de laços sociais cada vez mais amplos, criação do tempo sucessivo, historização, memória e desejo. Eros e Tanatos, história e repetição.

Chegados neste ponto, devemos nos perguntar como nasce no psiquismo a representação do fluir do tempo, do tempo como transcurso.

Quando Freud analisa os efeitos do tempo no psiquismo e as condições que determinam sua representação, o faz primeiramente a partir de uma perspectiva econômica, e depois tópica. Estabelece uma relação entre quantidade de excitação e intensidade de uma impressão. Dominar esta intensidade constitui um trabalho psíquico que pode tomar diferentes vias, não se reduzindo à simples inscrição da experiência promotora de pura repetição, e sim fazendo um verdadeiro trabalho de elaboração, como por exemplo acontece com as crianças nos jogos e nas fantasias, onde repetem situações que as penalizaram, passando da passividade à atividade, elaborando a impressão traumática.

Não se tem memória do período em que o Eu arcaico ainda não opera como historiador, anterior à aquisição da linguagem e fundado nos enunciados maternos. Neste primeiro momento, as intensidades submergem o Eu – ainda indiferenciado do Id – com impressões extremas que o marcam em um tempo ainda não linear. Só depois estas marcas e mensagens serão resignificadas na sucessividade histórica do Eu diferenciado.

Para Piera Aulagnier em “A Violência da Interpretação” diz que o surgimento do Eu se relaciona com a entrada em cena das categorías de tempo e espaço. É na espera pelo objeto que não chega, ou melhor, que não está ali, sempre à sua disposição ou formando parte dele, que o bebê descobre um interior e um exterior, descobre lugares, porque experimenta a ausência. Neste sentido, a noção de tempo vem antes da de espaço.

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Como poderíamos agora pensar estas questões quando aplicadas à problemática do envelhecimento? Como vimos, o Eu que se estrutura no tempo sucessivo exige continuidade, não aceita a morte, se angustia com sua proximidade, e para se acalmar prepara-se para ela. Se não existe possibilidade de criação de uma nova subjetividade que reorganize as instâncias modificadas no processo, assistimos, como tantas vezes se verifica no processo de envelhecimento, ao aniquilamento do eu sob a forma da demência.O Supereu inconsciente, em sua função tirânica, cumpre muito bem a função de resistir ao novo, à mudança, à construção histórica. Observamos frequentemente que ante a perspectiva do fim da vida, de não-ser-mais-eu, quando se perdem a atividade e a sexualidade como balizamentos fundamentais do Eu, produz-se uma avalancha de angústia que não é controlada pelo supereu-consciência, produtor de valores ideais. O Supereu tirânico então, nos impele a levar nosso desejo até sua máxima realização, sem se importar com prazos, adequações ou conveniências. Desconhece a realidade (e o tempo) do consciente, e só obedece ao apelo do Id de violar qualquer proibição. O Supereu da moral, da consciência, da mesura, sofre um apagamento, uma erosão, e o eu tira dessa erosão a liberdade necessária para usufruir de satisfações regressivas. Como se o papel do Supereu só fosse possível na medida que o Eu acreditasse em alguma forma de imortalidade, mesmo que apenas através da identificação com objetos transcendentes que lhe assegurem uma continuidade ilusória, ou qualquer coisa que lhe garanta um sentido e uma permanência (Nasio, 1991). Assim sendo, podemos compreender que, face à morte, pareça supérfluo sustentar leis e interdições morais.

Víamos que o Eu exige continuidade, que só será garantida pelo fluxo constante de investimentos em objetos significativos. Agora: como esse intercâmbio energético vai se manter, se o Eu está de luto pela proximidade da perda da própria vida? Só se a sublimação puder ser mantida garantindo um sentido à vida, ou se o objeto for suficientemente digno de um tal investimento que justifique uma certa atitude apaixonada;. mas sobre este ponto voltaremos no último capítulo, quando analisaremos as vias possíveis para o envelhecimento

O desinvestimento da realidade exterior como consequência do empobrecimento do espaço social quebra o processo de constituição de uma

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temporalidade histórica, promovendo uma economia narcísica de empobrecimento do Ideal do Eu e uma exacerbação dos mecanismos ligados ao Eu Ideal. Incrementa-se o isolamento e se enfraquece a ação dirigida a objetos externos. (6)

Dizíamos que o nascimento do tempo psíquico acontece a partir da necessidade de tratar da intensidade, (Freud, 1920) trabalho que pertence ao Eu, assim como a identidade e a sucessividade temporal. Mas como já vimos, o Eu se constitui no processo de identificação com os objetos que lhe são oferecidos como ideais. Estes objetos, porém, não são permanentes nem infalíveis; sua ausência vai abrindo brechas para a passagem da satisfação alucinatória (como na succão do dedo), para a identidade de pensamento e para a busca de objetos substitutivos; o choro que chama o objeto vai ser substituído pela palavra que nomeia a ausência. Se não houvesse obstáculos, tudo seria uma eternidade sem cortes, um tempo homogêneo, um tempo a-temporal. O processo secundário, com a energia ligada e a satisfação retardada, possibilita uma certa estabilidade das representações investidas, um reinvestimento constante naqueles objetos valorizados. No processo primário, o tempo se estende sem rupturas, com extrema labilidade das representações que se condensam e deslocam num incontrolável amontoado . A percepção do transcurso do tempo nasce então a partir da necessidade de dominar a intensidade, possibilitando a distinção sujeito-objeto, diferenciando instâncias, como intervalo, enfim, para a satisfação do encontro.

Para Henri Bianchi “o tempo é uma dimensão formadora do campo onde a vida psíquica se desdobra” (Bianchi Henri,1991 pág XIII). O tempo de vida é o tempo que corre entre o nascimento e a morte, e neste prazo acha o sujeito o limite para seus desejos e para o encontro com seus objetos. A própria identidade, submetida a esta _______________________________________________________________________

6- Sobre sublimação, o Vocabulário de Laplanche e Pontalis diz: “Freud, ao longo de toda sua obra, recorre à noção de sublimação para tentar explicar, de um ponto de vista econômico e dinâmico, certos tipos de atividades alimentadas por um desejo que não visa, de forma manifesta, um objetivo sexual: por exemplo a atividade artística, a investigação intelectual e, em geral, atividade a que uma dada sociedade confere grande valor. É numa transformação das pulsões sexuais que Freud procura as causas últimas destes comportamentos. “ A pulsão sexual põe à disposição do trabalho cultural quantidades de força extraordinariamente grandes, e isto graças à particularidade, especialmente acentuada nela, de poder deslocar a sua meta sem perder, quanto ao essencial, a sua intensidade. Chama-se a esta capacidade de trocar a meta sexual originária por outra meta, que já não é sexual mas que psiquicamente se aparenta com ela, capacidade de sublimação”

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passagem do tempo, é ativamente constituída pelo trabalho de elaborar estes limites sempre fugidios. O “curso da vida” não se nos apresenta como um “curso de tempo” regular, ante o qual o sujeito é um mero espectador. A experiência psicológica do tempo não é exterioridade, mas produto de um labor psíquico, estruturante de identidade. Envelhecer, então, não será seguir um caminho já traçado, mas construí-lo. Eis o trabalho do tempo: a construção de subjetividade.

Se em qualquer idade a questão fundamental é manter-se vivo, no final da vida este trabalho é muito mais difícil. O Eu que se constrói no tempo sucessivo e linear se confronta então com uma dupla exigência: renunciar a uma certa forma de continuidade biológica, e conservar um sentido para essa vida que está próxima do fim. Trata-se então de analisar os destinos da identidade confrontada com os limites temporais.

Assim como as crianças não aceitam o fato de não terem estado presentes antes do nascimento, o adulto se recusa a entender o fim, e não pára de questionar estes limites (origem e fim), procurando um sentido para a vida que fatalmente lhe escapa. A identidade resulta então um trabalho psíquico de integração dos limites, para construir uma continuidade ideal sobre algo que é descontínuo. Construir uma história cujo começo e fim ignoramos. Neste sentido, podemos entender que talvez o mais difícil da morte não seja deixar de viver, mas o medo de cair em um indiferenciado, em um “não- ser”, verdadeira experiência de aniquilação. Antes do nascimento, depois da morte, origem e fim, fonte e abismo. O que fica fora das “bordas” da identidade é um “indizível”, um inominável onde a identidade (e o ser) se perdem. As diversas culturas, com sua riqueza de recursos, virão então a acalmar a angústia humana com esquemas organizadores que dêem conta destas bordas, através de construções míticas que interpretem estes fantasmas originários.

No “Bardo Thodol”, o livro tibetano dos mortos, um recitante explica ao moribundo a situação pela qual está passando e as armadilhas que o aguardam antes do fim. O objetivo da recitação é promover uma separação da alma, evitando assim uma reencarnação, sempre dolorosa para os budistas, mas que através das representações trabalhadas oferece uma via de derivação para a intensidade pura, atuando como verdadeira defesa contra a angústia .

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2- O TEMPO E A QUESTÃO CLÍNICA

Quando se começa a trabalhar as questões do envelhecimento do ponto de vista da psicanálise, surge uma primeira inquietação. Perguntamo-nos se as consequências da passagem do tempo de vida de um sujeito estão relacionadas com sua singular estruturação psíquica, ou se guardam autonomia com respeito a ela. Na clínica vamos priorizar o que acreditamos ser o estado de velhice, ou a particular organização psíquica de cada paciente ? O que escutamos quando um idoso fala: a velhice? a neurose? A velhice, em si mesma, constitui uma problemática? Dito de outra maneira, existem “coisas de velhos” independentes das produções de um sujeito ao longo da vida?

Sem dúvida alguma existem uma série de fatos observáveis, especialmente na esfera do corpo, que nos fazem definir um sujeito como velho. Cabelos brancos e ralos, rugas, falta de tonicidade muscular, deformações artrósicas e perda neuronal não são características de juventude. Mas sabemos que certos traços de caráter e mecanismos psíquicos frequentemente atribuidos ao envelhecimento, como uma atitude ranzinza, alguma dificuldade sublimatória, ou resistência às mudanças, por exemplo, não são exclusivos dos velhos.

Sigamos por um momento as elaborações de Henri Bianchi . Ele se pergunta se existe um “mal do tempo” e se este teria autonomia em relação a qualquer outro, constituindo uma patologia autônoma, uma problemática particular, ou se, pelo contrário, o mal do tempo não seria um fenómeno da ordem de um processo de erosão ou desgaste do psiquismo. Mas antes de prosseguir, detenhamo- nos ante este singular denominação. “Mal do tempo” remete a doença, a dano, a patologia…. então, o tempo faz mal? Continuemos elaborando estes pontos, para achar uma resposta que, como tal, só poderá ser insuficiente e transitória.

A problemática do envelhecimento forma parte da evolução da temporalidade humana; como momento de crise exige um reordenamento dos recursos disponíveis, e neste sentido não seria diferente de outras situações que a passagem do tempo impõe ao sujeito.

Para Bianchi, “…a estrutura cria uma espécie de campo de gravidade no qual o sujeito está envolvido e durante a vida toda, ela continua sendo este campo. Ela é

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o fator inercial. Ela é aquilo por meio do que se dá a passividade do sujeito……..Mas a estrutura não é tudo, não encerra toda a problemática do envelhecimento. E precisamente o sujeito é afetado por outras vias que não a estrutura” (Bianchi Henri, 1991, pág 63). Vemos então que este autor trabalha com um conceito de estrutura que, embora represente um pólo mais ou menos estável, é um verdadeiro campo de operações no qual o sujeito, sempre modificável, está incluído. Ele sustenta a idéia de que, apesar de no envelhecimento poderem se produzir mudanças significativas nos quadros clínicos (como melhora das síndromes ansioso-fóbicas, efeito atenuador sobre as obsessões, regressão de fenômenos de conversão histérica que se mantêm apenas como traços de caráter típicos, como também a evolução de quadros paranóicos para a melancolia ou de histéricos para depressão), a estrutura em si não muda, exceto no referente às defesas. Uma vez constituída a estabilidade (na infância) , que é também uma estabilidade no tempo, ela se apresenta como não-submetida às vicissitudes históricas do sujeito. E acrescenta ainda no mesmo texto: “Creio que as eventuais alterações tardias que acabam de ser evocadas, longe de questionar a passividade da estrutura em sua relação com o tempo, antes assinalam a intervenção de uma problemática ativa diante do tempo, que diz respeito ao sujeito e não mais à estrutura” (Bianchi Henri, 1991, pág 62)

O sujeito é, para Bianchi, uma noção que não se confunde com uma categoria clínica. Entidade múltipla, produto de um processo de subjetivação sempre inesgotável, fixa-se apenas provisoriamente no Eu. Em seu reconhecimento como entidade unificada, é como uma parada, ou como já dissemos uma ancoragem, que se dá no Eu e que sempre pode ser revisada e modificada. Mas haverá sempre um ponto de fixação (do narcisismo primário) onde o sujeito só pode ser tal porque se acredita imóvel ante os movimentos que o cercam e ante os quais resiste para poder ser sempre o mesmo. O envelhecimento aparecerá como provocador de mudanças ameaçadoras que afastam o sujeito desse ponto central do qual o Eu acredita se constituir. Assim será sempre algo vivido como exterior ao sujeito; este estará sempre excluído deste processo que ele próprio não pára de divisar sempre próximo de si, sempre nos outros.

Estes pontos de resistência e exclusão explicam por que a passagem do tempo é experimentada como um “mal”; “doença” enfim, que ataca o narcisismo. O “mal

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do tempo”, então, não pode constituir uma categoria clínica . Mas, para o sujeito velho, o “mal do tempo” vem representar aquela exterioridade ante a qual é possível algum tipo de defesa.

O tempo influencia a estrutura modificando a posição do sujeito, provocando especificidades suscetíveis de se revelar em cada tipo de organização subjetiva e de modo singular para cada velho. O que deveremos escutar na clínica será então aquilo que se refere ao que cada sujeito faz com sua velhice. Se pensarmos que existem “coisas de velhos” rígidas e não passíveis de mobilidade, poderemos renunciar ao trabalho clínico com esta faixa etária, com o que estaríamos negando bases fundamentais da teoria psicanalítica que dizem respeito aos investimentos libidinais e ao constante trabalho de elaboração e resignificação ao longo da vida. Então se cada velhice é uma construção subjetiva particular; o que muda do ponto de vista da clínica psicanalítica? Sem dúvida não será a técnica.

Aínda é comum no meio psicanalítico um certo desinteresse pelo trabalho com idosos, até uma certa crença na não aplicabilidade da teoria a este objeto singular, como se um velho não tivesse mais inconsciente, nem fosse capaz de associar livremente, nem de relatar um sonho, nem de falar sobre a própria vida. Inconvenientes que quando existem não podem ser considerados como produzidos pela idade e sim pela neurose. Comprovamos que se este “velho sujeito” que nos solicita for lúcido, não sofrer de dano cerebral severo e tiver vontade de se analisar, não haverá nada na teoria ou na técnica psicanalítica que o impeça. Mas existe uma diferença, e ela se encontra do lado do analista e não do paciente idoso. O analista deverá saber lidar na transferência com os próprios fantasmas, com a própria finitude, com um tratamento onde o tempo parece fluir mais rapidamente, com a proximidade constante da morte, e com uma limitação dos objetivos analíticos que o paciente impõe. Mas enfim, estes são temas para outros trabalhos.

Só pelo fato de ter vivido, sabemos que “o tempo” não é a mesma coisa aos 15 ou aos 40 anos; e aos 80 o tempo como porvir se reduz ao tamanho dos projetos possíveis, ou, no pior dos casos, a um vazio total de projetos.

O senhor Bispo de 63 anos continua ativo, interessado e aproveitando todo o que a vide le oferece, já lutou muito e sabe que ainda tem mais para fazer,

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porém está organizando sua vida produtivamente en torno de um futuro mais restrito; ele diz : “Cada dia vivo minha vida, porque desde que a gente nasce, cada dia que passa é um dia menos que essa criança tem de vida, cada dia que passa a gente vai ficando mais perto de morrer, e sei que um dia vai chegar meu dia, mas eu quero morrer assim, trabalhando alegre, nada de morrer em uma cama dando trabalho, eu prefiro morrer de repente”…..”eu não tenho a idéia de parar de trabalhar por enquanto, não tenho idéia de renunciar a meus planos, agora estou planejando fazer uma casa no interior e depois outra, para alugar e ter uma renda assim para o futuro”. De fato, não se pode dizer que se tem a “vida toda pela frente”, uma grande parte da vida ficou para trás, e para a frente só fica um pedacinho, que pode ser muito bom, mas será sempre apenas um pouco mais. Dona Elzie que é ativa participante e lider dos movimentos da Terceira Idade nos diz: “ …..Mas como nascemos para morrer, um minuto depois que nascemos começamos a morrer, então eu aceito.Aceito entre parênteses porque eu digo assim: Deus do céu, enquanto tiver esta força tenho muito para fazer, então não me leva, quero deixar alguma coisa na vida, então não me leva. Eu não tenho receio mas não quero ir agora, tenho muito para dar. Há pouca ajuda governamental, mas eu quero ver alguma coisa realizada. Depois que seja o que Deus quiser”. Dona Elzie não pára de fazer investimentos, mas sabe que o tempo é curto e pede a Deus mais um pouco.

Observamos que os velhos mais saudáveis são aqueles que apesar de possuirem uma clara consciência de sua finitude, continuam fazendo projetos possíveis dentro dos limites de sua particular expectativa de vida, e fundamentalmente de suas possibilidades vinculares. Um velho realista, como ele próprio se definia nos dizia em relação a sua economias: “Agora, eu só faço investimentos a curto prazo”. Então, se falamos de investimentos em objetos possíveis, falamos de um tipo de vínculo que cria uma subjetividade especial do “ser velho”, dentro de um processo de subjetivação que reconhecemos como inesgotável, e que se relaciona fundamentalmente com as limitações corporais e a consciência de finitude.

3-ENVELHECIMENTO E PROJETO IDENTIFICATÓRIO

Não podemos prosseguir pensando a questão do tempo na psicanálise sem nos deter na análise que Piera Aulagnier faz a este respeito. Partamos de sua definição

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de “projeto identificatório”; ela diz: “Por projeto identificatório definimos a autoconstrução do Eu pelo Eu, necessária para que esta instância possa se projetar num movimento temporal, projeção da qual depende a própria existência do Eu. O acesso à temporalidade e o acesso a uma historicidade são inseparáveis: a entrada em cena do Eu é, conjuntamente, a entrada em cena de um tempo histórico”; e acrescenta: “o Eu não é mais que um saber do Eu pelo Eu”. “O projeto é a construção de uma imagem ideal que o eu se propõe a si mesmo, imagem que poderá aparecer em um espelho futuro, como o reflexo de aquele que olha “ (Aulagnier, 1979, pág. 154)

O que o Eu sabe é sua história, suas experiências de satisfação, seus fracassos e frustrações; o “Eu constituído” é o que sabe sobre sua castração (7), sendo esta a condição que lhe permite não cair na mesmidade, no tempo sempre igual da psicose e aceder a uma dimensão de futuro. Mas assumindo a castração, o Eu renuncia fundamentalmente à certeza em relação a este futuro, aceita a diferença entre o que é e o que deseja ser. A certeza do ser é então substituída pela esperança de tornar-se aquilo que deseja ser, e o que deseja ser estará sempre relacionado com uma imagem valorizada pelo grupo social. Futuro sempre ilusório, mas possível de se tornar um projeto se o discurso dos outros oferece uma certa aceitação ao desejo que o Eu reivindica.

Enquanto na infância o desejo de “ser” e de “vir a ser” está diretamente relacionado com o desejo materno e a necessidade de satisfazê-lo sendo o objeto de seu desejo, o adulto deve poder renunciar à crença de ter sido tal objeto e à esperança de vir a sê-lo. Assim, o Eu se constituirá como o único signatário de um compromisso que dirá da autoconstrução de um ideal não mais forjado pelo desejo exclusivo do outro. Mas paradoxalmente, para que o investimento continue, o sujeito deve também ter a esperança

_______________________________________________________________________ 7- Sobre este ponto Piera Aulagnier diz: “ A castração pode ser definida como a descoberta no registro identificatório de que não ocupamos jamais o lugar que acreditávamos nosso e que inversamente já estávamos destinados a ocupar um lugar onde não poderíamos ainda encontar-nos…… Não estamos, para o olhar dos outros , no lugar que acreditávamos ocupar e poderemos não mais saber de que lugar nos falam e em que lugar nos situa aquele que nos fala……As referências que asseguram ao Eu seu saber identificatório podem sempre esbarrar numa ausência, num luto, numa recusa, numa mentira que obrigam o sujeito ao doloroso requestionamento de seus objetos, de suas referências, de sua ideologia. Eis porque a castração é uma experiência na qual podemos entrar mas da qual, em certo sentido não podemos sair: podemos nos recusar a participar dela, podemos empreender uma desesperada marcha a ré, mas é uma ilusão pensar que dela podemos sair. O que podemos fazer é assumir a experiência de forma a preservar para o Eu alguns pontos fixos que servirão de apoio quando surgir um conflito identificatório.” op. cit pág 158

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da “coincidência” do projeto com a imagem ideal, apesar do cotidiano da vida marcar que isto é impossível. Assumir a experiência de castração é justamente conhecer a existência desta distância que marca uma outra, temporal, entre o ser e o vir a ser. Piera Aulagnier diz:“O Eu assina, portanto, um compromisso com o tempo: ele renuncia fazer do futuro este lugar no qual o passado poderá retornar, aceita esta constatação, mas preserva a esperança de que, um dia, este futuro lhe devolverá a possessão de um

passado, tal qual ele o sonhou” (Aulagnier, 1979, pág. 157)
Assim, já podemos perguntar o que acontece com o projeto identificatório

do velho se seu movimento temporal para o futuro fica limitado pela consciência de sua finitude e se o meio não oferece nenhuma garantia para um projeto, por mais limitado que este possa ser. O velho troca o serei pelo fui. Porque perde a esperança no futuro (já que parece não ter mais o que esperar) é impelido de maneiras muito diversas a viver no passado. Vejamos mais a este respeito no nosso próximo item.

4- HISTÓRIA OU REPETIÇÃO – REMINISCÊNCIA OU DEPRESSÃO

Talvez a melhor síntese sobre este ponto seja a fala de dona Fanny, quando fala de suas reminiscências. Vejamos: “…eu conto muitas histórias, se eu estiver aborrecendo quero que me digam e eu fico calada, quando eu vou contar uma história pergunto se já contei para não me repetir”…….”Eu acho que não fico velha porque tenho muitas histórias para contar, porém tenho que ter cuidado para não contar histórias demais porque tenho que estar bem firme no presente, quando vou guiando para meu trabalho vou pensando muitas histórias e preciso fazer muita força para não pensar, porque é perigoso guiar pensando no passado. Tem que pensar no presente, no carro sonho muito.” Dona Fanny utiliza suas reminiscências como forma de se vincular no presente, conta suas histórias, porém, controla um certo nível de fantasia excessiva que poderia perdê-la perigosamente no passado.

Para Freud, a fantasia é o produto intermediário entre as instâncias consciente, pré-consciente e inconsciente, entre processo primário e secundário, entre repetição e recordação. Relato mítico, enfim, que amarra o imaginário com a realidade; sua produção nos fala tanto da cena que a originou, quanto daquela em que poderia se satisfazer caso se achasse na realidade um objeto disponível (8) A reminiscência ( esta

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forma especial de fantasia que se desenvolve especialmente na velhice mais avançada, quase como seu paradigma) não é uma simples concatenação de lembranças, nem a repetição cansativa de um mesmo relato. Contrariamente ao que se acredita, a tendência à reminiscência não guarda nenhuma relação com qualquer tipo de declínio intelectual nem com a presença de estados depressivos. Sua a função é realizar uma articulação entre a dimensão do passado e as circunstâncias do presente, outorgando um sentido de comando da realidade e continuidade do ser.

Como forma de reafirmação do existir, provoca um encurtamento do tempo transcorrido, na medida que presentifica os fatos relatados através de uma reafirmação narcísica. O idoso reminescente nos diz “eu também sou tudo isto que lhe conto, embora não o pareça”, “o tempo passou, mas eu permaneço”.

O Eu é um projeto sempre inacabado e para se preservar deve se reconhecer como uma parada, um ancoragem, para isto devendo construir uma versão de sua história libidinal e identificatória que outorgue um sentido a seu viver e lhe permita operar com a realidade: além de seu construtor, deve ser seu próprio historiador. Esta historização lhe permitirá se ancorar no presente como uma unidade, achar um sentido para sua vida passada, e se projetar no futuro. Assim dizemos que a reminiscência, com sua insistência histórica, preserva a identificação. Voltando repetidamente aos pontos de ancoragem, não se perde no esquecimento.

Ante a perda de objetos significativos e o aumento das dificuldades da vida quotidiana, especialmente aquelas referidas às limitações físicas funcionais, os idosos experimentam um aumento da necessidade de bem-estar , o que pode ser observado através da recorrência de manifestações narcísicas. O montante de libido livre que não encontra objetos substitutivos será reinvestido em uma imagem ideal do próprio Eu que estará sempre no passado.

_______________________________________________________________________ 8- S. Freud em “El poeta y la fantasía” diz:…”Pode-se dizer que uma fantasia flutua entre três tempos: os três fatores temporais de nossa atividade representativa. O labor anímico se enlaça a uma impressão atual, a uma ocasião do presente, capaz de despertar algum dos grandes desejos do sujeito; apreende regressivamente desde este ponto a recordação de um sucesso pretérito, quase sempre infantil, no qual ficou satisfeito aquele desejo, e cria então uma situação referida ao futuro que se apresenta como satisfação desse desejo, o sonho diurno ou a fantasia, que levará então em si mesma as marcas de sua procedência, da ocasião e da recordação. Assim então, o pretérito o presente e o futuro aparecem como encadeados pela linha do desejo, que passa através deles. T II, pág. 1059

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A reminiscência pode então ser compreendida como uma forma de exercício da memória histórica que não conseguirá ser elaborativa se esbarrar na falta de eco no outro e de aproveitamento do relato por parte do meio social; mas que impedirá a depressão, se achar uma escuta adequada.

Assim como as crianças em suas brincadeiras elaboram o excesso de estimulação que recebem da realidade, aquilo que ainda não pôde ser explicado, o velho reminescente reage à insuficiente estimulação do presente com a constante reconstrução de uma história libidinal que, como o fio que sustenta as contas de um colar, garanta uma continuidade onde o sujeito se encontre sempre consigo mesmo.

Vemos assim que a identidade está amarrada à memória; quando esta se deteriora, podemos dizer que a linha que unia e dava sentido às recordações rompeu-se atomizando as lembranças, que como as contas do colar podem se perder para sempre. Eis aqui a função construtiva da repetição como sustentadora de identidade. O Eu só se preserva na medida que se reconheça a si mesmo (e ante os outros) em uma continuidade temporal, como um existente sustentado por uma história permanente. A reminiscência é a insistência dessa história. História que insiste em dizer que os fatos vividos foram constitutivos de uma identidade. Insistência que, como a arte de um tecelão, vai tecendo as lembranças do ser singular desse sujeito. Quando Dona Fanny mostra as fotos com sua família e conta a saída de sua terra natal por causa da Segunda Grande Guerra, está reconstruindo uma trama na qual se reconhece como protagonista e onde sabe que, apesar da distancia de mais de 50 anos e milhares de quilômetros, essa história continua sendo a sua. Ela se faz, dia a dia, na recriação desses acontecimentos.

Se a história insiste sempre “no mesmo” é porque a projeção temporal na linha do futuro está demasiadamente encolhida, mas também porque embora o objeto procurado seja sempre o mesmo, o achado é sempre diferente, sempre um substituto; assim repetição e reminiscência estruturam o mundo dos objetos. Ante a impossibilidade de investir o porvir, o eu se defende da destruição investindo no passado, não só para evitar que as lembranças se “evaporem” , mas também como forma de entender, criticar e agir sobre o presente. Existe então uma conservação do passado no presente como

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verdadeira re-elaboração, uma tendência a incluir o passado em construções cada vez mais vastas que acabam por transformá-lo.

Exercida em forma grupal (em grupos de amigos, de reflexão ou psicoterapia, por exemplo) a reminiscência contribuirá também para se achar elos entre o passado e o presente e para a formação e manutenção de uma identidade grupal. Diferente é a nostalgia que caracteriza envelhecimentos mais patológicos, onde a lembrança se exerce sobre um objeto tido como definitivamente perdido e atualmente sempre em poder de outros, por exemplo, a juventude. Esta é uma experiência sempre dolorosa, já que não recria o objeto no ato de contar, porque não mais o possui. Podemos observar que enquanto o velho nostálgico (deprimido) se refere tristemente às suas lembranças, o velho reminescente o faz sempre com um certo orgulho e felicidade.

Podemos desta forma entender a reminiscência como um verdadeiro trabalho de luto, talvez o único possível quando a substituição objetal se faz extremamente difícil e o Eu deve renunciar às suas formas habituais de atividade. O caráter repetitivo deste luto faz com que jamais acabe. O doloroso processo do luto deve ser reiniciado ante cada nova perda, mas quando as perdas são particularmente numerosas, como acontece durante a velhice, o processo continua quase sem interrupção. Também não devemos esquecer que o luto fundamental que deve ser elaborado na velhice mais avançada é o da perda da própria vida. Como elaborar então um luto por um objeto que foi altamente investido, que não pode ser substituído, que ainda não foi perdido, mas que já está condenado desde o nascimento?

5- SOBRE A MORTE

É comum encontrar na literatura universal, especialmente na poesia, o tema da velhice ligado ao da morte. Apesar das diferenças culturais em relação ao envelhecimento, em todas as sociedades conhecidas se considera a velhice como ante- sala da morte, lugar que se habita de diferentes modos, porém leva sempre à marca do iniludível.

Não temos uma representação da nossa própria morte embora seja o destino inevitável, nossa única certeza. Seguindo Heidegger, podemos ver que frente a ela,

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atuamos a maior parte do tempo como “entes meramente dados”, num cotidiano “impessoal”, onde dizemos “morre-se” (Heidegger,1986, pág, 35) : um dia morre-se. Porém, neste dizer, não somos atingidos pela morte, ainda não. É por isso que, tão frequentemente, a morte não causa medo. Confundimo-nos com o papel e podemos dizer: “Agora que já criei meus filhos, posso morrer tranquilo”, e a aguardamos como se fosse um “acontecimento” natural. Um dia todo mundo morre. O que este impessoal visa é uma tranquilização a respeito da morte. E a maior parte do tempo conseguimos que seja assim; às vezes, no entanto, devemos nos confrontar com a angústia da morte, daquilo que não sabemos o que é. José Gabriel, um de nossos entrevistados expressa isto muito bem quando diz: “A rigor, a gente analisando friamente, é o medo da morte, basicamente, quando a gente fica apavorado com tudo, é a morte que dá medo. A morte é uma coisa que a gente não admite para a gente, admite nos outros, aquele morreu, mas eu ainda estou aqui. É o medo da morte que cria todas as angústias, inseguranças, tudo mais”.

Dizíamos antes que as crianças se recusam a entender o fato de não terem estado presentes antes de seu nascimento. Experimentam uma sensação de eternidade, um sentimento de “ser por todo o tempo” que acompanha o “ser tudo”, bela tentativa de negar os limites da vida (origem e fim); limites estes que o Eu adulto, em sua constante busca de sentido, não deixa de questionar, e que constituem a “borda” da sua identidade. Fora desta “borda” está o irrepresentável, o que ameaça a continuidade do Eu. A exigência de continuidade própria do Eu torna-se assim uma exigência de representação.

A não-representatividade impele o Eu a um trabalho constante e impossível de integração desses limites. O Eu tem dificuldades para pensar a própria morte, não quer pensar no próprio aniquilamento. Então podemos pensar que enquanto o processo de envelhecimento reativa a angústia de castração, a proximidade da morte reativa a angústia de aniquilamento, de “não ser”.

A partir de 1914, ano da deflagração da Primeira Grande Guerra e com os filhos no front, Freud passa a pensar fortemente a questão da capacidade destrutiva do homem e da morte. Em 1915 ele escreve: “a própria morte nos resulta inimaginável e embora o tentemos, podemos observar que ante isto continuamos a ser meros espectadores……..lá no fundo, todos queremos acreditar na nossa imortalidade”, e

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agrega: “Suportar a vida é, e será sempre a primeira obrigação de todos os seres humanos,”…..”se desejas suportar a vida prepara-te para a morte” (Freud, 1915, T II, pág 1102) . Heidegger também se refere a este tema dizendo: “a transição para o não- mais-estar-presente, retira a pre-sença (Dasein) da possibilidade de fazer a experiência dessa transição, e de compreendê-la como feita……..A morte se desentranha (desoculta) como perda” (Heidegger, 1986, pág 17). E agrega: “A morte se desentranha como perda e, mais do que isso, como aquela perda experimentada pelos que ficam. Ao sofrer a perda não se tem acesso à perda ontológica como tal “sofrida” por quem morre. Em sentido genuíno, não fazemos a experiência da morte dos outros. No máximo, estamos apenas junto.” ( op. cit. pág. 19)

Atraves da morte dos otros pensamos na nossa própria morte, mas se opera uma antecipação indeterminada, desconhecemos aquilo que certamente nos aguarda. assim o sujeito se abre para uma ameaça. “O ser-para-a morte é essencialmente angústia” (op.cit pág 50)

Adriano diz: “Ainda não atingi a idade em que a vida para cada homem é uma derrota consumada” (Yourcenar, 1982, pág 14). É disso que se trata, de uma luta onde já sabemos quem será o ganhador, e só nos cabe protelar o momento da derrota. Nesse clima desenvolve-se o processo de envelhecimento, nesta onipresença da morte que não cessa de ameaçar a integridade e permanência do Eu.

6- A FUSÃO PULSIONAL

É a partir de 1920 que a a Pulsão de Morte passa a formar parte do corpo teórico da psicanálise como conceito crucial e provocador, a tal ponto que, a partir desse momento, (virada de 1920) considera-se que o pensamento freudiano e a história da psicanálise entraram em uma nova fase. O conceito de Pulsão de Morte, introduzido em “Além do Principio do Prazer” e constantemente reafirmado por Freud até o final de sua obra (e de sua vida), representará a partir desse momento uma das maiores controvérsias do campo psicanalítico, que se liga definitivamente às áreas da filosofia e antropologia. Violência, agressividade, ambivalência, sadismo, masoquismo e compulsão à repetição, já eram questões recorrentes nas especulações psicanalíticas (especialmente a partir

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dos estudos sobre a neurose obsessiva e a melancolia), mas será a partir da conceitualização da Pulsão de Morte que adquirem um lugar relevante na teoria.

A Pulsão de Morte, que segundo o próprio Freud surge como “pura especulação”, foi derivada de observações clínicas nas quais a compulsão à repetição (própria de toda pulsão), reproduz especialmente experiências de sofrimento e dor, como é o caso dos sonhos das neuroses traumáticas, ou de diversas atitudes auto-destrutivas.

Não pretendemos aqui fazer uma análise exaustiva deste conceito nem das vicissitudes de sua evolução; só assinalaremos alguns pontos essenciais para a compreensão do tema da Pulsão de Morte, na medida que está ligada ao processo de envelhecimento.

Podemos dizer que, enquanto a Pulsão de Vida tende a conservar a vida, a unidade, os vínculos, um intercâmbio energético constante entre organismo e meio, e fazer ligações cada vez mais complexas e maiores, a Pulsão de Morte representa um retorno a um estado de repouso absoluto, estado de não-vida, então de não-necessidade (Princípio de Nirvana). Sua energia é regressiva, enquanto a Pulsão de Vida se caracteriza pela energia progressiva. A energia regressiva aponta para formas organizativas cada vez menos complexas, que não exijam vínculos com outras unidades. Neste sentido, podemos pensar a questão das demências como um domínio da Pulsão de Morte em seu complicado intrincamento com a Pulsão de Vida, uma força que destrói o Eu, corta os vínculos, apaga a história, porém protege-o da depressão e da morte biológica..

A Pulsão de Morte se inclui em um novo dualismo, no qual se contrapõe à Pulsão de Vida, que por sua vez englobará todas as que tinham sido conceitualizadas anteriormente (sexual, de auto-conservação, do Eu). Assim sendo, a Pulsão de Morte passa a representar a tendência natural de todo ser vivo a voltar ao estado inorgânico (9). A missão da libido será libertar o sujeito dessa pulsão destrutiva, derivando-a em grande parte ao exterior, transformando-a em pulsão de domínio, destruição e vontade de poder. Vemos que, ligada desta forma, ela realiza sua obra destruidora atacando essencialmente os vínculos, e quando posta ao serviço da função sexual pode ser conhecida como sadismo. Assim, o sadismo não é mais que Pulsão de Morte afastada do Eu pela ação da libido narcísica, de maneira que só apareça em relação ao objeto. Falávamos de

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intrincamento pulsional quando mencionamos as demências. Mas vejamos mais um pouco este conceito de fusão. A parte não derivada ao exterior permanece ligada libidinalmente constituindo o masoquismo originário. Quanto aos impulsos destrutivos projetados para o exterior, podem ser novamente introjetados, constituindo o masoquismo secundário. É a partir desta observação que se descreve o conceito de fusão (Freud, 1920) como uma espécie de jogo, onde Pulsão de Vida e Pulsão de morte não teriam uma autonomia absoluta mas constituiriam uma espécie de combinatória, um intrincamento no desenvolvimento libidinal do sujeito. Ou seja: não encontramos pulsões puras, mas uma associação de ambas, em proporções variáveis. Este fenômeno possibilita que a Pulsão de Morte permaneça muda, já que se subtrai à percepção, só aparecendo disfarçadamente sob o véu do erotismo, ou seja, ligada a Eros. A Pulsão de Morte é controlada só podendo se manifestar atrelada à de vida: esta é a única que pode dirigir-se ao exterior em busca de união.

J. Laplanche propõe um reexame do dualismo pulsional partindo da análise do sexual e não-sexual no pensamento psicanalítico. O “apoio” da pulsão se realiza sobre a auto-conservação, difícil – segundo ele mesmo declara – de ser definida em termos de instinto ou necessidade, preferindo para ela o termo de “função”. Assim, a função de auto-conservação não pode ser definida como pulsão, pois se trata de uma energia diferente, não-sexual. Haverá então diversas vias de apoio para o sexual produzir-se a partir do não sexual, e outras de sentido contrário, pelas quais o sexual terá influência no não-sexual.

Oferece como exemplo o conflito neurótico, que embora colocado na área do não-sexual, é determinado pelo sexual. Além disto haveria “uma drenagem”, “uma atração” das pulsões sexuais para metas não-sexuais, e aqui já estamos no campo da sublimação. Dado que o apoio é essa linha de articulação entre os dois planos (da auto- conservação e da pulsão) é ali que se produz a gênese da sexualidade na infância

______________________________________________________________________________________ 9- Elaborações mais recentes destacam o seguinte fato: “Enquanto Eros tende à unificação, à indiferenciação, a pulsão de morte como princípio disjuntivo, é produtora de diferenças.Entendida como potência destrutiva, ela tem como alvo a disjunção de unidades constituidas por Eros, a recusa de sua permanência. Assim enquanto a pulsão de vida é conservadora, a pulsão de morte é produtora do novo, potência criadora. A pulsão de morte é antinatural não no sentid odela ter como alvo a destruição da natureza e da cultura, mas no sentido de colocar em causa tanto uma quanto outra, d erecusar a permanência do “mesmo”,de provocar na natureza e na cultura a emergência de novas formas. Princípio criador e não tendência ao inorgánico (Garcia-Roza, 1997, pág 78)

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Neste ponto ele se pergunta: “…não haverá em outros períodos da vida, nessa linha de apoio, uma espécie de neogênese da sexualidade? Porque razão essa possibilidade de um surgimento sexual a partir de atividades não-sexuais estaria encerrada, excluída de uma vez por todas, numa certa idade? (Laplanche, 1989, pág 106)

Não nos estenderemos na nossa análise sobre as considerações de Laplanche já que seria inadequado para o objetivo deste trabalho, mas suas indagações fazem-nos pensar na possibilidade de um capital libidinal sempre renovável, de uma energia sempre em circulação, de uma sexualidade sempre recriada sem limitações temporais. E acrescenta: “É verdade que procuramos a sublimação no caminho de uma espécie de neogênese contínua da sexualidade, talvez de um certo reexame do princípio de constância das quantidades de excitação; não evidentemente, no sentido de um reexame do princípio fisiológico da homeostase, mas o nível libidinal, do reexame da idéia de que a soma libidinal pulsional seria um dado definitivo não

modificável e como que naturalmente dado” (op. cit, pág 179)
André Green (1975) por sua vez, irá se referir à “função objetalizante” da

Pulsão de Vida, e à “função desobjetalizante” da Pulsão de Morte, correlativos de ligação e desligamento, investimento e desinvestimento, fatores fundamentais na compreensão da problemática do envelhecimento. Enquanto a função objetalizante promove investimentos, o objetivo da pulsão de morte será, do lado oposto, tanto quanto possível, cumprir uma função desobjetalizante através do desligamento. Temos então que, enquanto o investimento objetal pode-se dirigir ao próprio Eu tomado como objeto, o desinvestimento pode-se voltar contra o mesmo processo de investimento que será objetalizado, ou seja, parando de se investir nos processos de investimento.

As defesas contra os efeitos destruidores da Pulsão de Morte constituem o que o mesmo autor define como o “trabalho do negativo”, um trabalho de “não” à morte (ou ao que a velhice tem de negativo). Este trabalho poderá ser elaborativo ou regressivo, conduzindo o sujeito a um envelhecimento onde o tema da morte não precise ser expulso da vida; ou que o afunde em diferentes estados de morte psíquica, de não- expansão da vida, que vão desde o ressarcimento do passado e o fechamento em um

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mundo fantasmático, até a profunda depressão ou as demências de origem não neurológica.

Se o sujeito constitui-se através de identificações com objetos sobre os quais faz seus investimentos narcísicos, podemos compreender a importância de tal trabalho e dos tipos de vínculos que este provoca, como também a relevância de que se ofereçam ao eu objetos duradouros e apropriados para uma estruturação fortemente ligada à vida.

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CAPÍTULO III ENVELHECER ……CERTAMENTE

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Falta pouco para acabar
o uso desta mesa pela manhã
o hábito de chegar à janela da esquerda aberta sobre enxugadores de roupa.

Falta pouco para acabar
a própria obrigação de roupa
a obrigação de fazer barba
a consulta a dicionários
a conversa com amigos por telefone.

Falta pouco
para acabar o recebimento de cartas
as sempre adiadas respostas
o pagamento de impostos ao país, à cidade as novidades sangrentas do mundo
a música dos intervalos.

Falta pouco para o mundo acabar
sem explosão
sem outro ruído
além do que escapa da garganta com falta de ar. Agora que ele estava principiando

a confessar
na bruma seu semblante e melodia.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE “FALTA POUCO” in “A vida Passada a Limpo”

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“Não mais querer, não mais estimar e não mais criar!
Ai!, que esse grande cansaço fique sempre longe de mim!” NIETZSCHE: “Assim falava Zaratustra”

1-ALGUMAS VIAS PARA O ENVELHECIMENTO

A partir de observações clínicas, J. Bowlby (1976) descreve o “apego” definindo-o como o conjunto de manifestações ou fenômenos que, em sua forma primária (das identificações narcísicas primárias), caracterizam-se por seu caráter imperativo e polimorfo, já que a criança se apóia em objetos que as circunstâncias lhe oferecem, de todas os modos possíveis, sem limites, de maneira sempre excessiva e dramática, sem mediação ou substituição possíveis. Produzir-se-ia um “precipitado” emblemático de objetos de amor e de ódio nos vínculos que se cristalizariam como organizadores da vida psíquica ulterior, como um ponto de ancoragem ao qual sempre se pode voltar quando não sejam encontrados objetos adequados. É neste ponto que muitos autores se baseiam para definir o envelhecimento patológico. Lembremos as palavras de Ferenczi em “Contribuição à compreensão das psiconeurose na idade involutiva” de 1921, sem deixar de notar que a própria designação de involutiva para esta faixa etária já diz muito respeito das idéias deste autor em relação com o tema que nos interessa. Mas, vejamos o que nos diz: “Desde que o professor Freud chamou minha atenção sobre este fato, sei (e só posso confirmá-lo) que, com a idade, as “emanações da libido” sofrem uma tendência a serem retiradas dos objetos de amor do indivíduo, e seus interesses libidinais, sem dúvida diminuídos do ponto de vista quantitativo, voltam a se concentrar no próprio ego. Os indivíduos mais idosos ficam novamente narcisistas como quando eram crianças: grande parte de seu interesse pela família e pelas coisas de ordem social se esvanece e perdem em grande medida sua capacidade anterior de sublimação, especialmente no que se refere à vergonha e ao asco. Tornam-se cínicos, maliciosos e mesquinhos; ou seja, sua libido regressa a etapas pregenitais do desenvolvimento e expressa-se às vezes de uma maneira inadequada, na forma de erotismo anal, voyeurismo, exibicionismo, e tendência à masturbação” (Ferenczi,
1956, pág 187)

Podemos perguntar se Ferenczi não conhecia outro tipo de envelhecimento, fora este tão decrépito e regressivo do qual nos fala; porém, não podemos deixar de reconhecer que esta é uma perfeita descrição para uma das

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vias possíveis de realização da velhice. Justamente a que devemos evitar se desejamos um envelhecimento digno, assinalado pela constante evolução e não pelas marcas de um processo involutivo. Mas Ferenczi descreve também uma velhice muito “ativa”, poderíamos dizer “furiosa”. Nestes casos podemos concluir então que ante a frustração sexual experimentada ou antecipada, o sujeito que envelhece pode tanto cortar os vínculos, deprimir-se como expressão de um enfraquecimento do desejo, quanto poderá também manifestar o desejo ainda vivo de maneira intempestiva ou agressiva.

Neste ponto convém repetir mais uma vez que a diminuição ou esgotamento da libido pode ser considerada como uma adaptação à falta de objetos de substituição, cuja consequência lógica é um enfraquecimento dos vínculos com os objetos; e que, embora exista um desligamento “normal”, até como forma de preparação para a morte, este não será tão radical nem de características tão negativas se os vínculos permanecerem fortes e os objetos forem suficientes e dignos de investimento, possibilitando assim o intercâmbio energético com os mesmos. E sem dúvida, manter a capacidade laboral é sempre um excelente caminho.

Vejamos alguns comentários de nossos entrevistados: o Sr Bispo diz: “ … eu não sei ficar parado, não quero ficar aqui para sempre (o emprego) mas é o lugar que já conheço, esse caminho todos os dias, tenho amizade com tanta gente e faço amizades novas, sou muito bem visto aqui dentro, o NEPE (10) tem me ajudado muito a entender isso aí. Voltei a minha igreja, sou da Igreja Batista, ali tem também muitos amigos, na Universidade aberta também, mesmo que não trabalhe mais na PUC, essas amizades tem que conservar………….me escolheram representante da classe,………. quando falo dessas coisas lá fora ninguém acredita, ………só quando saí na televisão falaram que eu era importante aqui dentro.

A possibilidade de vínculos e investimentos depende da estrutura psíquica de cada sujeito e de fatores externos como cultura, oportunidades e condições históricas: a idade é apenas uma variável a mais a ser considerada. A clínica do envelhecimento ensina que, por trás das vicissitudes que possam suscitar a perspectiva da morte, é necessário que nos interroguemos sobre a estrutura e o modo de subjetivação que

_____________________________________________________________ 10- Refere-se ao Núcleo de Estudo e Pesquisa do envelhecimento da PUC-SP

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enfrentarão o luto pela perda da vida. Dona Fanny tem uma sábia opinião sobre este assunto, ela diz : “Eu aceito todas as transformações, elas não me chocam, nas outras pessoas que me cercam, nas mulheres especialmente, eu tenho a impressão de que elas não ficaram mais amargas porque passaram pela menopausa, é porque elas já eram amargas, o próprio caráter ficou talvez um bocadinho mais forte, os traços que a gente tem depois ficam um bocadinho mais forte, mas não se transformam, quem era amarga ficou mais amarga, quem era doce ficou docíssimo, quem era burguesa ficou mais burguesa.

Se pensarmos que, nos dias de hoje, o processo de envelheimento pode durar até mais de 30 anos, veremos que em condições satisfatórias o desinvestimento só acontecerá no final da vida, considerando como tal não todo o longo processo em que atividade e produtividade são ainda possíveis, mas o tempo em que a morte se presentifica em um futuro já muito próximo, desqualificando o entorno. Chegado esse momento, devemos considerar que um distanciamento de atividades culturalmente valorizadas, talvez um desapego não-regressivo, e sim reflexivo, possa ser considerado um excelente momento de elaboração, reorganização e preparação para a morte.

Prosseguindo então com a noção de apego, tal como proposta por Bowlby, vemos que há uma segunda fase, chamada apego de substituição (do narcisismo secundário) que acontece pelo efeito estruturante do Édipo. Aqui percebemos que um vínculo pode se transformar (de erotismo para ternura) e que um objeto pode ser substituído por outro. Apego condicional a objetos substituíveis, que guardam sempre a ilusão de satisfazer as exigências do narcisismo primário. Esta possibilidade de substituição entre objetos contingentes não é mais que a permanência velada de uma exigência de trabalho de investimento que tem o caráter repetitivo e imperativo que Freud reconhece à pulsão.

Podemos concordar com as afirmações de Ferenczi, quando ele diz que existe uma diminuição da libido, mas também seria parcial esquecer que o imperativo de apego não sofre uma diminuição considerável enquanto o Eu achar objetos passíveis de investimento pulsional. É verdade que estreitamento do horizonte de futuro contribui para que os objetos perdidos sejam de difícil substituição. O velho diz: “para que vou iniciar um projeto que não vou poder concluir?”, “para que investir em objetos que em pouco

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tempo não mais existirão?”. Na mesma entrevista citada anteriormente o Sr. Bispo diz:

“…acho que não compensa fazer mais, para que tanta coisa, para mim estou realizado, graças a Deus, quero deixar para meus filhos, mas não há necessidade de tanto, para que tanta coisa? Eu já fiz muito afora, agora tenho o prazer de minha vida, tenho que pensar como vai ser minha vida mais para frente”.

Quando se produz o desinvestimento, é porque os objetos não sustentam mais as condições de estabilidade e perdurabilidade necessárias. Haverá uma restrição aos intercâmbios como defesa contra a frustração, uma perda de atividade antecedida por uma ausência de sentido para a mesma. André Gide, em 22 de outubro de 1928, escrevia em seu diário: “com as forças diminuem também os desejos. Se o copo já não chega aos lábios, também a água parece menos fresca e se sente menos a sede”.

O desinvestimento progressivo como forma de realização de um luto pelo objeto “vida”, um desapego elaborativo como forma de preparação para a morte, serão soluções de difícil realização se considerarmos a permanência de uma exigência de trabalho sempre agindo no sentido do investimento objetal, mas cujo sentido não mais se impõe com a mesma força. A renúncia à atividade será então uma saída não-maníaca, uma via saudável sempre que for atingida, como no caso do Sr. Bispo, num tom de serenidade, resíduo elaborativo de uma vida plena e satisfatória.

A via da religiosidade se nos apresenta frequentemente como uma solução para este impasse, já que o investimento poderá ser feito sobre um objeto que ultrapasse a própria vida, um objeto que não tenha fim, como a vida eterna por exemplo. O Sr José Gabriel assinala na sua entrevista: “Se a gente pudesse pensar como os espíritas, que haverá reencarnações, que o espírito vai prosseguir, a pessoa fica muito mais tranquila, encarna a morte como uma passagem natural, e tem certeza que a próxima vai ser melhor, eu tenho uma tendência mística, mas não tenho convicção, mas pela lógica deve haver… deve haver alguma coisa da gente que continua”(80) . Um objeto, enfim, que garanta a continuidade do Eu.

Outra saída, diríamos, mais simbolizada, seriam os casos de projetos de final de vida que, pela sua magnitude, guardam um sentido de continuidade muito forte, para um do tempo previsto para a própria existência, como seria o caso da construção de uma grande empresa, ou a identificação com um ideal social. Neste caso não se estaria

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negando a finitude, mas outorgando um sentido à vida através de uma “marca” – obra ou exemplo – deixada para os outros .

Outro exemplo desta perspectiva para o envelhecimento é a manutenção de uma atividade geradora de grande satisfação, como é o caso de muitos artistas, escritores, intelectuais ou artesãos, que continuam produzindo enquanto guardam as condições de saúde necessárias para a tarefa, encontrando sempre um sentido para a vida. Mas neste caso estamos falando de uma capacidade sublimatória anterior ao desencadeamento do processo de envelhecimento. Para Freud, Eros e Logos eram as duas únicas forças que, combinadas, cumpririam a função de “guardiões da vida” e poderiam-se opor aos “agentes da morte”. É importante ressaltar que é a combinatória das duas que garante sua eficácia, já que …”a repressão quase completa da vida sexual não oferece as condições favoráveis para a manifestação das tendências sexuais sublimadas”. (11)

O envelhecimento provoca modificações na distribuição da libido. Diante da queda de atividade genital observa-se uma renúncia defensiva a qualquer tipo de atividade sexual. Ante a dificuldade de se dispor de objetos adequados, essa carga energética será deslocada para um componente de auto-conservação, provocando o bloqueio de uma criatividade geradora de um movimento expansivo-progressivo, único capaz de conservar a vida a longo prazo. Nossos entrevistados são pessoas ativas, bem vinculadas e criativas, mas observemos a frases seguintes. Dona Fanny diz: “Sinto que agora é tudo igual, igual, igual, sinto que não posso ter agora um desejo muito louco. Aliás, se eu mexer um bocadinho nessa vida posso errar, não posso fazer grandes mudanças” . O Sr Bispo também se cuida: “Para que vou fazer correndo, para que me desgastar se tenho o dia todo? Quando precisa fazer rápido vamos fazer, mas se não tem pressa vamos devagar, eu cansei de correr, se correr alguma coisa pode dar errada e devagar eu chego lá”.

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11- A respeito da sublimação, criatividade e atividade intelectual, recomendamos a leitura de S. Freud: “Un Recuerdo Infantil de Leonardo da Vinci”

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E Dona Maria: “Quando era jovem sonhava viajar, mas sempre tinha outras coisas importantes, agora que posso já não quero, tenho menos vontade de fazer as coisas, não tenho muito ânimo, tenho medo de passar mal em avião, quando era jovem não era assim. Com a idade a gente também ganha medos.” Embora não seja este o caso de nossos entrevistados, observamos que muitos sujeitos idosos podem chegar até a eliminar de suas vidas os prazeres da cama, da mesa, do bar, dos amigos, da criatividade, da paixão, estabelecendo assim um paradoxo: velar excessivamente pela auto- conservação pode ser perfeitamente mortífero se nos submete a uma vida sem prazer, sem desejo. Fenômeno que André Green chama “narcisismo de morte”

Podemos concluir então que, numa perspectiva econômica, a dinâmica regressiva da Pulsão de Morte é própria ao envelhecimento. Sua qualidade dependerá dos objetos que se ofereçam ao Eu como suporte atual das possibilidades identificatórias capazes de outorgar um sentido à vida apesar da proximidade da morte comprometer o valor de estabilidade dos objetos e continuidade do Eu.

Todos conhecemos velhos que não se resignam às perdas, que persistem numa atitude de reivindicação como adolescentes narcísicos, que se afundam numa raiva constante, machucam-se na depressão, ou isolam-se na demência. Mas conhecemos também velhos felizes, aqueles que tendo conseguido levar uma vida rica em prazeres, produtiva ou apaixonada, resignam-se a uma despedida com a tranquilidade da missão cumprida, e com um íntimo contato com as boas lembranças através da reminiscência; são estes os que envelhecem serenamente.

No “Nascimento da Tragédia” (1992) Nietzsche refere-se repetidas vezes à “sereno-jovialidade”. Embora ele não analise exaustivamente este conceito e abandone-o no resto de sua obra, desejo hoje retomá-lo porque nos permite pensar sobre a origem de uma questão muito discutida, que coloca a serenidade como um ideal de envelhecimento, ponto de equilíbrio entre a paixão e a depressão.

Nietzche serve-se de “Édipo em Colono” de Sófocles (1989) para trabalhar o tema. Essa peça é escrita quando o autor que viveu entre 496-406 a C tinha 86 anos, pouco antes de sua morte na mesma Colono em que nascera. Nessa época, o autor enfrentava sérios conflitos com seus filhos legítimos, que o acusaram diante dos juizes

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de deterioração senil, com o intuito de que lhe fosse retirado o manejo de sua fortuna. Esta tragédia só será postumamente representada em 401a.C, por iniciativa de um neto.

“Édipo em Colono” conta os últimos dias da vida errante de Édipo, quando cego e em condição de suplicante chega a Colono, subúrbio de Atenas, tendo sua filha Antígona como única companhia e sustento.

Desterrado de Tebas frente à indiferença de seus filhos Etéocles e Polineces, que travavam uma feroz luta pelo reinado da cidade, ruma a Atenas guiado pelo oráculo de Febo, que dissera que em longínqua região acharia asilo, reconhecimento e poderia morrer em paz. Os cidadãos de Atenas rejeitam-no em razão de sua aparência de vagabundo, porém quando descobrem sua verdadeira identidade chamam o rei Teseu, que o acolhe dignamente. Sua outra filha, Isomena, chega para lhe anunciar novos oráculos pelos quais o povo de Tebas deseja seu retorno, porque dele depende a salvação da cidade. Édipo não aceita as tardias desculpas, e depois de intrigantes episódios, morre de acordo com seus desejos, sem perdoar os filhos traidores.

São inumeráveis as possíveis leituras sobre o envelhecimento que esta tragédia oferece, dependendo do ponto de vista adotado. Édipo velho fala-nos da situação do idoso doente, empobrecido, rejeitado, fala-nos de desamparo e de conflitos, de finitude. Mas fala também de ódios apaixonados, de investimentos, de buscas intermináveis e de uma infinita indagação sobre a vida e o destino. Aparentemente, estes afetos distam muito de qualquer coisa que pudéssemos entender como sereno-jovialidade

Para Nietzsche, a sereno-jovialidade helênica, que impulsiona a atitude de resignação, é signo de decadência, e representa o triunfo do socratismo da moral sobre a idéia dionisíaca da vida, sendo uma das causas da morte do espírito trágico. É aquele “……senil e improdutivo prazer da existência…..” “é o oposto da esplêndida ingenuidade dos helenos antigos, que se deve conceber, segundo a característica dada, como a flor brotando de um sombrio abismo da cultura apolínea, como o triunfo obtido pela vontade helênica, através de seu espelhamento da beleza, sobre o sofrimento e a sabedoria do sofrimento. A forma mais nobre daquela outra forma de sereno-jovialidade helênica, a alexandrina, é a sereno-jovialidade do homem teórico: ela exibe os mesmos signos característicos que acabo de derivar do espírito do não-dionisíaco: que ela combate a sabedoria e a arte dionisíaca, que ela trata de dissolver o mito, que ela substituiu uma

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consolação metafísica por uma consonância terrena, sim, por um deus ‘ex machina‘ próprio, a saber, o deus das máquinas e dos crisóis, vale dizer,as forças dos espíritos naturais conhecidas e empregadas a serviço do egoísmo superior; que acredita em uma correção do mundo pelo saber, em uma vida guiada pela ciência; e que é efetivamente capaz de desterrar o ser humano individual em um círculo estreitíssimo de tarefas solucionáveis, dentro do qual ele diz sereno-jovialmente para a vida: Eu te quero, tu és digna de ser conhecida”. (Nietzsche, 1992. pág 107)

Todas as culturas acham um modo, um valor, uma ilusão para que os sujeitos que dela formam parte se aferrem à vida. A cultura alexandrina, aferrada aos valores do Homem Teórico, prioriza a vontade de conhecimento frente à beleza e o consolo metafísico. Mas a sereno-jovialidade não é um bem-estar sem ameaças.

Édipo em Colono não era muito diferente do Édipo Rei: altivo, sem poder político mas ainda influente, obcecado pela verdade. Nietzsche diz : “A mais dolorosa figura do palco grego, o desventurado Édipo, foi concebido por Sófocles como a criatura nobre que, apesar de sua sabedoria está destinada ao erro e à miséria, mas que no fim, por seus tremendos sofrimentos, exerce à sua volta um poder mágico abençoado, que continua a atuar mesmo depois de sua morte. A criatura nobre não peca, é o que o poeta profundo nos quer dizer: por sua atuação pode ir abaixo toda e qualquer lei, toda e qualquer ordem natural e até o mundo moral, mas exatamente por essa atuação é traçado um círculo mágico superior de efeitos que fundam um novo mundo sobre as ruínas do velho mundo que foi derrubado…………como poeta ele nos mostra primeiramente um nó processual prodigiosamente atado, que o juiz lentamente, laço por laço, desfaz para sua própria perdição; a autêntica alegria helênica por tal desatamento dialético é tão grande que, por esse meio um sopro de sereno-jovialidade superior se propaga sobre a obra inteira aparando por toda parte as pontas dos horríveis pressupostos daquele processo. Em Édipo em Colono deparamo-nos com essa mesma sereno-jovialidade, porém, elevada a uma transfiguração infinita; em face do velho, atingido pelo excesso de desgraça, que a tudo quanto lhe advém, é abandonado como puro sofredor– ergue-se a sereno-jovialidade sobreterrena, que baixa das esferas divinas, e nos dá a entender que o herói , em seu comportamento puramente passivo, alcança a sua suprema atividade, que se estende muito além de sua vida, enquanto sua

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busca e empenho consciente apenas o conduziram à passividade” ………”.”O aguilhão da sabedoria se volta contra o sábio; a sabedoria é um crime contra a natureza” (op.cit. pág 64)

Haveria então outra forma de sereno-jovialidade, atingível não pela ignorância, a passividade ou a negação, não pela substituição de uma “consolação metafísica por uma consonância terrena” e sim pela elevação do espírito, sereno- jovialidade “sobreterrena que baixa das esferas divinas”. Sim, quando o sofredor alcança a suprema atividade, quando caem as máscaras, quando ele se confronta serenamente com sua Verdade, com outro Saber. É então que o herói trágico diz:

“Hoje, que nada sou, volto então a ser homem? (Sófocles, 1989, verso 420) A velhice, momento de ruptura das ilusões narcísicas, momento de máxima castração com a apresentação da morte como fato iniludível, confronta o sujeito com sua Verdade. Quando nada mais somos, resta a Verdade do Sujeito. Verdade como aquilo que falta ao saber. O maior momento de sabedoria de Édipo está justamente ali, quando se coloca sua cisão fundamental: o saber que seu ser estava ali onde não sabia.

Momento da máxima atividade, de encontro com a Verdade.
Seria então a serenidade na velhice o ponto de equilíbrio sempre precário

entre a paixão mortal e a depressão diante da constatação de um saber fracassado?
A serenidade ideal para a velhice não deverá ser entendida então como uma passividade vazia de sentido, um estar em “suspensão”, “à espera”. Mas sim como um estar ativo, apaixonado; porém, à busca de objetos possíveis, que suportem as provas

de realidade, e que ofereçam poucas possibilidades de frustração.
É fundamental que se mantenha a circulação de energia através de objetos

adequados que reassegurem um constante reabastecimento de libido. Dona Elzie, que declara nunca ficar quieta e que registra em seus cadernos tudo o que de novo aprende, para não esquecê-lo e poder utilizá-lo futuramente, dá uma grande contribuição quando,apaixonada por tudo o que faz, diz: “Eu sou decidida, me vem algo na cabeça, eu vou e faço, não dá certo, tudo bem, amanhã dará, eu vou nessa busca, eu vou buscar, nunca estou estática esperando que aconteça, eu vou buscar, eu quero aprender, quero saber, minha mente se abre. Hoje não olho só para o problema do idoso, hoje eu percebo o problema das crianças abandonadas, dos adolescentes …….” “tudo vai parar,

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mas eu quero viver intensamente até chegar esse dia” (86) Dona Elzie tem ideais sociais, e emborasaiba que é muito difícil conseguir resultados, não se conforma com um objeto mais ou menos seguro como seria exercer exclusivamente suas funções de avó; ela quer mais, acredita, insiste e consegue: “Eu ajudo meus filhos também cuidando de meus netos, mas eles respeitam minhas coisas, perguntam se posso tomar conta, se não tenho nada mais importante esse dia. Minha irmã cuida até de bisneto, acho uma judiação. Está perdendo a vida dela. Não me conformo com esses grupos que só pensam em viajar ou só pensam em bailes, tem que fazer algo mais, algo que atinja aos outros. Tem que haver uma possibilidade de modificação.”

Então, para envelhecer da melhor maneira possível, ou seja, bem e durante um longo tempo, é necessário que exista um certo investimento em objetos de amor que evite a inércia da depressão por desinvestimento, e o domínio radical da Pulsão de Morte. Em outras palavras, é necessário que se mantenha sempre viva a possibilidade da paixão.

Nietzsche, em “A Moral como Contra-Natureza” propõe não a aniquilação da paixão, mas sua espiritualização; não a mutilação dos sentidos como propõe o cristianismo, senão sua elevação espiritual ou como diríamos, sua condição de possibilidade, através do “amor”.

A serenidade não pode ser aquela “Paz da alma” à que o autor se refere como “o começo do cansaço, a primeira sombra que à noite, qualquer tipo de noite espalha”… “ou a fraqueza senil de nossa vontade, dos nossos desejos, dos nossos vícios”. Será melhor “ a expressão de maturidade e maestria no fazer, criar, produzir, querer, a respiração tranquila, a alcançada liberdade do querer. Crepúsculo dos ídolos, quem sabe? Talvez igualmente apenas uma forma de “paz de alma”…“Só se permanece jovem com a condição da alma não se diluir, não desejar a paz” (Nietzsche, 1984, pág 39)

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2- O VELHO FREUD: “A INFATIGÁVEL ENERGIA” (*) (**)
Desejamos agora concluir este capítulo com um breve comentário sobre os

últimos anos de vida de Sigmund Freud, pois ele representa um caso de velhice em que a paixão pelo saber foi superior à força destruidora das situações dramáticas pelas quais teve que passar. Pretendemos desta maneira contribuir para a compreensão de que uma velhice normal não é necessariamente uma velhice sem dor, sem perdas nem paixão: uma velhice “serenamente” sem sentido .

Em 1914, Freud tinha 58 anos , e é então que começa a escrever sobre a morte e a se perguntar pelo sentido da vida e a origem da agressão, não casualmente no ano em que se deflagra a Primeira Grande Guerra e no qual tem que se confrontar com a angústia quotidiana de seus filhos no front.

Quando morre em 1939, aos 83 anos, terá passado por inúmeras situações de perda e luto, que redundaram em belíssimos textos e especialmente em sua rica correspondência da qual tomarei alguns exemplos para melhor compreender 25 anos de luta, dor, doença, perda e criatividade de um gênio envelhecendo e se aproximando da morte.

Entre outros textos, em 1915 escreve: “Considerações de atualidade sobre a Guerra e a Morte”, “A Transitoriedade“ e “Luto e Melancolia”; em 1919 escreve “O Insólito”, porém será em 1920 , ano marcado pela perda, com apenas cinco dias de diferença, de sua filha Sophie (grávida de seu terceiro filho) e de seu grande amigo von Freund (de apenas 40 anos) que conceitualizará “Além do Principio do Prazer” .

Em 27-1-1920 escreve a Oscar Pfister sobre a morte de Sophie: “Trabalho o máximo possível e me alegro que isto me impeça pensar demais. A perda de um filho parece produzir uma grave ferida narcísica. O que se conhece como luto chegaráprovavelmente depois”. E a Sandor Ferenczi em 4-2-1920:“A morte, embora dolorosa não afeta minha atitude diante da vida. Estive durante anos preparado para aceitar a perda de nossos filhos, mas agora foi a vez de nossa filha. Como ateu convicto não posso acusar ninguém…………..No fundo de meu ser sinto, não obstante, uma ferida amarga, irreparável e narcisista”

_________________________________
(*)- Frase extraída de carta de um grupo de escritores por ocasião do octogésimo aniversário de Freud

(**) todasas citações deste item foram extraidas do Epitolário . Ba AS. Ed. Rotativa. 1976. Sem pág.
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Vemos claramente a luta de Freud para que tão significativas perdas não afetem sua atitude ante a vida, porém, em outra carta da mesma época dirigida a E. Jones dirá: “a vida e o trabalho devem continuar enquanto duremos”….. e em carta à esposa de von Freund fala de sua necessidade de “auto-educarme na resignação do sobrevivente”

Em outra carta de 19-7-1920 dirigida a Eitingon diz: “ O Além do Princípio do Prazer está finalmente acabado. O senhor poderá comprovar que o livro já se encontrava escrito pela metade quando Sophie ainda estava viva e saudável”. Contudo, como assinala Max Schur, a expressão “Pulsão de Morte” , parece ter feito sua primeira aparição em cartas ao próprio Eitingon, datadas de fevereiro de 1920, ou seja, um mês depois dos falecimentos de Sophie e de von Freund, que por sinal enfrentava um câncer desde há muito tempo, situação acompanhada por Freud. Não devemos tampouco esquecer que todas estas circunstâncias se desenrolavam em um país desvastado pela guerra, a fome e as doenças, e que constituíam um excelente caldo de cultura para as primeiras manifestações de um nazismo incipiente. Freud tinha então 64 anos, e esperava a morte desde os 51, embora ainda não estivesse doente.

No dia 13 de março de 1921, seu filho Oliver parte para a Romênia, imediatamente depois, sofre alguns problemas cardíacos, e no mês de maio, dois dias depois de seu 65 aniversário escreve para Ferenczi: “No dia 13 de março do presente ano, de forma repentina dei um passo rumo à idade provecta. Desde então, o pensamento da morte não me abandona…isto sem que nenhum fato o justifique, salvo que Olivier se despediu de nós naquele dia”.

Desde abril de 1923 (67 anos), Freud sabia que estava com câncer; é então que adoece de tuberculose e morre o pequeno Heinele, filho menor de Sophie. Sobre a doença do menino diz em carta ao casal Levy : “Acho esta perda muito difícil de suportar. Não acredito ter experimentado jamais uma tristeza tão grande……………tudo perdeu o significado para mim”. E mais tarde dirá: “Para mim, ele significava o futuro e com ele me arrebataram o futuro”. Este neto era o favorito de Freud, e lhe devotava grande admiração por sua capacidade intelectual, nunca tendo conseguido transferir aos outros todo o amor que sentia por ele. Escreve a Binswagner em 15-10 -26: “Esta criança havia tomado o lugar de todos meus filhos e dos demais netos e, desde a morte

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de Heinele, não me interesso mais pelos meus netos, e também não encontro mais encanto algum na vida.”.

Apesar destes sentimentos, sabemos através dos biógrafos de Freud que ele continuou amando, deliciando-se com as crianças e especialmente produzindo. Como já vaticinara em 1920, o luto chegou depois, embora as circunstâncias trágicas do final de sua vida, como a luta contra a doença que o atormentava, as preocupações com o futuro da psicanálise, o nazismo, e o exílio aos 82 anos, fizessem-no viver constantes situações de violentas perdas.

Sigmund Freud encaminhou a maior parte de sua energia para sua obra, na qual fez um investimento apaixonado, a tal ponto que na sua “Apresentação Autobiográfica” declara: “nenhuma de minhas experiências pessoais tem qualquer interesse se as comparamos com minhas relações com esta ciência” Talvez até sua extraordinária resistência à dor possa ser atribuída a esta investidura apaixonada de seu trabalho sendo que, até seus últimos instantes de vida nega-se a ingerir sedativos que pudessem diminuir sua capacidade de pensar. Como cita E. Jones “preferia pensar em meio à dor, do que não estar em condições de pensar com clareza”

Talvez a carta mais significativa de Freud, no que se refere a sua doença, seja a endereçada em 13 -5- 1924 a sua grande amiga Lou Andreas-Salomé, com quem sempre se comunicou de forma muito íntima e carinhosa, tendo sido uma das poucas pessoas a quem pode manifestar uma grande raiva e um certo sentimento de auto- comiseração: “Eis aqui uma pessoa que em vez de trabalhar duramente até uma idade senil, e então morrer sem escalas preliminares, contrai uma doença horrível na maturidade e, deve submeter-se a tratamentos e cirurgias, gasta neles o dinheiro que tanto lhe custou adquirir, gera descontentamento e depois se arrasta um longo tempo indefinido na qualidade de inválido…….Não posso me acostumar a viver como um sentenciado”.

Quando Freud tinha 77 anos, escreve a Jones: “com as pessoas velhas devemos ficar contentes quando a balança se equilibra entre a inevitável necessidade de descanso final e o desejo de aproveitar ainda um pouco do amor e a amizade dos que lhe são próximos. Creio ter descoberto que essa necessidade de repouso não é algo elementar e primário, mas expressa o desejo de se livrar de um sentimento de

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insuficiência em relação a detalhes dos mais significativos da existência”. Porém muito frequentemente a balança não se equilibra e a morte pode ser desejada como alivio de uma existência já definitivamente marcada pelo domínio da Pulsão de Morte.

Tinham-se passados quase 20 anos desde que escrevera “Luto e Melancolia”, onde dissera que o luto “é geralmente a reação à perda de um ser amado ou de uma abstração equivalente como a pátria, a liberdade, um ideal, etc.” acrescentando mais adiante: “O trabalho que o luto realiza pode ser descrito da seguinte maneira: o exame da realidade demonstrou que o objeto amoroso não mais existe, e demanda que a libido abandone todas suas relações com ele. Contra esta demanda surge uma resistência natural, já que o homem não abandona facilmente as posições de sua libido, ainda que lhes tenha achado uma substituição”…….”mas este mandato não pode ser realizado imediatamente, ele só acontece de uma forma paulatina, com grande gasto de tempo e energia psíquica. Enquanto isso, a existência psíquica do objeto continua presente. Cada uma das lembranças e esperanças que constituem um ponto de união da libido com o objeto, é sucessivamente sobrecarregado, realizando-se assim nele a subtração da libido”

Freud tinha passado por numerosos períodos de luto, perdido entes queridos, ideais, saúde, e em breve deveria perder a pátria para conservar a liberdade. Sofreu profundamente todos estes processos, porém isto jamais impossibilitou-o de continuar trabalhando e investindo, embora estivesse dolorosamente fragilizado pelas perdas.

Como produto de uma pesquisa sobre os aspectos psicossociais do envelhecimento realizada na Universidade de Chicago, Cumming e Henry elaboram, em 1961, sua Teoria do Desengajamento. Segundo esta perspectiva, à medida que o sujeito envelhece, produz-se um processo normal de redução de seu interesse vital por vínculos, objetos e atividades. Esta tendência não só não é entendida como patológica, mas pelo contrário é desejável já que prepara para a morte. Algumas críticas podem ser feitas a essa idéia, especialmente pelo fato de que sua instrumentalização social pode promover um afastamento progressivo do velho de suas atividades sociais, além do que ele mesmo deseje, isolando-o e marginalizando-o. No entanto, apesar das críticas,

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devemos reconhecer que tal processo é frequente, embora nem sempre universal, inevitável e intrínseco como defendem seus autores.

Mas, vejamos o que Freud dizia de si mesmo a este respeito em carta a Lou Andreas-Salomé de 10-5-25 : “Quanto a mim, já não a desejo ardentemente [a saúde]. Noto como se forma gradativamente sobre mim uma camada de indiferença, e observo este fato sem que me sugira qualquer queixa. É uma coisa natural começar a ser inorgânico, e acredito que é a isto que se chama “a indiferença da velhice”. Sem dúvida guarda relação com a interdependência das pulsões da qual falei. A mudança talvez não seja muito notada exteriormente. Tudo continua a me interessar e a qualidade não tem mudado muito, mas falta a ressonância.” E em 13-8-37, a Marie Bonaparte, falando da morte: “Quando um homem começa a se perguntar sobre o significado e o valor da vida, está doente. Pois evidentemente nenhum dos dois existem… Fazer estas perguntas serve apenas para comprazer as exigências insatisfeitas da libido, que devem ter incorporado algum novo elemento, uma espécie de fermento que produz a tristeza e a depressão”

Embora o desinvestimento nem sempre afete negativamente a criatividade, seu aparecimento é um dos primeiros sinais de alarme sobre o retraimento libidinal. Em 16-5-1935, escreve a Lou “Que bom caráter e quanto humor requer este feio assunto de ficar velho………Finalmente sei o que é sentir o frio. ………Não espere ouvir nada inteligente de mim. Duvido que seja capaz de produzir algo.” E mais tarde diz: “A facilidade que tive antes para conceber idéias, ,eu a perdi.” “Desde que não posso fumar mais à vontade, não desejo escrever…..ou talvez este pretexto sirva-me para mascarar a infertilidade da velhice”…… “Um velho não tem mais idéias novas, só lhe resta repetir-se”. Porém, sabemos que ele não se repetiu , nem nos seus textos para publicação nem nas suas cartas pessoais, e longe de ver nestas manifestações uma velhice patológica, podemos nelas ver a velhice de um homem que, apesar das contingências trágicas de sua vida, conservou acesa a chama da criatividade. No dia seguinte a seu octogésimo aniversário escreve à poeta americana Hilda Doolittle : “na minha idade a vida não é fácil, porém a primavera é bela e o amor também”

Em 1937, depois da morte de Lou Andreas-Salomé escreve a Arnold Zweig: (citado por Schur) “Não gostaria de durar mais, pois tudo a meu redor está se tornando

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mais sombrio, mais ameaçador, e a consciência de minha própria situação de desamparo mais aguda……….O medo de que o processo de envelhecimento acarrete a perda de partes importantes da personalidade ainda intacta é um fator para que meu desejo de vê- lo torne-se mais urgente”

Segundo as informações de Max Schur (12), seu médico pessoal, podemos ver que Freud passou por etapas de desalento, pessimismo e até de profunda depressão, porém, as idéias de suicídio nunca o dominaram, e ele lamentava apenas que sua capacidade produtiva não fosse tão grande quanto sua paixão pelo saber: uma enorme força pulsional impelia-o a continuar trabalhando apesar das dificuldades e dos sofrimentos. Foi necessário que a vida se transformasse numa tortura sem sentido e sem esperanças para que renunciasse a ela. Auxiliado pelo Dr. Schur, morre serenamente em 23 de setembro de 1939.

_______________________________ 12- M. Schur: “Freud: Vida e Agonia”

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CONCLUSÃO

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Já não dirão que estou resignado e perdi os melhores dias.
Dentro de mim, bem no fundo, há reservas colossais de tempo, futuro, pós-futuro, pretérito,

há domingos, regatas, procissões,
há mitos proletários, condutos subterrâneos,
janelas em febre, massas de água salgada, meditação e sarcasmo.

Ninguém me fará calar, gritarei sempre
que se abafe um prazer, apontarei os desanimados,
negociarei em voz baixa com os conspiradores,
transmitirei recados que não se ousa dar nem receber,
serei, no circo, o palhaço,
serei médico, faca de pão, remédio, toalha,
serei bonde, barco, loja de calçados, igreja, enxovia,
serei as coisas mais ordinárias e humanas, e também as excepcionais.

Tudo depende da hora
e de certa inclinação feérica, viva em mim como um inseto.

Idade madura em olhos, receitas e pés, ela me invade com sua maré de ciências afinal superadas.
Posso desprezar ou querer os institutos, as lendas, descobri na pele certos sinais que aos vinte não via.

Eles dizem o caminho,
embora também se acovardem
em face de tanta claridade roubada ao tempo.
Mas eu sigo, cada vez menos solitário,
em ruas extremamente dispersas,
transito no canto do homem ou da máquina que roda, aborreço-me de tanta riqueza, jogo-a toda por um número de casa, e ganho.

CARLOS DRUMMOND de ANDRADE. “Idade Madura”

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O leitor que até aquí nos acompanhou terá comprovado que ao longo do caminho chegamos a algumas conclusões enquanto outras ficaram faltando. Desejamos então comentar algumas idéias, fazer algumas pontuações que longe de serem conclusivas, abram novas interrogações e possam conduzir a outras pesquisas desta problemática tão crucial para nossa época.

Grande parte da literatura existente, proveniente das mais diversas áreas do conhecimento, concorda que durante o processo do envelhecimento produz-se um retraimento na relação do sujeito com o mundo externo, e propõem diferentes táticas, algumas muito eficientes, para a resolução deste problema. Assim são decodificados aspectos sociais, econômicos, políticos, culturais e até artísticos que confluem em interesses e estratégias. Dentro dessse rico universo de contribuições, a psicanálise deverá responder sobre o tipo de carga pulsional que será investida nos objetos: tanto sobre a qualidade destes, como sobre a forma de articulação dos processos fundantes da subjetividade em seu devir para constituir uma qualidade especial de envelhecimento e também no que se refere às dinâmicas de alguns sintomas específicos.

Vimos que a economia dos investimentos durante o envelhecimento é altamente influenciada pela singular representação de um corpo que se deteriora e pela consciência de finitude. Mas, acreditamos que o ideal a se perseguir é que isto constitua um limite e jamais uma limitação. Limites que o “bom envelhecer” deve conhecer, embora tenha dificuldades em aceitá-los. Limite que será de um corpo biológico que sofre uma involução, mas não daquele outro corpo, veículo e origem de prazer, instrumento do amor que sempre pode evoluir na procura da satisfação; este não deverá se restringir a indentificar-se com suas limitações e sim incentivado a sentir, a se sensibilizar com a proximidade do outro e a força dos vínculos. Finitude que deverá orientar investimentos adequados, mas não solidão; reflexão e não desespero; deixando uma porta aberta à paixão sempre possível.

Atualmente, o tempo de ser velho parece chegar cada vez mais tarde, se considerarmos o aumento das expectativas de vida; mas ao passo que até pouco tempo atrás uma pessoa de sessenta anos, por exemplo, se mantinha ativa em múltiplas tarefas comunitárias e familiares, sabendo que viveria mais cinco ou dez anos, hoje, alguém da

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mesma faixa etária vive mais isolado, tem menos possibilidades vinculares e uma expectativa de viver mais vinte ou trinta.

O homem e a mulher de sessenta anos obrigados a se aposentar numa sociedade que enalteceu sempre o trabalho e a produção, sentem-se inúteis, acreditam não serem mais necessários. Não têm mais família para cuidar nem trabalho a realizar, e o tempo do lazer aparece como um tempo vazio por carecer de função social determinada. Sentem que não servem mais para nada porque assim o determina o valor utilitário do trabalho nesta sociedade. O velho senta-se para ver o tempo passar. A depressão faz-se inevitável. Isto é verdadeiro, porém insuficiente para se compreender o amplo leque de determinantes para as questões do envelhecimento e suas múltiplas possibilidades de desdobramento. Nossos entrevistados confirmam isto. Dona Elzie especialmente, nos dá um claro exemplo com sua militância, sobre a necessidade de participação deste crescente setor da sociedade numa atividade de indiscutível utilidade social. Ela conhece seus direitos e deveres de cidadã e os reivindica, preocupa-se com o tempo que passa, mas apenas porque talvez não seja suficiente para o cumprimento de suas metas.

Observamos que, apesar de um sujeito se manter ativo e socialmente util até uma idade bem avançada, as limitações impostas pelas perdas funcionais e a consciência da finitude se organizam como um campo hostil para o desenvolvimento daquilo que se refere, especialmente, à criatividade, participação, autonomia e independência; e é em meio a essas vicissitudes que o sujeito deve continuar seu crescimento.

Dissemos que a velhice chega de repente, mas isto não acontece sem nada que o motive. Pelo fato de ter vivido muitos anos, nos “sabemos” velhos, no espelho podemos “ver” que o somos, mas podemos jamais nos “sentir” velhos se algum acontecimento – que será sempre anunciado pelo outro e que se inscreve no registro das perdas – não vier a construir este marco. A velhice então, não tem idade fixa ou conveniente para começar, e cada sujeito inaugura o “tempo de ser velho” quando esse é imposto, e opera com ele de acordo com aquilo que sua própria história lhe determina Mas é aqui que reside o cerne da questão: o espelho, a aposentadoria, uma doença ou uma perda anunciam a velhice, não a morte, e a vida pode se estender por muito tempo ainda.

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Estava redigindo esta conclusão quando foi lançado no Brasil o último livro do grande pensador italiano Norberto Bobbio). Nesta obra – que justificadamente dedica a sí mesmo – este vivaz autor faz uma reflexão autobiográfica sobre a velhice e, entre outras coisas, refere-se a algumas das questões que desenvolvemos nesta dissertação. Com humor, ironia e a experiência de seus 87 anos ele descreve sua passagem – a de um intelectual – para esse novo estado de seu ser: “vocês sabem muito bem que, ao lado da velhice censitária ou cronológica e da velhice burocrática, existe também a velhice psicológica ou subjetiva. Biologicamente, considero que minha velhice começou no limiar dos oitenta anos. No entanto, psicologicamente, sempre me considerei um pouco velho, mesmo quando jovem. Fui velho quando era jovem e quando velho ainda me considerava jovem até há poucos anos. Agora penso mesmo ser um velho- velho. Exercem importância determinante sobre estes estados de ânimo também as circunstâncias históricas, aquilo que acontece à nossa volta, tanto na vida privada (por exemplo a morte de uma pessoa querida), quanto na vida pública. Não escondo que nos anos de contestação, quando surgiu uma geração rebelde aos pais, senti-me de súbito envelhecido (eu já completara sessenta anos)” (Bobbio, 1997, pág 18)

É muito interessante também sua articulação sobre o entrecruzamento dos aspectos do envelhecimento ligados à questão do corpo e a temporalidade. Ele diz: “enquanto o ritmo da vida do velho fica cada vez mais lento, o tempo que tem pela frente fica dia a dia mais curto. Quem chegou a uma idade avançada vive o contraste, ora mais ora menos ansiosamente, entre a lentidão com a qual é obrigado a proceder no cumprimento do próprio trabalho, que requer prazos mais longos para sua execução, e a inevitável aproximação do fim. O jovem segue adiante com maior desenvoltura e tem mais tempo pela frente. O velho não apenas caminha mais lento, mas o tempo que lhe resta para terminar o trabalho em que está empenhado é cada vez menor.” (op.cit. pág 49)

A lentidão a que Bobbio se refere, não é só uma lentidão dos movimentos físicos. A normal perda neuronal que acontece na velhice faz que os processos cerebrais também sejam afetados em sua dinâmica; assim, o raciocínio e a memória tornam-se mais lentos nos sujeitos mais idosos, o que não significa incapacidade de compreensão e sim,

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mudança no ritmo de resposta à determinados estímulos, o que frequentemente é equilibrado com o uso de um maior poder de concentração.

A rapidez das transformações provocadas pelo progresso científico e tecnológico faz que o novo logo seja considerado velho, exigindo do homem moderno uma disposição ímpar e excelentes condições de funcionamento mental para que seja possível a apropriação dos novos recursos oferecidos. Por outro lado, pode haver um desinteresse no aprendizado de coisas novas ou consideradas desnecessárias, como seria atualmente o uso do computador. O conhecimento em informática avança a tal ritmo e o acúmulo de informação é tanto que, para quem vê seu horizonte de futuro reduzido a pouquíssimos anos, talvez pareça não valer mais a pena o esforço necessário. É diferente se pensamos a informática em termos da Internet . Observamos que muitos idosos estão aderindo a seu uso, porque isto possibilita-lhes um acesso inesperado a um universo ativo de informações, lazer e cultura, que já não encontravam na passividade exigida pela televisão; e neste aspecto eles se mostram perfeitamente capazes.

É importante que o idoso não trate a própria memória como se fosse um produto descartável da moderna tecnologia. Bobbio recomenda: “Devemos empregar o tempo menos para fazer projetos para um futuro distante ao qual já não pertencemos, e mais para tentar entender, se pudermos, o sentido ou a falta de sentido de nossas vidas. Concentremo-nos. Não desperdicemos o pouco tempo que nos resta. Percorramos de novo nosso caminho. As recordações virão em nosso auxílio. No entanto as recordações não aflorarão se não as fomos procurar nos recantos mais distantes da memória. O relembrar é uma atividade que não exercitamos com frequência porque é desgastante e embaraçosa. Mas é uma atividade salutar. Na rememoração encontramos a nós mesmos e a nossa identidade”….”quanto mais vivas as lembranças que vêm à tona, mais remoto é o tempo em que os fatos ocorreram. Cumpre-nos saber, porém, que o resíduo, ou o que logramos desencavar desse poço sem fundo, é apenas uma ínfima parcela da história de nossa vida. Nada de parar. Devemos continuar a escavar! Cada vulto, gesto, palavra ou canção, que parecia perdido para sempre, uma vez reencontrado, nos ajuda a sobreviver”. (op. cit. pág 55) Mas devemos acrescentar que a memória tem o valor da história viva e sua preservação deve ser reivindicada como construtora de identidade social. É frequente o fato de muitas pessoas de meia idade quererem resgatar a história

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familiar, saber de onde vieram os antepassados, como construíram suas vidas. Querem saber sobre uma serie de detalhes que, quando jovens, pareciam-lhes insignificantes, só que às vezes já não há a quem perguntar! Essa história não oficial, sempre recriada, fala das origens e da identidade. Reafirmamos aqui então um valor social e relacional para a reminiscência.

Chegados neste ponto, parece-nos necessário salientar que um dos problemas fundamentais para a preservação da memória dos idosos é a inexistência de uma verdadeira demanda social para a manutenção da atividade na velhice. Os velhos sabem que a maioria das estratégias que a eles se destinam não passam de uma bem intencionada tentativa de entretenimento. Uma necessidade de mantê-los ativos para que não se deprimam e adoeçam, quando neles existe grande força de trabalho e liberdade de pensamento. A sociedade acredita na sua inutilidade e tenta mascara-la com atividades sem sentido.

A ciência aumentou os anos de vida, mas a sociedade ainda não se organizou para lhe outorgar a qualidade necessária. Não existem projetos sociais ou comunitários que absorvam toda essa grande massa de energia representada pela crescente população idosa. A transformação necessária não é do domínio nem da responsabilidade da ciência, deverá sim ser uma ação política empreendida pela sociedade em seu conjunto mas principalmente pelos próprios interessados. Os velhos deverão ser os protagonistas de sua história, reivindicando seus direitos de cidadania, de prazer, de reconhecimento social, mas também assumindo a responsabilidade social de serem os agentes modificadores de uma realidade que lhes é imposta como negativa; inaugurando enfim, um tempo que seja de viver e não de espera passiva da morte.

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